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Timor-Leste: Conspiração acentua-se quando ocorre
a rendição do líder duma alegada tentativa
de golpe
Por Patrick OConnor
6 de abril de 2008
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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês,
no dia 2 de maio de 2008.
Gastão Salsinha, o alegado co-líder do que foi
rotulado tentativa de assassinato contra o Presidente Xanana
Gusmão e o Primeiro-Ministro José Ramos-Horta
em 11 de Fevereiro, rendeu-se às autoridades em Dili na
Terça-feira. Salsinha é acusado especificamente
de atacar o veículo de Gusmão depois do antigo major
Alfredo Reinado ter sido morto a tiros por soldados na residência
de Ramos-Horta. O antigo tenente das forças armadas nega
essas alegações e insiste que nem ele nem Reinado
tentaram orquestrar um golpe ou assassinato.
A rendição de Salsinha veio, conjuntamente, com
o temor de mais revelações que colocam mais dúvidas
sobre a explicação oficial para os acontecimentos
lamacentos de 11 de Fevereiro, e apontam mais uma vez para a possibilidade
de o próprio Reinado ter caído numa cilada de assassinato.
Salsinha tinha andado em fuga com cerca de doze dos seus homens
nos distritos do oeste de Timor desde os alegados ataques contra
Gusmão. Ele liderou anteriormente os 600 soldados conhecidos
como peticionários. O seu motim em 2006 precipitou
ampla violência do que resultou a fuga de 150.000 Timorenses
das suas casas. O conflito foi seguido por uma intervenção
militar Australiana e a derrubada do governo da Fretilin liderado
por Mari Alkatiri.
Salsinha concordou formalmente em render-se na passada sexta-feira,
e passou os dias seguintes em negociações na cidade
do oeste de Gleno. Mas, ele rendeu-se, oficialmente, em Dili,
na terça-feira juntamente com 12 camaradas, ex-soldados,
incluindo Marcelo Caetano, que é alegado ter baleado Ramos-Horta.
Ramos-Horta encontrou-se publicamente com os soldados amotinados
em Dili quando entregaram formalmente as armas e se submeteram
à polícia timorense numa cerimônia realizada
no Palácio do Governo. Com o Primeiro-Ministro Gusmão,
em Jacarta, para conversações com o governo Indonésio,
o Vice-Primeiro-Ministro José Luis Guterres presidiu à
rendição e declarou isso como sendo um momento
histórico para o Timor-Leste.
No mês passado, Salsinha deu uma entrevista telefónica
ao programa Datelineda televisão da Austrália,
SBS . Na entrevista, disse ele: Há muitas acusações
acerca de nós, acerca da morte do Major Alfredo e do presidente
ser ferido e também sobre o ataque ao primeiro-ministro,
disse ele. Dizem todos que estávamos a planejar um
golpe. Mas estão a mentir. Seja o que for que digam estão
a tentar sujar a nossa reputação.... Estive lá
mas não tinha nenhuma intenção de fazer um
golpe ou prejudicar o primeiro-ministro. Se tivéssemos
planejado atacar o primeiro-ministro, ele não teria chegado
a Dili.
Salsinha disse ao Dateline que cedo, na manhã
de 11 de fevereiro, Reinado, que ele afirma, estava bêbado,
ordenou aos seus homens para o acompanharem a Dili para se encontrar
com Ramos-Horta e Gusmão. Salsinha disse que esperou numa
estrada que vai para a casa de Gusmão e que esperou por
mais instruções enquanto Reinado foi à casa
de Ramos-Horta.
Isso mantém obscuro o que aconteceu a seguir. Alguns
relatos dizem que Salsinha recebeu uma mensagem de texto a informá-lo
que Reinado tinha sido morto a tiro e que então o líder
dos peticionários tentou sem sucesso emboscar a caravana
de Gusmão. Mas, o deputado do governo, Mário Carrascalão,
questionou como ninguém teria sido ferido na alegada emboscada,
enquanto Mari Alkatiri insiste que a Fretilin tem provas fotográficas
que indicas que todo o incidente foi falsificado.
O programa Dateline, emitido em 16 de Abril, incluía
uma entrevista com um dos homens de Reinado, cujo nome de
guerra é Teboko, que esteve envolvido no confronto
em casa de Ramos-Horta. Teboko insiste que Reinado tinha uma entrevista
marcada com o presidente.
