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Barbárie avança:

Planos de Lula e Bush reduzem vida útil dos cortadores de cana de são paulo àquela dos escravos do Século XIX

Por V. Hugo
10 de maio de 2007

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Uma pesquisa feita pela professora Drª Maria Aparecida Moraes Silva, livre docente da UNESP (Universidade Estadual Paulista), comprova que a busca por maior produtividade tem obrigado os cortadores de cana a colher até 15 toneladas por dia. Esse esforço físico cada vez mais intenso está encurtando a vida útil dos 170.000 trabalhadores rurais da região produtora de cana-de-açúcar do Estado de São Paulo.

Nas décadas de 1980 e 1990 o tempo que os cortadores de cana permaneciam na atividade era de 15 anos, o que já é um período bastante reduzido, considerando que, naquela época, a expectativa de vida no Brasil era de 62 anos. Mas o mais alarmante é que o tempo de vida útil dos cortadores de cana está diminuindo, ao invés de aumentar. A professora, que vem pesquisando as condições de trabalho dos trabalhadores nos canaviais, afirmou que desde o ano 2000, a vida útil dos cortadores de cana “está por volta dos 12 anos”.

Em 1980, cada trabalhador cortava, em média, 8 toneladas de cana por dia. No final da década de 1990, os trabalhadores já cortavam, em média, 12 toneladas/dia, isto é, 50% a mais (FSP - 28/09/2005). Portanto, o tempo de vida útil está em relação inversa à intensidade do trabalho. Enquanto a vida útil dos cortadores de cana tem diminuído nas últimas décadas, a quantidade diária de cana cortada por cada trabalhador, ao contrário, tem aumentado permanentemente. Estudo da USP mostra que, para cortar dez toneladas, são necessários 9.700 golpes de podão - instrumento usado no corte da cana. O trabalhador que corta 15 toneladas tem que dar 14.550 golpes num só dia.

A conseqüência disso não pode ser outra senão a degradação física. A professora da UNESP afirma que, devido à ação repetitiva e ao esforço físico, os cortadores de cana “começam a ter problemas de coluna, nos pés, câimbras, e tendinite”. A professora conclui que “esse trabalho tem provocado a dilapidação dos trabalhadores”. O depoimento que o trabalhador de 33 anos, José Lúcio Oliveira, concedeu à Folha de São Paulo confirma o comentário da professora: “na última quinta-feira, senti dores nas costas e só consegui cortar 60 metros”. Oliveira costuma cortar 100 a 120 metros por dia.

Como é a vida de um cortador de cana?

Oliveira mora com mais dois colegas numa casa de dois cômodos em Pontal do Paranapanema (SP). Eles acordam às 4 horas da manhã para esquentar a marmita que levarão ao canavial. Às cinco da manhã já estão no ponto do ônibus que os leva ao local de trabalho, onde passam até 10 horas sob o sol. Eles fazem três paradas para comer durante o dia: a primeira às 7:15 horas; a segunda às 10 horas; e a última às 13 horas, quando, geralmente, a comida já está fria, fato que deu origem ao nome bóia-fria. Depois de milhares de golpes nos pés de cana, param de trabalhar às 16 horas, cansados, sujos e famintos. Chegando em casa, lavam a roupa e preparam a comida para a janta e para o próximo dia. O piso salarial da categoria no Estado de São Paulo é de R$ 410,00 por mês. Com muito esforço e degradando sua capacidade de trabalho, os mais fortes e hábeis conseguem ganhar até R$ 1.200,00.

Vida útil igual a dos escravos

Comparando as condições de trabalho dos cortadores de cana com a dos escravos africanos do século XIX, o historiador Jacob Gorender comenta que até 1850, o ciclo de vida útil dos escravos na agricultura era de 10 a 12 anos. Depois que o tráfico de escravos africanos foi proibido, os proprietários passaram a cuidar melhor dos escravos, e a vida útil subiu para 15 a 20 anos.

A professora da UNESP afirma que os cortadores de cana têm, portanto, uma vida útil menor que a dos escravos africanos da segunda metade do século XIX. Isso ocorre porque os usineiros modernos e seus grandes fornecedores não precisam ter a preocupação de preservar a vida dos trabalhadores assalariados. Eles podem comprar a força de trabalho no mercado e usá-la com a máxima intensidade até que esta se desgaste completamente, para depois trocá-la por outra mais nova, pois o mercado de trabalho está repleto de desempregados que necessitam trabalhar para sobreviver.

O que ganham os usineiros com o aumento da intensidade do trabalho?

