|
|
|
WSWS : Portuguese
Ernest Mandel, 1923-1995: Uma avaliação crítica
de seu papel na história da Quarta Internacional
Quarta Parte: O racha na Quarta Internacional
Por David North
25 de outubro de 2008
Utilice
esta versión para imprimir | Enviar
por email | Comunicar-se
com
Este texto foi publicado no WSWS.org, originalmente em inglês,
em 23 de outubro de 1995. Trata-se da quarta e última parte
de artigo sobre a vida de Ernest Mandel, dirigente de longa data
do Secretariado Unificado, que morreu em 20 de julho de 1995.
Com sua morte, saiu de cena um homem que cumpriu um papel de destaque
na história da IV Internacional durante o pós-guerra.
A mudança na posição de
Ernest Mandel
Ao compararmos o que Mandel escreveu durante os primeiros anos
após a guerra com o que ele produziu após 1949,
é natural sermos surpreendidos pela mudança gritante
de sua orientação política. Será a
tarefa de um biógrafo muito talentoso a de encobrir as
condições e influências que produziram essa
notável mudança. O próprio Cannon ficou perplexo
com a evolução de Mandel e, logo após o racha,
pensou que Mandel se separaria de Pablo. Ouvi dizer daqueles que
atuaram nas disputas da época que as novas formulações
de Pablo foram inicialmente opostas por Mandel e que ocorriam
sérios confrontos entre os dois homens. Não sei
se era o caso. Mas é improvável que Mandel tenha
revisto suas opiniões simplesmente sob a pressão
de um aliado político.
É preciso considerar que Mandel, apesar de sua defesa
anterior de concepções históricas, ficou
perplexo com a força aparente do movimento stalinista.
Não somente a posição mundial da URSS havia
se fortalecido, mas os partidos comunistas encabeçavam
poderosos movimentos de massas ao redor do mundo. A vitória
do Partido Comunista Chinês apareceu como mais um exemplo
do potencial revolucionário do stalinismo que a Quarta
Internacional falhara em reconhecer.
Na realidade, o Programa de Transição,
o documento de fundação da Quarta Internacional,
havia reconhecido que "é impossível negar categorica
e antecipadamente a possibilidade teórica de que, sob a
influência de uma combinação de circunstâncias
excepcionais (guerra, derrota, quebra financeira, ofensiva revolucionária
das massas etc.), os partidos pequeno-burgueses, incluídos
aí os stalinistas, possam ir mais longe do que queiram
no caminho da ruptura com a burguesia." Mas alertava que
"se mesmo esta variante pouco provável se realizasse
um dia em algum lugar (....) ela somente representaria um curto
episódio em direção à ditadura do
proletariado." (Leon Trotsky, The Transitional Program
for Socialist Revolution [New York: Pathfinder Press, 1974],
p. 95).
Não há dúvidas de que Mandel, abençoado
com uma memória fotográfica e um conhecimento enciclopédico
dos escritos publicados de Trotsky, conhecia essa passagem. Mas
posições políticas não derivam meramente
de livros. Shachtman não conhecia menos os escritos de
Trotsky, com quem ele até mantera uma relação
pessoal. Na verdade, ninguém conhecia mais as nuances sutis
da escrita de Trotsky do que Max Eastman, seu tradutor e biógrafo.
Mas tanto Eastman quanto Shachtman, desencorajados pelo poder
e pelos crimes de Stalin, romperam politicamente com Trotsky.
A posição dominante do stalinismo no movimento internacional
dos trabalhadores havia destruído qualquer confiança
que algum dia tiveram no papel revolucionário da classe
trabalhadora. Em suas cabeças, isso elevara a burocracia
stalinista ao nível de uma grande e independente força
histórica. Uma vez que não consideravam mais a classe
trabalhadora capaz de superar a dominação da burocracia
stalinista, Eastman e, um pouco mais tarde, Shachtman confiaram
tal tarefa ao imperialismo americano.
É claro, Pablo e Mandel possuíam objetivos políticos
muito diferentes dos de Eastman e Schachtman. Mas as posições
para que caminharam ao final dos anos 40 e 50 também procediam
de um enorme exagero da força e papel histórico
da burocracia e, inextricavelmente ligado a esse erro, uma subestimação
da força e potencial revolucionários da classe trabalhadora.
Sob a influência dos sucessos políticos dos stalinistas
e de sua dominação contínua sobre o movimento
internacional dos trabalhadores, Mandel e Pablo se convenceram
cada vez mais de que a realização do socialismo
dependeria, em última análise, das ações
da União Soviética e das burocracias stalinistas,
e não apenas da classe trabalhadora dirigida pela Quarta
Internacional.
