Fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo destruirá até 27 mil empregos

Por Miguel Andrade
21 Março 2019

Publicado originalmente em 14 de Março de 2019

O fechamento anunciado da segunda mais antiga fábrica da Ford no Brasil, na cidade de São Bernardo do Campo, está ameaçando até 27 mil empregos da cadeia produtiva automotiva em todo o estado de São Paulo.

A fábrica, previamente saudada como um “modelo” para acordos que permitiram que a mesma força de trabalho produzisse tanto o pequeno modelo Fiesta quanto os caminhões Cargo, atualmente emprega 4.500 trabalhadores, dos quais 1.500 são trabalhadores terceirizados da linha de produção. O Fiesta e o Cargo deixarão de ser produzidos pela Ford, que acabará com sua produção de caminhões na América Latina.

O fechamento da fábrica foi anunciado em 19 de Fevereiro e confirmado em 12 de Março, quando o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que é filiado à CUT, reuniu os trabalhadores no portão da fábrica para anunciar que seu encontro de 7 de Março com os chefes da Ford em Detroit não conseguiu alterar a decisão da empresa. A Ford alega que o fechamento se justifica pelas perdas de US$ 687 milhões no mercado sul americano e o custo excessivo imposto por regulações ambientais mais duras no Brasil com o objetivo de diminuir a emissão de gases do efeito estufa, que serão implementadas nos próximos anos.

O anúncio do fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo acontece em meio à continuada crise econômica no Brasil, com a economia estagnada e um aumento renovado no desemprego. No final de 2018, a taxa de desemprego se manteve em 12%, com 12,7 milhões de trabalhadores desempregados. O crescimento do PIB foi de apenas 1,1% em 2018.

A situação é particularmente ruim para a produção industrial, que permanece 17% menor do que seu maior nível em 2011. A produção automotiva permanece a 67% de seu maior nível em 2012.

Essa profunda situação econômica produziu uma taxa de desemprego de 14% em São Paulo, o principal estado industrial do país, e uma taxa de desemprego de 18% no ABC, onde vivem mais de 2,5 milhões de pessoas.

Previsivelmente, a reação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC ao anúncio da Ford de 19 de Fevereiro foi chamar uma paralisação inofensiva dos trabalhadores, que consistiu em enviar trabalhadores para casa no início dos turnos diários e visitar os gabinetes das autoridades municipal, estadual e federal para convencê-las a rastejar até a Ford com ofertas de maiores subsídios.

Essa reação foi resumida pelo prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, que disse à imprensa em 21 de Fevereiro que estava “indignado” com a decisão da Ford, uma vez que ele “nunca negou as exigências da empresa”. Ele disse também ao jornal Folha de S. Paulo no dia do anúncio do fechamento que a decisão da Ford era “impossível de prever” depois que a cidade reformou as rodovias que levam à fábrica e ofereceu mais isenções. Ele então perguntou ao repórter da Folha, retoricamente: “Isso é sobre impostos? Quais são os subsídios que eles precisam, quais são suas necessidades?”

Em entrevistas posteriores, tanto o prefeito quanto o presidente do sindicato, Wagner Santana, citaram como exemplo para a Ford o acordo entreguista de 7 de Fevereiro na General Motors, em que o sindicato aceitou a redução do piso salarial para novas contratações e o congelamento salarial, enquanto o governo estadual prometeu realizar um corte de 25% no imposto sobre vendas em troca de investimentos.

O acordo foi imposto depois que a GM ameaçou fechar a fábrica de São José dos Campos, a segunda maior da empresa no Brasil, mesmo após garantir investimentos em 2015 em troca do corte pela metade dos salários que foi negociado pelo sindicato.

Os dirigentes sindicais na Ford agora prometem que o sindicato “terá voz” nos esforços do governo estadual em encontrar um comprador para a fábrica, ou seja, que o sindicato fará de tudo para os trabalhadores aceitarem demissões, aumento da terceirização e redução salarial, mesmo diante dos 7,5 bilhões de reais em subsídios oferecidos apenas para a Ford nos últimos cinco anos.

Em contraste à reação covarde dos burocratas sindicais, uma greve selvagem feita pelos trabalhadores em 1990 levou à ocupação da fábrica e a uma paralisação de 50 dias contra a erosão salarial diante de uma inflação crescente.

