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O papel desempenhado pelo conselho de trabalhadores alemão no ataque ao emprego dos trabalhadores belgas

Por Ulrich Rippert
19 Dezembro 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 13 de Dezembro de 2006.

Desde meados de novembro, os dirigentes do conselho de trabalhadores e do sindicato da Volkswagen na Alemanha negam que eles possam fazer alguma coisa em relação à decisão da administração da Volks de transferir a produção do modelo Golf da unidade de Bruxelas para duas outras na Alemanha, Wolfsburg e Mosel.

Imediatamente depois da publicação dos planos de transferência da produção, o presidente do conselho de trabalhadores da companhia, Bernd Osterloh, afirmou que os dirigentes sindicais estavam “completamente surpresos” pela decisão do comitê executivo. Alguns dias depois, o escritório de imprensa do IG Mettall, de Wolfsburg, publicou uma declaração de solidariedade do sindicato “aos trabalhadores da Volkswagen de Bruxelas”. De acordo com a declaração pública de 30 de novembro, o sindicato “não permitirá que as diversas unidades da Volkswagen sejam colocadas umas contra as outras”.

Dois dias depois, 20.000 trabalhadores protestaram no centro de Bruxelas contra a ameaça de fechamento da fábrica da Volks na cidade de Forest. Dirigentes do IG Metall carregavam cartazes com a frase “Somente juntos somos fortes!”, e mais uma vez o sindicato declarou: “não permitiremos que as diferentes localidades da Volks sejam postas umas contra as outras”.

Os fatos, todavia, comprovam uma história bem diferente.

No dia 20 de setembro, o jornal alemão Der Spiegel publicou uma reportagem acerca do encontro realizado na principal fábrica da Volks em Wolfsburg, em que Osterloh esclareceu o processo de negociações relacionado ao aumento das horas de trabalho (sem aumento salarial), por meio da diminuição dos intervalos e outras “medidas que visam aumentar a competitividade”, que tem sido exigida pela administração.

De acordo com a reportagem do Der Spiegel, “o chefe do conselho de trabalhadores da Volkswagen, Bernd Osterloh, colocou as negociações na dependência das promessas concretas da administração da companhia. ‘Se não houver movimento, então as coisas se tornarão sérias e nós interromperemos as discussões’, disse Osterloh”. Alguns parágrafos adiante, a reportagem acrescenta: “com respeito à promessa, Osterloh tem algo de muito concreto em mente: a próxima geração do Golf será executada em Wolfsburg. ‘Nós certamente não aceitaremos nenhum ‘quem sabe’ ou ‘vamos ver...’, quando é nossa obrigação assegurar o futuro de nossas localidades’ disse ele”.

Numa entrevista concedida no dia 8 de setembro à agência de imprensa alemã DPA, o líder distrital do IG Metall para o estado da Baixa Saxônia e da Saxônia-Anhalt, Hartmut Meine, disse: “estamos um passo a frente: a Volks está aparentemente pronta para finalizar e manter as promessas para produção e investimento nas seis fábricas da Alemanha ocidental”. (Autohouse On-line, 8 September 2006).

No dia 11 de setembro, o Frankfurter Allgemeine Zeitung informou que o IG Metall converteu as negociações com a administração da Volkswagen em contratos oficiais de barganha de processos, “porque a Volks está preparada para fazer promessas concretas respeitando a produção”. O FAZ afirmou então que o sindicato está exigindo que a Volks “amarre as promessas para todas as seis fábricas da Alemanha ocidental”. O jornal citou a declaração do líder do distrito, Meine, que disse que “em meio a outras coisas, o novo Golf deve ser produzido na fábrica de Wolfsburg...”.

A afirmação de que tal discussão centrada em assegurar a produção do “novo Golf” em Wolfsburg (Golf 6, que deve aparecer no mercado somente em 2008), e que as conversas não tem nada a ver com a produção do Golf 5 em Bruxelas, é uma mentira. Desde o início desse ano, Wolfgang Bernhard, o membro do comitê executivo responsável pela reorganização dos produtos da VW, tem afirmado repetidamente que a atual produção do Golf em três localidades—Bruxelas, Wolfsburg e Mosel—não era lucrativa e que a produção do Golf 6 deve ser limitada a duas localidades.

