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A Casa Branca e o tumulto fascista em Charlottesville

Eric London
19 de agosto de 2017

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Publicado originalmente em 14 de Agosto de 2017

Depois de meses de planejamento deliberado e coordenação com a polícia, o tumulto nazista da marcha “Unir a Direita”em Charlottesville, Virgínia, alcançou seu apogeu mortal sábado à tarde, quando um admirador de Hitler, de 20 anos,dirigiu seu carro através de uma multidão de contra-manifestantes, matando a apoiadora de Bernie Sanders Heather Heyer, de 32 anos, e ferindo mais 19 pessoas.

A cobertura da imprensa corporativa centrou-se no fracasso de Trump em condenar com todas as palavras a violência da extrema direita. Mas a manipulação da mídia americana sobre as declarações deTrump não é apenas ingênua. Ela intencionalmente encobre até que ponto a Casa Branca estava envolvida no encorajamento, na incitação e até no planejamento da mobilização nazista em Charlottesville. A Casa Branca está coberta de figuras pró-fascistas. Por que Trump condenaria as ações daqueles a quem ele e seu amigo, Steve Bannon, consideram um eleitorado importante?

Esse tumulto nazista não é um evento estranho na política americana. É o produto da estratégia de Donald Trump para construir um movimento fascista por fora do quadro politico constitucional e dos partidos Democrata e Republicano,em si mesmo uma expressão da putrefação e do colapso da democracia americana diante dos chocantes níveis de desigualdade social.

Nas três últimas semanas, Trump e seus assessores – Stephen Bannon, Stephen Miller e Sebastian Gorka–esforçaram-se para obter apoio entre elementos fascistas que formam o núcleo de sua base política.

Trump atacou o líder da maioria Republicana do Senado, Mitch McConnell, desafiando uma das figuras legislativas mais poderosas de seu próprio partido. Ele fez ameaças belicosas dizendo que os EUA estão “armados e carregados” para uma guerra contra a Coréia do Norte e apelaram para seu eleitorado bilionário, bem como para a polícia, funcionários da imigração e que controlam as fronteiras, e os militares para apoiar suas politicas “duras contra o crime” e contra os imigrantes.

Nesse processo, ele encorajou as forças que tomaram o campus de 22 mil alunos da Universidade da Virgínia na sexta-feira. Os nazistas realizaram um desfile de tochas no campus, fundado e projetado pelo autor da Declaração de Independência, Thomas Jefferson, enquanto cantavam os lemas nazistas “sangue e solo” e “Sieg Heil”, e “um povo, uma nação, pare a imigração.”

Na madrugada de sábado, dezenas de milicianos fascistas uniformizados e armados com rifles de assalto e espingardas foram destacados ao centro,passando a controlar o coração da cidade de 50 mil pessoas. Depois da milícia ter controlado a área, sem a interferência policial, vans cheias de pessoas de todo o país chegaram e descarregaram centenas de nazistas armados com armas, facas, correntes, bastões de metal, bastões de baseball e spray de pimenta.

O que aconteceu depois só pode ser descrito como um tumulto fascista. A polícia retirou-se do local e os nazistas começaram a atacar os contra-manifestantes nas ruas, gritando insultos raciais e homofóbicos enquanto cantavam “Heil Trump”. Contra-manifestantes dispersos foram puxados para a briga nazista e espancados sem piedade, enquanto a polícia assistiu a tudo passivamente.

Brian McLaren, um pastor que viajou para Charlottesville contra a marcha nazista, disse à imprensa que “a polícia ficou muito distante” quando os nazistas lançaram seu ataque. Então, no início da tarde, James Fields Jr., da cidade de Maumee, em Ohio, acelerou sobre a multidão com seu carro, lançando corpos sobre o capô como pinos de boliche.

O governador Democrata da Virgínia, Terry McAuliffe, respondeu às críticas declarando no domingo que a polícia realizou “um excelente trabalho” durante o fim de semana. McAuliffe, ex-chefe do Comitê Nacional Democrata e destacado arrecadador de fundos para as campanhas de Bill e Hillary Clinton, disse que o assassinato da contra-manifestante Heather Heyer não poderia ter sido impedido. “Você não pode parar um cara louco que veio aqui de Ohio e usou seu carro como uma arma”, declarou ele.

O objetivo da violência desse fim de semana foi enviar uma mensagem aos detratores de Trump nos partidos Republicano e Democrata de que ele tem uma base política alternativa para a qual ele pode recorrer sempre que necessário. Não à toa, os nazistas realizaram sua manifestação a apenas duas horas de Washington DC.

