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Surge um novo modelo de negócios

Porque o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística apóia a compra da Chrysler pela Cerberus?

Por Barry Grey
21de maio de 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 16 de maio de 2007.

O apoio do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística (UAW) à venda da Chrysler para a Cerberus Capital Management, empresa privada de investimentos de Wall Street, ocasionou sérias e imediatas conseqüências para os trabalhadores da Chrysler e mesmo para todos os trabalhadores do setor automobilístico nos EUA.

Por trás do apoio do sindicato a uma empresa conhecida por realizar enormes lucros através dos cortes de empregos e salários e pela venda dos bens das corporações, está a intenção de transferir a responsabilidade da assistência médica dos trabalhadores americanos para um novo UAW controlado pela companhia. Os dirigentes do sindicato planejam entrar nos negócios da assistência médica e enriquecer, impondo diretamente massivos cortes nos benefícios de seus próprios associados.

De acordo com um artigo publicado na terça-feira no Wall Street Journal, planos atualmente em discussão nos mais altos escalões das três grandes montadoras americanas e do UAW “poderiam tornar o UAW um dos maiores fornecedores de assistência médica do setor privado nos EUA”.

Isso poderia marcar um novo estágio qualitativo na degeneração e transformação dos sindicatos. Os trabalhadores da indústria automobilística poderão ser obrigados a pagar taxas à instituição, que obterá enormes lucros por meio da degradação de sua assistência médica.

Um dos mais extraordinários aspectos do anúncio da venda da Chrysler à Cerberus feito na segunda-feira foi a reação do sindicato. Somente no mês passado, o presidente do UAW, Ron Gettlefinger, denunciou tal acordo, dizendo que empresas de investimento especulativo, como a Cerberus, pretendem somente “aumentar as suas riquezas revirando e destruindo as empresas”.

Ninguém que acompanhou a indústria automobilística americana poderia considerar a declaração de Gettlefinger como algo sério, que pudesse representar o início de uma luta dirigida pelo sindicato para se opor à venda da Chrysler à especuladores de Wall Street. Desde que o UAW aceitou o fechamento de plantas e os cortes de salários como parte da tentativa do governo salvar a Chrysler, em 1979-1980, o sindicato passou a funcionar fundamentalmente como uma arma auxiliar dos patrões, bloqueando a resistência dos trabalhadores e ajudando a impor sucessivos processos de demissões e concessões.

Apesar disso, a imediata capitulação do sindicato tomou os analistas financeiros e automobilísticos de surpresa. Gettlefinger já havia tornado pública uma declaração endossando a venda do grupo Chrysler a Cerberus logo nas primeiras horas do dia 14 de maio, mesmo depois da DaimlerChrysler ter anunciado oficialmente o acordo, numa coletiva concedida à imprensa em sua principal unidade de Stuttgart.

Numa conferência de notícias do sindicato na segunda-feira (14) à tarde e numa entrevista na rádio local de Detroit no mesmo dia, Gettlefinger elogiou o acordo, argumentando que várias garantias haviam sido dadas numa reunião realizada no sábado anterior, em Stuttgart, entre ele, o chefe de negociações do UAW na Chrysler, o vice- presidente geral do UAW, Holiefield, o diretor geral da DaimlerChrysler, Dieter Zetsche, e o presidente do grupo Chrysler, Tom LaSorda. Segundo o presidente do sindicato, a natureza exata das garantias são informações privilegiadas.

“Aquela conversa”, ressaltou o Detroit News, “foi uma das maiores surpresas no acordo de venda da Chrysler: a decisão de uma das mais poderosas organizações dos EUA de apoiar a venda, à qual ela havia se oposto durante meses”.

O artigo de terça-feira do Wall Street Journal dá esclarecimentos acerca das considerações que fundamentam a entusiástica concordância dos sindicatos na compra da Chrysler pela Cerberus, e poderia muito bem lançar luz sobre a discussão que ocorreu naquela semana entre os líderes do UAW e os chefes da DaimlerChrysler. O artigo, intitulado “Acordo da Chrysler anuncia nova direção para Detroit”, inicia enfatizando as amplas implicações do acordo da Chrysler para toda a indústria automobilística americana.

