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Encontro do WSWS International Editorial Board

Os problemas artísticos e culturais da atualidade

Parte 1

Por David Walsh
14 Setembro 2006

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O texto publicado abaixo é a primeira parte de um relatório sobre questões artísticas e culturais preparado por David Walsh para a reunião ampliada do IEB (WSWS Editorial Board), que aconteceu em Sidney de 22 a 27 de janeiro de 2006. Walsh é membro do IEB e Editor da área de Artes do WSWS. Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 21 de março de 2006.

Em um sentido mais geral, a situação atual da arte é dominada por duas tendências: por um lado, o desenvolvimento em vasta escala das condições objetivas para uma cultura artística global que iluminará, deleitará e envolverá massas de seres humanos, enriquecendo e finalmente alterando suas vidas de uma forma inimaginável; por outro lado, o decadente estado das relações sociais existentes trabalha na direção oposta, ameaçando a humanidade com a possibilidade de guerras e ditaduras, ameaçando a vida cultural existente e suprimindo o surgimento de novas formas e idéias.

O ataque à arte, a parte mais complexa da cultura, acontece por meio de ataques descarados à liberdade artística e tentativas de censuras em muitos lugares do mundo (EUA, China, Inglaterra, Turquia, Irã, Arábia Saudita, Sri Lanka, Índia, entre outros lugares), incluindo o incentivo das forças mais reacionárias, como as fascistas ou fundamentalistas—cristãs, hindus, islâmicas. O ataque também vem da comercialização e trivialização da arte e da corrupção de setores da intelligentsia, tanto daqueles que são abertamente de direita quanto os que se dizem de “esquerda”.

Qualquer análise empírica da cultura e da arte global está fora de cogitação. Além dos problemas históricos-científicos que são colocados por tal operação, algumas estatísticas ajudarão a dimensionar a presente situação cultural global de maneira clara.

O capitalismo levou a população mundial ao fracasso no âmbito da cultura e educação, junto com a possibilidade de criar uma vida decente para si mesmo. Apesar de tudo, a população aumentou e a expansão da economia mundial produziu um salto no número de adultos alfabetizados. O quadro dobrou de 1970 para 1998, de 1.5bi para 3.3bi.

O número de livros é surpreendente. Cerca de 1.000.000 títulos são publicados a cada ano mundialmente. Uma estimativa sugere que exista no mundo um estoque de livros de aproximadamente 65 milhões de títulos. A Amazon.com afirma ter 4.000.000 de títulos. Em 2000, eram 158.000 os títulos de periódicos únicos mundialmente, e o número total de publicações em série ultrapassava os 600.000 pelo mundo.

Cerca de 1.1 bilhões de livros foram vendidos nos Estados Unidos em 1999. O número total de revistas americanas circulando anualmente excede os 500 milhões.

O processo de produção e consumo de livros e periódicos é permeado por vastas desigualdades, com os EUA produzindo perto de 40% de todo material impresso no mundo, enquanto que continentes inteiros estão esfomeados por informação e cultura.

Este fato levanta a questão: o capitalismo criou, ou é capaz de criar, uma cultura global harmoniosa?

Nas duas últimas décadas a troca de bens culturais cresceu exponencialmente. Entre 1980 e 1998, a troca mundial anual de material impresso, literatura, música, artes visuais, cinema, fotografia, rádio, televisão, jogos materiais esportivos subiu de 95.3 bilhões de dólares para quase 400 bilhões de dólares. De qualquer forma, apenas 3 países (Reino Unido, EUA e China) produziram 40% dos produtos desta toca mundial em 2002, enquanto América latina, região do Caribe, Oceania e África juntas (cerca de 1 bilhão e meio de pessoas) acumularam menos que 4%, de acordo com informe do Instituto de Estatísticas UNESCO.

