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Pressão liderada pela Austrália leva primeiro-ministro do Timor Leste à renúncia

Por Por Peter Symonds
7 Julio 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 27 de junho de 2006.

O primeiro-ministro do Timor Leste, Mari Alkatiri, renunciou ontem (26.06) no meio de uma implacável campanha executada pelo governo e mídia australiana, para sua exoneração. Seu anúncio de renúncia chega a menos de 24 horas depois de uma reunião do seu partido, o Fretilin, que recusou ceder às exigências do presidente Xanana Gusmão em remover a “liderança ilegal” de Alkatiri e do partido de Francisco “Lu-Olu” Guterres. Gusmão teatralmente ameaçou renunciar se suas exigências não fossem cumpridas, mas recuou de sua ameaça durante a semana.

O Comitê Central do Fretilin apelou para que Gusmão e Alkatiri permanecessem em seus cargos, mas Alkatiri foi logo pressionado por um aliado próximo de Gusmão, o Ministro do Exterior José Ramos-Horta, que anunciou sua intenção, no domingo, de renunciar “porque o governo não está funcionando adequadamente”. O Ministro do Exterior da Austrália, Alexander Downer, imediatamente declarou que seria “lamentável” se a renúncia de Ramos-Horta fosse confirmada, dizendo ainda que “ele vem sendo um bom amigo e um Ministro do Exterior muito competente”.

Um fator-chave na decisão de Alkatiri foram as possíveis acusações judiciais após a exibição, no dia 17, de um programa da rede de TV australiana “Four Corners”, que tinha como finalidade provar que ele e o Ministro do Interior, Rogério Lobato, formaram um “esquadrão da morte” para assassinar adversários políticos. Lobato foi acusado e detido com o auxílio de soldados australianos na semana passada.

A renúncia de Alkatiri, entretanto, foi causada não tanto pela provocativa campanha realizada para a sua exoneração, mas sim, pelo fato que os próprios colaboradores do Fretilin estavam participando da disputa, aumentando as possibilidades de um agravamento, que poderia levar mesmo a uma guerra civil aberta. Por semanas, os líderes do Fretilin bloquearam qualquer esboço de reação, por parte dos membros e apoiadores do partido, em oposição aos relativamente pequenos protestos anti-Alkatiri orquestrados por Gusmão, Ramos-Horta, políticos da oposição e vários oficiais rebeldes da Polícia e do Exército. Há relatos de que, ontem, 18 caminhões com apoiadores do Fretilin estavam dirigindo-se à Dili para apoiar o governo.

O que Alkatiri temia era o desenvolvimento de um movimento fora do controle do Fretilin, contra a ocupação liderada pelos australianos e seus fantoches. Em sua curta declaração à impressa, Alkatiri declarou sua disposição em retirar-se para prevenir “qualquer aprofundamento da crise” e “acreditando que todos os militantes e simpatizantes do Fretilin irão entender e apoiar sua posição”. Um sucessor ainda não foi escolhido, mas o Fretilin irá, inevitavelmente, confrontar uma campanha similar se o partido falhar em escolher alguém que seja aceitável a Gusmão e seus apoiadores em Canberra (Austrália).

Para assegurar que a renúncia de Alkatiri seja definitiva, foi anunciado que ele poderá ser acusado de crimes contra o Estado e que poderá ser condenado a 15 anos de prisão. O procurador-geral, Longuinhos Montiero, disse aos jornal The Australian: “Há indícios de que ele tinha conhecimento da distribuição de armas a civis e não fez nada sobre isso”. Mesmo que isso possa ser verdade, que Alkatiri e Lobato estivessem envolvidos na distribuição de armas para os colaboradores do Fretilin no último mês, isso ocorreu em meio ao colapso das forças de segurança e de ameaças dos lideres rebeldes em iniciar uma guerra civil. Não foi sugerido nada em relação aos rebeldes pró-australianos, como o major Alfredo Reinado, em ser acusado por sedição, traição ou outros crimes contra o Estado.

Discursando na Indonésia, o primeiro-ministro australiano, John Howard, mal podia esconder sua alegria com a saída de Alkatiri. “ Isto parece-me ser uma parte de um processo de reduzir as dificuldades, resolvendo o impasse e removendo a obstrução. Na medida em que estou satisfeito”, disse ele. Em comentário hipócrita, disse mais, que não via quem podia substituir Alkatiri, declarando: “Não cabe a mim nomear o primeiro ministro daquele país; afinal é um pais independente e soberano”.

Entretanto, nos últimos dois meses o governo australiano vem constantemente interferindo na soberania do Timor Leste, sob o pretexto de prevenir uma escalada rumo à guerra civil. No centro do caos político, processo que entrou em erupção em abril e maio, estão figuras ambígüas como Reinado, que treinou na Academia de Defesa Australiana no último ano e que tem ligações políticas muito próximas com Ramos-Horta.

Howard enviou navios de guerra australianos para as águas próximas do Timor Leste em 12 de Maio, sem informar o governo em Dili, mas aguardou até o resultado da contestação da liderança de Alkatiri no congresso do Fretilin, que ocorreu entre 17 e 19 de Maio. Foi apenas quando os delegados do Fretilin esmagadoramente endossaram a liderança de Alkatiri, que Canberra (Austrália) explorou a escalada da violência para reunir seus adversários políticos e soldados rebeldes como meio de pressionar Dili à “convidar” uma intervenção militar liderada pelos australianos.