Uma linha de tempo das três semanas últimas semanas deixa claro que existe uma campanha sistemática e calculada da Casa Branca deTrump para mobilizar as forças sociais mais retrógradas e reacionárias no país.

  • Em 22 de Julho, Trump fez um discurso belicoso para uma plateia de marinheiros para marcar o inicio da construção de um porta-aviões de US$ 13 bilhões;
  • Em 25 de Julho, realizou um discurso em Youngstown, Ohio, glorificando o extremismo religioso cristão;
  • Em 26 de Julho, o Departamento de Justiça decidiu que as empresas privadas não são impedidas de demitir funcionários com base em sua orientação sexual. Naquele mesmo dia, Trump tuitou que sua administração impediria as pessoas transgênero de servir as forças armadas e nomeou o governador contra os direitos dos homossexuais de Kansas, Sam Brownback, para ser embaixador itinerante do Departamento de Estado pela liberdade religiosa internacional;
  • Em 28 de Julho, Trump disse aos policiais e agentes da imigração presentes em LongIsland, Nova Iorque, que ele adorava ver os suspeitos criminais “serem jogados na parte de trás do camburão”. Ele os exortou para que as pessoas fossem detidas, dizendo: “Por favor, não sejam muito legais”;
  • Em 2 de Agosto, Trump e os senadores Republicanos Tom Cotton e David Perdue anunciaram um projeto de lei, a Reforma da Imigração Americana para uma Empregabilidade Forte (Reforming American Immigration for Strong Employment – RAISE), que reduziria a imigração legal pela metade. Em uma conferência de imprensa anunciando o plano, o conselheiro de Trump, Stephen Miller, ecoou a linguagem antissemita do Partido Nazista alemão quando denunciou Jim Acosta, da CNN,por ter uma “tendência cosmopolita”. No mesmo dia, a mídia informou que o Departamento de Justiça estava planejando processar as faculdades por “discriminação contra os brancos”;
  • Em 6 de Agosto, Trump lançou um programa de “notícias verdadeiras” em sua página do Facebook, uma tentativa de conseguir seguidores personalistas fora do quadro da mídia tradicional;
  • Em 8 de Agosto, o assessor da Casa Branca, Sebastian Gorka, membro da Ordem fascista húngara dos Vitez, disse que a explosão de uma bomba por um fascista em uma mesquita perto de Minneapolis,Minnesota, pode ser um “falso crime de ódio” que foi “disseminado pela esquerda”. No dia seguinte, Gorka disse ao site Breitbart News que “supremacistas brancos” não são “o problema”, e que o terrorismo é produto do Islã.

Nos dias que se seguiram, Trump lançou suas ameaças de guerra contra a Coréia do Norte e a Venezuela e fez novos ataques ao líder Republicano no Senado, Mitch McConnell.

A violência nazista desse fim de semana está marcada pela política de Bannon, Miller e Gorka. O líder do protesto nazista, Jason Kessler, reconheceu após o evento que os organizadores estabeleceram “conexões com agentes da lei” meses antes da marcha “Unir a Direita”.

Kessler também se encontrou com vários representantes Republicanos na preparação para a mobilização nazista. Pouco depois da posse de Trump, Kessler realizou uma conferência de imprensa com o candidato Republicano a governador da Virgínia, Corey Stewart, para denunciar os planos de Charlottesville em remover a estátua do General Confederado Robert E. Lee.

Em Março,Kessler viajou para Washington DC para se encontrar com o congressista da Virgínia, Tom Garret, que representa a região de Charlottesville. Kessler postou no Facebook que teve “uma reunião muito produtiva hoje com o deputado Tom Garrett” e reconheceu que estava discutindo com Garrett como seus grupos nazistas poderiam apoiar as medidas anti-imigração de Trump: “Nós conversamos sobre a Reforma da Imigração Americana e o fim do apoio armado dos EUA a terroristas: dois projetos de lei que apoiamos”, dizia a publicação de Kessler.

Os acontecimentos em Charlottesville e a tentativa de Trump de levar adiante um movimento fascista por fora do quadro politico constitucional são um alerta para a classe trabalhadora nos EUA e internacionalmente. O programa dos fascistas na Casa Branca e nas ruas de Charlottesville é a guerra genocida no exterior e a prisão em massa e assassinato de imigrantes, LGBTs, judeus e socialistas nos EUA.

O fascismo é a excrescência da decadente ordem social do capitalismo americano e mundial, que vomitou Donald Trump como sua expressão atual. Ele não será barrado através de apelos moralistas ao establishment político, mas somente através da mobilização da classe trabalhadora unida em diferentes raças, nacionalidades e grupos étnicos e armada politicamente com um programa revolucionário para a reorganização socialista dos EUA e da economia mundial.