Dados de 2001 revelam que 5 países (Índia, China-Hong Kong, Filipinas, EUA e Japão) produzem mais que 200 filmes cada um. A Índia anualmente lança 700 ou mais filmes; a indústria de filmes Filipina conseqüentemente entrou em colapso—sua produção de 240 filmes caiu para 40 por ano. Os EUA produzem 400 ou mais filmes por ano, a indústria japonesa produziu cerca de 240 por ano durante a década de 90. Para China, veja abaixo.

Em 2001, 25 países, principalmente na Europa e na Ásia, produziram entre 20 e 199 filmes. 72 países produzem entre 1 a 19 filmes, e 88 países no total de 190 não tem nenhuma indústria de filme.

Em outras palavras, 160 de 190 países em 2001 produziram, cada, menos que 20 filmes; África Subsaariana produz, no total, apenas 42 filmes por ano. O Vietnã, com 83 milhões de habitantes, tem apenas de 60 telas de cinema. O Brasil, com 170 milhões de pessoas, tem apenas 2.000. Os EUA, 36.700.

Os estúdios de Hollywood têm 85% das salas de cinemas mundiais, com picos acima e 90% em alguns paises da Europa, África e América Latina. Os ganhos de Hollywood caíram 6% ($500 milhões) em 2005. Na Europa os ganhos também caíram. Isto é atribuído, em parte, ao alto preço das entradas, à economia geral, ao mercado dos DVDs, televisão a cabo - mas, também, à baixa qualidade dos filmes. A audiência está respondendo à qualidade miserável de muitos filmes.

A indústria do entretenimento é uma através da qual os EUA obtém um expressivo lucro. Filmes europeus controlam apenas 1% do mercado americano. China (que permite apenas 20 filmes estrangeiros por ano), Rússia, Turquia, Índia, França, Coréia do Sul são alguns dos países onde a produção local ou, ao menos, filmes não-americanos, tem uma porção significativa no mercado interno.

A indústria chinesa de filmes é agora a 3ª. maior do mundo, em termos de ganhos, atrás de Hollywood e da Índia, com 260 filmes feitos em 2005—um aumento de cerca de 20% (76 filmes foram feitos em 1997). Os ganhos da indústria chinesa em 2005 foram de $248 milhões, um aumento de 30% em relação ao ano anterior, com outros $204 milhões ganhos em mercados além-mar. Esse aumento de 30 porcento nos ganhos foi substancial, mas empalidece perto do aumento de 58% de 2003 para 2004. China ainda sofre de um numero relativamente baixo de salas de cinema e, evidentemente, de pobreza generalizada. Em 2004, seu ganho nesse setor foi apenas um quarto em relação ao da Coréia o Sul.

A indústria do entretenimento passou por um impressionante processo de concentração na década de 90. Em 1993, a renda total das cinqüenta maiores companhias de audiovisual do mundo era de $118 bilhões. Quatro anos depois, os sete maiores conglomerados de mídia atingiram, cada, a mesma marca.

Em 1993, 36% das companhias eram norte-americanas, 36% da União Européia e 26% do Japão. Em 1997, mais que 50% das firmas eram americanas. Ou seja, o que se vê e se ouve nas mídias mundiais são determinadas por oficiais de sete conglomerados.

Temos que enfrentar, hoje, uma transformação radical na situação cultural: dezenas de milhares de periódicos na rede da internet, um enorme crescimento nos computadores associados e tecnologias digitais, criando uma mídia artística inconcebível décadas atrás. Mesmo se considerarmos formas “tradicionais” de arte - ficção, poesia, pintura, música, cinema (este, “tradicional” no século XX), arquitetura e dança—uma explosão de escala global ocorreu.

A possibilidade de uma perspectiva alternativa para nós foi levantada no nosso encontro essa semana—a possibilidade de que nós vivemos durante o nascimento de um novo sistema mundial capitalista estabilizado, onde as contradições fundamentais da vida social foram superadas, abrindo a vista para uma eventual prosperidade e libertação das privações e da decadente situação da população mundial. Se fosse realmente o caso, algo hipotético, um desenvolvimento da liberdade deveria ser acompanhado pelo mais franco e honesto enriquecimento da vida humana. Se chegamos perto do limite de uma nova época, premonições disso deveriam ter sido descobertas na arte.