No centro do criativo trabalho teórico e político
de todos os grandes marxistas encontrava-se a convicção
científica do papel histórico do proletariado como
o coveiro do capitalismo. O socialismo havia deixado de ser uma
utopia quando foi demonstrado, sobre as bases da concepção
materialista da história, a existência, dentro do
modo de produção capitalista, de uma força
objetiva que representava a negação das formas existentes
de propriedade e um princípio mais avançado de organização
social. Se considerávamos ou não a perspectiva da
revolução social viável dependia da avaliação
que se fizesse do papel histórico e das habilidades da
classe trabalhadora.
Duas conclusões diametralmente opostas poderiam ser
tiradas dos eventos da primeira metade do século XX. Uma
conclusão foi que a Revolução de Outubro
de 1917 havia demonstrado que a classe trabalhadora poderia derrubar
o capitalismo e lançar as bases para o estabelecimento
de uma nova sociedade socialista. A outra foi que a degeneração
do Estado Soviético e as várias derrotas da classe
trabalhadora nas décadas de 1920 e 1930 haviam provado
que a classe trabalhadora não possuía as qualidades
históricas que o marxismo lhe atribuíra. As diferentes
escolhas levavam a prognósticos históricos bem diferentes.
"Se tomamos como verdade", escreveu Trotsky em 1939,
"que a causa das derrotas está enraizada nas características
sociais do próprio proletariado, então a sociedade
moderna terá que ser vista sem esperança. Sob condições
do capitalismo decadente o proletariado não cresce numérica
nem culturalmente. Não há bases, portanto, para
esperar que ele irá em algum momento levantar-se ao nível
das tarefas revolucionárias. O caso se apresenta de forma
completamente diferente para aquele que têm esclarecido
em sua mente o profundo antagonismo entre o desejo orgânico
e profundo das massas trabalhadoras a se libertarem do maldito
caos capitalista, e o caráter conservador, patriótico,
extremamente burguês da direção trabalhista
sobrevivente. Devemos escolher entre uma dessas concepções
irreconciliáveis."(Leon Trotsky, In Defense of
Marxism [London: New Park Publications, 1971], p.15).
Mas Pablo e Mandel buscaram fugir dessa escolha especulando
sobre uma terceira alternativa: mesmo na ausência de um
movimento consciente e politicamente independente da classe trabalhadora,
a revolução socialista poderia realizar-se, de uma
maneira não vislumbrada por Lênin ou Trotsky, por
meio de uma burocracia (ou, como Pablo e Mandel viriam sugerir
quando sua teoria se tornou mais elaborada, outras forças
não-proletárias). O aspecto mais significativo da
revisão do marxismo de Pablo e Mandel era sua tentativa
de basear a perspectiva socialista em um roteiro no qual a classe
trabalhadora fazia um papel secundário e meramente de apoio.
A base teórica dessa perspectiva encontrou sua maior
expressão em um documento escrito por Pablo em 1951 intitulado
"Aonde vamos?", que declarava: "Para nosso movimento,
a realidade social objetiva consiste essencialmente no regime
capitalista e no mundo stalinista. Mais ainda, quer gostemos ou
não, esses dois elementos constituem de longe a realidade
social objetiva, uma vez que a maioria absoluta das forças
que opõem o capitalismo encontram-se agora mesmo sob a
liderança ou influência da burocracia soviética."
(National Education Department, Socialist Workers Party, Towards
a History of the Fourth International, part 4, 1974, p. 5).
Aonde, de fato, iriam Mandel e Pablo? Certamente, não
na direção traçada por Trotsky nos documentos
programáticos sobre os quais a fundação da
Quarta Internacional baseava-se. Realmente, a estrutura da realidade
social apresentada por Pablo tinha muito pouco em comum com a
concepção geral de história traçada
por Marx e Engels. Se, como diziam Pablo e Mandel, a "realidade
social objetiva" consistia no "regime capitalista"
e no "mundo stalinista", o que acontecera com a classe
trabalhadora? Nesse novo esquema, a classe trabalhadora deixava
de existir como o instrumento independente, quanto mais o decisivo,
de mudança revolucionária. Ao invés disso,
ela existia apenas como um elemento subordinado dentro de uma
nova realidade definida pela luta entre o "regime capitalista"
e o "mundo stalinista". O destino do socialismo dependia
do resultado dessa luta.
