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Brasil: Excesso de trabalho degrada saúde de bancários

Por V. Hugo
4 de junio de 2007

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Os bancos brasileiros lideram uma sombria estatística. De todos os setores, o setor bancário é o que mais causa os chamados DORTs (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho), que incluem doenças da coluna, tendinite, bursite e LER (Lesão por Esforço Repetitivo). Os DORTs são lesões que reduzem a capacidade das pessoas realizarem movimentos. O grau de limitação varia segundo o estágio da doença e pode evoluir de parcial a total, se o trabalhador não for afastado das atividades que as provocaram.

O Ministério da Previdência Social informou que, de 2000 a 2005, 25.080 bancários foram afastados do trabalho por causa de dores relacionadas aos DORT, o que representa 5,2% da categoria. Apesar da conhecida predisposição causada pelo tipo de trabalho, os bancos se negam a reconhecer todos os casos como sendo acidente de trabalho. Dos 25.080 eles reconheceram apenas 8.700.

Para identificar as causas dos DORTs é necessário considerar vários fatores do ambiente de trabalho que podem causar o aparecimento das lesões. Fatores como o estresse, tarefas repetitivas, excesso de atividades, equipamentos ergonomicamente inadequados, monotonia das tarefas, são algumas das causas mais freqüentes destes distúrbios.

Mas por que os trabalhadores são submetidos a estas condições? Por que os benefícios do alto desenvolvimento tecnológico não são repassados aos bancários? Por que há o aumento da intensidade de trabalho, apesar da maior sofisticação e eficiência dos equipamentos utilizados nos bancos?

No sistema atual, o desenvolvimento tecnológico só gera desemprego e doença

O aumento da ocorrência de doenças causadas pelo excesso de trabalho está diretamente relacionado com a diminuição do número de trabalhadores empregados. Na última década do século passado, o setor bancário empregava 800 mil trabalhadores. Ao final da década, este número estava reduzido pela metade: havia apenas 406 mil bancários em atividade em dezembro de 1999. A destruição da categoria dos bancários pode ser observada também no número de trabalhadores por agência. Em um pouco mais de 5 anos - de dezembro de 1994 a abril de 2000 - este número diminuiu de 30,2 para 24,2.

São vários os fatores que têm contribuído para a redução do número de bancários. Em primeiro lugar, a automação permitiu eliminar a interferência direta do trabalhador numa série de tarefas que compõem o processo de trabalho bancário. Houve um imenso investimento em infra-estrutura de telecomunicações e informática: somente nos anos de 1998 e 1999 foram investidos cerca de R$ 4,3 bilhões. Segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban), o número de equipamentos de auto-atendimento dentro e fora das agências passou de 31.400 em dezembro de 1994 para 97.697 cinco anos depois, e, no mesmo período, o número de usuários de home/office banking passou de 107.600 para 5.920.000 (sendo 620.000 empresas). Alguns dos grandes bancos, por exemplo, o Banco do Brasil e o Banco Itaú, divulgaram que mais de 70% de suas transações são realizadas via auto-atendimento e atendimento remoto.

Outro elemento importante na redução de empregos são as novas formas de organização do trabalho. Ao longo do tempo, foi se aperfeiçoando uma forma de organização no interior das empresas bancárias que modifica as rotinas de trabalho e o conteúdo das funções, geralmente dispensando o trabalho de controle e supervisão exercido pelas chefias intermediárias e criando grupos de trabalho que assumem novas tarefas e se responsabilizam por sua execução.

A terceirização também representa uma nova forma de organização dos serviços nos bancos. As empresas transferem parte das tarefas originalmente desenvolvidas por bancários para outras empresas, o que, além da redução do emprego nos bancos, geralmente leva à redução dos salários e ao aumento da jornada de trabalho.

Há também o desrespeito à jornada de trabalho do bancário - com a realização indiscriminada de horas extras - diminuindo assim o número efetivo de empregos mantidos pelos bancos.

Por meio de todos estes métodos, o setor bancário passou por momentos caracterizados como “ondas de redução de postos de trabalho”, nos quais se verificaram uma intensa e concentrada destruição de empregos. A primeira onda ocorreu após o Plano Cruzado (março a dezembro de 1986 -109 mil empregos destruídos); a segunda onda após o Plano Collor (março de 1990 a fevereiro de 1992 - 128 mil) ; a terceira onda ocorreu com a introdução do Plano Real, em julho de 1994, até o final de 1996 (quando houve a redução de 161 mil postos de trabalho).

Mas cabe perguntar: a causa destas demissões em massa durante este período teria sido alguma dificuldade financeira enfrentada pelos bancos?

