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Hugo Chávez, Marx e o 'Bolivarismo' do século
XXI
Por Jair Antunes
17 Fevereiro 2007
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com o autor
O começo do século XXI testemunhou um ressurgimento
do nacionalismo populista burguês em grande parte da América
Latina. De certa forma, este desenvolvimento do nacionalismo compartilha
de características comuns com o que foi visto no século
anterior em figuras como Juan Domingo Perón na Argentina,
Getúlio Vargas no Brasil ou de Lazaro Cardenas no México.
As eleições do presidente Hugo Chávez
na Venezuelao qual está caminhando para um mandato
vitalícioe Evo Morales na Bolívia, o retorno
do ex-líder sandinista Daniel Ortega para a presidência
da Nicarágua, bem como a eleição de Rafael
Correa no Equador, foram todas acompanhadas da retórica
nacionalista para reverter o brutal e sangrento período
de desagregação das economias latino-americanas
das últimas décadas. Alguns dizem que a América
Latina está realmente se movendo para a esquerda, para
um novo tipo de socialismo, no entanto, em cada um destes países
o domínio do capital permanece intacto.
Hugo Chávez, em particular, apresentou este movimento
como uma continuação da velha cruzada de Simon Bolívar,
El Libertador, quem há dois séculos dizia tentar
libertar a América Latina das garras da dominação
imperialista, mas que na realidade lançou as bases para
a dominação imperialista durante séculos.
Chávez chegou a ponto de entregar réplicas da espada
de Bolívar para Morales, Correa e Ortega durante suas respectivas
posses.
Certos setores da esquerda latino-americana que se especializaram
em semear ilusões a partir de tais lideranças, acompanham
a Chávez, envolvendo-se também no manto de Bolívar
e na perspectiva do presidente venezuelano de um retorno continental
da "revolução Bolivariana".
Mas, quem foi Bolívar, e qual foi realmente sua herança?
Marx e a biografia pouco heróica de
Simon Bolívar
Em artigo escrito em 1858, intitulado Bolívar y Ponte,
Marx relata as falsas façanhas de El Libertador durante
as guerras antiespanholas. Marx apresenta Bolívar como
um falsário, desertor, conspirador, mentiroso, covarde,
saqueador, etc.
Marx tinha clareza do papel de classe desempenhado por Bolívar
nestas lutas, mostrando-o como um típico representante
de setores da tradicional burguesia criolla local: "Bolívar
y Ponte, Simon, o Libertador' da Colômbia nasceu...
em Caracas (...) Descendia de uma das famílias mantuanas,
que, na época da dominação espanhola, constituíam
a nobreza criolla na Venezuela".
Para Marx, Bolívar, ao final dos conflitos anticastelhanos,
com a vitória dos exércitos nacionalistas, foi transformado
em um falso símbolo de toda a luta antiimperialista latino-americana,
fundando, o assim chamado "bolivarismo", o qual consiste
basicamente em proclamar a libertação nacional dos
povos oprimidos contra o imperialismo sem, no entanto, alterar
fundamentalmente as relações entre as classes sociais,
quer dizer, sem alterar a estrutura sócio-econômica.
Do ponto de vista de Marx a "revolução"
hispano-americana conduzida por Bolívar teria sido, no
melhor dos casos, uma imitação pálida das
revoluções burguesas européias, nunca indo
além de um esforço para uma maior liberdade de comércio
e de melhores condições para explorar os trabalhadores
latino-americanos. Marx nunca glorificou Bolívar simplesmente
porque nunca percebeu em sua trajetória político-militar
uma só ação que pudesse indicar, para a classe
trabalhadora latino-americana e mundial, qualquer progresso na
luta pela liberdade humana. Ao contrário, Marx mostrava
claramente a natureza e os limites de classe da assim chamada
"revolução bolivariana".
A emancipação dos negros escravos realizada por
Bolívar, por exemplo, não estava relacionada a uma
suposta consciência humanista do "herói",
mas ao medo instalado na burguesia criolla de uma possível
revolução popular, após a independência,
contra a própria classe dominante local. Para evitar tal
suposta revolta popular, Bolívar inventou uma solução
bastante original e que, por obra do destino, ficou registrada
pelo punho do próprio "Libertador" numa carta
endereçada a seu principal general, Santander, em 20 de
abril de 1820.
