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Os Assassinos de Forte Bragg: uma Terrível Advertência sobre o Emprego de Militares

Por Bill Vann
31 Dezembro 2002

Os assassinatos de quatro esposas de soldados de Fort Bragg no espaço de seis semanas aturdiram o posto militar da Carolina do Norte e chocaram o público americano. Fort Bragg é o centro do corpo de elite do Comando das Forças Especiais. Três dos quatro soldados tinham voltado recentemente do Afeganistão, onde serviram em unidades das Forças Especiais.

A série de assassinatos começou em 11 de junho, quando o sargento de primeira classe Rigoberto Nieves retornara apenas dois dias antes de seu serviço no Afeganistão e fatalmente atirou em sua esposa, Teresa, e em seguida matou-se.

Em 29 de junho, semanas após voltar do Afeganistão, um outro militar das Forças Especiais, o suboficial William Wright, estrangulou a esposa Jennifer e sepultou-a numa cova rasa.

O sargento Cedric Ramon Griffin, membro de um batalhão de engenharia, esfaqueou e estrangulou sua mulher, Marilyn, 50 vezes e depois incendiou a casa no dia 8 de julho.

Em 19 de julho, no mesmo dia em que Wright foi preso por assassinato, o sargento de primeira classe Brandon Floyd matou a tiros sua esposa Andréa e depois deu cabo da própria vida com a mesma arma. De acordo com o Fayetteville Observer, Floyd era membro da supersecreta Força Delta, unidade de elite especializada em assassinatos e operações encobertas e rápidas (hit-and-run), que voltara do Afeganistão em outubro.

Numa quinta matança doméstica envolvendo um membro das Forças Especiais em Fort Bragg, a polícia prendeu em 30 de julho a esposa de um major sob alegação de que tinha atirado na cabeça e no peito do marido enquanto ele dormia.

Estas mortes, trágicas de um ponto de vista individual, são ainda mais perturbadoras no contexto do crescente uso de forças militares na execução de operações de policiamento dentro dos Estados Unidos. Em seqüência ao 11 de setembro, o povo americano tem sido condicionado a aceitar a presença de tropas da Guarda Nacional, providas de armas automáticas, em aeroportos, estações ferroviárias e pontes. No seio da elite dirigente considera-se que algum compromisso relativo ao âmago do princípio democrático de subordinação militar à autoridade civil erodiu gravemente.

Ainda mais ominosamente, a administração Bush deixou vazar planos para abolir restrições ao emprego de militares em funções policiais domésticas. Estas foram formulados num estatuto de 124 anos conhecido como Posse Comitatus Act aprovado no final do período de reconstrução que se seguiu à Guerra Civil. Se Bush tiver êxito em seus esforços—e há pouca razão para acreditar que os democratas se oponham seriamente a isto—forças do tipo Boinas Verdes poderiam ser postas em ação no solo dos Estados Unidos.

Indubitavelmente, cada um dos assassinatos de Fort Bragg envolveu problemas pessoais singulares e, muito provavelmente, preexistiam conflitos conjugais. Mas tinham uma coisa em comum: eram militares destacados para matar civis indefesos no Afeganistão e empregaram os mesmos métodos após o retorno à pátria.

Porta-vozes do Pentágono, que a princípio afastaram qualquer conexão entre a violência homicida doméstica e a guerra afegã, agora dizem que as investigações militares internas considerarão a experiência dos soldados no Afeganistão como possível fator coadjuvante. De fato, as tropas das Forças Especiais no Afeganistão têm ocupado o centro de operações que só podem ser descritas como massacres: bombardeios de aldeias, matança de prisioneiros desarmados, assassinatos de bandos irregulares de milicianos patentemente indefesos.

Algumas das pessoas mais próximos das vítimas estabeleceram uma conexão direta entre as matanças e recentes combates “Ele era como meu próprio filho”, disse Wilma Watson, ao descrever seu genro, o sargento Wright. “Até ele voltar do Afeganistão, eu não me preocupei com violência”, afirmou a sra. Watson sobre o homem que matou sua filha. “Ele estava sofrendo desses acessos de raiva. Ela o temia. Eu pedi a ela que viesse para nossa casa. Ela ainda o amava.”