Bernhard já mostrou duas credenciais quando defendeu tais medidas de racionalização. Antes de deixar a Mercedes e assumir o comitê executivo da Volks, em fevereiro de 2005, ele era responsável pela reorganização da divisão da Chrysler norte-americana, em Detroit. Lá ele eliminou 26.000 empregos num curto espaço de tempo, liquidou diversas fábricas, fechou outras e ditou as condições para os fornecedores da Chrysler, o que levou a uma economia de bilhões de dólares para a Daimler-Chrysler. Ele está, agora, fazendo o mesmo serviço na Volkswagen, contando com o ativo apoio do conselho de trabalhadores.

O líder do conselho de trabalhadores, Bernd Osterloh, está muito satisfeito com o “jeito decisivo e energético” de Bernhard. Em 26 de julho deste ano a revista alemã Focus publicou um artigo intitulado “Glória a Bernhard”, afirmando que “de acordo com a reportagem (que apareceu anteriormente na revista Stern) o chefe do conselho de trabalhadores elogiou expressamente a liderança enérgica da Volkswagen, dizendo que ‘finalmente encontrou-se na pessoa de Wolfgang Bernhard alguém que realmente pode dizer como se constrói um automóvel de forma mais econômica’. Osterloh disse ainda de maneira entusiasmada: ‘o tempo de produção do Golf na fábrica principal, em Wolfsburg, já foi reduzido de 50 para 37 horas’”.

O acordo sujo de Osterloh

O fato de que o conselho de trabalhadores alemão tenha concordado com a extensão das horas de trabalho, sem uma compensação salarial, aliada a outras perdas nas condições de trabalho na Volks, que visam garantir a produção do Golf nas localidades alemãs, é ilustrado pela seguinte seqüência de acontecimentos.

Em fevereiro o comitê executivo da companhia anunciou um “profundo programa de reestruturação”. O custo do trabalho na Alemanha poderia ser diminuído consideravelmente e a produção melhorada. Cerca de 20.000 trabalhadores—de um total de 100.000—“ligados direta ou indiretamente à marca Volkswagen” na Alemanha, seriam ameaçados.

Ao mesmo tempo, a direção do conselho dos trabalhadores e do IG Metall afirmou que “em conseqüência da difícil situação enfrentada pela companhia, nós ainda consideramos que sejam necessárias medidas que aumentem a eficiência e superem os déficits de produção”. O sindicato e o conselho de trabalhadores afirmaram que eles enfatizaram e cooperaram “no passado para a otimização dos processos e para a implementação de formas inovadoras de organização do trabalho”.

No final de setembro do ano passado, o IG Metall já havia contribuído para o corte de 20% do salário de trabalhadores de algumas seções. A administração anunciou a sua decisão de produzir o novo jeep da Volkswagen em Portugal, ao invés deste ser produzido na sua principal fábrica, em Wolfsburg. O custo da produção (por automóvel) na unidade de Pámela, em Portugal, é aproximadamente 1.000 euros mais baixo que na Alemanha. O jeep poderia ser produzido na Alemanha somente sobre a base de severos cortes salariais. O IG Metall capitulou à exploração feita pela companhia e elogiou o acordo como sendo um “sucesso no que diz respeito à defesa dos empregos”.

Um processo muito similar ocorreu nessa primavera. Bernhard, exigiu o fim da semana de 4 dias de trabalho na companhia e um retorno à semana de 35 horas de trabalho—sem nenhum acréscimo nos pagamentos. De outra forma, disse ele, seria impossível concentrar a produção do Golf nas fábricas alemãs. O conselho de trabalhadores e o IG Metall concordaram imediatamente com esta proposta.

As negociações começaram na primavera, e durante o verão um novo contrato foi assinado, apesar de o contrato antigo ser válido até o final de 2011. O conselho de trabalhadores estava pronto para concordar com condições de trabalho substancialmente rebaixadas, em troca de empregos nas plantas alemãs. No curso dessas negociações a formulação que prevê “a concentração da produção do Golf nas fábricas alemãs” foi desenvolvida para disfarçar a retirada da produção do Golf da fábrica de Bruxelas.