A teoria da "guerra-revolução"
As conseqüências dessa eliminação
teórica da classe trabalhadora como força revolucionária
básica encontrava sua expressão mais clara na maneira
com que Pablo e Mandel descreviam o desenvolvimento da revolução
socialista. Esta iria advir, especulavam eles, não do desenvolvimento
dos conflitos entre as classes, mas através da erupção
de um conflito militar nuclear entre o "regime capitalista",
representado acima de tudo pelos Estados Unidos e o "mundo
stalinista", cujo eixo era a União Soviética.
Eles chamaram esta situação de "Guerra-revolução".
Quando alguém fala sobre isso hoje, soa tão estranho
quanto um plano alienígena. Mas, na verdade, isso era o
reflexo peculiar das condições políticas
da Guerra Fria nas mentes dos teóricos radicais desorientados
que não incluíam mais em seus cálculos a
possibilidade da luta revolucionária pela classe trabalhadora
e o impacto da atividade política da Quarta Internacional.
Realmente, se alguém aceitasse sua premissa subjacente
que a classe trabalhadora soviética e do leste europeu
estava hipnotizada pelo stalinismo e a classe trabalhadora americana
anestesiada pelo anticomunismo macartista suas conclusões
não eram tão estranhas como pareciam de primeira.
Havia, afinal, um conflito real entre a União Soviética
e o imperialismo americano. Havia a possibilidade de guerra entre
esses dois poderes antagônicos, e seu conflito baseava-se
certamente nas diferentes bases sociais dos regimes. Pablo e Mandel
tiravam desse conflito o impulso essencial pela revolução
socialista.
Nessas circunstâncias, a erupção da guerra
entre a União Soviética e os Estados Unidos se transformaria,
inevitavelmente, em um conflito revolucionário calamitoso
entre dois sistemas sociais. O mundo stalinista, carregando, mesmo
que de forma degenerada, o princípio socialista, seria
compelido, sob pressão das massas que representava, a conduzir
a luta contra o regime capitalista sobre bases revolucionárias.
Portanto, de acordo com Pablo, revolução e guerra
estavam "aproximando-se mais e tornando-se tão interligadas,
ao ponto de ficarem quase indistinguíveis sob certas circunstâncias
e em certos momentos". A explosão da guerra, mesmo
se assumisse dimensões nucleares, seria avidamente aguardada
como a trombeta do socialismo. A guerra-revolução,
proclamou Pablo, era a concepção "sobre a qual
as perspectivas e orientação dos marxistas revolucionários
de nossa época deveriam apoiar-se." (ibid., p. 7).
Se o "mundo stalinista" prevalecesse nessa "guerra-revolução",
de suas cinzas surgiriam Estados operários deformados que
durariam por séculos. Pablo varreu o pudor dos mais sensíveis.
Reconheceu que a nova perspectiva "chocará talvez
os amantes de declamações e sonhos pacifistas, ou
aqueles que já lamentam o fim mundial apocalíptico
que prevêem após uma guerra atômica ou após
a expansão mundial do stalinismo. Mas essas almas sensíveis
não conseguem encontrar lugar entre os militantes e menos
ainda entre os quadros marxistas revolucionários desta
época terrível, em que a agudeza da luta de classes
é levada até o fim. É a realidade objetiva
que empurra a dialética da Guerra-revolução
à frente, destruindo implacavelmente sonhos pacifistas
e não permitindo nenhuma pausa no gigantesco uso de forças
da revolução e da guerra, nem em sua luta de morte."
(ibid.).
Pode ter sido uma surpresa para muitos dos admiradores tardios
de Mandel que ele poderia ter assinado tamanho prognóstico
irracional, para não dizer grosseiro. De fato, ele o fez.
"Não se exclui", escreve ele, "que a
ampla devastação produzida pela Terceira Guerra
Mundial provocará uma destruição enorme nas
maquinarias de produção em grandes partes do mundo,
o que então facilitaria deformações burocráticas
das novas revoluções vitoriosas... [Mas] Nossa convicção
na vitória da revolução americana, que dará
ao mundo socialista uma capacidade produtiva extraordinária
mesmo após uma guerra devastadora, nos permitirá
encarar as perspectivas da democracia operária após
uma Terceira Guerra com confiança." (National Education
Department Socialist Workers Party, Towards a History of the Fourth
International, June 1973, part 4, vol. 1, p. 5).
