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A ameaça de guerra nuclear de Trump contra a Coréia do Norte

Bill Van Auken
27 de outubro de 2017

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Publicado originalmente em 10 de Agosto de 2017

A ameaça do presidente americano Donald Trump de lançar “fogo e fúria como o mundo jamais viu” contra a pobre e oprimida nação da Coréia do Norte enviou ondas de choque de medo e preocupação por todo o mundo.

Na mesma semana que os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki estavam marcando o 72˚ aniversário das bombas atômicas que mataram aproximadamente 250 mil homens, mulheres e crianças japonesas, o presidente dos EUA interrompeu suas férias para lançar ameaças de uma guerra nuclear na Ásia com consequências incalculáveis para toda a humanidade.

Um assessor sênior da casa Branca tentou diminuir as arrepiantes consequências da declaração de Trump, dizendo à mídia que o comentário do presidente “não tinha sido planejado” e que era “espontâneo”, enquanto o Secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, disse aos americanos que “eles devem dormir bem à noite, que não devem se preocupar com essa particular retórica dos últimos dias”.

E, ainda assim, enquanto essas garantias convincentes estavam sendo proferidas, o Secretário de Defesa de Trump, o ex-fuzileiro General James “Cachorro Louco” Mattis, frequentemente referido pela mídia como o “adulto na sala” e uma força a favor da moderação, ecoou a ameaça do presidente. Ele exigiu na quarta-feira que a Coréia do Norte “cesse qualquer consideração de ações que levariam ao fim do seu regime e a destruição do seu povo”. O significado é claro: submetam-se às exigências de Washington ou encarem a aniquilação nuclear.

O próprio Trump seguiu sua ameaça anterior com um tuíte na quarta-feira se vangloriando da capacidade de Washington de executar uma guerra nuclear. “Minha primeira ordem como presidente foi de renovar e modernizar nosso arsenal nuclear”, ele declarou. “Este agora é muito mais forte e poderoso do que jamais foi antes. Com sorte, nunca teremos de usar esse poder, mas também nunca haverá uma época em que não seremos a nação mais poderosa do mundo!”

A inconsequência de tais ameaças e a retórica de opressão são estarrecedoras. O que os líderes do governo norte-coreano deveriam pensar quando a potência nuclear mais poderosa do mundo ameaça repetidamente atacá-los com “fogo e fúria” e pulverizar toda a sua população?

Essas ameaças são feitas no mesmo momento que os EUA posicionou um grupo de batalha liderado pelo porta-aviões USS Carl Vinson perto das costas coreanas e enviou bombardeiros B-1 lançando provocações ameaçadoras próximo à fronteira norte-coreana

A Coréia do Norte reagiu às ameaças de guerra dos EUA com sua própria ameaça de lançar um ataque de mísseis sobre o território americano de Guam, no Pacífico, lar de bases para submarinos nucleares e bombardeiros estratégicos americanos. Ao mesmo tempo em que a ameaça poderia ser considerada mera retórica de Pyongyang, isso não é nem de longe uma certeza. E se os norte-coreanos calcularem que as ameaças dos EUA são reais e a guerra é iminente? Eles poderiam potencialmente decidir que, ao invés de perder suas forças armadas para as bombas e mísseis americanos, deveriam executar seu próprio ataque preventivo e mostrar à Washington que não estão blefando.

Enquanto o WSWS não tem nenhuma simpatia pelo regime hereditário reacionário no Coréia do Norte e suas ações provocativas, não há nada de irracional sobre tais cálculos.

Existe um peso imenso da história que subjaz a posição norte-coreana. A guerra dos EUA contra a Coréia, 65 anos atrás, matou pelo menos três milhões de pessoas, duas milhões delas no norte. De acordo com a própria avaliação da Força Aérea americana, “Dezoito de vinte e duas cidades grandes na Coréia do Norte foram destruídas pela metade ou mais.” O general da Força Aérea Curtis LeMay recordou posteriormente, “Nós destruímos quase todas as cidades na Coréia do Norte e na Coréia do Sul.”

Então, para a Coréia do Norte, a conversa dos EUA de “fogo e fúria” e ameaças de exterminar toda a população são tudo menos retórica.

O fundamento do conflito atual é a exigência de Washington de que a Coréia do Norte pare seus testes de armas nucleares e mísseis balísticos e entregue todo o seu aparato nuclear. Mas o governo de Kim Jong-un da Coréia do Norte está bastante ciente do destino de outros regimes que se submeteram à tais exigências.