O usineiro paga o trabalho por tonelada de cana cortada. Isso faz com que o trabalhador se esforce ao máximo para produzir mais, pois, aparentemente, produzindo mais ele vai ganhar mais. Os patrões conseguem assim, por meio do pagamento por tonelada, estimular o aumento da intensidade do trabalho.

O principal benefício que tem o patrão ao estimular o aumento da intensidade do trabalho é de proporcionar, ao longo do tempo, a diminuição do valor real pago pela tonelada cortada e, conseqüentemente, a rebaixamento do piso salarial da categoria. Na década de 1980, o piso salarial dos cortadores de cana em São Paulo era equivalente a 2,5 salários mínimos. Hoje ele equivale a 1,08 salários mínimos. Com isso, os resultados do aumento da produtividade do trabalho são transferidos ao patrão, por meio da diminuição do valor real da tonelada cortada. Assim, com o passar do tempo, enquanto o lucro dos patrões aumenta, a renda média real dos trabalhadores tende sempre a cair, mesmo que eles cortem uma quantidade cada vez maior de cana por dia. Nisso reside a contradição fundamental do sistema atual: enquanto aqueles que não trabalham se enriquecem a cada dia, aqueles que trabalham têm que trabalhar mais e mais, e mesmo assim ficam cada vez mais pobres.

Portanto, o custo médio do corte manual de cana tende sempre a diminuir. Apesar desta tendência, a substituição dos trabalhadores pelas gigantescas máquinas de cortar cana parece inevitável. E qual será o futuro destes trabalhadores? Eles se somarão aos milhões de trabalhadores desempregados que se empilham nas periferias das grandes cidades. A perspectiva dos cortadores de cana, assim como os demais trabalhadores brasileiros e de todo o mundo na sociedade atual é o aumento da intensidade do trabalho, que leva à degradação da sua capacidade de trabalho e de sua própria vida, a diminuição do salário e, finalmente, o desemprego. Vale lembrar que muitos cortadores de cana chegam ao fim da carreira sem direito à aposentadoria.

Outra vantagem que a forma de pagamento por tonelada traz ao usineiro é a possibilidade de fraudar a pesagem da cana. A pesquisa realizada por Mariana Setúbal, num projeto vinculado à UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e divulgada em julho de 2005, estudou as condições de trabalho dos cortadores de cana na cidade de Campos (RJ). A equipe de pesquisa apurou que, apesar dos trabalhadores alegarem que ganhavam R$ 0,12/metro de cana cortada, o valor efetivamente pago, na maioria dos casos, era de até R$ 0,08/metro. Segundo a pesquisa, essa diferença era devido ao fato de que a metragem estabelecida por empreitada ficava a critério do apontador, que é um funcionário de confiança do usineiro.

Repercussões políticas do pagamento por tonelada

Mas, afinal, o que pensam os trabalhadores em relação ao pagamento por tonelada? Para os cortadores de cana, essa forma de pagamento possibilitou que eles passassem a ser seus próprios “capatazes”. Por meio dessa forma de pagamento, a presença de um chefe que controle o ritmo do trabalho passou a ser supérflua. A ausência da presença permanente de um chefe aparece para os trabalhadores como a conquista de uma certa liberdade. Essa aparente liberdade estimula, por um lado, o desenvolvimento da individualidade, da independência e do autocontrole dos trabalhadores; por outro lado, estimula a concorrência entre eles e de uns contra os outros, pois eles sabem que aqueles que produzirem menos correm o risco de serem eliminados da turma. Vale dizer que a meta de colheita individual, em muitas fazendas, é de 10 a 12 toneladas por dia.

Em suma, o pagamento por tonelada tende a dividir os trabalhadores, dificultando a sua organização. Uma vez que, aparentemente, o salário de cada um depende somente de si próprio, o individualismo é estimulado ao máximo. Por isso, o pagamento por tonelada (ou por peça em outros setores da produção) é a forma mais sutil e sofisticada de exploração da força de trabalho.

“Sangue novo”

Por traz de toda a sutileza e sofisticação, o que os representantes do capital buscam, incessantemente, são novos meios de aumentar seus lucros. Assim, diante da crescente exigência de força física no trabalho do corte da cana, a procura por trabalhadores jovens é cada vez maior. Nesse sentido, Aparecida de Jesus Pino Camargo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba (SP), diz que a maioria dos cortadores de cana está na faixa de 25 a 40 anos, mas que há cada vez mais jovens de 18 anos na atividade.

