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Haiti devastado por furacões

Por Naomi Spencer
13 de setembro de 2008

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Publicado originalmente em inglês no WSWS no dia 8 de setembro.

Segundo estimativas oficiais, mais de 500 pessoas morreram com a passagem da tempestade tropical Hanna na segunda-feira passada e mais de 650 mil haitianos necessitam, urgentemente, de ajuda médica. Hanna devastou o Haiti durante quatro dias da última semana, destruindo a agricultura da ilha, árvores frutíferas e favelas.

No momento em que este texto é escrito, outro furacão, mais poderoso, Ike, de categoria quatro, assim como Josephine, uma tempestade tropical em formação, ameaçam o caribe. Segundo reportagens da Associated Press, o furacão Ike acertou a agricultura da região central do Haiti com tanta chuva, que os oficiais "disseram não haver alternativa, se não abrir uma represa no Vale do Artibonite, inundando mais casas e provavelmente destruindo por completo o "cinturão do arroz" da região mais fértil do país, região chave para livrá-lo da fome".

Ike é a quarta maior tempestade a atingir o país em menos de um mês, seis dias após o Hanna. Oito dias antes do Hanna atingir o país, o furacão Gustav deixou grande número de mortos — ao menos 77 no Haiti — em Hispaniola e deixou grandes áreas inundadas. Uma semana antes disso, inundações e torrentes de lama causadas pela tempestade tropical Fay mataram mais 40 pessoas no Haiti. Meteorologistas alertaram que o solo está já tão saturado que, mesmo na hipótese das novas tempestades não passarem pelo Haiti, qualquer chuva futura trará conseqüências catastróficas.

As tempestades geraram um enorme alarde, uma vez que o país — o mais pobre no hemisfério ocidental — já sofre imensamente com crises sociais, políticas e humanitárias. A inflação no preço da comida e da gasolina, particularmente no último ano, levou milhões, que vivem com menos de US$1 por dia, à beira da inanição. Cerca de 80 por cento da população tem de sobreviver com menos de US$2 por dia; a grande maioria depende da agricultura para a subsistência. A infra-estrutura para saúde, tanto pública quanto física, praticamente não existe.

Gonaives, a terceira maior cidade do Haiti, com uma população de 300 mil habitantes, sofreu danos catastróficos com a passagem de Hanna. Desde 5 de Setembro, 495 corpos foram descobertos em áreas inundadas pela chuva ou pelo lama na cidade portuária, situada várzeo Vale do Artibonite.

O Escritório para Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU alertou que o número de mortos "aumenta a cada hora", e oficiais do governo orientaram os sobreviventes das áreas ao redor a evacuarem a região. Aproximadamente 48 mil residentes de Gonaives estão refugiados em abrigos de emergência, enquanto milhares de outros ainda estão em suas casas. Relatos da imprensa indicam que outros sobreviventes, ainda, refugiaram-se nas montanhas, levando consigo seus pertences.

Gonaives está especialmente sujeita aos deslizamentos de terras e enchentes porque as ladeiras circundantes das montanhas foram desmatadas e as árvores transformadas em carvão vegetal pelos desesperados e pobres moradores. Em 2004, a tempestade tropical Jeanne causou uma enchente que matou 3 mil pessoas no Haiti — a grande maioria de Gonaives.

Depois de Hanna, três rios da montanha avolumaram-se com o aguaceiro torrencial e cortaram as principais vias da cidade; de acordo com os funcionários da ajuda médica, pontes tanto do norte como do sul ficaram intransponíveis, impedindo a vinda dos veículos de resgate. No domingo, o Ministro da Agricultura do Haiti, Joanas Gay, contou à Rádio Nationale que a ponte Mirebalais, a única rota por terra para a cidade, ficou impossibilitada pela inundação. A vista aérea da região mostrou que as casas de alumínio e madeira compensada de sucata submergiram, sendo visíveis apenas seus telhados entre as águas turvas.

Os grupos de ajuda internacional prometeram socorrer a região imediatamente, mas, durante dias, muito pouco foi feito. Logo após a tempestade, um contingente da ONU vindo da Argentina despejou por volta de 700 galões de água e 2 mil pacotes de alimentos, de acordo com Jackeline Charles, repórter da edição de 5 de setembro do Miami Herald. A força da ONU evacuou apenas 400 pessoas. Somente depois de quinta-feira, uma remessa de 20 mil pacotes com lençóis, kits de primeiros socorros e garrafas de água, trazidos pela Guarda Costeira dos EUA, chegaram à capital.

Na sexta-feira, um barco transportando poucos pacotes de comida e garrafas de água da ONU aportou em Gonaives, levado por tropas argentinas armadas com rifles. De acordo com uma reportagem do jornal inglês Guardian, as forças da ONU distribuíram suprimento em apenas dois abrigos, para apenas 2 mil pessoas, antes de suspender a operação alegando questões de segurança.

As coberturas de primeira mão revelam cenas de horror e desespero. A Associated Press noticiou que crianças, frenéticas com a fome, perseguiam os caminhões de comida da ONU, correndo com a água até os joelhos, gritando "Temos fome! Temos fome!". Numa cadeia local, pessoas abandonadas, com "olhos profundos, costelas salientes e dificuldade em respirar", disseram aos repórteres estarem aproximadamente há uma semana sem comer.

A grande maioria está sem comida ou sem água potável. Yuri Latortue, senador de Gonaives, disse à imprensa no sábado que aproximadamente 2000 mil pessoas não têm nada para comer há dias. "Não podemos viver nessa situação", disse Baptiste Jean, um morador de Gonaives, ao J. Charles do Herald. "Nós não temos um país. Nós não temos um presidente. A cidade está destruída".

Parnell Denis, correspondente da Oxfam em Gonaives, disse à agência France Press no sábado que a cidade estava "completamente devastada... as ruas ocupadas por pessoas tentando alcançar o ponto mais alto da cidade. Os suprimentos de comida e de água são escassos e o preço da pouca comida que resta está subindo. O ânimo das pessoas nos abrigos é tão baixo, que eu temo dizê-las que outra tempestade se aproxima".