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Economia mundial em queda livre

Por Andre Damon
29 de maio de 2009

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Publicado dia 22 de maio 2009em inglês.

Enormes contrações no primeiro trimestre das principais economias mundias foram anunciados há poucos dias, indicando o aprofundamento da crise econômica.

O México foi o último país a declarar um grande declínio no primeiro trimestre, anunciando na quarta-feira que sua economia encolheu 8,2% em comparação com o ano anterior. Trata-se da mais brusca queda desde que a crise do peso em 1995 levou o país à beira da insolvência. O país já soma uma queda anual total de 21,5%.

Isso se seguiu ao anúncio feito terça-feira pelo governo japonês. A economia do país contraiu 4% no quarto trimestre do ano passado, a pior queda desde 1955, e 15,2% no acumulado anual. A economia japonesa já havia encolhido 3,8% no trimestre precedente.

A Alemanha, por sua vez, anunciou semana passada que sua economia caiu 4% no primeiro trimestre, a contração mais aguda desde que o governo começou a colher estatísticas trimestrais, em 1970. A Alemanha, cuja economia exportadora é grandemente dependente da demanda externa, foi a mais afetada entre as grandes economias européias; todas registraram declínios significativos.

Na segunda-feira, Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, afirmou, em nome da Organização pela Cooperação Econômica e Desenvolvimento, que o declínio chegara a um "ponto de inflexão". Se baseando principalmente na performance do mercado de ações e em estatísticas sobre a confiança do mercado, Trichet sugeriu que um ascenso estaria próximo.

"Em todos os casos nós vemos uma desaceleração do declínio dos PIBs. Em alguns casos, já se pode notar uma recuperação", concluiu. O último pacote de estatísticas de PIB certamente não dá credibilidade a esse prognóstico.

As estatísticas oficiais divulgadas na sexta-feira indicam que a economia da zona do euro contraiu 2,5% no primeiro trimestre, comparado a 1,5% no último trimestre de 2008.

As estatísticas envolvidas são aterradoras. Como apontou a coluna Lex do Financial Times: "Se a economia alemã continuar seu encolhimento à essa taxa, ficará um quinto menor ao final do ano, revertendo inteiramente uma década e meia de crescimento desde a unificação."

As economias da Europa Oriental estão sendo pulverizadas. As últimas estatísticas indicam que a Eslováquia, mais novo membro da UE, viu sua economia contrair-se 11,2% nos primeiros três meses do ano.

México, Alemanha e Japão estão entre os maiores parceiros comerciais dos EUA, juntos contabilizando meio trilhão de dólares em trocas comerciais anuais com os EUA. Antes do declínio econômico, as importações americanas se aproximavam dos três trilhões de dólares por ano e constituíam uma grande força motora em levar a produção para o estrangeiro.

As importações americanas de bens de consumo caíram mais de 30% no primeiro trimestre de 2009 em comparação ao mesmo período do ano passado, de acordo com o Wall Street Journal. Em 2006, os EUA possuíam um déficit monetário de mais de US$ 800 bilhões, que agora caiu para US$ 500 bilhões. Desemprego em alta, valores imobiliários em queda e despejos hipotecários em massa prepararam declínios significativos no consumo de mercadorias estrangeiras, incluindo carros e produtos de consumo. A produção automobilística mexicana, boa parte da qual é dirigida ao mercado dos EUA, caiu mais que 41%, de acordo com o Wall Street Journal.

O declínio econômico despedaçou a complexa rede da produção internacional, deixando os produtores na cadeia de suprimento global completamente separados da informação sobre quanto produzir.

"Na verdade, você escolhe um número sem qualquer tipo de conhecimento, porque ninguém sabe de nada", disse um fabricante de peças eletrônicas entrevistado pelo Wall Street Journal. Em seguida ao anúncio da queda da produção japonesa, a Sony disse que cortaria sua rede global de distribuidores pela metade para compensar a demanda reduzida.

O investimento estrangeiro encolheu 15% no último ano, de acordo com um relatório publicado quarta-feira pelas Nações Unidas. Supachai Panitchpakdi, secretário geral da Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) da ONU, disse que o declínio do investimento estrangeiro seria "muito mais profundo" que o dos últimos anos.

Enquanto isso, o mercado global de ações e os lucros financeiros continuaram subindo. Nos últimos três meses, todos os principais índices financeiros mundiais tiveram altas significativas. O All-World da FTSE subiu mais de 40% desde março.

Ao longo dos últimos três meses, o índice americano NASDAQ ganhou 16,88%, o europeu FTSE Eurofirst 18%, o japonês Nikkei 24,91%, e o taiwanês Hang Seng 35,44%. O índice Vanguard Financials, enquanto isso, superou todos os anteriores, subindo 42% desde 6 de março.

Como o Financial Times apontou em um artigo na quinta-feira, a recuperação dos mercados de ação está ligada aos trilhões de dólares em dinheiro que os bancos centrais ao redor do mundo bombearam na circulação. "Os mercados estão sendo inundados por uma injeção de dinheiro aplicada pelos governos e bancos centrais, causando uma nova rodada da especulação que elevou os índices acima daqueles de dois anos atrás. Em algum ponto a enchente será drenada ... Se a esperança é artificial, o desapontamento provavelmente será real".

Os EUA sozinhos devem bombear quase US$ 15 trilhões no sistema financeiro, de acordo com um relatório recente do Deutsche Bank. Os principais países desenvolvidos tomaram iniciativas similares, injetando trilhões nas finanças enquanto as economias reais sofreram os maiores danos desde a década de 1930.

O programa do Governo Obama — o empobrecimento dos trabalhadores através de demissões e reestruturação, junto a enormes subsídios aos financistas — tem, com certas ressalvas, sido o modus operandi dos governos de todos os países desenvolvidos. Nos países com altos déficits externos, como os EUA, Espanha e Reino Unido, isso tem o efeito de exteriorizar as contradições.

Mas os outros países não estão respondendo da forma mais racional. Michael Pettis, um professor de finanças da Universidade de Pequim, escreveu no Financial Times de quinta-feira que um número de exportadores asiáticos, particularmente a China, estão tentando compensar a demanda mundial em queda pelo estímulo à produção industrial.

Essas políticas investidoras sobem o consumo indiretamente, pelo estímulo à produção, então, apesar de temporariamente estimularem o crescimento, não podem resultar em um aumento suficientemente grande do consumo doméstico líquido de modo a substituir as importações americanas. O que é pior: em alguns casos essas políticas restringirão agudamente o consumo doméstico futuro, logo quando ele será mais necessário."

Resumindo, enquanto a elite dos EUA quer voltar a ter grandes lucros através do empobrecimento de milhões e a conseqüente redução do atual déficit das contas, a China procura restaurar os lucros erguendo ainda mais uma insustentável capacidade de manufatura. Tais políticas são conflitantes, mas seu resultado mútuo será é o mesmo: o empobrecimento dos trabalhadores nos países importadores, grande desemprego, sobrecapacidade e aprofundamento da crise nos exportadores.

Esses processos, em desenvolvimento dentro de uma economia mundial em queda livre e paralelos ao crescimento drástico do desemprego, predizem levantes sociais ao redor de todo o mundo.

[traduzido por movimentonn.org]