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WSWS : Portuguese
Socialismo em um só país ou revolução
permanenteParte 3
Por Bill Van Auken
27 de agosto de 2006
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o autor
O texto abaixo é a terceira parte de uma exposição
realizada por Bill Van Auken no encontro do curso de verão
do Socialist Equality Party/ World Socialist Web Site, ocorrido
entre 14 e 20 de agosto de 2005, em Ann Arbor, Michigan.
A reação contra o Outubro de
1917
A campanha contra a revolução permanente foi
uma expressão necessária do crescimento do nacionalismo
no interior do Partido Bolchevique e o começo da reação
contra a Revolução de Outubro, que foi realizada
embasada nessa teoria.
Aqueles que, como Stalin, denunciaram Trotsky em 1924 pela
falta de crença na construção, em Rússia,
do socialismo em um só país, o tinham
atacado entre 1905 e 1917 como um revolucionário utópico
por sustentar que o proletariado russo podia chegar ao poder antes
dos trabalhadores da Europa Ocidental. Insistiam eles, naquele
tempo, que a Rússia era um país muito atrasado.
Trotsky tinha assegurado que a natureza da Revolução
Russa seria determinada, em última análise, não
pelo nível de desenvolvimento da sua própria economia
nacional, mas sim, pela dominação da Rússia
pelo capitalismo mundial e pela sua crise internacional. Em países
como a Rússia, com um desenvolvimento capitalista tardio,
com uma integração na economia capitalista mundial
e com um crescimento da classe trabalhadora, se tornara impossível
para a burguesia levar até o fim as tarefas associadas
com a revolução burguesa.
Resumiu sua teoria em artigo de 1939, Três concepções
da Revolução Russa: A completa vitória
da revolução democrática na Rússia
é inconcebível de outra maneira que na forma de
ditadura do proletariado embasado ele próprio sobre o campesinato.
A ditadura do proletariado, que colocará inevitavelmente
na ordem do dia não somente as tarefas democráticas,
mas também as tarefas socialistas, proporcionará
ao mesmo tempo um forte impulso à revolução
socialista internacional. Somente a vitória do proletariado
no Ocidente protegerá a Rússia de uma restauração
burguesa e lhe assegurará a construção do
socialismo de forma acabada.
Rejeitando os fundamentos internacionalistas dessa teoriaconfirmados
na experiência da Revolução de Outubro- a
direção de Stalin se embasou em um caminho formalmente
nacionalista, dividindo o mundo em diferentes tipos de países
fez suposições se estes possuíam ou não
as pré-condições necessárias para
uma construção socialista.
Trotsky denunciou esse caminho como duplamente enganoso. Ressaltou
que o desenvolvimento da economia capitalista mundial não
somente coloca a questão da conquista do poder pela classe
trabalhadora nos países atrasados, como também torna
irrealizável a construção do socialismo no
interior das fronteiras nacionais mesmo nos países capitalistas
avançados.
Escreveu ele: Os lineamentos desse programa esquecem
a tese fundamental da incompatibilidade entre as atuais forças
produtivas e as fronteiras nacionais, e disto se segue que forças
produtivas altamente desenvolvidas não significam um inferior
obstáculo para a construção do socialismo
em um só país do que forças produtivas menores,
embora em razão inversa, ou seja, enquanto no último
caso as forças produtivas são insuficientes para
servirem como base do socialismo, estas mesmas forças são
a base que limitará as primeiras.
Ou seja, os países coloniais carecem de uma base econômica/industrial,
enquanto em um país capitalista avançado a economia
capitalista há muito tempo cresceu para além das
fronteiras nacionais. A Inglaterra, como salientou Trotsky, devido
ao desenvolvimento de suas forças produtivas, precisou
de matérias primas e mercados do mundo inteiro. Uma tentativa
de construir o socialismo sobre uma ilha conduziria necessariamente
para um retrocesso econômico irracional.