Mas mais especificamente, se esta sociedade tem como fora do real a melhoria das condições da maioria da população, então sua arte oficial deveria estar engajada em uma tentativa de autocrítica, explorando o que existe, expondo fraquezas da arte e antecipando suas resoluções. Uma extraordinária sinceridade e abertura deveria dominar, que permitiria a mais ampla e democrática discussão da situação humana.

Esta é a situação presente? Claramente não. O que nós continuamos a encontrar? Um bloqueio de condições, a exclusão de vastas massas de pessoas e de suas vidas das considerações artísticas, estas constantemente fantasiadas, tratando trivialmente da vida das “estrelas” sem problemas financeiros, pessoas que não existem; a sistemática degradação da cultura popular, o empenho calculado em brutalizar e transformar indiferença humana em sofrimento e prejuízo social.

Podemos dizer com certa justiça que o fato de que centenas de milhões de africanos tem algum reflexo em apenas 42 filmes (que não são distribuídos em todo continente) é uma desgraça, um vergonhoso estado de relações sociais. Mas as centenas de filmes produzidos na Índia, a maioria deles musicais medíocres, fazem justiça para a vida da população? Ou, entrando no mérito da questão, fazem as centenas de filmes de Hollywood feitos anualmente, em larga escala, qualquer esclarecimento substancial para a vida das pessoas Americanas?

O primeiro filme produzido na África Sub-Saariana não apareceu até o cinema ter 70 anos de idade, em 1966. Nós o revimos recentemente. Por experiência pessoal, posso dizer que filme nenhum foi produzido inteiramente em Chad, país Africano de tamanho considerável com uma população de 10 milhões de pessoas até 1999, porque eu entrevistei o diretor em Toronto, em 2000. Em um continente onde o anafalbetismo é excepcionalmente alto, o cinema é um dos meios fundamentais para que as pessoas vejam algo sobre suas vidas e o mundo.

Um analista escreveu há algum tempo: “Esperanças e projeções de renovação política e econômica e transformações sob a égide dos programas de ajustes do Banco Mundial, medidas de liberalização e quedas positivas esperadas, especialmente no setor da cultura, atualmente se tornaram desastrosas. Produtores de filmes africanos começaram a experimentar os dolorosos efeitos dos cortes financeiros e a perda gradual tanto de fundos internacionais como nacionais para a produção. Ao mesmo tempo, o lento, mas sincronizado, desaparecimento de salas de cinema, uma das mais tristes ocorrências da década de 90, começado como uma privatização que possivelmente aumentaria empreendedores locais, na verdade, converte esses locais em lugares de comércio barato”.

Quando as estatísticas da produção cinematográfica consideram o “mundo”, costumam deixar a África para fora do quadro. A população da África e Oriente Médio combinadas acumularam 1.2% do “total de gastos do cinema mundial” em 1998.

Um grande abismo social existe entre quem controla os meios de produção culturais e camadas baixas da população mundial. Mais que nunca, a profundidade da crise, a emergência da situação atual, leva isto a ser explosivo demais para ser tratado seriamente pela cultura oficial.

Trotsky escreve que o “declínio da sociedade burguesa significa um intolerável aprofundamento das contradições sociais, que são transformadas inevitavelmente em contradições pessoais, deixando claro, cada vez mais, a urgência de uma arte libertadora.” Consideramos crucial esse pensamento para um maior entendimento da situação mundial atual.

O agravamento das contradições sociais, transformada em contradições pessoais, produz uma necessidade cada vez maior de uma arte libertadora. Esta necessidade é respondida atualmente pela cultura oficial com níveis cada vez maiores de desonestidade e insensibilidade.

