Um dos principais generais do Brasil declarou em uma entrevista na semana passada que o país deve desenvolver a capacidade tecnológica para fabricar armas nucleares.
A declaração foi feita no contexto de uma guinada do governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores – PT) para aumentar dramaticamente os gastos militares num esforço de reconstrução das forças armadas do país, que foram gravemente desacreditadas desde o fim da ditadura militar há mais de duas décadas.
“Se o governo concordar, precisamos ter a capacidade no futuro de desenvolver uma arma nuclear”, disse o general José Benedito de Barros Moreira, um dos poucos generais quatro estrelas do Brasil e ex-chefe da Escola Superior de Guerra do país. Barros Moreira, que atualmente é um alto funcionário do Ministério da Defesa do Brasil, encarregado de formular a estratégia militar do país, comparou a arma a um “cadeado” necessário para salvaguardar os recursos do Brasil.
O comentário surpreendente aconteceu no programa Expressão Nacional transmitido na noite de terça-feira pela TV Câmara. Junto com o general estavam presentes dois deputados federais, José Genoíno (PT) e Raul Jungmann (Partido Popular Socialista – PPS), assim como Antônio Jorge Ramalho da Rocha, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).
“Devemos estar tecnologicamente preparados para produzir um dispositivo nuclear”, disse o general. Ele acrescentou: “Nenhum país pode se sentir seguro se não desenvolver tecnologia que lhe permita se defender quando necessário.”
Barros Moreira disse que os recursos do Brasil fizeram dele um “alvo” para a agressão estrangeira. “O mundo não tem água, energia, alimentos e minerais”, disse ele. “O Brasil é rico em tudo isso. Por isso, devemos colocar um cadeado forte em nossa tranca.”
Significativamente, os dois deputados concordaram em grande parte com o general. Genoíno, um guerrilheiro que lutou contra a ditadura militar brasileira (1964-1985), chegou à presidência do PT e tornou-se uma das figuras centrais de um escândalo político envolvendo suborno e propina que levou o procurador-geral do país a declará-lo líder de uma organização criminosa.
Ele falou da necessidade de o Brasil ter forças armadas para “corresponder à sua projeção econômica e política no mundo” e apoiar “a projeção do poder no mundo e na região”.
Jungmann, ex-membro do stalinista Partido Comunista Brasileiro (PCB) que enfrentou suas próprias acusações de desvio de fundos públicos enquanto foi ministro do desenvolvimento agrário do governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), falou sobre o Brasil se tornar um “global player” – usando a frase em inglês – e a necessidade de atender à “viabilidade de nossas forças armadas”.
Ambos os deputados lamentaram a negligência financeira em relação às forças armadas, com Genoíno indignado em relação aos “salários de miséria” pagos a generais e almirantes.
Nenhum deles, nem ninguém no programa, se deu ao trabalho de mencionar que a redução das dotações para os militares brasileiros estava ligada ao repúdio popular esmagador de uma instituição responsável pelo assassinato, tortura e prisão de dezenas de milhares de trabalhadores, camponeses, estudantes e oposicionistas políticos brasileiros, incluindo alguns que os dois deputados presumivelmente já consideraram como seus camaradas.
O tema da entrevista foi a iniciativa do governo Lula de atender ao pedido do Ministério da Defesa de um aumento de 50% nos gastos com armas para o próximo ano, elevando as dotações militares de seu nível atual de US$ 3,5 bilhões para bem mais de US$ 5 bilhões. Espera-se fortemente que o governo reavive planos que foram arquivados em 2002 para comprar novos caças e desenvolver um submarino nuclear.
Embora o Ministério da Defesa e o governo Lula tenham negado oficialmente qualquer conexão, a discussão sobre a proposta de desenvolvimento militar na mídia de direita brasileira se concentrou em um suposto desafio colocado pelas compras multimilionárias de armas feitas pelo governo venezuelano do Presidente Hugo Chávez da Rússia, incluindo 100 mil fuzis Kalachnikov e 24 caças Sukhoi.
Dois dias após os comentários do general na televisão, o Ministro da Defesa brasileiro Nelson Jobim falou em uma conferência militar no Rio de Janeiro em apoio à construção de um submarino nuclear, alegando que tal sistema de armas era necessário para defender as reservas de petróleo recentemente descobertas em alto mar.
“Quando você tem uma grande fonte natural de riqueza descoberta no Atlântico, é óbvio que você precisa dos meios para protegê-la”, disse Jobim.
Os militares brasileiros haviam tentado desenvolver um submarino nuclear durante a ditadura militar. No final desse período e quando ele emergiu como uma figura nacional por seu papel de liderança em uma série de greves maciças de metalúrgicos em desafio ao regime militar, Lula tinha denunciado o programa submarino proposto como um desvio de recursos necessários para atender às vastas necessidades sociais do país.
Agora, como presidente, ele emergiu como um defensor da realização do antigo sonho do exército brasileiro. Em julho passado, Lula anunciou a destinação de US$ 540 milhões para financiar o programa de enriquecimento nuclear da Marinha, a primeira parcela do que se espera ser mais de US$ 1,2 bilhão para a construção de um submarino nuclear.
