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China envia mais tropas ao Líbano

Por John Chan
12 Octubre 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 4 de outubro de 2006.

Aproveitando a oportunidade para garantir seus interesses no Oriente Médio e fortalecer as relações com a Europa, Beijing está enviando 1.000 homens ao Líbano, somando-se às forças das Nações Unidas. Esta será a maior “missão de paz” da China desde seus primeiros envolvimentos com as operações da ONU no final da década de oitenta.

O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, anunciou a decisão numa entrevista coletiva para a imprensa realizada conjuntamente com o primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, no dia 18 de setembro. “A China está muito preocupada com a situação no Líbano e espera que isto seja totalmente resolvido”, declarou Wen. Ele ainda dobrou a ajuda financeira concedida ao Líbano, totalizando agora 50 milhões de dólares.

O contingente chinês incluirá 240 engenheiros que já estão no sul do Líbano, como parte das Forças Provisórias das Nações Unidas (UNIFIL). Antes da invasão israelense em julho, a China havia enviado 180 observadores militares para a região, o que representou a sua primeira “força de paz” no Oriente Médio.

O governo Bush colaborou com o ataque israelense que matou mais de 1.200 pessoas, na maioria civis libaneses. O objetivo do ataque foi defender os interesses norte-americanos em relação à Síria e ao Irã, como parte da estratégia de ampliar a guerra no Oriente Médio com o fim de dominar a região, que é rica em recursos naturais. Depois da tentativa frustrada do exército israelense de destruir a resistência liderada pelo Hezbollah, Washington e Tel Aviv aceitaram o “cessar fogo” proposto pelos europeus, por meio da resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU.

Ao invés de apoiar o veto no Conselho de Segurança da ONU, Beijing nada fez diante do ataque de Israel ao Líbano. Somente quando o observador chinês Du Zhaoyu foi assassinado, juntamente com três outras pessoas, por bombas israelenses colocadas num posto da ONU, no dia 24 de julho, Beijing ameaçou propor uma resolução na ONU condenando as ações israelenses. Mas, sob pressão dos EUA, rapidamente a China voltou atrás e resolveu juntar-se àqueles que apóiam a resolução 1701. Da mesma forma que as potências européias, o governo chinês estava profundamente preocupado com o fato de que o crescimento dos conflitos regionais pudesse vir a atrapalhar seus interesses em relação ao petróleo da região.

Uma vez que as forças da ONU estão situadas numa zona hostil e são incapazes de desarmar o Hezbollah, vários países têm se mostrado hesitantes em enviar reforços para o local. Até o momento, foram enviados apenas 5.000 homens, provenientes principalmente da Itália e da França, o que está muito aquém da meta de 15.000 homens fixada pela UNIFIL.

Inicialmente, Beijing ofereceu somente 240 engenheiros. Todavia, rapidamente aproveitou a situação para exigir que a França, a Itália e outras potências européias retirassem o embargo bélico imposto à China depois do massacre da Praça de Tiananmen, em 1989.

O apoio relativamente amplo dado pelo governo chinês é um considerável impulso político para os esforços da França, Itália e Alemanha no Líbano. Tropas chinesas, que estabeleceram relações diplomáticas com Israel em 1992, são menos hostilizadas pelo regime sionista do que os soldados da Ásia muçulmana como, por exemplo, de países como Bangladesh ou Indonésia.

O fato é que, ao fornecer tecnologias militares ocidentais que são formalmente proibidas pelo embargo de armas, Israel está fazendo um negócio extremamente lucrativo com a China. O novo jato F-10 da China, por exemplo, é baseado num modelo desenvolvido por Israel e financiado pelos EUA na década de oitenta.

O presidente francês, Jacques Chirac, um dos líderes na defesa do embargo, saudou a decisão chinesa de enviar tropas ao Líbano como uma “contribuição considerável”. Em 2004, Romano Prodi, na condição de presidente da comissão da União Européia, justificou o adiamento da suspensão do embargo pelo desrespeito do governo chinês aos “direitos humanos”. No mês passado, na condição de primeiro-ministro italiano, em visita a Beijing, Prodi declarou que a Itália “tende a apoiar a suspensão do embargo” e pediu que o caso fosse resolvido “o mais rapidamente possível”.