Nesta carta, Bolívar esclarece que a liberdade concedida
aos negros que se alistassem no exército nacional não
estaria ligada à necessidade de aumento do efetivo do exército,
mas estaria sim diretamente ligada à necessidade de diminuição
de seu perigoso número, ou, em outras palavras, do perigo
de uma possível "Haitiização" revolucionária
de todo o continente. O recrutamento dos negros às fileiras
do seu exército servia assim para eliminá-los em
combate.
Como proclamou Bolívar: "De acordo com o artigo
3o da Constituição: todos os escravos úteis
para os serviços das armas serão destinados ao exército.'"
"Salvo engano - continua ele - isto não é
declarar a liberdade dos escravos e sim usar a faculdade que me
dá a lei (...) Não será útil que estes
adquiram seus diretos no campo de batalha e que diminua seu perigoso
número por um meio poderoso e legítimo?" (In:
Bolívar. Bellotto & Correa. SP: Ática, 1983,
p.50).
Uma das partes mais interessantes do artigo de Marx sobre o
"Libertador" é quando destaca o quanto o exército
rebelde estava dependente do apoio externo, em especial do imperialismo
industrial britânico e das milícias mercenárias
oriundas da Europa, as quais, segundo Marx, foram decisivas nas
lutas vitoriosas de libertação de Nova Granada (atuais
Venezuela, Colômbia e Equador). Como escreve Marx: "[Em
1818] chegou da Inglaterra uma forte ajuda sob a forma de homens,
navios e munições, e oficiais ingleses, franceses,
alemães e poloneses afluíram de toda parte para
Angostura... as tropas estrangeiras, compostas fundamentalmente
por ingleses, decidiram o destino de Nova Granada... em 12 de
agosto Bolívar entrou triunfalmente em Bogotá".
Como podemos perceber, Bolívar livrou a América
Latina do já retrógrado império castelhano
apenas para pô-la, então, sob o jugo do imperialismo
industrial britânico e posteriormente sob aquele do imperialismo
do norte-americano.
Enfim, Marx tinha tão pouca admiração
por Bolívar que o acusa de ser uma paródia de Napoleão
Bonaparte, um novo Bonaparte na América. Talvez até,
a paródia da paródia da paródia: o compara
ao ditador golpista do Haiti, Soulouque, que já era a caricatura
de Luis Napoleão III da França, o Bonaparte paródia
do Bonaparte I. Como escreveu, em Herr Vogt: "A força
criadora de mitos, característica da fantasia popular,
em todas as épocas tem provado sua eficácia inventando
grandes homens. O exemplo mais notável deste tipo é
sem dúvida Simon Bolívar". E Marx, em carta
de 14/02/1858, comenta com Engels: "Teria sido passar dos
limites querer apresentar Napoleão I como o canalha dos
mais covardes, brutal e miserável. Bolívar é
o verdadeiro Soulouque".
Hugo Chávez: o Bolívar do século
XXI
No entanto, mesmo o caráter covarde, traidor e mentiroso,
etc, com que Marx pintou a figura de Bolívar, parece não
ter sido suficiente para que, no século XX, a dita esquerda
"marxista" latino-americana abandonasse de vez por todas
a idolatria a este pseudo-herói. Ao contrário, essa
esquerda o transformou em uma referência para a classe trabalhadora
latino-americana, passando a inventar o "Bolivarismo"
como um símbolo de toda uma suposta luta antiimperialista
latino-americana.
Como dissemos acima, neste início do século XXI,
o exemplo mais claro de sobrevivência e ressurgimento do
Bolivarismo Bonapartista latino-americano está representado
na figura do Coronel Hugo Chávez, presidente da Venezuela.