A situação dos bancos nos últimos 20 anos

A explosão da dívida externa na década de 70, contraída pelos governos militares - que passou de US$ 3,8 bilhões em 1968 para US$ 12,6 bilhões em 1973 - fez com que os governos civis que assumiram na década seguinte, governos estes comprometidos com o mesmo projeto dos militares - isto é, a defesa dos interesses do grande capital - passaram a emitir títulos públicos a fim de gerar recursos para saldar a dívida. Os títulos públicos se tornaram uma fonte inesgotável de lucros para os bancos. De agente de crédito para o setor privado, o sistema financeiro se tornou o maior credor do Estado. Passou a se desenvolver então, no Brasil, mais uma das formas de acumulação originária do capital: a utilização do Estado como meio de enriquecimento privado por intermédio da dívida pública.

Na década de 90 ocorreria outra mudança significativa. Com os avanços nas telecomunicações e a elevada concentração de riqueza, o mercado se tornou ainda mais especulativo. Em 2001, por exemplo, a circulação financeira mundial já movimentava US$ 1,8 trilhão por dia, enquanto a troca de mercadorias e serviços beirava US$ 25 bilhões - uma diferença de setenta vezes entre a economia especulativa e a real.

No Brasil, o triste reinado de Fernando Henrique Cardoso foi o principal indutor desta orgia financeira. A partir do Plano Real, o Banco Central foi progressivamente criando um conjunto de normas que redesenhavam o quadro institucional no qual operavam os bancos. Após uma sucessão de intervenções e liquidações que envolveram 22 bancos em menos de dezoito meses, o Banco Central implantou, em 1995, o Programa de Estímulo à Reestruturação do Sistema Financeiro Nacional (Proer). O programa teve um custo de R$ 21 bilhões.

O governo Lula, por sua vez, não interrompeu a orgia financeira. Os lucros dos 50 maiores bancos brasileiros saltaram de R$ 12,7 bilhões nos primeiros nove meses do governo Lula, em 2003, para R$ 23,4 bilhões nos nove primeiros meses de 2006. Erivelto Rodrigues, presidente da Austin Rating, afirmou à Gazeta Mercantil em 06/12/06 que “os bancos ganharam nos últimos quatro anos mais do que em oito anos do governo anterior”. E os bancários, como estariam durante o governo “dos trabalhadores”?

A situação dos bancários durante o governo Lula

Em 2003, primeiro ano do governo Lula, a já reduzida categoria dos bancários perdeu mais 10.000 empregos. Em 2006, no entanto, o crescimento da economia mundial estimulou o setor bancário, que apresentou uma certa recuperação do nível de emprego, com a contratação de 24.971 e a demissão de 16.517 trabalhadores (uma recuperação de 8.454 empregos). No entanto, cabe observar um detalhe importante: enquanto o salário médio dos trabalhadores admitidos era de R$ 1.726,00, o salário médio dos demitidos era de R$ 2.891,00, o que representa uma perda salarial média de R$ 1.165,00. Assim, por meio da substituição dos trabalhadores mais experientes e melhor remunerados por outros menos experientes e, por isso, pior remunerados, o capital, mesmo em situações de elevado crescimento econômico, vai aprofundando o processo de concentração de riquezas em poucas mãos e empobrecendo a maioria da população. Apesar de muitos ministros do primeiro governo Lula serem ex-bancários e sindicalistas defensores dos bancários, como Gushiken e Berzoini, os trabalhadores dos bancos só perderam durante o governo Lula.

As condições de trabalho em outros setores

Se o setor bancário é o que mais degrada a saúde dos trabalhadores urbanos no Brasil, isto não significa que as condições de trabalho enfrentadas pelos trabalhadores de outros setores sejam satisfatórias. O ministério da previdência informou alguns dados alarmantes: entre 2000 e 2004, enquanto no setor bancário, em cada 10.000 trabalhadores, 520 adquiriam os LER, outros setores não ficaram muito atrás. Entre os operários que fabricam tênis, este índice foi de 392,43 trabalhadores para cada 10.000; na fabricação de peças interiores de vestuário, 298,10; no processamento e produção de conservas de frutas, 277,04; na fabricação de automóveis, camionetes e utilitários, 272,33; na fabricação de material elétrico para veículos, 271,06; na tecelagem de algodão, 269,47; no abate e produção de produtos de carne, 238,60; na fabricação de peças para direção e suspensão, 237,84; e no setor de carga e descarga, 219,77. Ao todo são 1.667.806 casos de LER registrados no Brasil entre 2000 e 2005.

No capitalismo, a perspectiva dos trabalhadores é o desemprego, a diminuição dos salários e a doença. A grande maioria da classe trabalhadora está desempregada ou adoecendo por causa do excesso de trabalho. É a irracionalidade desta sociedade baseada no lucro, que destrói tanto os homens que trabalham quanto aqueles que não têm onde trabalhar.