“Coletes amarelos” em Commercy organizam segunda Assembleia Popular

Por nossos repórteres
24 Janeiro 2019

Publicado originalmente em 24 de Dezembro de 2018

Em 21 de Dezembro, repórteres do WSWS viajaram para a segunda Assembleia Popular organizada pelos “coletes amarelos” na comuna de Commercy, no nordeste da França. Mais de 100 trabalhadores, autônomos, pequenos comerciantes e desempregados se reuniram para discutir as perspectivas para uma luta contra o presidente francês, Emmanuel Macron.

Essa assembleia, organizada por trabalhadores contra todo o establishment político e a burocracia sindical, foi uma importante experiência da classe trabalhadora internacional. Ela mostra como trabalhadores e camadas de pessoas oprimidas aliadas a eles podem tirar suas lutas das mãos das burocracias sindicais e dos políticos capitalistas. Se tais assembleias se espalharem por toda a França e Europa, e diante da presença de uma vanguarda marxista que ofereça uma perspectiva revolucionária, elas poderiam servir como órgãos da classe trabalhadora para os quais o poder de estado poderia ser transferido.

Apesar dos ataques da mídia aos “coletes amarelos”, que os chamou de arruaceiros ignorantes e destrutivos, as três horas de intensa discussão durante a assembleia debruçaram-se sobre dois assuntos: as concessões que Macron afirma ter oferecido para convencê-los a acabar com o movimento e a perspectiva para uma transferência de poder para o povo.

A assembleia primeiro mostrou um vídeo que desmontou a suposta proposta de Macron em aumentar o salário mínimo. Essa medida é, de fato, temporária, feita aumentando o bônus salarial, e financiada através da retirada e do corte de gastos em serviços públicos; e como Macron ainda está cortando impostos dos ricos e oferecendo dezenas de bilhões de euros em isenções fiscais para empresas, a concessão é na verdade insatisfatória, de acordo com o vídeo. Essa análise foi amplamente compartilhada pelos presentes na assembleia.

Uma discussão se seguiu sobre questões táticas colocadas no momento atual do movimento dos “coletes amarelos”: se se deve ou não realizar uma manifestação em Paris, ou enviar “cadernos de queixas” para Macron conforme requisitado. Os “coletes amarelos” também criticaram o desrespeito de Macron pelos direitos sociais e democráticos proclamados na Constituição de 1946 depois da ocupação nazista. Através da proposta por um Referendo Iniciado pelos Cidadãos (RIC), eles exigiram o direito de propor e revogar leis, destituir políticos e modificar a Constituição independentemente da Assembleia Nacional Francesa.

A assembleia criticou uma proposta de um dirigente sindical que participava do encontro para tratar os problemas ecológicos taxando importações vindas de longe. Vários participantes criticaram essa proposta ,dizendo que não é prático, por ser mais custoso, simplesmente “comprar o que é francês”.

A discussão então começou a tratar da questão da transferência do poder ao povo. Um dos participantes levantou variados exemplos díspares de autogoverno regional: a Comuna de Paris de 1871, a região de Chiapas no México e Rojava, a área Curda da Síria que foi transformada em uma zona independente a partir da sangrenta guerra por procuração da OTAN. Outros citaram milícias da resistência à ocupação nazista na região de Limousin durante a Segunda Guerra Mundial.

Esses exemplos, muitos dos quais baseiam-se em lutas em países onde o movimento guerrilheiro existe mais ou menos independente do estado, serviram para colocar em dúvida a possibilidade de transferir o poder para o povo na França, onde o estado possui um papel central em financiar os serviços públicos.

Alexandre Lantier, do Parti de l’egalité socialiste (PES), a seção francesa do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI), falou brevemente para indicar a importância mais ampla da assembleia e o apoio de trabalhadores ao redor do mundo pela luta dos “coletes amarelos” por igualdade social, pela renúncia de Macron e contra a brutal repressão policial. Ele apontou para a necessidade de mobilizar amplamente os trabalhadores na França e internacionalmente para a luta, ao mesmo tempo que rejeitou tentativas de direcionar os “coletes amarelos” ao establishment político. Ele disse que, armado com um programa socialista, um movimento internacional da classe trabalhadora poderia tomar o controle da economia e o poder político.

Essa intervenção provocou várias perguntas, como se é necessária uma luta internacional e se qualquer perspectiva socialista existe fora do Partido Socialista (PS) francês, um partido burguês há muito tempo odiado pela população. Vários pessoas fizeram um chamado para a compra de comida dos agricultores orgânicos locais, que foi respondido de maneira nervosa por um mãe solteira, que disse que mal tem dinheiro para comprar comida vencida, muito menos subsidiar agricultores orgânicos.

Membros do PES continuaram discutindo com os presentes na assembleia.

Adam, um dos organizadores do encontro, disse ao WSWS: “Eu estava muito entusiasmado com as eleições presidenciais (de 2017), mas depois eu fiquei decepcionado porque sabia que o livre mercado estava chegando. Então, quando o movimento dos coletes amarelos surgiu, apoliticamente, eu pensei que finalmente iríamos ser capaz de nos expressar, e eu deveria ir para Commercy e participar do debate ... Eu estava realmente decepcionado, [e] me perguntei: se as eleições não funcionam, o que eu posso fazer concretamente?”.

Ele acrescentou: “Em nome da economia capitalista, as pessoas são abandonadas. É inaceitável, a França supostamente possui um sistema social baseado na solidariedade, mas olhando para ele, você percebe que esse não é o caso, porque o lucro privado é o que decide em última instância”.

Martine disse ao WSWS que se juntou ao movimento porque “existem muitas pessoas que vivem muito mal, com muito poucos recursos ... Eu tenho filhos mulatos, e eles me perguntam: mãe, porque a França é assim? E para mim é uma luta verdadeira permanecer forte e dizer, você precisa ter valores e mantê-los”.

Ela indicou a importância do apoio internacional aos protestos dos “coletes amarelos” e a oposição deles às guerras imperialistas francesas na África: “Os trabalhadores em todos os lugares estão cansados de trabalhar como escravos”.

Outra participante, Laurent, disse ao WSWS que se tornou uma “colete amarela” porque “eu tenho três filhos para alimentar. Como posso fazer isso com 600 euros por mês? Eu estou me divorciando, meu marido paga uma pensão de 100 euros, e eu tenho que sobreviver com 600 euros. Como? Ninguém nos ajuda, todos nos jogam de um lado para o outro ... o Centro de Trabalhadores Desempregados me descartou, [dizendo:] ‘você não possui um carro, então não pode receber treinamento, ou fazer isso ou aquilo’. O problema é que é um círculo vicioso”.

Ela acrescentou: “É Natal, não há nada em casa - nenhuma árvore, nenhuma decoração, nada. Meus móveis são usados, ou presentes ou emprestados porque eu não tenho nada. Mas nenhum político se importa com isso”. Perguntada se qualquer sindicato ou partido político a ajudava, ela respondeu: “Nem um pouco”. Ela continuou: “Talvez se todas as mulheres fossem para as ruas e enfrentassem os policiais, talvez eles desistiriam”.

Laurent ainda disse que ela apoiaria a formação de assembleias populares ao redor do mundo: “Se [as assembleias] pudessem ajudar todos, o mundo todo, por que não? Teria que ser todos mesmo, porque, de qualquer modo, na política eles estão todos apodrecidos. Não há nenhum deles melhor do que os outros”. Ela concluiu: “Nós precisamos de assembleias populares de pessoas comuns. Nós podemos agendar referendos. E assim que qualquer coisa importante estiver em jogo, vamos ser capazes de dizer sim, ou não”.