Conflitos relacionados ao término do embargo de armas imposto há dezessete anos à China pelos países ocidentais expressam crescentes tensões internacionais. Com o aumento da pressão feita pelos EUA, a China procura novos aliados na União Européia. Preocupados com o impacto da agressão norte-americana aos interesses europeus no Oriente Médio, alguns dos líderes dos países europeus consideram que a China poderá contrabalançar o poder dos EUA. Há alguns anos, a França e a Alemanha apoiaram a suspensão do embargo à China, mas se negaram a enfrentar os EUA, que se opuseram de forma veemente a qualquer decisão neste sentido.

A “missão da paz” chinesa

Da mesma maneira que outros países, a busca da “paz” não é o objetivo da China. A China está enviando tropas para o Oriente Médio a fim de atender seus próprios interesses, particularmente a fim de garantir o suprimento de energia. Há pouco tempo, a China iniciou a execução de um projeto de uma companhia petrolífera sino-síria, localizada a nordeste de Damasco. Antes de visitar a China, Prodi se referiu explicitamente aos interesses de Beijing: “a China é uma grande importadora de petróleo do Irã - imagine o grau de dependência energética da China, tendo toda aquela área”.

Não está claro o que as tropas chinesas farão no Líbano. As unidades de engenharia existentes estão ocupadas com a limpeza de minas. Ainda que os “agentes da paz” chineses recusem qualquer operação que atraia muita atenção, a sua simples presença no Líbano abrirá um precedente para grandes intervenções militares em outros locais.

O exército e a imprensa estatal chinesa saudaram a missão de “paz” no Líbano como um momento decisivo para a política externa chinesa. Pen Guangqian, um destacado general, aplaudiu a decisão, dizendo a agência oficial de notícias Xinhua, em 21 de setembro: “isso combina com o novo perfil internacional da China e aumenta as responsabilidades (...) os 2,3 milhões de soldados chineses querem desempenhar um papel importante na preservação da paz mundial e impulsionar o desenvolvimento comum”.

Depois da revolução de 1949 na China, o regime maoísta apoiou diversos movimentos de “libertação nacional” na Ásia, na África e na América Latina. A retórica antiimperialista e a preocupação em se autodenominar socialista, eram indispensáveis para que o governo chinês obtivesse apoio interno. Em 1971, depois de buscar uma reaproximação com os EUA e conquistar a autorização para participar do Conselho de Segurança da ONU, a liderança chinesa rejeitou qualquer missão de paz, temendo que as intervenções militares além mar pudessem provocar oposição interna.

Em 1979, quando Deng Xiaoping assumiu abertamente o capitalismo de mercado, a diplomacia chinesa foi visivelmente alterada. A China combateu o Vietnã sob o comando dos EUA. Assim, Beijing foi gradualmente abandonando sua retórica de apoio às massas no Oriente Médio, na África e em qualquer outro lugar. Em 1989, participou pela primeira vez numa operação da ONU, na Namíbia, no mesmo ano em que ocorreu a repressão da classe trabalhadora chinesa na Praça Tiananmen.

Nos anos noventa, enquanto o capital internacional transbordava e a economia chinesa crescia rapidamente, sua missão da ONU expandiu-se para outras regiões, como o Timor Leste, Libéria e Congo. De acordo com o ministro da defesa chinês, desde 1990, foram enviados mais de 6.000 homens para 15 missões da ONU, fazendo da China o maior colaborador entre qualquer um dos cinco países que tem direito a veto no Conselho de Segurança.

O “aumento da responsabilidade” de Beijing de enviar mais tropas ao Líbano reflete as aspirações dos capitalistas chineses emergentes em alcançar uma posição mais decisiva no mundo. Em meio ao aprofundamento das desigualdades sociais, Beijing procura utilizar as missões da ONU para criar uma imagem de “grande potência” e para promover o nacionalismo internamente. O bem estar da população ao redor do mundo é a última preocupação do governo chinês.