Ernest Mandel não havia enlouquecido; ele apenas adotara
uma perspectiva louca que expressava o desespero político
produzido pela perda total de confiança no potencial revolucionário
da classe trabalhadora. Ou, para expressarmos o mesmo problema
de uma forma um pouco diferente, ele não acreditava que
era possível que a Quarta Internacional conquistasse a
classe trabalhadora para seu programa revolucionário. Afinal,
a luta contra a guerra imperialista havia ocupado o lugar central
do programa marxista do século XX. A possibilidade de prevenir
a guerra dependia do desenvolvimento da consciência revolucionária
da classe trabalhadora internacional.
A perspectiva de Mandel provinha da concepção
de que a classe trabalhadora, principalmente nos Estados Unidos,
não poderia ser mobilizada contra sua classe dominante
e de que a guerra era inevitável. Eles tentaram racionalizar
seu pessimismo ao fazer do holocausto nuclear o pré-requisito
para o socialismo.
Se os documentos preparados por Pablo e Mandel em 1951 e1953
tivessem sido meramente uma avaliação falsa e desorientada
da situação objetiva, poder-se-ia concluir que estes
representavam nada mais do que um lapso vergonhoso de avaliação
e um episódio lamentável em suas vidas políticas.
Mas esse "episódio" provou ser a experiência
definitiva nas vidas de ambos os homens, assim como, de maneira
muito mais importante, o início de uma tendência
historicamente significativa dentro, ou, mais corretamente, oposta,
à Quarta Internacional.
Isso fica claro quando revemos as conclusões práticas
tiradas por Pablo e Mandel de sua análise política.
Ao partir da premissa não-declarada, porém implícita,
de que não era possível conquistar a classe trabalhadora
para o programa independente da Quarta Internacional, Pablo e
Mandel concluíram que a única alternativa viável
que restava aos infortunados trotskistas era a de entrar e enterrar-se
em quaisquer organizações de massas existentes nos
países onde militavam. Essa tática foi chamada de
"entrismo sui generis". Nos países onde os stalinistas
reinavam absolutos, os trotskistas tinham que juntar-se a partidos
comunistas e militar dentro deles, com o objetivo de os influenciarem
e conduzi-los à esquerda.
Essa tática foi justificada sobre as bases de que organizações
stalinistas poderiam, sob pressão dos eventos, "dar",
como disse Mandel, "os primeiros passos no caminho da regeneração".
O poder dos acontecimentos revolucionários tenderia a arrastar
as organizações stalinistas à esquerda, e
esse processo poderia ser facilitado pela influência dos
trotskistas engajados no "entrismo sui generis".
A tarefa da Quarta Internacional, insistiam Pablo e Mandel,
era a de aceitar a "necessidade de subordinação
de todas os planos organizativos, de independência formal
ou não, à integração real ao movimento
de massas onde quer que este se expresse em cada país,
ou então à integração em alguma corrente
importante deste movimento que possa ser influenciada." (Michel
Pablo, "Main Report to the Congress: World Trotskyism Rearms",
Fourth International, vol. 12, no. 6, November-December 1951,
p. 172).
O conteúdo essencial das inovações táticas
propostas por Pablo e Mandel era que a tarefa estratégica
central que havia sido colocada por Trotsky a resolução
da crise da direção revolucionária através
da construção da Quarta Internacional não
era mais viável. Realmente, a perspectiva de conquistar
a classe trabalhadora para um novo partido revolucionário
era inútil. Como escreveu Pablo em 1953:
"Nas condições históricas atuais,
a variante cada vez menos provável é aquela em que
as massas, desiludidas pelos reformistas e stalinistas, romperão
com suas organizações de massas para aglutinarem-se
em torno de nossos núcleos atuais, com esses atuando única
e exclusivamente de uma maneira independente, de fora" (Socialist
Workers Party, Towards a History of the Fourth International,
part 4, vol. 3, March 1974, p. 141).
No outono de 1953 havia ficado claro que a perspectiva de Pablo
e Mandel colocava em questão a própria razão
de ser da Quarta Internacional. Ao atuar sob esta perspectiva,
Pablo, com o apoio de Mandel, buscou explorar sua posição
de secretário internacional para forçar seções
nacionais inteiras a liquidarem-se como organizações
independentes e entrarem nas fileiras dos partidos stalinistas.
Quando a seção francesa resistiu, ela foi arbitrariamente
expulsa.
Os trotskistas na China receberam instruções
semelhantes: "Para que realizemos a orientação
de defesa incondicional da República Popular da China e
o apoio crítico ao governo de Mao, os militantes chineses
da Quarta Internacional devem integrar-se completamente ao movimento
de massas de seu país, como decidido no Terceiro congresso
da Quarta Internacional". (Fourth International, July-August
1952, p.. 118).
