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O significado histórico das medidas de guerra comercial de Trump

Nick Beams
4 de outubro de 2018

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Publicado originalmente em 5 de Março de 2018

O anúncio pelo presidente Donald Trump da implementação de extensas tarifas sobre as importações de aço e alumínio faz o dia 1˚ de Março de 2018 entrar para a história econômica.

Não é apenas o tamanho das tarifas em si – um imposto de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio – que é significativo, mas o fato de que elas estão sendo impostas sob a justificativa de defender a “segurança nacional”, uma medida supostamente adotada em casos de guerras ou emergências nacionais.

O anúncio da adoção de tarifas de importação ameaça provocar uma série de medidas retaliatórias pelo Canadá, União Europeia, Japão, Coréia do Sul e outros aliados nominais dos EUA, assim como a China.

Até a assinatura da implementação das medidas tarifárias por Trump, esperada para acontecer até o final desta semana, existe uma pressão dos aliados americanos para que fiquem isentos dessas tarifas. Mas isso parece ter sido descartado pelo diretor do Conselho Nacional de Comércio, Peter Navarro, que disse no final de semana que, enquanto podem haver isenções para negócios específicos, elas não se aplicariam a países individuais.

Qualquer que seja o resultado imediato dessas manobras, essa decisão marca uma virada histórica na economia mundial. Conforme o Financial Times constatou, “Invocando a segurança nacional para justificar as novas barreiras comerciais, o Sr. Trump cruzou um limite no sistema de comércio internacional”.

Essa medida de guerra comercial é um passo importante no desmantelamento do sistema de relações econômicas estabelecido por Washington depois da Segunda Guerra Mundial, que foi adotado para prevenir uma repetição dos destrutivos conflitos globais que marcaram a primeira metade do século XX – conflitos que possuíam raízes econômicas profundas e ameaçaram a própria sobrevivência do sistema capitalista.

Escrevendo sobre o início da Primeira Guerra Mundial, Leon Trotsky explicou que o seu significado objetivo se encontra no conflito irreconciliável entre a economia global e o quadro econômico do estado nacional. “Mas a maneira como os governos propõem resolver esse problema do imperialismo”, Trotsky escreveu, “não é através da cooperação inteligente, organizada dos produtores de toda a humanidade, mas através da exploração do sistema econômico do mundo pela classe capitalista do país vitorioso, transformado o país vitorioso de uma grande potência em uma potência mundial”.

A contradição apontada por Trotsky – entre a economia global e o sistema de estados-nação rivais no qual se fundamenta a propriedade capitalista – não foi resolvida pela guerra. Ao invés disso, continuou a se aprofundar, levando a uma guerra econômica de cada um contra todos na Grande Depressão, culminando na Segunda Guerra Mundial apenas duas décadas depois do fim da Primeira Guerra Mundial.

Revendo o estado de relações internacionais no final dos anos de 1930 conforme o mundo se preparava para a guerra, o Secretário de Estado dos EUA Cordell Hull e outros na administração Roosevelt concluíram que um importante fator impulsionando a inevitável nova guerra era o colapso no sistema de comércio internacional e a formação de blocos rivais. Se um nova guerra tivesse de ser prevenida novamente no período pós-guerra, então uma nova ordem econômica precisava ser estabelecida, baseada na expansão dos mercados e em um sistema monetário internacional estável.

Essa foi a origem do sistema monetário internacional estabelecido em Bretton Woods em 1944 e o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio em 1947 por iniciativa dos EUA.

Mas, enquanto o novo sistema preveniu um retorno aos anos de 1930 e ajudou a impedir a possibilidade da revolução socialista que muitos temiam que aconteceria, ele não superou as contradições fundamentais do capitalismo global que Trotsky identificou tão claramente.

A ordem do pós-guerra foi baseada principalmente na supremacia dos Estados Unidos como a potência econômica mundial dominante. Porém, a própria expansão econômica do pós-guerra gerada pelos EUA, e a consequente recuperação dos dois rivais principais dos EUA, Alemanha e Japão, minou a supremacia dos EUA sobre a qual a ordem pós-guerra foi baseada.

No final dos anos de 1960, depois de duas décadas da nova ordem mundial ter sido estabelecida, essas contradições estavam se expressando no aumento do déficit comercial e da balança de pagamentos dos EUA, o que levou o presidente Nixon em 15 de Agosto de 1971 a anunciar o fim do padrão ouro para o dólar americano – a base do sistema monetário estabelecido em 1944 – e a implementação de tarifas maiores sobre importações.