“O Brasil poderia estar entre aquelas poucas nações no mundo com um domínio da tecnologia de enriquecimento de urânio, e acho que seremos mais valorizados como nação – como o poder que desejamos ser”, disse ele na ocasião.
Em seu discurso na última quinta-feira, o Ministro da Defesa Jobim insistiu que o programa brasileiro de enriquecimento de urânio seria utilizado exclusivamente para o programa do submarino e descartou a ideia de que ele seria utilizado para a produção de uma arma nuclear. “Isso é uma total bobagem”, disse ele, sem fazer referência à proposta feita pelo General Barros Moreira expressando exatamente o ponto de vista oposto.
As vozes mais perceptivas da imprensa brasileira, no entanto, trataram as opiniões do general como tudo menos “bobagem”. O colunista político da Folha de S. Paulo Jânio de Freitas, por exemplo, escreveu que em suas observações Barros Moreira “avançou, em objetividade e clareza, bem mais do que Jobim. Foi, a rigor, até o ponto final: falou na necessidade de que o Brasil domine todo o ciclo da energia nuclear, o que inclui, mais do que o submarino, artefatos de explosões nucleares.”
“Até que ponto o atendimento a essa suposta necessidade já foi atendido é quase um mistério, como é normal para projetos militares”, continuou Freitas, que observou que a marinha brasileira há muito tempo havia reunido pessoal e equipamentos qualificados para iniciar o enriquecimento nuclear.
O colunista observou que o governo Lula desfrutou da cumplicidade do governo Bush ao ocultar a extensão e a natureza de seu programa nuclear. Segundo ele, “Com ajuda decisiva do governo dos Estados Unidos, o Brasil conseguiu que a Agência Internacional de Energia Atômica se fingisse de satisfeita com explicações verbais, ao ser barrada quando pretendeu inspecionar as características, e daí deduzir as finalidades possíveis, de instalações brasileiras de processamento de urânio.”
Ele observou que a atitude dos EUA em relação a desenvolvimentos nucleares no Brasil é precisamente o oposto daquela tomada em relação a desenvolvimentos similares no Irã, onde o governo se submeteu a extensas inspeções.
Não há dúvida de que Washington se inclinou fortemente para Brasília, promovendo o governo Lula como um contrapeso à influência exercida pelo nacionalismo de esquerda do venezuelano Chávez no continente. Lula encorajou esse alinhamento, tanto com o posicionamento dos militares brasileiros como “mantenedores da paz” no Haiti, liberando os fuzileiros americanos para a ocupação do Iraque, quanto no recente tratado de etanol com Bush.
Concluindo, Freitas escreveu: “A motivação da mudança que se introduz no Brasil é obscura, mas a dimensão de seus efeitos, internos e externos, já se sabe que só pode ser grande e grave.”
O Brasil não está desenvolvendo suas forças armadas – e potencialmente buscando desenvolver armas nucleares – por causa de alguma ameaça vinda da Venezuela. A demonização política de Chávez e os recentes negócios de armas da Venezuela foram meramente empregados pelos militares brasileiros e seus apoiadores como um pretexto útil para promover o rearmamento.
Também não existe, obviamente, nenhum apoio popular para o aumento dos gastos militares, muito menos um programa de armas nucleares. A única figura política mais identificada com o apoio a uma bomba brasileira – o recém falecido deputado nacionalista de direita e ex-candidato presidencial Enéas Carneiro, do Partido para a Reconstrução da Ordem Nacional (PRONA) – foi transformada em objeto de ridicularização pública sobre a proposta.
No entanto, existem profundas forças objetivas subjacentes ao impulso dos círculos dominantes do Brasil para buscar a renovação do poder militar, incluindo as armas nucleares. A arena internacional é caracterizada pelos conflitos cada vez mais agudos e abertos entre os Estados-nação capitalistas rivais sobre o controle dos recursos e dos mercados. Esse processo tem encontrado sua expressão mais aguda na erupção do militarismo americano à medida que Washington procura explorar sua superioridade militar para compensar seu relativo declínio econômico, lançando duas guerras de agressão pelo controle de regiões ricas em energia no decorrer dos últimos sete anos.
Os alertas do General Moreira Barros sobre o Brasil se tornar um “alvo” para possíveis guerras sobre fontes cada vez mais escassas de energia, água e alimentos refletem a realidade emergente de uma construção rumo a um novo período de conflitos mundiais. Ao mesmo tempo, a elite dominante brasileira tem seus próprios crescentes interesses regionais e globais de lucro, e está preparada para utilizar a força militar para promovê-los.
Enquanto, sem dúvida, o governo do Partido dos Trabalhadores promoverá o militarismo e um programa nuclear renovado com a política do nacionalismo, estes desenvolvimentos representam uma ameaça tenebrosa para a classe trabalhadora brasileira. Como resultado, ela enfrentará ataques crescentes a seu padrão de vida, o poder crescente das forças armadas que renunciaram a seu regime ditatorial sobre o país há pouco mais de duas décadas e a perspectiva de serem arrastadas para uma guerra mundial catastrófica.
