Protestos dos “coletes amarelos” na França expõe o papel anti-trabalhador do Novo Partido Anticapitalista

Por Alex Lantier
24 Janeiro 2019

Publicado originalmente em 31 de Dezembro de 2019

Os protestos dos “coletes amarelos” na França desmascarou o papel reacionário do Novo Partido Anticapitalista (NPA), que reagiu de maneira inequivocamente hostil ao primeiro movimento em massa de oposição dos trabalhadores ao presidente Emmanuel Macron. O NPA alinhou-se à propaganda oficial, que começou denunciando os “coletes amarelos” como racistas e fascistas contra o meio-ambiente por se oporem ao aumento do imposto sobre os combustíveis de Macron.

Antes do primeiro protesto, o NPA publicou uma declaração intitulada “Justiça social: não podemos nos fazer ouvir em 17 de novembro”, dizendo que “essa mobilização é problemática”. Ela continuava: “Primeiro, antes mesmo de ser expressão de descontentamento popular, este protesto expressa acima de tudo uma exigência antiga das empresas transportadoras.”

Apontando as tentativas dos partidos neofascistas de intervir nas páginas do Facebook dos “coletes amarelos”, o NPA jurou inflexível hostilidade aos protestos:

Nós não nos enganaremos. Como os sindicatos CGT e Solidariedade, não vamos misturar nossa raiva no sábado, 17 de Novembro, com as manobras dos patrões exploradas pela extrema direita, que não é um aliado temporário, mas um inimigo mortal. Sim, tudo está subindo, exceto os salários, e as classes mais baixas estão certas de se cansarem dos aumentos dos combustíveis e em geral ... Mas não podemos dizê-lo no sábado, 17 de Novembro, em ações ou supostamente reuniões de cidadãos que parecem mobilizações de direita, em que nos alinharíamos com os inimigos mais mortíferos do movimento dos trabalhadores.

O que se seguiu foi a maior mobilização de oposição política da classe trabalhadora francesa desde a greve geral de maio de 1968. Centenas de milhares de trabalhadores, aposentados, desempregados, autônomos e pequenos empresários desafiaram a repressão da polícia de choque e de carros blindados em protestos que abalaram as estruturas do governo Macron. Esses protestos se espalharam por toda a Europa contra a desigualdade social, desde mobilizações estudantis na Albânia até greves do setor público em Portugal.

Ao mesmo tempo que o NPA e os sindicatos afiliados eram hostis aos “coletes amarelos”, os protestos deram voz a uma raiva popular sem precedentes contra as camadas abastadas da classe média dos partidos da pseudo-esquerda e dos sindicatos. Quando o WSWS perguntou sua opinião sobre essas organizações políticas, um trabalhador da construção civil da região da Picardia presente no protesto dos “coletes amarelos” disse: “Elas são criminosas. Você poderia estar morrendo na rua com a boca aberta e elas não fariam nada.”

Como os “coletes amarelos” tornaram-se extremamente populares, o NPA foi forçado a fazer uma volta de 180 graus.

Duas semanas após os protestos de 17 de Novembro, o líder do NPA e ex-líder estudantil de 1968, Alain Krivine, falou em uma reunião pública em Tours. Não conseguindo esconder seu desdém, ele apoiou os manifestantes que seu partido havia anteriormente difamado como uma “multidão de extrema-direita”, mas ainda os difamava como racistas e sexistas, declarando: “Acho que devemos apoiar os ‘coletes amarelos’, não sem críticas, porque devemos lutar contra todo o comportamento racista, homofóbico e sexista que ouvirmos. Mas uma frente social unificada deve emergir desta revolta para produzir uma greve geral, em que todas as lutas se unam.”

A referência a uma “frente social unificada” foi um sinal para o NPA chamar a Stalinista Confederação Geral do Trabalho (CGT) para tentar assumir o controle dos “coletes amarelos” e levá-los a participar de um campanha por uma inexpressiva greve nacional de um dia.