“Em verdade, eu acreditava piamente que tal treinamento era de tal forma que se você não pudesse controlar-se, ele o mataria,” afirmou Penny Flitcraft, mãe de Andrea Floyd, que foi trucidada por seu marido, sargento da Força Delta. A avaliação dela foi apoiada por um dos policiais encarregados da investigação dos homicídios. “São pessoas treinadas”, declarou o chefe de polícia Earl Butler, do condado de Cumberland, Carolina do Norte. “Sua obrigação é ir para o Afeganistão para lutar.... Penso que a natureza de seus treinamentos tem muito a ver com esses tipos de assassinatos.”

As tensões da vida militar—prolongadas separações durante destacamentos ultramarinos e transferências freqüentes de um posto para outro, sem mencionar a embrutecimento resultante dos treinamentos, a disciplina militar e os combates em si—resultam num desordenado volume de violência doméstica. De acordo com um relatório de 1999, o índice de incidentes de violência doméstica entre os militares elevou-se de 18,6 em 1990 para 25,6 por 1.000 soldados em 1996. No decorrer do mesmo período, incidentes no seio de toda a população estiveram em declínio. Alguns estudos têm indicado que o índice de violência doméstica no meio militar é de dois a cinco vezes mais alto do que entre civis.

Os assassinatos em Fort Bragg revelam algo mais do que uma tendência geral para abusos domésticos no meio da vida militar. O administrador de um programa de apoio a famílias do exército em Fort Bragg descreveu a cadeia de homicídios como “mentalmente perturbadora”.

Dificilmente é apenas uma fuga à lógica ligar esta erupção de violência à espécie de guerra que essas tropas travavam no Afeganistão e a natureza do treinamento que recebiam como soldados das Forças Especiais. Os militares americanos no retorno tinham confirmado que desde o começo da intervenção no último outono, constituiu política do Pentágono em bombardear aldeias que se acredita abrigarem membros da Al Qaeda e do Talibã ou dar-lhes qualquer tipo de ajuda. Nas principais lutas que aconteceram no leste do Afeganistão, dizia-se às tropas que todos os habitantes eram hostis e deviam morrer—homens, mulheres e crianças da mesma forma.

Um bem conhecido veterano da Guerra do Golfo que não conseguiu juntar-se às Forças Especiais descreveu o impacto de uma forma similar de combate, dizendo que ele contribuiu para sua própria decisão em executar um dos mais horríveis crimes na história dos Estados Unidos—o bombardeio do edifício federal de Oklahoma.

Timothy McVeigh retratou-se como um “extremista exaltado” quando em 1991 foi incluído na guerra comandada pelos Estados Unidos contra o Iraque, mas desiludiu-se ante a matança de iraquianos virtualmente indefesos de que participou. Um anterior membro da unidade de McVeigh descreveu como foi preparado para a batalha, exercitando-se à cadência do slogan “Sangue faz a grama crescer. Mata! Mata! Mata!”

O treinamento destas forças destina-se a prepará-las para a execução de ações que, noutras circunstâncias, resultariam em suas prisões por assassinato. Elas são enviadas para o exterior sem entenderem os reais motivos subjacentes às ações militares que são conclamados a executar, desconhecendo ainda os paises e povos que estão atacando.

Ao motivar as tropas para a luta, os comandantes militares difundem um patriotismo vazio combinado com a demonização do inimigo. Por trás da retórica obrigatória acerca da defesa da democracia e da erradicação do terrorismo, ocultam-se o racismo e a xenofobia, acompanhados de elitismo militarista e de extremo anticomunismo—tudo com o desígnio de preparar as tropas das Forças Especiais para fazerem guerra a populações civis.

Fort Bragg—isto deve ser relembrado—figurou nos primeiros ataques da direita republicana ao presidente Bill Clinton. Em 1993, o senador Jesse Helms (republicano da Carolina do Norte) declarou publicamente que o presidente democrata seria imprudente se comparecesse às instalações militares sem forte escolta. A extraordinária observação de Helms continha mais uma ameaça do que uma advertência. O senador fascistóide estava claramente emprestando sua voz à extrema hostilidade dos círculos militares ao antigo manifestante anti-guerra do Vietnam.

