World Socialist Web Site
 

WSWS :

Estudante Checo Mata-se em Protesto Contra a Guerra e a Corrupção

Por David Walsh
3 Abril 2003

A auto-imolação de um jovem estudante de 19 anos em Praga, em protesto contra as situação na República Checa abalou o país. Às 7 h. 30 da manhã do dia 6 de março Zdenek Adamec, excelente estudante, encharcou-se de gasolina e transformou-se em tocha viva na Praça São Venceslau diante de passageiros de ônibus e circunstantes. Um policial conseguiu apagar as chamas, mas Adamec faleceu após falharem tentativas de ressuscitação.

Adamec, que vivia com seus pais em Humpolec, a 60 milhas de Praga, cometeu o desesperado ato a apenas pouca distância do ponto onde o estudante de filosofia Jan Palach pôs-se em chamas em janeiro de 1969 para protestar contra a invasão da Tchecoslováquia por tropas soviéticas.

Vários fatores contribuíram para o suicídio de Adamec. A polícia tinha investigado o jovem por abrigar um web site de um grupo de “darkers”- hackers que utilizam seus conhecimentos de engenharia elétrica e computação para cortar a eletricidade de toda uma vizinhança. Adamec asseverou que simplesmente prestara obséquio a um amigo. De acordo com seu genitor, a polícia o tinha ameaçado de dois anos de prisão para obter informações. “Eles o tinham pressionado constantemente para obrigá-lo a dar informações, mas ele era tímido e de natureza vulnerável. É terrível que a polícia se tenha conduzido tão egoisticamente.

O jovem era reconhecidamente solitário, religioso, algo excêntrico, sempre contente com seu computador. Afirmou sua mãe: “Ele pensou que o podiam jogar na prisão e lá não disporia de livros, de escola, nem de internet e nem levaria vida normal.”

Em anotações que Adamec deixou, ele se descreveu como “outra vítima do sistema democrático, onde não é o povo que decide, mas o poder e o dinheiro.” Criticou as condições nas escolas checas, afirmando que “as drogas, a violência, o dinheiro e o poder - são os lemas de nossa civilização.”

Adamec colocou outra carta na Internet algumas horas antes de viajar a Praga e cometer suicídio. Confusas como demonstram trechos dela, as notas de Adamec refletem a reação de um jovem por demais sensível e inteligente diante da situação criada desde a queda do stalinismo em 1989. O estudante identificou-se claramente com Palach, que se denominou “Tocha número um”, ao intitular sua mensagem de “Ação tocha 2003.”

Escreveu ele: “Não conseguimos nada melhor após a ‘Revolução de Veludo” (novembro de 1989)... A chamada democracia que ganhamos não é democracia. É mais ou menos o domínio dos burocratas, do dinheiro e o povo espezinhado.” Continuou “todo o mundo :foi corrompido pelo dinheiro, apodreceu e depravou-se”.

“Não é demasiado tarde para a salvação, mas se continuarmos assim nós logo nos sufocaremos num ambiente de imundície ou em guerras. Você pode ter lido isto nos jornais ou visto essa coisa na TV. Todo o fim de semana há tiroteios, até mesmo em escolas. E qual a causa de tudo isto?”

Adamec condenou a guerra, e os planos dos Estados Unidos particularmente no Iraque: “E quanto a guerras? Testes nucleares que nunca findam, estamos todo o tempo inventando novos meios de matar-nos uns aos outros. Os povos deviam unir-se, não lutarem entre si... Por que você pensa que os americanos atacam o Iraque e procuram por outro Osama bin Laden? É tão-somente uma população manipulada pela mídia e pelo governo. O Iraque possui o petróleo e os americanos o querem também, esta é a razão. A Coréia tem armas nucleares - este fato não os perturba tanto.”

Adamec retornou várias vezes à degradação da sociedade americana e sua influência no mundo.“A civilização leva a sua auto-destruição. Já viu alguma vez as lixeiras dos Estados Unidos? É uma infinda montanha de entulhos, de imundície. E fazemos a mesma coisa todos os dias - voltamos a casa e vamos imediatamente ver a televisão.”