Chávez, militar de carreira, protagonizou um golpe militar
fracassado na Venezuela em 1992, sendo preso e libertado dois
anos depois. Em 1998 foi eleito, pelo voto direto, presidente
da República. Em 1999 criou uma nova Constituição
mudando o nome do país para "República Bolivariana
da Venezuela"
Desde então, ano após ano, Chávez vem
aumentando seu poder. Em 2005, graças ao boicote às
eleições promovido pelos partidos de oposição,
ganhou a maioria total na Assembléia Nacional. Agora, reeleito
presidente em 2006, com 63 % dos votos, apesar de seu controle
de 100% do Parlamento, aprovou no último dia 31 de janeiro
a chamada "Lei Habilitante" que lhe concede poderes
extraordinários, incluindo o direito de governar por decretos
durante 18 meses. Várias vezes, já ameaçou
a oposição com uma reforma constitucional que lhe
permitiria infinitas reeleições, se perpetuando
no poder de forma vitalícia.
Ao ser eleito pela primeira vez em 1998, Chávez prometeu
acabar com a miséria que assola a maioria absoluta do povo
venezuelano. Não obstante, de lá para cá,
os pauperizados diminuíram somente de forma relativa no
país: a pobreza, em geral, diminuiu de 49,9% da população
em 1999 para 37,1% em 2005, e a chamada miséria absoluta
passou de 21,7% para 15,9%. No entanto, esta mudança se
deve à implementação de programas assistencialistas
promovidos por Chavez nestes últimos anos e não
a um aumento significativo da renda dos trabalhadores. De fato,
os níveis de desemprego em 2005 são maiores do que
quando assumiu o governo em fevereiro de 1999 (11,3% em 1999 contra
12,4% em 2005). De qualquer forma, pelo menos 53% da população
total do país continua vivendo ou na pobreza ou na miséria
absoluta (os dados são da CEPALComissão Econômica
para a América Latina e o Caribe).
Além disso, o relativo sucesso dos programas assistencialistas
de Chávez deve-se em grande parte às riquezas naturais
do subsolo venezuelano, sobretudo, do petróleo. Por isso,
o seu governo vem realizando processos de renegociação
dos contratos com as corporações estrangeiras de
energia, apresentando estas negociações como "nacionalizações".
Desta forma, a empresa petroleira PDVSAPetróleos
de Venezuela SA passou a ter 51% das ações
da empresa sob controle do estado, ficando os outros 49% sob controle
do capital privado (predominantemente estrangeiro). De acordo
com presidente bolivarista, o maior inimigo do povo da Venezuela
seria o imperialismo norte-americano, porém, este inimigo,
ao mesmo tempo, se constitui no maior parceiro comercial do governo
de Chávez, sendo o principal comprador do petróleo
venezuelano.
Chávez e sua dependência do petróleo
Segundo dados da CEPAL para 2005-2006, mais da metade das exportações
da Venezuela, em especial de petróleo cru, tem como destino
o mercado norte-americano. O mesmo percentual é válido
para a importação de produtos manufaturados: pelo
menos metade do que a Venezuela importa de produtos acabados vem
do inimigo/parceiro Estados Unidos.
Na verdade, o atual crescimento econômico da Venezuela
está baseado na enorme demanda mundial por petróleo
(o país é o quinto maior produtor mundial), do qual
os EUA, como dissemos, é seu maior consumidor. Em 1999,
primeiro ano do governo Chávez, o país produzia
menos de 2,8 milhões de barris/dia. Já em 2005,
segundo dados da própria PDVSA, a produção
diária atingiu a casa dos 3 milhões e trezentos
mil barris/dia.
O que fica claro é que o bonapartismo chavista repousa
totalmente na altíssima demanda mundial por petróleo.
O aumento em torno de 20% da produção entre 1999
e 2005 ocorreu sob as circunstâncias de um aumento substancial
do preço do barril no mercado mundial. Em 1999 o barril
custava 25 dólares, em 2005 atingiu a casa dos 55 dólares.
Em 2006, com a especulação em torno da invasão
americana do Irã (quarto maior produtor), o barril de petróleo
ultrapassou a casa dos 70 dólares, preço bem próximo
daquele recorde de 1979 quando da revolução iraniana.
Mesmo agora, no início de 2007, passados os boatos de possíveis
novas guerras americanas, o preço do barril de petróleo
continua acima dos 50 dólares (CEPAL).
Chávez e sua "revolução bolivariana"
estão inteiramente amparados na altíssima demanda
mundial por combustíveis fósseis, impulsionada em
especial pelas guerras estadunidenses no Oriente Médio.
