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Fechamento de fábrica em Monroe, Michigan, marca o fim de um modo de vida

Por Charles Bogle
24 de setembro de 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia18 de setembro de 2007.

Uma manchete recente do jornal Monroe Evening News anunciava: “1.200 empregos deixam a cidade de Monroe”. Por pior que seja o fechamento da Automotive Components Holdings (ACH), subsidiária da Ford Motor Company, numa cidade de pouco mais de 22.000 habitantes, é ainda mais alarmante quando se considera a atual crise hipotecária de Monroe e a perda de milhares de empregos bem remunerados durante os últimos 30 anos.

Uma comunidade que representou a esperança a gerações e gerações de imigrantes estrangeiros e migrantes do sul do país está sendo destruída pela combinação fatal entre a exploração financeira e uma burocracia sindical cúmplice e impotente.

As condições em torno do anúncio do fechamento são bastante familiares. A Ford nunca teve a intenção de que essa fábrica fosse mais do que uma fonte de lucro rápido para depois fechá-la. Criada no final de 2005 como uma “entidade de negócios temporária... para preparar 23 instalações da antiga Visteon Corporation [outra subsidiária da Ford] para ser vendida a outras partes interessadas” (Monroe Evening News, 5/11/07), a ACH será fechada em 2008 porque, de acordo com a porta-voz da ACH, Della DiPietro, “havia outros fornecedores disponíveis e nenhum comprador interessado nesta fábrica”. (Monroe Evening News, A11, 8/25/07)

O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística dos EUA e Canadá (UAW - United Auto Workers) cumpriu novamente um papel desprezível. Robert Cebina, presidente do sindicato regional número 723 do UAW, admite ter ajudado a ACH a obter abatimentos de impostos em troca de uma promessa - não cumprida - de que nenhum trabalhador seria demitido (Monroe Evening News, 5/11/07); e ainda que DiPietro alegue que a decisão de fechar a fábrica “não foi tomada a portas fechadas, mas ao longo de um período de dois anos, com bastante envolvimento do UAW e do quadro de funcionários”, membros desse quadro de funcionários falam do fechamento como algo completamente inesperado para eles.

Dennis Vanthomme, 55, um trabalhador qualificado com 35 anos de casa (tendo trabalhado na fábrica desde que ela se chamava Monroe Ford Motor Stamping), diz que a fábrica de Monroe era uma das duas únicas da ACH que dava lucro e que “eles nos fizeram pular miudinho para nada. É inacreditável”.

Justin Graham, de 21 anos, que começou a trabalhar nessa fábrica em novembro passado, diz que é um ambiente de trabalho no qual a ACH e o UAW agem de comum acordo para manter os trabalhadores desinformados. Ele conta que a maior parte da informação que tem não vem do sindicato ou da companhia, mas dos seus colegas de trabalho. Outro trabalhador expressava a mesma insatisfação de Graham, dizendo que “nós sabemos que a fábrica vai fechar e sabemos que vai haver outro contrato. É só isso que sabemos”. (Monroe Evening News, A11, 25/8/07).

A perda de 1.200 empregos certamente agravará os problemas causados pelo crescente número de casas não vendidas em Monroe. Mark Vinciguerra, vice-presidente da Ohio Investment Company, que tem uma filial em Monroe, afirma que “o excesso de casas tem grande efeito” na comunidade. Esse excesso ocorre num momento em que o desemprego e a falta de estabilidade no trabalho trazem como conseqüência um número maior de pessoas tentando vender suas casas (do jornal Toledo Blade, 07/9/07). Quantos desses 1.200 que estão para perder seus empregos em 2008 vão se somar aos outros que não conseguem vender suas casas?

O fechamento da ACH também marca o fim de uma era de um século de empregos industriais bem pagos em Monroe. A própria história da fábrica que hoje é a ACH, expressa a forte tradição de luta da classe trabalhadora de Monroe. A planta foi construída em 1929 pela siderúrgica Newton Steel Corporation, e foi palco de uma famosa mobilização em 1937, que fez parte da grande greve nacional do conjunto de siderúrgicas conhecido como “Little Steel”. Antes de a greve terminar e os funcionários serem forçados a voltar ao trabalho, 11 trabalhadores foram feridos pela polícia de Monroe e por 383 capangas contratados pela empresa.

A Alcoa comprou a fábrica em 1942, que passou a produzir cabeças de cilindro para motores de avião até 1947, quando a Kelsey-Hayes adquiriu a planta. A Ford a comprou em 1949, transformando-a, em 2000, na Visteon Corporation (uma fabricante de auto-peças), até se tornar ACH em 2005.

Monroe era também um próspero centro de fabricação de papel e produtos correlatos. As fábricas River Raisin Paper Co. (construída em 1911), Monroe Corrugated Box Co. (1917), Monroe Paper Products Co. (1921) e Consolidated Paper Co. (1921) ofereceram empregos bem pagos para gerações e gerações de cidadãos de Monroe, mas todas essas fábricas e empregos já não existem mais.

A fábrica de móveis La-Z-Boy, que estava estabelecida em Monroe, mantém atualmente apenas o escritório principal na cidade. A maior parte de sua produção de móveis foi transferida para a China.

A única fábrica que permanece em Monroe com empregos relativamente bem pagos, uma segunda planta da ACH em Milan (próximo à fronteira), está para ser vendida ou fechar num futuro próximo.

Inicialmente, os empregos na indústria atraíram os imigrantes para Monroe. Em seguida vieram os sulistas. No início do século XX, imigrantes europeus se empregavam nas fábricas de papel; durante a Grande Depressão e depois da Segunda Guerra Mundial, trabalhadores brancos e negros migraram do sul do país, principalmente de Appalachia, para trabalhar nas siderúrgicas e fábricas de automóveis.

Como em outras cidades americanas, esses empregos estão sendo destruídos rapidamente. Não é por acaso que a perda de empregos na indústria está acontecendo simultaneamente à queda na venda de casas. O capitalismo se torna cada vez mais parasitário - como o exemplo dos esquemas de empréstimos predatórios responsáveis pelo excesso de casas - e os lucros não vêm da produção de mercadorias, mas da criação e da venda de dívidas. Os sindicatos não cumprem mais a função de proteger os empregos e os direitos dos trabalhadores, mas, como no caso da greve da Newton Steel, para encher os bolsos dos dirigentes corruptos, enquanto garantem que a direção da empresa obtenha lucro.