Ele falou da violência internacional e da violência na vida cotidiana. “E veja o relacionamento das pessoas. Olhe em sua volta. É um nunca acabar de violência, quase toda semana um assassinato, em todas as grandes cidades há gente sem-teto. Na maioria das vezes não é culpa dela. Drogados perambulando pelas ruas, propina e corrupção por toda parte, e o que incentiva esse comportamento? É a maneira como deixamos crescer nossos filhos. Colocamo-los diante da televisão e aí está. É fácil. Já aos 10 anos de idade as crianças assistem a filmes violentos... E se você tiver algum problema, todo mundo te vira as costas. As pessoas gostam de ver o sofrimento dos outros. É fácil causar mal-estar ao próximo, mas muito difícil ajudar alguém. Daria muito trabalho fazer isto, mas deveríamos tentar.”

Jaroslava Moserova, médica que tratou Jan Palach em 1969, é agora senadora. Ela declarou à imprensa: “A situação neste país não é a mesma de antes. Mas tenho de dizer que há muita desesperança surgindo no meio juvenil.”

Alguns comentadores notaram a coincidência da auto-imolação de Adamec com a posse do direitista Vaclav Klaus na presidência. Joseph Broz, escritor freelancer, sugeriu que a eleição de Klaus em 28 de fevereiro influenciou Adamec. “Esta tragédia é um impacto direto no símbolo do Castelo (referindo-se à sede da presidência).”

Klaus é uma mediocridade reacionária eleita pelo parlamento checo em terceiro escrutínio. O ex-dissidente Vaclav Havel afastou-se do poder após ocupá-lo 13 anos. Klaus serviu como ministro das finanças em seqüência ao colapso do stalinismo e é umbilicalmente ligado à introdução das políticas neoliberais. Tornou-se primeiro ministro depois que a Tchecoslováquia dividiu-se entre a República Checa e a Eslováquia em 1993.

Na última eleição parlamentar, o Partido da Democracia Cívica recebeu apenas 24,5% dos votos, seu pior desempenho até então. O inconformado Partido Comunista obteve 18,5% dos escrutínios, numa eleição assinalada por votos de protesto e comparecimento geral baixo (58% dos votantes qualificados).

Enquanto uma pequena camada tem enriquecido, as condições econômicas para a esmagadora maioria da população checa pioram. O índice de desemprego, em alta, de um dos mais prósperos paises ex-stalinistas chega a 10%. Nas áreas do norte da Moravia e da Boêmia o desemprego é de 25 a 30%.

A renda efetiva das famílias da classe operária caiu cerca de 13% desde 1989, e por volta de 1997 o valor básico dos benefícios sociais como indicativo da parcela do produto interno bruto tinha caído 44%. O poder aquisitivo dos aposentados sob regime de pensões é 10% mais baixo do que antes da “Revolução de Veludo.” As tensões sociais aumentam a cada dia, com o racismo contra os ciganos encorajado por elementos direitistas e nacioanalistas. O futuro para os jovens é desolador.

De maneira alguma o desalento sentido por Adamec é único na República Checa. Ao condenar a corrupção do poder do dinheiro em todos os aspectos da vida, e o cinismo de políticos e da mídia, em sua aversão ao domínio americano, ele sem dúvida reflete os sentimentos de grande número de jovens em escala mundial.

Que ele sentiu este desespero e não viu nenhuma saída exceto o suicídio não é essencialmente por sua culpa. É em grande parte dimensão resultante da prevalência da sordidez no Ocidente e na Europa central, onde o domínio do “neoliberalismo” tem sido, econômica e moralmente, desastroso para a vasta maioria. No entanto, de maneira alguma deve-se imitar o trágico ato de Adamec.

Sem minimizar a profundidade dos sentimentos dos jovens tchecos ou extrair lições fátuas de sua morte, é uma realidade de que o vagalhão planetário de protestos e repulsa contra os Estados Unidos abre perspectiva diversa para a juventude. Trotsky certa vez observou que os “povos nunca recorrem ao suicídio,” e prosseguiu, “quando seus fardos se tornam intoleráveis, eles procuram uma saída através da revolução.”