“A empresa de investimento de Nova York e a companhia automobilística alemã”, observa o artigo, “impuseram um ambicioso objetivo: trabalhar com o poderoso UAW para reestruturar os US$ 18 bilhões que a 3a maior montadora de Detroit estima que estarão provavelmente sob a responsabilidade total do UAW, para prestar assistência médica aos aposentados...”.

“Se a Cerberus pode encontrar uma fórmula de transferir esta quantia para outro que não seja o processo de falência, a Ford Motors Co. e a General Motors Corp. poderiam, com quase absoluta certeza, tentar segui-la, o que poderia representar uma quantia aproximada de US$ 95 bilhões em encargos relativos à assistência médica aos aposentados. Executivos dos “mais altos escalões ‘Três Grandes’ montadoras estão discutindo, afirmou uma pessoa que conhece bem de perto a situação”.

O jornal continua comentando que “a aquisição da Chrysler pela Cerberus poderia significar o prenúncio da compra da GM e da Ford por especuladores de Wall Street. Com avaliações na bolsa de valores em torno de US$ 15,7 bilhões e US$ 16,7 bilhões respectivamente, a Ford e a GM são alvos potenciais para compradores, especialmente se seus encargos com assistência médica de aposentados puderem ser ajustados a valores mais facilmente administráveis”.

O papel do UAW nesse processo de corte de custos de assistência médica e pensões é fundamental, explica o jornal. “Para a Cerberus, a chave para fazer o acordo funcionar será o UAW. A Chrysler estimou internamente que os fabricantes japoneses, como a Toyota Motor Corp., têm uma vantagem em relação aos custos trabalhistas de algo em torno de US$ 30 por hora, uma vez que todos os benefícios e pagamentos de seguro- trabalho são levados em conta. Mais da metade dessa lacuna é de benefícios relacionados aos aposentados, tais como assistência médica, pensões e seguro de vida.

“A Chrysler estima que sem uma mudança fundamental em seu contrato com o UAW, a diferença crescerá para US$ 45 por hora em 2009”.

“A Chrysler, a GM e a Ford esperam persuadir o UAW neste verão a concordar com o potencialmente revolucionário plano de assistência média aos aposentados, que é semelhante àquele conseguido pela Goodyear Tire & Rubber Co., afirmam três pessoas que conhecem os planos das corporações”.

O Journal comenta que a negociação da Goodyear envolveu a aprovação do Sindicato dos Metalúrgicos de uma transferência de US$ 1,2 milhão feita pela companhia a um fundo de assistência médica administrado pelo sindicato. A Goodyear contribuiu com US$ 1 bilhão para o fundo, em dinheiro e ações, em troca da imposição feita pelo sindicato de cortes de benefícios a seus próprios associados.

O jornal observa ainda que “executivos de alto escalão das três fabricantes, que têm cerca de US$ 95 bilhões em compromissos atuais e futuros em suas folhas de pagamento relativos à assistência médica, têm realizado ‘negociações buscando fazer algo parecido com o acordo da Goodyear’, afirma uma pessoa familiar ao problema...”.

“Comenta-se que a GM está pressionando o máximo possível para criar aquilo que se tem chamado de ‘VEBA (Associação dos Benefícios Voluntários dos Empregados) das Três Grandes’, que poderia criar um fundo independente, administrado pelo sindicato e mantido com bilhões de dólares. A JP Morgan & Chase Co. estimou que com uma média de US$ 55 a US$ 65 bilhões, as fabricantes poderiam criar um fundo”.

Na realidade, a GM já criou a VEBA como parte do acordo da concessionária fechado em 2005 com o UAW. Segundo o acordo, os trabalhadores associados ao UAW na companhia são forçados a destinar dois centavos por hora devido ao aumento do custo de vida, com o dinheiro indo para um fundo controlado pelo sindicato para ajudar a pagar os custos de assistência médica dos aposentados.

Assumindo o controle de uma companhia de assistência médica com dezenas de bilhões de dólares em bens, a burocracia do UAW terá vastos recursos à sua disposição. Não pode haver dúvidas de que, em pouco tempo, os salários dos altos dirigentes do sindicato aumentarão para centenas de milhares ou para alguns milhões de dólares.