Os trotskistas chineses, trabalhando sob condições
extremamente difíceis, haviam buscado defender os interesses
independentes da classe trabalhadora e levantar a perspectiva
de hegemonia da classe trabalhadora na revolução
socialista. Haviam recusado por décadas seguir a orientação
pequeno-burguesa dos maoístas, que haviam essencialmente
abandonado a classe trabalhadora e baseado seu movimento no campesinato.
Agora eram ridicularizados por Pablo e Mandel como se tivessem
"abandonado" a revolução chinesa. Assim,
eram ordenados a integrarem-se à organização
maoísta. Antes dos trotskistas chineses conseguirem compreender
as implicações políticas desse conselho brilhante,
sua organização foi despedaçada por uma série
de detenções. Muitos dos dirigentes trotskistas
capturados no final de 1952 permaneceram na prisão pelos
próximos 20 a 30 anos.
Consequentemente, a resistência política às
perspectivas de Mandel e Pablo levaram a um racha na Quarta Internacional.
O Comitê Internacional da Quarta Internacional foi formado
em novembro de 1953 para opor-se aos revisionismos de Pablo e
Mandel. Esta não é a situação ideal
para contarmos em detalhes os eventos que levaram ao racha. No
entanto, deve ser reforçado, justiça seja feita
tanto a Mandel quanto a Pablo, que o racha não foi, na
análise final, apenas um produto de suas maquinações.
O próprio fato de sua perspectiva encontrar amplo apoio
dentro da Quarta Internacional refletiu as condições
políticas e relações sociais do período
pós-guerra. Pablo e Mandel articularam o ceticismo político
que havia sido produzido pela habilidade das burocracias social-democratas
em manterem seu controle sobre a classe trabalhadora após
a Segunda Guerra e bloquearam a erupção da revolução
socialista.
Tanto Pablo quanto Mandel negaram furiosamente que suas posições
representavam um rompimento com o trotskismo, ou que eles estavam
colocando em dúvida a necessidade da Quarta Internacional.
Mas o conteúdo real de seus revisionismos era expresso
de forma mais clara, mesmo que de forma mais crua, na posição
de seus apoiadores americanos, Cochran e Clarke:
"Listemos simplesmente algumas das conclusões da
presente realidade: Vemos um mundo onde nossa perspectiva do stalinismo
ser destruído durante a Segunda Guerra se mostrou errônea.
Vemos um mundo onde o stalinismo é dominante na porção
leste da Europa, onde os partidos comunistas são a direção
da revolução colonial na Ásia, onde integram
as organizações mais fortes da classe trabalhadora
na Itália e França. No restante do ocidente, a Social-democracia
foi ressuscitada e nos Estados Unidos, onde os trabalhistas ainda
não avançaram para uma existência política
independente, a burocracia reformista trabalhista permanece dominante...
"Porém, os seguidores de Cannon ainda mantêm
a perspectiva já ultrapassada de que os pequenos núcleos
irão, no futuro, tornar-se partidos revolucionários
desafiando a todos inimigos e destruindo-os em batalha...
"O fato de ninguém poder vislumbrar de forma realista
um racha nos velhos movimentos de trabalhadores antes dos próximos
acontecimentos revolucionários é o sinal mais claro
de que a velha análise trotskista tornou-se antiquada.
Assim como antes da guerra, a vanguarda busca dar-se conta de
suas aspirações revolucionárias dentro de
partidos velhos, não deixando nenhum espaço para
uma nova organização de massas...
"A própria formulação da resolução
internacional deve levar-nos à conclusão de que
os partidos revolucionários de amanhã não
serão trotskistas, no sentido de aceitarem necessariamente
a tradição de nosso movimento, nossa estima pela
posição de Trotsky na hierarquia revolucionária
ou todas suas análises e palavras de ordem específicas...
"Mas a última coisa no mundo que devemos tentar
fazer é inculcar nas fileiras a necessidade de adotarem
nossa tradição específica e imprimir sobre
elas a verdade sobre nossas avaliações específicas
trazidas por Trotsky desde 1923...
"Dissemos anteriormente que somente integrando-nos aos
movimentos já existentes nossos quadros poderiam sobreviver
e cumprir sua missão. Agora adicionaremos a essa proposição
esta adicional: Somente abandonando todas as noções
sectárias de impor nossa tradição específica
sobre os movimentos de massa que desenvolveram-se em diferentes
circunstâncias e sobre diferentes influências é
que nossa abordagem poderá obter sucesso e garantir o futuro
de nossos preciosos quadros...