No dia 3 de Dezembro, o site da tendência Fração Trotskista do NPA, Révolution permanente (que publica o Esquerda Diário no Brasil), apelou à burocracia da CGT. O artigo, intitulado “A CGT não pode mais dar as costas ao movimento dos “coletes amarelos”, criticou os ataques da CGT aos “coletes amarelos” – que o NPA havia saudado algumas semanas antes – como “sectários”. Ele advertiu que um movimento da classe trabalhadora poderia entrar em erupção:

Nesta situação social explosiva, o Estado e as grandes empresas temem uma luta mais dura e, sobretudo, a disseminação do movimento. Com o movimento nas escolas secundárias, esse medo aumenta. O espectro do contágio ao movimento operário está na mente de todos. Neste contexto, os dirigentes sindicais e as estruturas de base não devem permanecer em silêncio. O governo está isolado, enfraquecido e sentado em um barril de pólvora. Todo dirigente deve exigir que a CGT não apenas peça, mas organize com toda a sua força uma greve geral de um dia.

Cinquenta anos após a greve geral de 1968, em meio ao descrédito de Macron e da União Europeia, uma greve geral está na mente dos trabalhadores em toda a Europa. No entanto, um ponto é crítico: o movimento emergente da classe trabalhadora e uma verdadeira greve geral são tão opostos à simbólica greve nacional de um dia chamada pela CGT e o NPA quanto o dia é da noite.

O chamado do NPA para que a CGT una-se aos “coletes amarelos” para levar adiante sua luta é falso. Os sindicatos não têm autoridade sobre os “coletes amarelos”, que desprezam a burocracia. Mais importante ainda, a CGT é hostil aos “coletes amarelos” e não quer protestos contra Macron, especialmente quando seu governo está por um fio. O único propósito do chamado do NPA é estabilizar o governo Macron, promovendo as poucas ilusões que a CGT organizará ações contra ele, encorajando assim os trabalhadores a se alinharem à inação dos sindicatos.

O caminho para se preparar para as próximas batalhas é tirar a luta das mãos dos sindicatos. A decisão dos “coletes amarelos” na comuna de Commercy e em outros lugares de criar assembleias populares é um importante exemplo: os trabalhadores de toda a Europa precisam de órgãos de base independentes dos sindicatos para levar adiante suas lutas. O Parti de l'égalité socialiste (PES), a seção francesa do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI), enfatiza que à medida que suas lutas se desenvolverem, a classe trabalhadora na Europa será obrigada a transferir o poder político para esses órgãos.

Acima de tudo, o movimento dos “coletes amarelos” expôs a crise da liderança revolucionária da classe trabalhadora. O NPA, fundado em 2009 pelos ex-líderes estudantis “Trotskista-Guevaristas” de 1968 da Liga Comunista Revolucionária (LCR), não é um partido trotskista. O LCR Pablista foi construído por forças que romperam com o CIQI em 1953 sob a perspectiva falsa e nacionalista de que nacionalistas burgueses e Stalinistas, em vez do movimento trotskista, poderiam servir como uma liderança revolucionária da classe trabalhadora.

Eles se orientaram na França para forças como a Stalinista CGT que, quando ainda mantinha uma base de massa na classe trabalhadora, liquidou três greves gerais: em 1936, 1953 e 1968. A própria LCR foi moldada pela política comportamental pequeno-burguesa e anti-marxista do período pós-1968 e orientada para o burguês Partido Socialista fundado em 1971. Após décadas de austeridade apoiadas por grupos Stalinistas e Pablistas na Europa após a restauração Stalinista do capitalismo na URSS em 1991, o antagonismo entre essas organizações pequeno-burguesas e os trabalhadores emergiram aos olhos de todos.

Em uma recente entrevista à revista chinesa Borderless publicada no site International Viewpoint, da tendência Pablista do NPA (no Brasil representada pela tendência Insurgência do PSOL), Pierre Rousset afirma que a hostilidade do NPA aos “coletes amarelos” foi apenas um erro. Revendo os partidos que fizeram declarações favoráveis aos “coletes amarelos”, ele acrescenta: “Depois de alguma hesitação inicial (o tempo para entender o que estava acontecendo), o PCF (Partido Comunista Francês), o NPA e algumas das outras forças esquerdistas fizeram o mesmo. A maior parte do movimento dos trabalhadores permaneceu pelo menos ‘distante’.”

Essa é mais uma fraude. A hostilidade do NPA aos “coletes amarelos” não foi um erro causado por uma confusão passageira, mas pela expressão das forças de classe que atuam nesse partido. Como sua declaração inicial deixou clara, o NPA sabia que os “coletes amarelos” refletiam a oposição ao governo Macron nas “classes mais baixas”. Por isso, ele opõe-se aos “coletes amarelos”.

Só o PES na França continua a luta pelo trotskismo na França. O NPA e seus aliados, por sua vez, não passam de organizações pequeno-burguesas contrarrevolucionárias.