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Grandes empresas e os militares aumentam seu controle sobre Washington

Patrick Martin e Joseph Kishore
27 de outubro de 2017

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Publicado originalmente em 21 de Agosto de 2017

Muitas vezes, o resultado de determinados acontecimentos políticos revela suas questões essenciais à medida que se desenrolam. Isso aconteceu em relação aos conflitos que surgiram na classe dominante americana sobre o ataque nazista em Charlottesville, que culminou com a demissão do estrategista-chefe de Trump, Stephen Bannon.

A mídia burguesa buscou retratar a sequência de eventos inteiramente em termos raciais, com Bannon e outros defensores do “nacionalismo branco” agora removidos, deixando o controle político da Casa Branca e da administração Trump com um grupo político mais firme e mais “moderado”. Fazem parte desse grupo generais e ex-generais, liderados pelo chefe de gabinete da Casa Branca, John Kelly, junto com financistas de Wall Street, como Gary Cohn, o principal assessor econômico de Trump, e o secretário do Tesouro Steven Mnuchin.

O New York Times abriu o caminho nesse sentido, com um editorial no domingo declarando que “os americanos habituados constitucional e politicamente à liderança civil agora contam com três generais da ativa e da reserva – John Kelly, o novo chefe de gabinete da Casa Branca; H. R. McMaster, o assessor de segurança nacional; e Jim Mattis, o secretário de defesa – para impedir que o Sr. Trump saia completamente dos trilhos. Experientes e educados, bem versados nos terríveis custos do confronto global e impulsionados por um desejo de realizar um serviço público que o Sr. Trump não possui, esses três, espera-se, podem contrariar seus piores instintos.”

Na mesma edição do Times, uma análise saúda o que seu título chama de “A voz moral dos EUA empresarial” Nessa análise, “um coro de líderes empresariais levantou-se na semana passada para condenar grupos de ódio e defender a tolerância e a inclusão.”

Entre o “coro” de líderes “morais’ estão criminosos corporativos como Jamie Dimon, do JPMorgan Chase, um dos responsáveis pelo colapso financeiro de 2008; Mary Barra, da General Motors, que foi responsável pela omissão de um defeito de ignição que matou centenas de pessoas; e o CEO do WalMart, Doug McMillon, cuja empresa é sinônimo de exploração com baixos salários.

A elite governante viu os imprudentes comentários de Trump defendendo os neonazistas que se rebelaram em Charlottesville como uma séria ameaça aos interesses do imperialismo americano no exterior, bem como à manutenção da estabilidade social e política no próprio EUA. Poderosos interesses corporativos temeram as consequências desses comentários para a agenda de cortes de impostos empresariais de Trump, a remoção de regulamentos de negócios, um lucro inesperado e aparente a partir da reforma em infraestrutura e o esvaziamento do Medicaid e outros programas sociais.

A auto-exposição de Trump em seus esforços para construir uma base fascista extra-parlamentar aumentou o nervosismo nos círculos financeiros sobre o perigo de um colapso da bolha especulativa que tem aumentado desde a quebra de Wall Street em 2008.

A resposta, oferecida com mais clareza pelo Times, tem sido no sentido de aumentar o domínio dos militares e das empresas americanas sobre o governo em uma extensão sem precedentes na história dos EUA. Faz 56 anos que o presidente Dwight D. Eisenhower, em seu discurso de despedida de 1961, alertou sobre os perigos para a democracia colocados pelo “complexo industrial-militar”. Ele não poderia ter nenhuma ideia do tamanho, poder e grau de dominação exercido pelo vasto complexo militar, de inteligência e das corporações de hoje.

A primeira consequência desse predomínio foi o anúncio de que Trump realizará uma conferência de imprensa esta noite, revelando planos para uma expansão da guerra no Afeganistão.

O que a elite dominante teme acima de tudo é o crescimento da oposição da classe trabalhadora à administração Trump e a todo o sistema político. Nesse sentido, foi cirurgicamente extirpada da narrativa oficial da mídia qualquer referência à realidade da vida social nos EUA – um país onde 20 indivíduos possuem tanto dinheiro quanto a metade mais pobre da população –, bem como a agenda reacionária da própria administração Trump. Também não há discussão sobre a guerra e os crimes cometidos por “responsáveis” líderes como Mattis, que ganhou o apelido de “Cachorro Louco” por seu papel na destruição da cidade iraquiana de Fallujah.