Socialismo em um só país e China
Na verdade, o tempo não nos permite fazer uma análise
mais detalhada sobre as conseqüências da política
do socialismo em um só país para as
seções da Internacional Comunista. Todavia, penso
que é necessário se referir, embora de forma sumária,
à traição da Revolução Chinesa
de 1925-27. Esta traição aconteceu em plena luta
de Trotsky contra a teoria retrógrada de Stalin e representou
uma confirmação terrível de sua advertência
de que a concepção stalinista somente poderia conduzir
a derrotas catastróficas para a classe operária
internacional.
Escrevendo em 1930, Trotsky descreveu esta segunda
Revolução Chinesa como o maior acontecimento
da história moderna depois da Revolução Russa
de 1917. A onda nascida da luta revolucionária da
classe operária e camponesa chinesas, assim como, o rápido
crescimento numérico do Partido Comunista Chinês
e de sua autoridade política, após sua recente fundação
em 1920, ofereceram à União Soviética a possibilidade
mais oportuna para romper o cerco e o isolamento.
No entanto, havendo repudiado a Revolução Permanente
e ressuscitado a teoria menchevique dos dois estágios
para a revolução nos países coloniais e semi-coloniais,
a direção stalinista insistiu que a classe trabalhadora
chinesa precisava subordinar sua luta ao Kuomintang, organização
burguês-nacionalista sob o comando de Chiang Kai-shek.
Contra a oposição de Trotsky, o Partido Comunista
Chinês foi instruído a entrar no Kuomintang e submeter-se
à sua disciplina organizativa. Ao mesmo tempo, Chiang Kai-shek
havia sido eleito como membro honorário do comitê
executivo do Comintern (a Internacional Comunista), com apenas
um voto contrário, a saber, aquele de Trotsky.
A direção stalinista qualificou o Kuomintang
como o bloco de quatro classes, consistindo na classe
operária, no campesinato, na pequena burguesia e na burguesia
nacional.
Stalin defendeu a posição que a China ainda não
estava madura para uma revolução socialista, e que
faltava ao país o mínimo suficiente
de desenvolvimento para a construção do socialismo.
Por isso, a classe trabalhadora não poderia lutar pelo
poder político.
Como estabelece a resolução do Komintern de fevereiro
de 1927: O atual período da revolução
chinesa é um período de revolução
democrático-burguesa, que não foi completado nem
do ponto de vista econômico (revolução agrária
e aniquilação das relações feudais),
nem do ponto de vista da luta nacional contra o imperialismo (a
unificação da China e o estabelecimento da independência
nacional), nem do ponto de vista da natureza de classe do estado
(ditadura do proletariado e do campesinato).
Trotsky ressaltou que tudo nessa resolução sobre
a China ecoava a posição sustentada pelos mencheviques
e mesmo por muitos da direção bolcheviqueStalin
inclusivenos momentos seguintes à Revolução
Russa de Fevereiro de 1917. Naquela época, estes insistiam
que a revolução não poderia saltar o estágio
democrático-burguês de seu desenvolvimento e chamavam
por uma sustentação condicional do governo burguês
provisório. Eles rejeitaram como trotsquismo
as teses anunciadas por Lênin, em abril de 1917. Nestas
teses afirma-se que as tarefas essenciais da revolução
democrático-burguesa somente poderiam ser completadas pela
classe operária tomando o poder e estabelecendo a sua própria
ditadura.
A direção stalinista insistiu que a opressão
imperialista sofrida pela Chinae na verdade por todos os
países coloniais e semi-coloniaisunificou conjuntamente
todas as classes, do proletariado à burguesia em uma luta
comum contra o imperialismo, justificando sua unificação
em um partido comum.
Contra esta concepção, Trotsky estabeleceu que
a luta contra o imperialismo, a qual desfrutava de muitos laços
com a burguesia nativa, somente intensificava a luta de classes.
A luta contra o imperialismo, precisamente devido ao poderio
econômico e militar deste, exige um poderoso empenho das
forças mais profundas do povo chinês, escreveu
ele. Porém, tudo que coloca em movimento as massas
oprimidas de trabalhadores, inevitavelmente, impele a burguesia
nacional a um bloco aberto com o imperialismo. A luta de classes
entre a burguesia e as massas de trabalhadores e camponeses não
é enfraquecida, mas, ao contrário, é agravada
pela opressão imperialista, ao ponto de guerra civil sangrenta
em todo conflito mais sério.