Estas são as forças em que o governo dos Estados Unidos crescentemente se apóiam.. Elas estão estacionadas não apenas no Afeganistão, mas também através do Golfo Persa, na Colômbia, nas Filipinas, em várias ex-repúblicas soviéticas, nos Bálcãs e muitos outros lugares em base virtualmente permanente. Tropas das Forças Especiais também se revezam em dezenas de outros paises na execução de um programa conhecido como Joint Combined Exchange Training, com o objetivo de criarem unidades similares para uso dos governos estrangeiros anfitriões na repressão interna.

Não há dúvida que um planejamento está em curso na cúpula estatal para desatrelar tais forças também contra o povo americano. Desde o 11 de setembro, o governo tem erigido o equivalente a uma estrutura institucional para um regime de lei marcial. Um governo secreto paralelo foi criado e já se encontra instalado em casamatas fortificadas.

O Homeland Secutrity Department prestes a instituir-se, exercerá poderes policiais doméstico sem precedentes. Incluído no conjunto de agências para ficar sob a autoridade desse departamento encontra-se a Federal Emergency Management Agency (FEMA). Durante as intervenções ianques na América Latina nos anos 1980s, a FEMA traçou um plano secreto conhecido como REX-84 que defendia o ajuntamento dos imigrantes da América Central e também de políticos que se opusessem à política americana para seu encarceramento em campos de concentração.

A implementação de tais planos requer força militar. Expressando frustração diante das restrições ao uso de militares em ações domésticas, o porta-voz do escritório da Homeland Secutity na Casa Branca, Gordon Johndroe, declarou recentemente: “Estamos numa situação em que necessitamos destacar tropas, mas temos de consultar um advogado para resolver se podemos fazer isto ou não.”

Os planos para afastar as restrições ao uso doméstico de militares assinalam um passo perigoso em direção à lei marcial na América. Refletindo nesta reviravolta, expressa-se o temor de círculos da classe dominante de que o aumento do abismo entre a riqueza e a pobreza, o descrédito tanto do governo quanto dos meios empresariais, combinados ao desemprego em alta e às dificuldades econômicas, produzirão um incontrolável movimento de oposição partindo de baixo

O risco é que a mesma geração de forças militares americanas que organizaram assassinatos de dezenas de milhares de vietnamitas durante a Operação Fênix, que treinaram e “assessoraram” esquadrões da morte em El Salvador e na Guatemala, e mais recentemente executaram crimes de guerra no Afeganistão, sejam escalados contra o próprio povo trabalhador dos Estados Unidos.

É neste contexto que o espasmo de matanças de Fort Bragg deve ser considerado como uma advertência. Em todos os paises onde os militares têm sido convocados para reprimir as populações—desde o banho de sangue que seguiu o golpe de 1973 no Chile, apoiado pela CIA, ao massacre dos manifestantes chineses desarmados da Praça Tiananmen em 1989—o refrão tem sido o mesmo: como eles puderam fazer isto com o seu próprio povo? Aparentemente, a brutalidade gratuita e o banho de sangue pareceram incompreensíveis. Mas grande esforço foi empregado pelos poderes dominantes para condicionar, emocional e psicologicamente, seu impacto nas tropas a fim de que praticassem os atos mais selvagens e inumanos.

O povo americano não está imune à irrupção em larga escala.do militarismo pátrio. Tortura, esquadrões da morte e “desaparecimentos” de que tantos povos têm padecido nas mãos de ditaduras patrocinadas pelos Esteados Unidos podem, na verdade, acontecer aqui.

Tradução e notas de Odon Porto de Almeida, Caruaru, 16.09.2002.

N. do trad.

Operação Fênix—Em ação de 1967 a 1971, com o alegado objetivo de “identificar e destruir o aparato comunista no Vietnam do Sul”. Seu funcionamento era administrado pela CIA, o exército americano e polícias do Vietnam do Sul. O papel da CIA era decisivo. Segundo esta organização, 20.587 patriotas vietnamitas foram assassinados durante a agressão estadunidense ao Vietnam, por certo após os “suaves” interrogatórios em que os torturadores treinados pela inteligência americana são exímios.

Oklahoma—O atentado contra um edifício público de Oklahoma, até então o pior da história dos Estados Unidos, aconteceu em 19 de abril de 1995. Nele pereceram 169 pessoas e outras 850 receberam ferimentos. Desde o início das investigações, as autoridades atribuíram a ação a paramilitares de direita. O Timothy J. McVeigh, teve outros dois cúmplices no atentado terrorista e foi executado em 2001.