Essa redução da idade média dos trabalhadores é estimulada pelos usineiros, pois os jovens têm os músculos, os nervos e os tendões mais sadios do que os mais velhos. Afinal, se a vida útil média dos trabalhadores é de 12 anos, um trabalhador de 30 anos que começou a trabalhar com 18, já está na fase de descarte. Por isso, os usineiros estão à busca de “sangue novo”. Os jovens trabalhadores contém a máxima potencialidade de trabalho a ser explorado.

A alta intensidade do trabalho pode levar à morte

A busca por maior produtividade alcançada pelo aumento da intensidade do trabalho é apontada como uma das responsáveis pelas mortes de 19 bóias-frias no interior paulista desde abril de 2004. Há quase dois anos, em setembro de 2005, o Ministério Público Federal, a ONU (Organização das Nações Unidas) e a Pastoral do Migrante do Guariba (SP) iniciaram uma investigação para apurar se as mortes dos trabalhadores estão relacionadas às precárias condições de trabalho. A suspeita era de que as mortes teriam ocorrido por excesso de trabalho, pois, em três casos seguidos, as vítimas eram migrantes e a causa das mortes foi a mesma: parada respiratória. Até hoje a investigação não foi concluída. A última morte ocorreu no dia 24 de abril deste ano, quando o trabalhador de 20 anos, Lourenço Paulino de Souza, que havia chegado de Tocantins, foi encontrado morto no final da tarde ao lado do ônibus, no seu primeiro dia de trabalho.

A classe dominante tenta se defender das acusações de trabalho escravo

O ex-ministro da Agricultura do governo Lula, Roberto Rodrigues, afirmou no dia 30 de abril, numa atitude que beira o sarcasmo, que o trabalho dos cortadores de cana é “bruto, pesado, mas bem remunerado”. Os usineiros fazem coro ao ex-ministro: “o salário está muito acima da média brasileira de remuneração”, afirma à Folha de São Paulo o usineiro Maurílio Biagi Filho.

Lamentável também é a opinião do professor de agronomia da UNESP, Ulisses Rocha Antoniassi, que diz: “o trabalhador não é obrigado a trabalhar muito, trabalha para ganhar mais, porque ganha por produtividade”.

Estes senhores desconsideram que, além das metas de produtividade existentes nas fazendas, os trabalhadores estão pressionados pela sazonalidade do trabalho. É o que afirma Wilson Rodrigues da Silva, presidente do Sindicato dos Empregados Rurais de Guariba: “o pessoal ganha de R$ 700,00 a R$ 1.200,00 só no período de safra. Mas e depois?”

Como se vê, o esforço do ex-ministro, do professor e do usineiro em defender a atual sociedade baseada no lucro, é incapaz de ocultar a dura realidade: enquanto os cortadores de cana são submetidos a condições inferiores às dos escravos do século XIX, os capitalistas ligados à rede mundial de produção e industrialização da cana, e da comercialização dos seus derivados, continuam aumentando seus lucros, tendo, a seu favor, o incentivo dos governos de seus respectivos países.

O incentivo de Lula e Bush ao grande capital internacional ligado à cana-de-açúcar

Os governos brasileiro e norte-americano aumentaram, a partir desse ano, o estímulo à produção de cana-de-açúcar no Brasil, esse setor deve exportar US$ 7 bilhões neste ano. Um dos objetivos da recente visita de George W. Bush ao Brasil foi fechar um gigantesco acordo sobre a produção de etanol, combustível derivado da cana. Vários estudiosos e representantes de entidades de classe vêem com preocupação o estímulo descontrolado à monocultura da cana. Nesse sentido, o advogado da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Aton Fon, afirma que o atual acordo entre Brasil e Estados Unidos para a produção de agro-combustível, dificulta a fiscalização do setor, tendo em vista que a preocupação do governo agora é aumentar o plantio de cana, e isso não prioriza as boas condições de trabalho dos cortadores. “O trabalhador deveria contar com o Estado para fazer a fiscalização, estabelecendo este regulamento. Mas neste caso se complica tudo, porque o Estado está do outro lado. Ao invés de fiscalizar para garantir a saúde do trabalhador, o Estado está, neste momento, mais interessado em garantir o aumento da produção do etanol, em garantir que os usineiros tenham maior acesso a crédito. Neste momento, a defesa dos trabalhadores está bastante desarticulada,” afirma o advogado.

Lula e Bush mostram, assim, que unidos com o grande capital levam a vida dos trabalhadores a níveis inferiores àqueles dos escravos. Seus governos nada mais fazem do que aprofundar as contradições desta sociedade que produz, de um lado, a dilapidação da vida de milhões de trabalhadores e, de outro, o enriquecimento desenfreado de uma pequena parcela da população mundial.

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