Stalin foi hábil para impor a política menchevique
na China, contra a vontade do Partido Comunista Chinês,
o qual foi instruído a frear tanto os trabalhadores na
cidade como a revolução agrária no campo.
Finalmente, ordenou que estes entregassem suas armas ao exército
de Chiang Kai-shek. O resultado foi um massacre de aproximadamente
20 mil comunistas e trabalhadores praticado exatamente por este
exército, em Shangai, no dia 12 de abril de 1927.
A direção stalinista, então, insistiu
que o massacre tinha somente confirmado sua linha e que Chiang
Kai-shek somente representava a burguesia, não os nove
décimos do Kuomintang formados por operários
e camponeses. O líder legítimo destes nove
décimos, proclamaram agora os stalinistas, era Wang
Ching-wei, que comandou o governo de esquerda do Kuomintang
em Wuhan, a quem ordenaram que deveria subordinar-se novamente
o PCC. Em julho de 1927, após Wang haver realizado um acordo
com Chiang Kai-shek, repetiu-se o massacre dos trabalhadores e
comunistas assistido em Shangai.
É digno de nota que esse líder da esquerda
do Kuomitangproclamado por Stálin o cabeça
de uma ditadura democrática revolucionáriamais
tarde, tornou-se o chefe do regime marionete da ocupação
japonesa em Nanking.
Em uma rápida tentativa de acobertar as conseqüências
catastróficas do oportunismo do Comintern em Shangai e
Wuhan, Stalin insistiu que a revolução chinesa estava
ainda em ascenso e sancionou uma revolta aventureira em Cantão,
que terminou ainda em outro massacre.
O resultado foi a aniquilação física do
Partido Comunista Chinês e a derrota daquela que tinha sido
a mais promissora oportunidade revolucionária desde 1917.
O oportunismo da direção stalinista na China
baseava-se sobre a concepção de que o sucesso do
Kuomintang podia servir como um contrapeso para o imperialismo
e, por isso, conceder à União Soviética um
tempo de fôlego para o projeto de construir o socialismo
em um só pais.
Como se vê, a política oportunista e anti-marxista
na China originou-se dos mais íntimos suportes nacionalistas
da teoria do socialismo em um só país.
Aplicado à China, este método analisou a revolução
nacional isolada da revolução mundial. Disto resultou,
por um lado, a visão da China como insuficientemente madura
para o socialismo e, de outro, dotou a burguesia nacional e a
própria forma do estado nacional de um papel historicamente
progressista.
Trotsky rejeitou ambas as concepções, insistindo
que o caráter da revolução chinesa era determinada
pelo desenvolvimento mundial do capitalismo, o qual, como na Rússia,
em 1917, colocava a tomada do poder pela classe operária
como a única possibilidade de resolver as tarefas democráticas
e nacionais da revolução.
As advertências anteriores de Trotsky sobre as conseqüências
da política do socialismo em um só país
haviam se confirmado, porém, como Trotsky preveniu aqueles
que dentro da Oposição de Esquerda viam isso como
um golpe mortal para Stalin, o impacto objetivo da derrota na
China sobre as massas de trabalhadores soviéticos somente
reforçou a mão da burocracia. Logo após a
derrota, o próprio Trotsky foi expulso do partido em novembro
de 1927 e, alguns meses mais tarde, banido para Alma Ata, fronteira
entre a China e a Rússia.
A significação política da adoção
da perspectiva de Stalin-Bukharin do socialismo em um só
país combinada com a campanha contra a Revolução
Permanente e a supressão de Trotsky e de seus co-pensadores
foi muito bem compreendida pelos órgãos mais conscientes
da classe burguesa mundial.
Assim, o New York Times publicou uma especial reportagem
escrita por seu inefável correspondente em Moscou, Walter
Duranty, em junho de 1931, declarando: A característica
essencial do stalinismo, que bruscamente define seu
avanço e se diferencia do leninismo, é que visa
francamente estabelecer com sucesso o socialismo em um só
país, sem esperar pela revolução mundial
A importância deste dogma, que jogou um papel predominante
na controvérsia amarga com Leon Trotsky, não pode
ser exagerada. Trata-se do slogan stalinista par
excellence, e ele estigmatiza como heréticos ou derrotistas
todos os comunistas que se recusem a aceitá-lo, na Rússia
ou fora dela.