Tudo isso é substituído por uma série de questões que desviam a atenção da população dos reais problemas hoje em dia, centradas em uma apresentação grosseiramente distorcida dos Estados Unidos como um país repleto de situações de intolerância racial e uma imagem exagerada da força e influência das forças neonazistas e racistas. Daí surgem os fenômenos aparentemente contraditórios, mas compatíveis, onipresentes na mídia alinhada ao Partido Democrata, da promoção da política de identidade ao lado de retratos respeitosos e até admiradores dos bandidos supremacistas brancos que protestaram em Charlottesville.

Um exemplo típico dessa atitude foi um boletim divulgado domingo pela revista New Yorker com a manchete “Supremacia branca nos EUA”. Na introdução, David Remnick, autor da biografia santificada de Obama, The Bridge, declara: “Não se engane: neonazistas e supremacistas brancos estão agora na vanguarda da política americana.”

Entre os artigos em destaque está o de Toni Morrison intitulado “Making America White Again” (Tornando os EUA branco de novo), que insiste que “Ao contrário de qualquer nação na Europa, os Estados Unidos mantêm a branquitude como uma força unificadora.” Em linha com o Partido Democrata e seus vários apêndices entre as organizações da pseudo-esquerda da classe média privilegiada, Morrison explica a eleição de Trump como o produto do racismo dos “EUA branco”:

No dia das eleições, os eleitores brancos ansiosamente – tanto os menos quanto os mais instruídos – abraçaram a vergonha e o medo semeados por Donald Trump. O candidato que teve sua empresa processada foi pelo Departamento de Justiça por não alugar apartamentos para pessoas negras. O candidato que questionou se Barack Obama tinha nascido nos Estados Unidos, e que pareceu tolerar o espancamento de um manifestante do Black Lives Matter em um comício de campanha. O candidato que manteve trabalhadores negros longe do chão de seus casinos. O candidato que é amado por David Duke e apoiado pela Ku Klux Klan.

Esse esforço para retratar todos os brancos, e particularmente homens brancos, como apoiadores secretos da KKK é uma fraude política. O racismo existe. No entanto, os supremacistas brancos e os neonazistas que protestaram em Charlottesville são uma pequena minoria que não são tolerados pela grande maioria dos trabalhadores. Uma mobilização nacional poderia levar apenas algumas centenas de defensores dessa ideologia bárbara para protestar. Enquanto isso, dezenas de milhares de pessoas de todas as cores e grupos étnicos protestaram para denunciar Trump e os fascistas que defende.

Trump é presidente hoje não por causa do racismo, mas porque ele apelou de maneira mais bem sucedida ao descontentamento social do que o Partido Democrata e Hillary Clinton, a personificação da aliança entre Wall Street e o aparelho de inteligência militar, que não tentou esconder seu desprezo complacente pela dificuldade de dezenas de milhões de trabalhadores que se esforçam para sobreviver.

A narrativa racialista está sendo usada para demonizar grandes setores da população, reforça a política de identidade de camadas privilegiadas da classe média, fornece cobertura política para uma transferência massiva de riqueza para os ricos, apoia um possível golpe palaciano dos generais e bilionários empresariais e, sobretudo, desvia e suprime um movimento independente da classe trabalhadora.

A ameaça primordial para os direitos democráticos não vem de um punhado de bandidos fascistas, mas da própria aliança de Wall Street e do Pentágono que está sendo promovida como o antídoto para os racistas nas ruas.

Quanto ao Times e aos vários filiados do Partido Democrata, eles veem a ameaça real não vinda dos neonazistas, mas de um movimento socialista da classe trabalhadora.

A promoção da política racialista e o controle militar-corporativo cada vez maior sobre o governo andam lada-a-lado com a supressão das visões de oposição, principalmente do World Socialist Web Site. Isso explica a decisão tomada pelo Google, em estreita coordenação com o estado americano, de censurar e colocar o WSWS na lista negra da internet por meio da manipulação dos resultados de pesquisa. Este é o prelúdio de ações mais agressivas para atacar a oposição socialista que denuncia as políticas da elite corporativa e financeira.