Somente depois de a administração da companhia ter concordado com a concentração da produção do Golf nas unidades alemãs, os dirigentes do conselho de trabalhadores e do IG Metall aceitaram a extensão da jornada de trabalho sem o aumento dos salários, assinando então o contrato.

Em suma, a transferência da produção do Golf de Bruxelas para Wolfsburg e Mosel foi um componente central de negociação desde o início. Os mesmos conselhos de trabalhadores que estão atualmente escrevendo declarações de solidariedade aos trabalhadores grevistas da Volks em Bruxelas e vertendo lágrimas de crocodilo sobre o corte de empregos na Volkswagen de um país vizinho, estavam diretamente envolvidos nessa decisão.

O reconhecimento do papel desempenhado pelos dirigentes dos conselhos de trabalhadores e do sindicato fez com que a administração da Volkswagen premiasse os seus serviços com extravagantes subornos, com o financiamento de viagens luxuosas ao redor do mundo e inúmeros outros privilégios.

O caso do líder do conselho, Klaus Volkert, é agora bem conhecido. Seu salário mensal na Volks chegava a 60.000 euros, e esta soma não inclui as despesas regularmente pagas pela companhia à manutenção de sua amante brasileira. Mas Volkert não é o único. Todo o conselho de trabalhadores da Volkswagen—somente em Wolfsburg há 67 funcionários de período integral que recebem altos salários—foi subornado e funciona como co-administrador, colaborando com a administração da companhia.

Bernd Osterloh foi membro do conselho de trabalhadores nos últimos 16 anos. Ele foi o vice de Volkert antes da demissão deste, causada pelas denúncias de corrupção. Todavia, Osterloh não faz parte da facção de Volkert, e poderia certamente ser o único a desempenhar uma função secundária, podendo estar isento de responsabilidade em relação aos conhecidos casos de excessos e nepotismo. Mas isso não ameniza o problema. Osterloh é um defensor convicto e entusiasta do sistema alemão de colaboração entre trabalhadores e administração.

Trabalhando muito próximo do ex-chefe de pessoal, Peter Hartz, foi Osterloh quem elaborou o modelo de trabalho conhecido como “5.000 vezes 5.000” que está sendo utilizado atualmente para executar os drásticos cortes de salário no maior complexo alemão da Volks.

Diante da concorrência mundial e da constante ameaça de transferência da produção para países com força de trabalho mais barata, Osterloh é um dos membros do conselho de trabalhadores e do sindicato que defende suas próprias fábricas por meio do corte de trabalhadores em outras unidades da Volks fora da Alemanha e mesmo dentro do país.

A defesa principista de todos os empregos em todas as localidades só é possível por meio de uma luta contra tais sindicalistas co-administradores.

Os trabalhadores em Wolfsburg ou Mosel não podem permitir serem jogados contra os seus colegas de Bruxelas. Eles devem exigir que todos os membros do conselho de trabalhadores e representantes do sindicato que participaram nas negociações revejam os contratos que tratam da transferência da produção do modelo Golf.

A defesa principista de todos os empregos em todas as fábricas requer uma perspectiva completamente diferente das políticas de co-administração e pacto social dos sindicatos. Tal perspectiva é resultado do caráter internacional da produção moderna e os interesses comuns de todos os trabalhadores do mundo, e deve defender uma transformação socialista da sociedade. Os interesses sociais da população como um todo deve ter prioridade em relação ao interesse de lucro do grande capital.

Então, nos panfletos distribuídos pelos apoiadores do World Socialist Web Site (WSWS) em Bruxelas, nós defendemos a construção dos comitês de defesa contra as demissões em massa e o corte dos direitos, opondo-nos às políticas nacionais dos sindicatos e dos conselhos de trabalhadores. Mais uma vez chamamos a todos aqueles que apóiam a luta dos trabalhadores da Volkswagen em Bruxelas, ou que desejam fazer parte da construção dos comitês de defesa em outras empresas, a entrarem em contato com o comitê editorial do WSWS.

 



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