Enquanto as tropas desembarcavam no Timor Leste, Howard provocativamente declarou em 26 de Maio que o país “não estava sendo bem governado”. Seus comentários assinalaram o início de uma rápida sucessão de ataques mordazes na mídia australiana, demonizando Alkatiri como alguém “amplamente odiado”, autocrático e marxista, responsável pela crise e que deveria renunciar. E se fosse necessário, Gusmão, como presidente, teria de exonerar o primeiro-ministro.

Entretanto, Alkatiri recusou-se a renunciar e Gusmão não possuía poderes constitucionais suficientes para removê-lo. Então a campanha anti-Alkatiri pôs-se a funcionar. Ao longo da incessante difamação de Alkatiri, os jornalistas australianos espalharam alegações de seus adversários políticos, que podem formar uma base para acusações legais. Nada muito fantástico. O líder rebelde Lieutenant Gastão Salsinha disse à rede “Four Corners” que Alkatiri foi responsável pelo massacre de 60 pessoas, mas recusou-se a dizer ao repórter o local do túmulo secreto onde estariam os corpos.

Ao mesmo tempo, Gusmão e Ramos-Horta, com o apoio da mídia australiana, montaram uma versão timorense das “revoluções coloridas”, apoiadas pelos EUA na Europa Oriental e na Ásia Central. Centenas de manifestantes anti-Alkatiri foram levados de caminhão à Dili, sob proteção da forças australianas, para serem colocadas em torno dos prédios governamentais. Imagens desses protestos são mostradas através do mundo como uma “prova” da impopularidade de Alkatiri e da necessidade de removê-lo.

A oposição do governo de Howard ao de Alkatiri não tem nada a ver com um estilo autocrático ou uma política “marxista”. Como notou, na semana passada, o correspondente do Sydney Morning Herald, Hamish McDonald: “A objeção não está na forma em que o Fretilin conduz a economia. Certamente ele não é marxista. Os últimos quatro anos viram orçamentos austeros...Como disse um oficial de ajuda estrangeira: Eles são o melhor punhado de neo-liberais que você poderia desejar”.

A real objeção de Canberra é que Alkatiri tomou uma atitude que prejudicava as aspirações de trazer o Timor Leste para sua firme influência política. Foi particularmente irritante ao governo de Howard dividir sua intervenção militar com outros países em 1999, particularmente, com Portugal, que colheu os benefícios. O governo de Alkatiri, após a independência formal em 2002, fortaleceu os laços com sua antiga metrópole, buscou assistência econômica da China e do Japão e recebeu ajuda de Cuba.

Quando o imperialismo australiano é prejudicado surgem represálias: o“crime” de Alkatiri é que ele falhou em seguir os ditados de Canberra (Austrália) e tentou equilibrar-se entre poderes concorrentes. Acima de tudo, ele recusou curvar-se imediatamente às exigências australianas de possuir a maior parte das reservas de petróleo e gás natural existentes no mar timorense, que, se a lei internacional fosse aplicada, pertenceriam ao Timor Leste. Após três anos de uma difícil barganha, Canberra foi obrigada a fazer limitadas - porém significantes - concessões à Dili, no acordo finalizado em janeiro deste ano.

É significativo que, na edição de hoje do The Australian (pertencente ao famoso magnata da mídia, Rupert Murdoch), o comentador Mark Dodd declarou: ”A saída de Alkatiri pode soar como uma boa notícia para as companhias australianas que desejam fazer negócios em Dili. Muitas estavam apavoradas quando ele estava no comando.” Em seu editorial, o The Australian, que estava no front da campanha para remover Alkatiri, sugeriu que a ocupação australiana pode durar indefinidamente, declarando : “ A Austrália terá de manter as tropas no país para o futuro próximo do Timor Leste”.

Com a remoção de Alkatiri, a Austrália apertou ainda mais seu domínio sobre o Timor Leste. Muito tempo já passou da competição internacional ocorrida pela metade da ilha, mas, o domínio australiano certamente se intensificará. Em uma entrevista na última semana, o general português reformado Alfredo Assunção, que foi comandante da força militar da ONU no Timor Leste em 2000 a 2001, denunciou amargamente as intenções de Canberra, declarando que “o que mais interessa aos australianos é o petróleo e o gás...então, qual é a melhor forma de controlar esses imensamente valiosos recursos do que estar fisicamente presente e controlar o sistema político do pais?”.

Assunção descreveu a Austrália como “o maior inimigo do país [o Timor Leste]” dizendo que sempre desejaram “controlar tudo e todos”. Declarou ainda que a Austrália estava tentando livrar-se de Alkatiri “e qualquer outro que ponha os interesses do Timor Leste acima das ambições de seus vizinhos”. Enquanto ele, obviamente, fala em favor da elite portuguesa no Timor, Assunção aponta para o fato de que o governo de Howard está preparado para aceitar somente um regime fantoche em Dili.

Mais do que o fim do caos político no Timor, a queda de Alkatiri pode apenas levar ao aprofundamento das tensões políticas e sociais. Aquilo que foi artificialmente retratado na mídia como uma luta entre o leste e o oeste, é de fato um conflito entre duas facções da elite dominante do país, e nenhuma delas é capaz de satisfazer as necessidades e aspirações das massas empobrecidas. Qualquer que seja a forma que o próximo governo tomará em Dili, a oposição popular irá inevitavelmente crescer em relação à ocupação neo-colonial australiana.