Tínhamos uma ordem de Alfredo para não
atacar a residência do presidente, disse ele ao programa
do SBS. É claro. Pode-se entender que, se íamos
para o atacar, podíamos tê-lo baleado em Maubisse
ou Suai quando o encontramos [previamente]. Não projetamos
isso. Isso não estava nas nossas mentes. Tínhamos
uma encontro marcado do presidente com o Major Alfredo e íamos
com dois veículos. Chegamos sem nenhuma preparação
armada ou militar. Como sabemos, da parte das F-DTL [militares
Timorenses], eles dispararam contra nós primeiro. Eles
mataram o Major Alfredo e o membro Leopoldino. O jornalista do
Dateline Mark Davis explicou: de acordo com
Teboko, cerca de 10 minutos depois de entrarem no complexo, sem
nenhum fogo de armas e nenhuma ameaça, Alfredo Reinado
foi de repente morto a tiros. Encontro encerrado.
Um relato similar foi feito por Natália Lidia Guterres,
a viúva de Leopoldino, o homem de Reinado que também
foi morto na residência de Ramos-Horta. Ela disse ao The
Australian que o marido entrou em casa às 3 da manhã,
em 11 de fevereiro, para mudar o uniforme. Contou ao jornal que
Leopoldino tinha dito Vamos ter um encontro com o Senhor
Presidente. O artigo, publicado em 19 de Abril, continuava:
Natália disse que Leopoldino parecia muito
feliz porque iam resolver coisas num encontro que a [Angelita]
Pires tinha arranjado.
The Australian sublinhou também que um mapa feito
à mão da residência de Ramos-Horta foi encontrado
no corpo de Reinado. Os detalhes foram alegadamente dados por
Albino Assis, um dos guardas militares de Ramos-Horta, que tinha
também trabalhado ao lado de Reinado na polícia
militar antes da crise de 2006. Dados telefónicos mostram,
supostamente, que Reinado falou com Assis imediatamente antes
do alegado ataque na residência de Ramos-Horta.
The Australian sugeriu que Assis tinha traído
Ramos-Horta e que estava colaborando com Reinado. Mas se fosse
esse o caso, porque é que Reinado entrou na casa do presidente
à procura dele quando ele estava fora, no seu regular passeio
matinal? Assis devia estar familiarizado com a agenda de Ramos-Horta.
Também não foi explicado o papel dum outro homem
que trabalhou no gabinete de Ramos-Horta e que foi visto no acampamento
de Reinado na noite antes da violência de 11 de fevereiro.
De acordo com o Dateline, o indivíduo não
identificado era membro dum grupo chamado MUNJ (Movimento para
a Unidade e Justiça) que atuou como intermediário
para Ramos-Horta e Reinado. O programa SBS reparou: Desde
os tiros contra Horta, o MUNJ tem estado particularmente calado
sobre a sua presença no acampamento de Reinado na noite
antes do ataque. Está claro que eles estavam a transmitir
uma mensagem de Horta, mas não se sabe nada sobre as horas
em que partiram.
O Relato Oficial Está Desmentido Pelo
Novos Fatos
O relato oficial do que ocorreu em 11 de fevereiro que
Reinado liderou um golpe ou uma tentativa de assassinato
caiu aos pedaços. É agora virtualmente certo que
o antigo major Reinado foi à residência do presidente
para falar com Ramos-Horta, e parece certo que tinha um encontro
agendado. Aquilo que aconteceu, e como exatamente foi morto
cerca de uma hora antes do próprio Ramos-Horta ter sido
ferido mantém-se obscuro.
A emissão de 16 de Abril da Dateline sugeriu
que Reinado receava que um acordo de anistia, que tinha acordado
com Ramos-Horta em meados de janeiro, estava em risco. Sobre os
termos deste acordo secreto, Reinado e os seus homens deviam submeter-se
à polícia, depois do que Ramos-Horta lhes daria
um perdão total. Mas em 7 de fevereiro, Ramos-Horta convocou
um encontro em sua casa envolvendo Gusmão, deputados do
governo e uma grande delegação da Fretilin. Segundo
relatos, os deputados disseram a Ramos-Horta que ele não
tinha autoridade para dar uma anistia a Reinado e que isso teria
que ser discutido em mais encontros agendados para 12 e 14 de
fevereiro.
O Dateline sugeriu que Reinado, tendo sabido do
que tinha sido discutido, tinha ido a Dili para confrontar Ramos-Horta,
que ele pensava que se estava a preparar para renegar o acordo.