Neste sentido, George W. Bush não é na realidade
o maior inimigo de Chávez, como afirma este, mas, exatamente
o contrário: é graças a esta política
militarista de Bush que Chávez consegue arrecadar dividendos
fantásticos para a economia do país. Bush é,
na verdade, se não o melhor amigo do seu governo, pelo
menos seu maior parceiro nos negócios, pois, sem esta contraditória
parceria, Chávez certamente não teria como implantar
o enorme programa assistencialista de redução da
pobreza e da miséria absoluta no país levado a cabo
nos últimos anos. Este programa, no entanto, não
significa nenhum desenvolvimento real da economia venezuelana
como um todo, mas sim, um dos pilares fundamentais do bonapartismo
de Chávez.
Para mostrarmos ainda mais claramente a dependência de
Chávez do petróleo e da política belicista
de Bush, basta comparar os dados da economia venezuelana desde
a primeira posse de Hugo Chávez como presidente do país
até os dias atuais. Nos anos de 1999, 2002 e 2003 o PIB
da Venezuela teve uma queda monstruosa de cerca de 24%. Nos anos
de 2004 e 2005, contudo, anos de alta produção petrolífera
e de preços internacionais favoráveis, o PIB venezuelano
cresceu em índices extraordinários que chegaram
a 27,2%. Neste mesmo período, como já indicamos,
os preços do petróleo saltaram de 25 dólares/barril
para mais de 50 dólares. Porém, na média
dos 7 anos de "revolução bolivariana"
(1999-2005), descontando-se as altas e baixas do ciclo econômico,
o PIB venezuelano cresceu a uma taxa média de medíocres
1,5% anuais. Em 1999, os rendimentos do governo com o petróleo
alcançaram a cifra de 3.947.429 milhões de bolívares.
Em 2005 estes rendimentos pularam para 40.703.315 milhões
de bolívares, um aumento real de cerca de 1.000% (CEPAL,
Estudio Económico 2005-2006).
Chávez não tem a intenção de romper
com o imperialismo e com o domínio dos bancos sobre a economia
do país. Para percebermos isto, basta observar a conta
dos juros da dívida pública que o país paga
anualmente aos banqueiros. Em 1999 Chávez pagou aos credores
do país a cifra de 1.647.017 milhões de bolívares;
já nos anos de 2003, 2004 e 2005 pagou a monstruosa cifra
de 23.017.422 milhões de bolívares (um aumento de
cerca de 1.400%).
Para termos uma idéia mais clara do compromisso de Chávez
tanto com a burguesia imperialista quanto com parte de uma nova
burguesia criolla nacional, basta darmos uma olhada nas cifras
pagas aos credores financeiros pelos governos que o precederam
e as posteriores. Entre 1990 e 1998, por exemplo, o Estado venezuelano
pagou 4.863.869 milhões de bolívares em juros da
dívida pública. Esta cifra paga ao longo de 9 anos
é igual à cifra paga por Chávez em apenas
em um único ano (CEPAL).
O "socialismo Bolivarista do século XXI" de
Chávez é um socialismo que está totalmente
adaptado às necessidades do capitalismo mundial. As corporações
multinacionais, apesar das tão alardeadas "nacionalizações",
continuam a operar livremente no país e a ter seus lucros
garantidos pelo próprio governo venezuelano, como dito
no próprio site da estatal petroleira PDVSA: "O Executivo
Nacional deixou claro que em caso algum se questiona a presença
das empresas em nosso país e que as mesmas obtenham seus
respectivos lucros, produto de seus investimentos, mas o que exigimos
de maneira irredutível é que esta participação
se faça no marco do respeito à nossa lei e à
nossa soberania".
Simon Bolívar, amparado na força do exército
e numa suposta libertação das classes oprimidas,
foi uma das grandes caricaturas latino-americanas do Bonaparte
III do século XIX. Hoje, Chávezque baseia
seu poder econômico e político sobre a classe trabalhadora
não em um programa socialista para a transformação
da sociedade, mas em uma sustentação assegurada
pelo exército e em uma política assistencialista
tornada possível graças aos altos preços
do petróleoaparece como o simulacro moderno de Bolívar,
ou melhor ainda, como o simulacro do simulacro, o Bonaparte Latino-Americano
do século XXI.
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