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Três meses após o furacão Harvey: Dezenas de milhares ainda sem-teto após o pior desastre natural na história dos EUA

Joseph Kishore
26 de febrero de 2018

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Publicado originalmente em 29 de Novembro de 2017

O furacão Harvey chegou aos Estados Unidos no fim de Agosto deste ano, matando pelo menos 90 pessoas e devastando grande parte da região de Houston, Texas. Três meses depois, dezenas de milhares de pessoas estão sem-teto, a construção de casas mal começou e as consequências de longo prazo do desastre para a saúde pública ainda não foram contabilizadas.

Segundo alguns critérios, o furacão Harvey é o pior desastre natural na história dos Estados Unidos, com custos estimados de aproximadamente 200 bilhões de dólares, incluindo danos causados pela inundação de mais de 300.000 casas. Ao Harvey, seguiu-se o furacão Irma em Setembro, que passou pelo Caribe e Flórida, e o furacão Maria, que destruiu grande parte da infraestrutura e das casas do território americano da ilha de Porto Rico.

Cada uma dessas tempestades, alimentada por temperaturas mais altas causadas pelo aquecimento global, expôs a negligência criminosa da classe dominante americana. Procedimentos de evacuação e abrigos de emergência inadequados ou inexistentes levaram à morte cerca de 250 pessoas, de acordo com os números oficiais (o número de mortos em Porto Rico é muito maior do que o divulgado). Muitos outros tiveram suas vidas arruinadas, forçando-os a lidar com suas perdas sozinhos depois de seus lares terem sido destruídos.

A mídia americana e seus comentaristas rapidamente deixaram de lado qualquer investigação sobre os impacto do Harvey, uma atitude coerente em relação a todo desastre que atinge os Estados Unidos. Em um dos poucos artigos recentes documentando a catástrofe em curso, o Houston Chronicle relatou que, três meses depois da passagem do furacão, “mais de 47.000 vítimas das inundações estão vivendo em hotéis e motéis ao longo do sudeste do Texas e além, um testemunho do ritmo glacial da recuperação habitacional”.

Essas pessoas, o Chronicle afirma, “são as sortudas”. O jornal continua: “Dezenas de milhares mais organizaram suas próprias acomodações temporárias, vivendo com parentes, em tendas ou colchões em casas quase inabitáveis”.

A escassa assistência governamental disponibilizada para as dezenas de milhares de pessoas sem seguro contra inundações no Texas se dá na forma de subsídios temporários para acomodação em motéis pela Agência Federal de Administração de Emergências (FEMA).

Aquelas impactadas precisam passar por um processo tortuoso para solicitar ajuda. De acordo com o Chronicle, apenas cerca de 9.500 famílias puderam receber assistência habitacional adicional aos subsídios temporários da FEMA. Dessas, “apenas uma tinha conseguido voltar para uma casa reparada pelo programa da FEMA, e 223 estavam vivendo em um trailer ou casa móvel”. O artigo acrescenta que “ninguém se mudou para um trailer, garantiu um apartamento ou presenciou o início de um trabalho de reparos através dos programas habitacionais temporários do estado”.

Uma investigação feita pela TV local KHOU descobriu que 22.208 estudantes na área de Houston são considerados sem-teto, com alguns bairros com até 10% de moradores sem-teto. Ela citou o defensor da criança e do adolescente Dr. Bob Sanborn: “Isso é algo que poderia de fato afetar essa geração inteira”, a “geração Harvey”.

Outras consequências são mais difíceis de se calcular. Um relatório da Rádio Pública Nacional constatou que existem 25.000 pessoas na área de Houston vivendo com HIV e AIDS, e muitas delas tiveram que passar semanas sem medicação. “O furacão fechou farmácias e clínicas por uma semana – ou mais. As inundações estragaram os remédios. Pessoas que fugiram para outros estados não conseguiram receitas para medicamentos contra o HIV”.

Existe também o impacto ambiental. As águas inundadas foram contaminadas por coliformes fecais, chumbo, arsênio e outras toxinas, impactando a vida daqueles que moram e trabalham na região.

Grande parte da construção na área de Houston está sendo feita por trabalhadores contratos pelo dia de trabalho, principalmente imigrantes ilegais que vivem com medo constante da deportação, intensificada pelas políticas da administração Trump. Eles trabalham sem qualquer proteção legal, frequentemente em condições perigosas.

A agência de noticias Associated Press reportou que a Rede Nacional Organizacional do Trabalhador Diarista entrevistou recentemente esses trabalhadores em Houston e descobriu que “a maior parte é exposta rotineiramente ao mofo e à contaminação… Cerca de um quarto dos mais de 350 trabalhadores pesquisados disse que o salário prometido para realizar o trabalhado de limpeza depois do furacão Harvey não foi pago, algumas vezes por empregadores que os abandonaram nos locais de trabalho depois de terem completado o trabalho”.

Condições parecidas também são encontradas em outras regiões devastadas pelos furacões nesta temporada. Mais de 40.000 pessoas solicitaram pedidos de auxílio alimentar na Flórida, muitas esperando em longas filas por uma assistência mínima. Todo o estoque habitacional da ilha caribenha de Barbuda foi destruído, com investidores e especuladores aparecendo para comprar terrenos.

Metade de Porto Rico permanece sem energia elétrica mais de dois meses depois do furacão Maria. Centenas de milhares ainda estão sem água potável. A ilha passou pelo que só pode ser descrito como uma crise de refugiados em massa, em que dezenas de milhares fugiram para os Estados Unidos à procura de moradia e emprego. O governo está usando o desastre como uma oportunidade para fechar ou privatizar escolas e demitir professores, como aconteceu depois do furacão Katrina atingir Nova Orleans em 2005.

Desastres naturais expõem a realidade da vida social. Os Estados Unidos são caracterizados por níveis de desigualdade social sem precedentes. Três bilionários possuem tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população. Na semana passada, Jeff Bezos, o CEO da Amazon, aumentou sua riqueza para mais de 100 bilhões de dólares – três vezes a quantia aprovada pelo Congresso dos EUA para ajudar as vítimas dos furacões no mês passado.

Nas últimas quatro décadas, a elite dominante, sob democratas e republicanos, levou adiante uma política de redistribuição da riqueza com um só objetivo, canalizando recursos de programas sociais e infraestrutura para as planilhas financeiras das corporações e contas bancárias dos ricos. As consequências disso são inúmeras, desde a crise de opioides devastando grande parte do país, até a expectativa de vida em declínio, salários na linha da pobreza e dívidas elevadíssimas para a maioria da população.

A prioridade doméstica principal da classe dominante é a aprovação de cortes de impostos massivos para as corporações e os ricos, atualmente sendo acelerada pelo Congresso. Ao mesmo tempo em que os republicanos estão encabeçando esse roubo, eles o fazem com a cumplicidade de todo o establishment político.

As condições em Houston exemplificam a realidade social que os democratas e a mídia estão tentando enterrar poluindo a consciência pública com a campanha de alegações de assédio sexual e a histeria neo-McCartista de alegações de que a Rússia está “semeando divisões” dentro dos Estados Unidos. Eles tem a esperança de suprimir a oposição através de um regime de censura da internet.

Fatos, entretanto, são coisas teimosas. A devastação trazida pelo furacão Harvey terá seu impacto de outras maneiras, alimentando um clima crescente de raiva e oposição que possui implicações revolucionárias.

 



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