Isto é certamente uma possibilidade. Extraordinariamente,
contudo, o programa da SBS falhou em saber que o item principal
na agenda do encontro de 7 de fevereiro de Ramos-Horta não
era a anistia a Reinado mas sim a formação de um
novo governo. O presidente tinha concluído que o governo
de Gusmão, que é cada vez mais impopular e dividido
por lutas internas, deixara de ser viável. Ele disse aos
deputados reunidos que concordava com o pedido da Fretilin da
realização de eleições antecipadas
para resolver a crise política. Gusmão discordava
duramente, contudo, insistia que a coligação continuaria
a governar sozinha.
O World Socialist Web Site sublinhou previamente que o Primeiro-Ministro
Gusmão tinha muito a ganhar com a morte de Reinado. De
acordo com a velha fórmula da investigação
cui bono (quem ganha?), a possibilidade de Gusmão,
ou as forças alinhadas com Gusmão, poderem ter algo
a ver com a eliminação do antigo major não
pode ser excluída. Os acontecimentos de 11 de fevereiro
resultaram certamente no cancelamento imediato dos encontros planejados
para 12 e 14 de fevereiro de Ramos-Horta. Aqueles acontecimentos
ameaçavam o avanço de mais movimentos para dissolver
o governo de Gusmão.
O primeiro-ministro cavalgou imediatamente a violência
para reclamar poderes autoritários sob a declaração
dum Estado de sítio (que se manterá
em força nos distritos do oeste de Timor até o fim
de Maio).
Mais ainda, a morte de Reinado ocorreu depois do antigo major
ter emitido um DVD que circulou amplamente onde acusou Gusmão
de instigar diretamente os protestos dos peticionários
em 2006 que desencadearam os eventos culminando na derribada da
administração de Alkatiri. Reinado tinha ameaçado
dar mais detalhes do alegado papel de Gusmão na operação
de mudança de regime.
Questões importantes acerca do papel
de Canberra
Reinado tinha relações há muito tempo
com a Austrália. Ele residiu no país como refugiado
nos anos de 1990 (a mulher e filhos continuam a viver em Perth),
e recebeu formação militar em Canberra depois de
ter regressado a Timor e ter-se juntado às forças
armadas do país. Em 2006, Reinado foi elogiado na mídia
da Austrália pelo seu papel na desestabilização
do governo de Alkatiri, que Canberra considerava demasiado alinhado
com a China e Portugal. Depois da polícia da ONU haver
prendido Reinado sob acusações de porte armas, ele
e os seus homens foram libertados duma prisão de Dili que
estava a ser guardada por tropas Australianas e da Nova Zelândia.
Soldados Australianos, incluindo forças de elite SAS,
então clamaram serem incapazes de localizar e deter o antigo
major enquanto ele emitia declarações públicas
regulares e dava entrevistas para a mídia mundial desde
a sua base no oeste de Timor. Isto era completamente implausível
o governo de Canberra, Austrália, tem uma extensa
rede de agentes dos serviços de informações
a operarem no Timor-Leste, bem como uma inteira divisão
dos serviços de informações. Por exemplo,
a Diretoria de Sinais de Defesa dedica-se a monitorar comunicações
eletrônicas.
Nos dias antes da morte de Reinado, o antigo major fez e recebeu
47 chamadas telefônicas para a Austrália. Continua-se
a não se saber com quem ele falava. Autoridades Timorenses
expressaram frustração sobre a dificuldade que têm
experimentado a obter informação das autoridades
dos serviços de informação da Austrália
acerca das gravações de voz e do texto das mensagens
que interceptaram. Autoridades da Indonésia, por outro
lado, forneceram imediatamente as suas informações
em relação com várias chamadas que Reinado
fez para o país.
Investigadores timorenses estão também à
espera por informações relativas a uma conta dum
banco de Darwin, contendo um 1 milhão dólares norte-americanos,
que Reinado tinha acesso. De acordo com o procurador-geral de
Timor-Leste, Longinhos Monteiro, Reinado foi informado que o dinheiro
tinha sido depositado na conta numa mensagem de texto enviada
por Angelita Pires, a sua amante e antiga intermediária
com os militares australianos. O Presidente Ramos-Horta, Salsinha,
e muitos dos homens de Reinado, todos, têm acusado Pires
de manipular Reinado e de provocar a violência ocorrida
em 11 de Fevereiro. Não foram ainda feitas acusações
criminosas contra Angelita Pires.