O Iraque, que como a Coréia do Norte foi considerado parte de um “eixo do mal” por George W. Bush, concordou em desistir de seus programas de armas e foi invadido mesmo assim em 2003 sob o pretexto mentiroso de que possuía “armas de destruição em massa”. A guerra dos Estados Unidos tirou cerca de um milhão de vidas iraquianas e acabou com linchamento do chefe-de-estado, Saddam Hussein. Da mesma maneira, Muammar Gaddafi da Líbia concordou em desistir do seu programa de armas depois da invasão do Iraque, apenas para ver os EUA e a OTAN lançarem uma guerra contra seu país em 2011 que matou milhares de líbios, deixou a sociedade em ruínas e acabou com seu próprio assassinato por uma multidão que o linchou.

O programa nuclear da Coréia do Norte é a única coisa que impediu o país e seu governo de sofrer um destino parecido.

As ameaças aparentemente insanas de Trump são um sinal de que o imperialismo americano não está mais disposto a aceitar o risco de um enfrentamento nuclear como uma barreira insuperável aos seus planos para uma guerra agressiva.

A administração dos EUA está tentando preparar o público para o que quase certamente se tornaria uma guerra mundial catastrófica, com consequências devastadoras para a economia, os direitos democráticos e as vidas dos trabalhadores e trabalhadoras nos EUA e em todas as partes do planeta. A Casa Branca, o Pentágono e os vários “think tanks” que elaboram a política imperialista americana alegam que Pyongyang cruzou o nível mínimo para se tornar uma potência nuclear, tendo supostamente desenvolvido ogivas miniaturizadas e mísseis balísticos intercontinentais capazes de lançá-los em uma cidade americana.

Não há mais razão para levar essas afirmações a sério do que houve para engolir as mentiras da administração de Bush sobre as armas de destruição em massa iraquianas. E, enquanto Washington declara que as ogivas norte-coreanas são uma ameaça real, deu assistência a regimes igualmente instáveis e agressivos em Israel, na Índia e no Paquistão para desenvolverem seus próprios arsenais nucleares.

Os cálculos da classe capitalista dominante em suas preparações para a guerra contra a Coréia do Norte são soletradas em termos horripilantes na última edição da revista Economist, que elabora um cenário hipotético para o início de uma guerra que acabe em uma vitória rápida para os EUA. Ela estima o número inicial de civis mortos em 300.000, com muitos mais morrendo pela contaminação radioativa. Conclui com um tuíte hipotético de Trump: “Ataque nuclear em Seul pelo perverso Kim foi MAU! Não tive escolha a não ser também atacar. Mas graças às minhas ações, os EUA estão salvos novamente!”

Esse sinistro cenário é o que possui as perspectivas mais otimistas, já que uma tal guerra impactaria potencialmente não apenas toda a população da Coréia do Norte, mas também 10 milhões de pessoas em Seul e 38 milhões na região metropolitana de Tóquio, sem mencionar dezenas de milhares de tropas americanas estacionadas na Coréia do Sul. Além disso, um ataque dos EUA sobre a Coréia do Norte poderia envolver, como aconteceu 65 anos atrás, a China, agora uma das maiores potências nucleares.

O perigo cada vez maior de uma guerra e as ameaças aparentemente insanas de extermínio nuclear não são meramente uma questão da mente criminosa e fascista de Donald Trump. É o governo inteiro dos EUA que começou a falar a linguagem de Adolf Hitler.

Esse é o produto de uma cultura política que tem se desenvolvido ao longo de 25 anos de guerras consecutivas de agressão, ameaças e opressão por uma oligarquia capitalista nos EUA que adotou o militarismo e as guerras agressivas como uma meio de impedir sua dominação econômica em erosão.

Guerras no exterior têm vindo acompanhadas por uma desigualdade social cada vez maior e ataques incessantes sobre as condições de vida e direitos básicos da classe trabalhadora nos EUA. A oposição social está crescendo sob condições em que Trump é o presidente mais impopular na história americana. O establishment político está internamente dividido e a administração de Trump está em guerra com si própria. Existe um perigo real de que a Casa Branca vai aproveitar uma guerra contra a Coréia do Norte para projetar tensões sociais e políticas internas para fora contra um “inimigo” estrangeiro.

Ninguém deve duvidar das vastas consequências de uma tal política. O início de uma guerra significa uma matança em massa, incluindo as mortes de milhares de soldados americanos, será utilizado como pretexto para repressão política violenta dentro do próprio Estados Unidos.

Os esforços do Google em censurar o WSWS são um aviso dos métodos ditatoriais sendo preparados contra a classe trabalhadora como um todo.

A ameaça de uma guerra mundial nuclear tem sido levada adiante pela cada vez maior crise do capitalismo americano e mundial, no centro da qual se encontra a contradição insolúvel entre a economia global e a divisão do mundo em estados-nação rivais. A mesma crise do sistema capitalista baseado no lucro, entretanto, cria tanto as condições objetivas quanto a necessidade política da classe trabalhadora lutar pela sua própria solução revolucionária, através da construção de um movimento internacional contra a guerra baseado em uma perspectiva socialista para pôr um fim ao capitalismo antes que ele mergulhe a humanidade na barbárie.