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Alemanha: greve da Deutsche Telekom entra na segunda semana

Grevistas se manifestam em Munique

Por nosso repórter
30 de maio de 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 22 de maio de 2007.

Após a recente aprovação da greve por ampla maioria dos trabalhadores da Deutsche Telekom, cerca de 2.500 trabalhadores realizaram uma manifestação em Munique, na segunda-feira, dia 18 de maio. O sentimento dos trabalhadores, a maioria dos quais viajou da Bavária, variava da indignação pela atitude arrogante da administração, à revolta pelo fato de que os trabalhadores temporários tenham sido levados a uma empresa para serem utilizados como fura greves.

No dia anterior, o premiê do estado vizinho Baden-Württemberg, Günther Öttinger (da União Democrática Cristã — CDU), ameaçou os grevistas, afirmando que a greve colocava “a Telekom sob risco de morte”. Isso serviu somente para irritar ainda mais os trabalhadores. Prova disso é que 96,5% deles votaram a favor da greve.

A realidade é exatamente o oposto do que afirma Öttinger. Os planos da administração de reempregar cerca de 50.000 dos trabalhadores numa companhia interna de serviços, com o objetivo de aumentar a jornada de trabalho e diminuir drasticamente os salários, ameaça levar à ruína a vida de muitos trabalhadores e suas famílias. Além disso, a privatização da companhia — realizada simplesmente para extrair lucros imediatos — arruinou o que foi um dia uma empresa eficiente que propiciava serviços de alta qualidade.

Enquanto representantes do grande capital e políticos atacam os grevistas, a greve encontra amplo apoio entre a população. Uma pesquisa realizada pelo canal de televisão ZDF constatou que 77% das 1.260 pessoas entrevistadas concordavam com a greve. Essa simpatia pôde ainda ser vista na manifestação realizada na capital do estado da Bavária. Os trabalhadores da universidade e da clínica universitária de Munique, assim como de outras empresas e instituições, compareceram para expressar o seu apoio aos grevistas.

Muitos dos manifestantes carregavam cartazes e faixas afirmando que os cortes salariais de 20 a 40% representam a gota d´água. No passado, os cortes eram aceitos porque muitos trabalhadores confiavam na direção da empresa, acreditando no argumento de que tais “medidas temporárias” eram necessárias para garantir a melhoria da situação.

A arrogância do novo presidente da companhia, René Obermann, ao defender o lucro dos acionistas, fez com que diversos cartazes se referissem a ele como o representante do capitalismo de estilo “barão-ladrão”.

O World Socialist Web Site conversou com diversos manifestantes que descreveram a situação na companhia e os efeitos dos cortes, enfatizando a necessidade da greve.

Richard K., que trabalha há 37 anos na Deutsche Telekom (anteriormente na Bundenpost), descreveu o sentimento existente entre os trabalhadores como sendo de grande tristeza. “Muitos se sentem traídos ou vendidos. Os trabalhadores são os que produzem os lucros e a maior parte vai direto para os bolsos dos acionistas. As coisas se tornaram muito piores desde a privatização, há 12 anos. Enquanto nós somos penalizados por cada erro que cometemos, pessoas como Ron Summer (ex-presidente da empresa) recebem compensações por seus erros”.

Richard K. chamou a atenção para o fato de que a atual reestruturação certamente não foi a primeira que os trabalhadores tiveram que enfrentar. Há quatro anos foram cortadas horas de trabalho (com um correspondente corte nos salários), sendo cortados também o pagamento dos feriados e bônus do natal. “Nós aceitamos isso porque pensamos que isso garantiria nosso emprego”.

Richard diz os cortes nos salários serão desastrosos para ele e sua família. “Eu tenho quatro filhos”, disse ele, “três estão estudando, e um deve começar logo. Eu não sei como vou sustentá-los. A partir desse ano, todo estudante tem de pagar €500 em impostos de educação. Eu não sei como um trabalhador comum pode pagar isso”.

Detlev S. e Klaus P., ambos trabalhadores há mais de trinta anos na Deutsche Telekom, contaram histórias semelhantes. Eles disseram que as várias reestruturações ao longo dos últimos anos têm representado somente ataques aos trabalhadores e consumidores, sendo que muitos de seus colegas pediram demissão. Se o reemprego de 55.000 trabalhadores planejado pela administração se tornar realidade, isso pode “afetar toda a produção. Isso abrirá completamente as portas para transformar os trabalhadores em escravos”, disse um deles.

O fato de que o governo controla 32% das ações, o que lhe garante uma grande influência nas políticas da companhia, não trouxe benefícios aos trabalhadores, dando carta branca a pessoas como Obermann, sem levar em consideração que o resultado seja a degeneração das condições de vida dos trabalhadores e a degradação da instituição pública, afirmaram os dois operários.