E continuou Duranty: A teoria da suficiência
Socialista Soviética, como isso pode ser chamado,
envolve um certo decréscimo de interesse na revolução
mundialtalvez, não de forma premeditada, mas por
força das circunstâncias. A socialização
stalinista da Rússia demanda, imperativamente, três
coisastoda pitada de esforço, cada centavo de dinheiro,
e paz. Isto deixa o Kremlin sem tempo, dinheiro ou energia para
a propaganda vermelha no exterior, que, incidentalmente,
seria uma causa provável de guerra, e, sendo uma força
de destruição social, deve fatalmente chocar-se
com o plano qüinqüenal que é uma força
de construção social.
De forma semelhante, o jornal francês Le Temps comentou
dois anos depois: Desde a remoção de Trotsky,
que, com sua teoria da revolução permanente, representou
um efetivo perigo internacional, a administração
soviética encabeçada por Stalin aderiu à
política da construção do socialismo em um
só país, sem esperar a problemática revolução
no resto do mundo.
O artigo aconselhava então a classe dominante francesa
a não levar muito a sério a retórica revolucionária
da burocracia stalinista.
Trotsky propôs nesta época a criação
de um livro branco copilando tais endossamentos do
socialismo em um só país de parte da
burguesia e um livro amarelo incluindo declarações
de simpatia e sustentação da parte de social-democratas.
Oito décadas depois, podemos reconhecer claramente as
implicações da luta entre a teoria da revolução
permanente e a do socialismo em um só país.
As advertências precisas e proféticas de Trotsky
que a tentativa de separar o desenvolvimento socialista da União
Soviética do desenvolvimento internacional e da revolução
mundial somente poderia conduzir a uma catástrofe foram
confirmadas na necessidade de redesenhar o mapa do mundo e no
vasto empobrecimento da população trabalhadora da
antiga URSS.
Somando-se à cisão no Comitê Internacional,
o ano de 2005 marca também o vigésimo aniversário
do início do programa da perestroika conduzido por Mikhail
Gorbachov. Esta política marcou o acabamento da traição
do stalinismo à Revolução de Outubro. Por
trás do palavreado marxista, a burocracia já há
muito tempo não mais considerava o socialismo como um programa
para a derrubada revolucionária do capitalismo, mas, muito
mais, como um meio de desenvolver uma economia nacional que fosse
a base de seus próprios privilégios.
Foi para defender estes privilégios que a burocracia
girou para uma política de restauração capitalista,
que desencadeou um desastre de proporções histórico
mundiais para o povo soviético. A mais forte manifestação
disso é a implosão da populaçãonos
últimos dez anos a população na Rússia
diminuiu em aproximadamente 9,5 milhões de pessoas, apesar
de que muitos milhares de russos regressaram das antigas repúblicas
soviéticas. O número de crianças sem habitação
é hoje muito maior do que nos piores momentos da Guerra
Civil ou logo após a Segunda Guerra Mundial.
A dissolução da burocracia stalinista da URSSuma
resposta à pressão crescente do capitalismo globalmente
integrado sobre a nacionalmente isolada economia soviéticarepresentou
a falência não do socialismo ou do marxismo, mas
sim, aquela da tentativa da burocracia stalinista de manter em
pé, isolada, uma economia nacional auto-suficienteisto
é, a perspectiva do socialismo em um só país.
A luta de Trotsky travada contra a teoria do socialismo em
um só país proporcionou uma análise profunda
dos fundamentos da reação contra a Revolução
de Outubro e da sua significação para a classe trabalhadora
internacional, no processo de elaborar um programa coerente para
a construção do partido mundial da revolução
socialista.
A defesa de Trotsky da Revolução Permanente e
a concepção fundamental de que a economia mundial
e a política mundial constituem o único fundamento
objetivo para uma estratégia revolucionária representa,
hoje, a pedra angular da perspectiva internacionalista do Comitê
Internacional da Quarta Internacional.
(Concluído)
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