Ramos-Horta tem pedido publicamente que Canberra explique como
a soma do milhão de dólares passou sem detecção,
particularmente à luz dos alertas automáticos que
se aplicam por rotina a grandes depósitos sob as rigorosas
leis bancárias da Austrália. Ele também condenou
a falta de ação do governo australiano. Dois
meses [depois] e não vi nenhuma ação para
forçar o banco na Austrália para libertar a informação,
disse ele na ABC radio. Quero isto resolvido muito, muito
rapidamente, de ouro modo levarei a questão ao conselho
de segurança da ONU.
Este ultimato extraordinário teve resposta com a garantia
do ministro dos estrangeiros, Stephen Smith, que a informação
relevante será partilhada logo que procedimentos
apropriados sejam seguidos pelas autoridades Timorenses.
O jogo aparentemente defensivo do governo Labor de Rudd, primeiro
ministro da Austrália, alimentou rumores em Dili que pessoal
australiano teve uma mão nos eventos de 11 de fevereiro.
Um artigo de 22 de Abril no The Australian sublinhava:
Isso deve perturbar a Austrália que lidera
a não amada Força Internacional de Estabilização,
que foi levada a afiar a sua imagem fazendo anúncios nos
jornais que mostram um soldado australiano a apertar a mão
a um garoto timorense que os timorenses interpretarão
afirmações do dinheiro [depositado em Darwin] como
prova poderosa de que australianos não-timorenses estiveram
a suportar Reinado e a Srª Pires. A peça continuava:
As coisas estão agora a descarrilhar, com muitos
timorenses convencidos que os ataques de 11 de fevereiro tiveram
tudo a ver com o petróleo e gás do Timor Gap, com
a Austrália não contente em ficar com a parte de
leão que já tem e, por isso, de certo modo, a tentar
executar a liderança de Timor de modo a deitar a mão
a mais dinheiro do país em luta. Analistas comuns já
percebem, com os olhos abertos, que isto é realmente uma
batalha entre a Austrália e a Indonésia contra a
China.
Estes rumores apontam para a escalada de hostilidade contra
a ocupação australiana de Timor-Leste em curso.
Quanto esses rumores são verossímeis, isto é
uma outra questão. Uma explicação mais verossímil
seria que o governo de Canberra (Austrália) está
envolvida em tentar executar a liderança de Timor.
Nesse sentido, as autoridades Australianas sabiam e talvez participaram
num plano para eliminar Reinado. O antigo major teria servido
aos seus propósitos em relação ao que interessava
ao governo australiano, e agora estava ameaçando derrubar
o governo de Gusmão alinhado com Canberra e, por isso,
estaria abrindo a porta para a Fretilin regressar ao poder. Tendo
gasto recursos significativos para derrubar Alkatiri em 2006,
isto seria, no entanto, a última coisa que os estrategistas
Australianos desejariam.
A rendição de Salsinha tem sido elogiada nos
meios da mídia internacional como um passo grande para
a paz e estabilidade em Timor-Leste, mas a potencialmente explosiva
crise política mantém-se por resolver.Enquanto estava
em recuperação na Austrália, o Presidente
Ramos-Horta disse que ainda receava pela sua vida e que estava
a considerar até uma hipótese de renúncia,
de modo a escrever as suas memórias em Paris.
Agora em Dili, contudo, insiste que não tem nenhuma
intenção de renunciar. Tem repetido o seu apoio
a eleições antecipadas a serem realizadas no início
do próximo ano, e pediu também à Fretilin
para formar um gabinete sombra, para contribuir
para o desenvolvimento do país. O gesto tem sido
interpretado em Dili como uma expressão de apoio para uma
potencial administração liderada pela Fretilin.
Num discurso ao parlamento timorense em 23 de abril, Ramos-Horta
disse que vai perdoar a Rogério Lobato, um deputado de
topo da Fretilin que foi condenado por armar civis durante a crise
de 2006. O caso de Lobato foi uma parte importante de alegações
falsas emitidas pelo programa Four Corners da ABC
que Alkatiri tinha armado um esquadrão de ataque
para assassinar opositores da Fretilin. O trabalho de difamação
da ABC foi usado por Gusmão e pelo governo australiano
para pressionar Alkatiri a resignar.
A promessa de Ramos-Horta para dar uma amistia a Lobato tem
sido denunciada pela mídia da Austrália. O seu aparente
afastamento de Gusmão e aproximação à
Fretilin será mal recebido da mesma maneira. Com toda a
probabilidade, a resposta de Canberra, Austrália, será
aumentar as suas manobras por baixo da mesa e as suas jogadas
sujas que visam cobrir os seus significativos interesses econômicos
e estratégicos no Timor-Leste, país pequeno e empobrecido
da Ásia.
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