Existe um abismo enorme entre os trabalhadores grevistas e a direção do sindicato, que está pronta a se comprometer com a empresa e quer manter a luta sob controle. A impressão dada pelos representantes do sindicato Verdi e pelo seu presidente, Franc Bsirske, que fez o principal discurso, foi a de que — apesar da crítica muito seria à administração da Telekom — eles não têm como se opor aos ataques da administração da Deutsche Telekom e, por isso, prefeririam ver a greve terminada imediatamente.

Em seu discurso, Josef Falbisoner, dirigente do Verdi na Bavaria, reclamou da irresponsabilidade da administração da Telekom e dos políticos. A esse respeito, ele lembrou o “enorme fracasso” que representou a privatização da empresa, condenando diversas vezes os erros da administração como sendo os responsáveis pelo fato da Telekom ter hoje 120.000 trabalhadores a menos do que na época anterior à privatização.

Mas isso não o impediu de buscar, na conclusão de seu discurso, uma reaproximação com a administração. Falbisoner pediu aos representantes da administração que “viessem à mesa de negociações” e “negociassem um acordo coletivo”.

O discurso do presidente do Verdi, Bsirske, foi semelhante. Depois de falar genericamente sobre a desigualdade social, ele atacou a política da administração da Telekom. Criticou o fato de que os lucros obtidos à custa dos trabalhadores são repassados diretamente aos acionistas.

Ele falou contra as grandes ameaças e intimidações que estão sendo feitas pela administração contra os grevistas e denunciou os “bônus aos fura-greves” oferecidos pela Telekom. Bsirske acusou a administração de não saber o que está acontecendo na companhia. Esses “diletantes”, disse ele, reorganizaram a empresa pelo menos 18 vezes, prejudicando a Telekom. A esse respeito, ele se ofereceu a cooperar com a companhia: o sindicato criou uma “aliança por um serviço de qualidade”, a fim de melhorar a performance da companhia e atender o interesse dos consumidores.

Bsirske disse que os planos de reemprego de Obermann destroem as condições de vida dos trabalhadores. Todavia, ele não disse que o Verdi rejeita o reemprego por princípio, mas apenas deseja que ele seja “realizado de uma forma mais socialmente aceitável”. O sindicato quer chamar a atenção para os “limites” do projeto da Telekom, disse Bsirske, alertando que se a ela tiver sucesso “na realização desse programa”, tais métodos serão em breve “espalhados” para outras companhias. Mas ele rejeita a conclusão de que isso pudesse significar a necessidade de expandir a greve para todas as outras áreas. Ao invés disso, o Verdi está limitando a luta somente aos trabalhadores diretamente afetados, o que faz com que a greve fique isolada e enfraquecida.

Todos aqueles que têm acompanhado as políticas de Bsirske e do Verdi nos últimos anos sabem muito bem que a última coisa que eles têm em mente é criar uma rivalidade séria com Obermann e a administração. Se hoje eles criticam a reestruturação dos últimos anos, parece que se esqueceram do fato deles terem concordado com essas medidas. Há seis anos, eles concordaram com o novo sistema de salários que rompeu com o contrato acordado pelo setor público, o que causou um enorme rebaixamento dos salários dos trabalhadores.

Uma declaração do WSWS distribuída na manifestação expõe claramente o papel dos sindicatos, declarando que, “na verdade, Obermann está servindo como uma ferramenta direta do governo alemão. Todas as decisões estratégicas importantes que dizem respeito a Telekom foram decididas pelo governo em conversas reservadas, realizadas entre o ministro das finanças, Peer Steinbrück (do SPD), e o ministro do trabalho, Franz Müntefering (SPD)”.

“Dois altos representantes do SPD dividem a direção da Telekom com seis sindicalistas e representantes do conselho de trabalhadores. Ingrid Matthäus Maier é a ex-vice-presidente da bancada do SPD no parlamento (Bundenstag) e representa a empresa estatal chamada Corporação de Empréstimos para a Reconstrução (KfW). O outro proeminente representante do SPD é Thomas Mirow, subsecretário de estado no departamento de finanças e braço direito de Steinbrück. Mirow desempenhou um papel chave na elaboração e implementação da estratégia de Lisboa, que tinha como objetivo aumentar a capacidade competitiva da Telekom na União Européia. Muitas das iniciativas por cortes de custos e pela reorganização da Telekom tiveram origem em seu escritório.

“A presença de Matthäus Maier e Mirow significa que os social-democratas, somados aos representantes sindicais, têm a maioria entre os 15 integrantes do conselho da Telekom e poderiam, se quisessem, ter derrotado a administração na votação”.

“Estas relações revelam o completo vazio e hipocrisia da postura adotada pela direção do Verdi na greve. Seus discursos radicais nas assembléias procuram somente encobrir os traços oportunistas de suas próprias políticas”.