"Apesar da situação nos Estados Unidos ser
única, uma vez que a classe trabalhadora ainda não
está organizada em seu próprio partido político,
a orientação discutida aqui opera com força
total. É preciso habitar a terra de ninguém de Cannon
para difundir seriamente a teoria de que a classe trabalhadora
americana, que ainda não atingiu a consciência de
partido trabalhista, passará, na próxima luta, à
bandeira da revolução de Cannon, ou que, o que constitui
aproximadamente a mesma coisa, ela irá, de forma acelerada,
mergulhar dentro e fora de um partido trabalhista para então
juntar-se com Cannon e seus representantes para lançarem-se
às barricadas...
"Baseando-nos nessa análise, nós nos orientamos
na direção do movimento trabalhista organizado,
principalmente os sindicatos de produção em massa
do CIO... Isso não significa que estamos absolutamente
certos de que um partido trabalhista será formado. A análise
baseia-se, na verdade, na certeza de que o inevitável reagrupamento
político passará pelos canais existentes do movimento
trabalhista organizado e terá um caráter político
capaz de unificar as massas num mínimo nível."
As teorias de Pablo e Mandel expressavam uma adaptação
à posição dominante da burocracia e, finalmente,
uma apologia a ela. Nos próximos anos, o trabalho de Mandel
se concentraria na interpretação, sob o ponto de
vista mais favorável, das atividades das burocracias. Tanto
suas ações como os conflitos dentro de suas fileiras
seriam invariavelmente interpretados por ele como a manifestação
de amplas forças objetivas dentro das quais operariam,
de forma misteriosa, processos revolucionários.
Após o racha, Mandel foi afligido pela acusação
de ter se tornado um revisionista. Como poderia tal acusação
ser lançada sobre ele, Ernest Germaine, o produtor de tantos
artigos brilhantes? Como escreveu a George Breitman: "Você
realmente acredita que estamos capitulando diante de Stalin, nós
que nos ocupamos na construção do movimento trotskista,
não sem sucesso, por todo o mundo?
A resposta de Cannon a Mandel
Uma resposta a Germaine-Mandel foi providenciada por James
P. Cannon em uma análise perceptiva escrita em 1954:
"Nosso objetivo é fundamentalmente diferente daquele
de Germaine. Em último caso, ele remete a uma teoria diferente
do papel da vanguarda revolucionária e sua relação
com outras tendências no movimento trabalhista. Germaine
pensa que ele é ortodoxo nessa questão chegou
até a escrever um artigo sobre isso na Quatrième
Internationale mas, na prática, ele compromete
a teoria. Apenas nós somos adeptos incondicionais da teoria
leninista-trotskista do partido da vanguarda consciente e de seu
papel como direção na luta revolucionária.
Essa teoria adquire veemente atualidade e prevalece sobre todas
as outras em nossa época presente".
"O problema da direção agora não
se limita a manifestações espontâneas da luta
de classes em um processo a longo prazo, nem mesmo à conquista
do poder neste ou naquele país onde o capitalismo está
especificamente fraco. É uma questão do desenvolvimento
da revolução internacional e da transformação
socialista da sociedade. Admitir que isso possa acontecer automaticamente
é, de fato, abandonar o marxismo por completo. Não,
isso só pode ser um ato consciente e requer necessariamente
a direção de um partido marxista que represente
o elemento consciente no processo histórico. Nenhum outro
partido o fará. Nenhuma outra tendência no movimento
trabalhista pode ser reconhecida como um substituto eficiente.
Por essa razão, nossa atitude diante de todos os outros
partidos é inconciliavelmente hostil".
"Se a correlação de forças requer
uma adaptação dos quadros da vanguarda a organizações
dominadas no momento por tais tendências hostis stalinistas,
social-democratas, centristas então tal adaptação
deve sempre ser vista como uma adaptação tática,
para facilitar a luta contra estas e nunca para efetivar uma reconciliação
com elas, nunca para atribuir-lhes um papel histórico decisivo,
deixando os marxistas encarregados da tarefa menor de dar-lhes
conselhos de amigo e fazer-lhes críticas 'leais' à
moda dos comentários pablistas sobre a greve geral francesa."
(Trotskyism Versus Revisionism, vol.. 2 [London: New Park,
1974], p. 65).
Artigo concluído.
|