Nós poderíamos olhar para Rússia e Leste Europeu, onde a sociedade experimentou o começo de uma outra organização, mas este novo organismo social é um progresso ou uma terrível regressão? A noção de que o capitalismo oferece um caminho pode ser contestada por um simples olhar sobre as depressivas e desmoralizantes condições da cultura e da arte nesses países. O cinema russo se tornou em sua maior parte histérico, pessimista, com trabalhos desumanos ou trabalhos comerciais que imitam o pior da vulgaridade e brutalidade de Hollywood.

O teatro uma vez já foi o ponto máximo da vida cultural na Polônia, o local de experimentos na década de 60 e 70, incluindo o lendário “Teatro Pobre” de Grotowski. Um analista recentemente escreveu que Varsóvia está se “dirigindo cada vez menos para o ‘Teatro Pobre’, do que para um outro, brando, internacional e um pouco improvisado, indistinguível daquilo de qualquer capital provinciana”.

Estas condições dominam o Leste Europeu, onde as conquistas das artes foram devastadas e os princípios mercadológicos restaurados. Caso uma vida artística renasça, ela terá que adotar uma posição de hostilidade em relação à mafiosa elite capitalista.

Se capitalismo está crescendo e oferecendo um potencial ilimitado, logo, como é possível que sua cultura tenha falhado absurdamente em tratar artisticamente a situação humana atual, e para estender como esta realidade é tratada, e alguém vê alguma mudança de humor nesta direção, isto é feito por uma oposição, o aumento de um ponto de vista anti-capitalista?

Erich Auerbach, em seu trabalho Mimesis, um estudo da representação da realidade na literatura ocidental desde a antiguidade, descreve as bases do realismo moderno no começo do século XIX, quando a sociedade experimentou um genuíno nascimento, nas suas palavras: “O sério tratamento da nossa realidade cotidiana, a elevação cada vez mais abrangente e socialmente dos grupos sociais inferiores [classe operária, em outras palavras] para a posição de objeto para a problemática-existencial da representação está em uma mão; na outra, o envolvimento de pessoas aleatórias e eventos no curso geral da história contemporânea, o pano de fundo fluido da história...”

E o que encontramos hoje? Praticamente o oposto exato desta leitura.

Somos levados a perguntar: qual é o estado moral da cultura global? Aqui as estatísticas não serão suficientes.

Trotsky insiste, corretamente, que qualquer olhar mais concentrado na vida deve inevitavelmente conter algum elemento de protesto. Como não poderia ser, dadas as condições em que a grande maioria das pessoas vive? A traumática experiência política vivida pelo meio e final do século XX teve sérias conseqüências: abalaram a confiança do artista em uma alternativa fora do capitalismo, desencorajaram-no a ter um olhar mais profundo sobre a vida, e, quando houve alguma tentativa neste sentido, estas acabaram acontecendo de forma difusa e confusa, desassociadas da perspectiva histórica e política do socialismo.

Desde o final do século XIX, até as 2 primeiras décadas do século XX, a arte pôde sentir relativa confiança na existência de uma ampla oposição à ordem existente, que poderia se desenhar intelectual e moralmente, sustentando e encorajando a possibilidade de uma mudança radical das relações sociais. Seria totalmente impossível explicar a extraordinária riqueza das tentativas criativas dessas décadas, descolando a relação entre cultura e as idéias políticas e organizativas revolucionárias.

Atualmente, fatores econômicos também se somaram às dificuldades ideológicas. Ocorreu um enriquecimento de considerável camada da intelectualidade (que, em sua maioria, aceitou este enriquecimento de bom grado, dada a confusão política e moral que prevalece). Nesse sentido, as condições são um pouco parecidas com aquelas que Plekhanov descreve no período pré-1914: a virada para direita e para a indiferença política, após 1905, de boa parte dos intelectuais russos.

A ser continuado