A direção da companhia e Gettlefinger não poderiam imaginar que o sindicato viria a ser o responsável direto pela destruição dos benefícios de pensão e assistência médica de centenas de milhares de trabalhadores — direitos conquistados por meio da luta de várias gerações de trabalhadores. A burocracia do sindicato vê nessa situação a perspectiva de resolver os seus próprios problemas sociais: como manter e expandir os lucrativos salários e gastos da enorme hierarquia do sindicato, enquanto colabora na destruição dos empregos e das condições de vida dos associados do sindicato — o que, certamente, desgasta ainda mais rapidamente as bases da organização.

Sob a luz dessa análise, fica evidente o motivo que levou o vice-presidente do UAW, Holiefield, a declarar, na conferência à imprensa concedida pelo sindicato na segunda-feira, que os membros do UAW estavam “orgulhosos” com o acordo fechado com a Cerberus e “saudou-o” como sendo uma “oportunidade”. Obviamente, ele não estava falando dos associados do sindicato — que suspeitaram corretamente que o acordo significa um assalto sem precedentes aos seus empregos e condições de vida e estão revoltados com a capitulação do sindicato. Ele estava se referindo à burocracia sindical.

A luta do UAW para transformar a si mesmo numa empresa capitalista é o resultado de um longo processo. Por três décadas, de mãos dadas com o declínio da posição das fabricantes de automóveis dos EUA no mercado mundial, a burocracia sindical do UAW tem perseguido caminhos e meios para distanciar o seu próprio destino daquele dos trabalhadores por ela representados. Apoiando o capitalismo, o sistema bipartidário americano e uma perspectiva nacionalista, o UAW não poderia avançar por meio de uma perspectiva independente, de defesa dos interesses sociais dos trabalhadores. Inevitavelmente, o tamanho e o poder industrial do sindicato tiveram uma rápida queda — processo que continua acentuado ainda hoje.

Quanto mais os líderes do sindicato traíram os interesses dos operários, em nome de “defender os empregos americanos” — ou seja, os lucros das Três Grandes dos EUA — mais próximos eles procuraram ficar da administração das empresas. O salvamento da Chrysler em 1979-1980 foi um momento crucial, mo qual o sindicato apoiou abertamente a política do corporativismo, simbolizado pela entrada do então presidente do UAW, Douglas Fraser, no quadro de diretores da Chrysler.

A partir daí, seguiu-se então um tácito apoio do sindicato para construir a imagem do UAW nas plantas de produção de auto-peças, a proliferação de comitês unificados entre sindicato e empresa, fundos conjuntos de vários tipos sem fins específicos, além da oferta de contratos de baixos salários às fornecedoras em troca da permissão do UAW “representar” os trabalhadores — ou seja, receber contribuições extraídas diretamente dos salários dos trabalhadores.

O fundo de greve chegou rapidamente a centenas de milhões de dólares, pois o sindicato abandonou o instrumento da greve. Durante décadas não houve uma greve nacional contra as Três Grandes companhias. Mas isso não é o suficiente para sustentar uma numerosa burocracia, que chega aos milhares, sobretudo se considerarmos que o número de associados está sempre decrescendo.

Agora, todavia, a catástrofe que envolve os trabalhadores da produção — que enfrentam a redução dos benefícios ao mesmo nível dos trabalhadores mal pagos — dá à burocracia a oportunidade de controlar amplos recursos e assegurar o seu próprio futuro financeiro.

O acordo da Cerberus e a cumplicidade do sindicato trazem à tona a essência do UAW: ele é o instrumento de uma camada social corrupta, parasita e privilegiada que não tem nada em comum com a classe trabalhadora. É uma camada social profundamente hostil aos interesses dos trabalhadores.

A compreensão da natureza do UAW é uma condição indispensável para o desenvolvimento de uma luta política e industrial independente — baseada numa política socialista e internacionalista — que é necessária para a derrota da conspiração dos patrões, dos bancos, daqueles que saqueiam os bens das empresas em Wall Street e do próprio sindicato, e para a defesa dos empregos, das condições de trabalho e de vida dos trabalhadores da indústria automobilística.