O período que se sucedeu foi caracterizado por dois processos interconectados: a maior integração da economia mundial através da globalização de virtualmente todos os processos de produção e o contínuo declínio dos EUA, tanto em relação aos seus rivais históricos quanto aos novos, principalmente a China.

É a partir do ressurgimento dessa contradição – entre a economia mundial e o sistema de estado-nação, em um nível muito mais intenso do que quando Trotsky a identificou em 1914 – que as ações da administração Trump surgem.

A implementação das tarifas, impostas sob condições em que os bens manufaturadas contendo aço e alumínio, os alvos iniciais na guerra comercial, cruzam fronteiras em múltiplas ocasiões durante a sua produção, não são o resultado da loucura de Donald Trump e seu grupo defensor do “America First” na Casa Branca.

Ao invés disso, elas são o resultado da irracionalidade histórica de um sistema econômico que não é baseado na “cooperação inteligente, organizada dos produtores de toda a humanidade”, mas é completamente subordinada à luta sem fim por mercados e lucros privados.

As medidas de guerra comercial não se iniciaram com Trump. Medidas significativas foram tomadas pela administração Obama, que concluiu que a própria ordem econômica estabelecida pelos EUA depois da Segunda Guerra Mundial agora estava funcionando contra os interesses do capitalismo americano.

Duas importantes iniciativas de Obama – a Parceira Transpacífico centrada na Ásia (com a exclusão da China) e a Parceria de Comércio e Investimento Transatlântico com a Europa – tinham como meta garantir um novo sistema baseado na dominância americana.

Ambas foram efetivamente desmanteladas, mas o objetivo essencial continua sob Trump, cujas medidas relembram a observação de Trotsky há cerca de 90 anos de que, em um período de crise, a hegemonia dos EUA operaria “mais abertamente e mais agressivamente” do que no seu período de crescimento, conforme os EUA buscassem se libertar de seus males à custa de seus rivais.

As medidas de Trump foram recebidas com rechaço dentro dos EUA, particularmente de grupos industriais que apontam que, como usuários de aço e alumínio, eles serão saião em desvantagem pelas medidas na luta por mercados. Temores também estão sendo expressos de que as tarifas americanas sofrerão retaliação da Europa, Japão e outros “aliados” dos EUA.

O New York Times advertiu em um editorial ontem que as medidas de Trump poderiam ser as primeiras em um leque de tais ações, enviando os EUA “em uma guerra comercial muito mais ampla, como não é vista desde a Grande Depressão”.

Entretanto, o Times não se opõe à guerra comercial desse modo. Ele apenas quer que seja melhor redirecionada, dizendo que se Trump “estivesse verdadeiramente interessado em fazer a China reduzir sua produção em excesso, ele teria trabalhado com a União Europeia, Canadá, Japão, Coréia do Sul e outros países para colocar pressão sob Pequim”.

Em outras palavras, ao invés de usar uma espingarda, Trump deveria ter utilizado o equivalente econômico de um míssil de cruzeiro.

Tal oposição dentro da classe dominante às medidas de Trump não deve, entretanto, resultar em falsas esperanças de que, de algum modo, a razão e a racionalidade prevalecerá. Deve ser relembrado que as medidas tarifárias Smoot-Hawley de Junho de 1930 também foram criticadas à época. Mas isso não impediu que fossem implementadas, provocando uma guerra comercial em ampla escala que desempenhou um papel imenso em criar as condições para o início da Segunda Guerra Mundial.

Nem a administração Trump será dissuadida por advertências de que está iniciando um conflito global semelhante. A posição da administração é a de que uma guerra comercial está acontecendo há algum tempo, e a única diferença é que agora os EUA estão intensificando-a.

Qualquer que seja o resultado imediato do conflito atual, o impulso causador do conflito continuará existindo porque as medidas de Trump estão enraizadas não na psique dos ocupantes atuais da Casa Branca, mas nas contradições insolúveis e objetivas do modo de produção capitalista.

Isso significa que a luta pela revolução socialista mundial precisa ser levada adiante como o “programa prático do dia”, como Trotsky explicou no início da Primeira Guerra Mundial. Essa é a resposta da classe trabalhadora internacional ao programa de guerras e ditaduras do capitalismo internacional.