O fechamento da fábrica da Ford expõe a mentira de que retiradas de direitos sem fim – através das quais as condições de vida dos trabalhadores estão sendo reduzidas a níveis de pobreza na região mais industrializada da América do Sul – podem parar os fechamentos de fábricas. Mas também expõe a transformação dos sindicatos internacionalmente diante da produção capitalista globalizada, que de garantidores de limitadas concessões para sua própria burguesia se transformaram em instrumentos de disciplina dos trabalhadores e para retirar cada vez mais direitos dos trabalhadores e aumentar os lucros das empresas.

O fechamento da fábrica da Ford também expôs o processo paralelo que tem caracterizado o Partido dos Trabalhadores (PT), que foi criado como consequência das greves em massa do final da década de 1970, incluindo na Ford, que derrubou a ditadura militar de 21 anos apoiada pelos EUA.

Inaugurada como a terceira fábrica da Ford no Brasil em 1967, três anos depois do golpe militar de 1964 que derrubou o governo nacionalista- burguês do presidente João Goulart do Partido Trabalhista do Brasil, a fábrica em São Bernardo fez parte da enorme expansão industrial que aconteceu ao redor de São Paulo. Essa expansão levaria São Paulo a superar o Rio de Janeiro como a maior cidade do Brasil, em um processo que fez milhões de trabalhadores do Nordeste e Norte do país virem para a cidade fugindo da pobreza e da violência dos militares e paramilitares contra os camponeses.

No final dos anos 1970, a maior concentração de trabalhadores do Brasil e da América do Sul estava em São Paulo. A cidade também se tornou a força política decisiva no país. A influência construída pela burocracia sindical, liderada pelo ex-líder do Sindicato dos Metalúrgicos e primeiro presidente do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, foi canalizada para a construção do partido. Isso serviu para o PT se apresentar para a burguesia brasileira como a força política mais capaz de estabilizar as relações sociais em um país com uma das maiores desigualdades sociais do mundo.

Com o início da derrocada da produção industrial em 2013-2014 e o intenso crescimento do desemprego que levariam a maior crise econômica da história do país, a região do ABC também testemunhou o abandono do PT pela classe trabalhadora brasileira. As regiões industriais principais no país, incluindo o ABC, testemunharam uma agressiva queda na votação do PT na eleição presidencial de 2014, até finalmente todos os prefeitos do PT no ABC não terem conseguido se reeleger ou emplacar seu sucessor na eleição de 2016. O demagogo fascista e ex-capitão do exército Jair Bolsonaro ganhou no ABC por uma ampla margem de votos na eleição para a presidência de 2018.

Beneficiando-se da rejeição do PT, Bolsonaro conseguiu acumular uma pequena popularidade, que agora está em queda livre, ao posar como opositor da “reforma da previdência” inicialmente proposta pelo PT – que o presidente agora apoia enquanto o PT finge se opor –, que está sendo retratada fraudulentamente pela imprensa como oposta às políticas neoliberais e às privatizações do PT.

Considerando que os sindicatos tornaram o nacionalismo econômico e o corporativismo sua moeda de troca, Bolsonaro foi capaz de evocar um tom populista alegando que “A China está comprando o Brasil”. O último golpe veio quando ele demagogicamente apoiou a enormemente popular greve dos caminhoneiros de 2018, enquanto os sindicatos controlados pelo PT a retrataram como uma manobra da direita, isolando a classe trabalhadora da greve mesmo enquanto a produção automotiva estava sendo paralisada pela falta de peças.

A reação dos sindicatos expôs que eles aprofundarão sua colaboração não apenas com as empresas automotivas, mas também com o governo brasileiro de extrema direita, para o qual os dirigentes sindicais covardemente pediram desculpas em Novembro depois de fazerem campanha para o candidato Fernando Haddad (PT), que foi considerado o líder de uma frente “antifascista”.

Em um momento em que os interesses comuns da classe trabalhadora internacional são expressos intensa e rapidamente pela solidariedade através das fronteiras nacionais em manifestações e greves – a mais importante na fronteira entre os Estados Unidos e o México, e agora entre os trabalhadores franceses e argelinos – os sindicatos se recusam a realizar uma luta coordenada entre trabalhadores na Ford e na GM no Brasil, cujas fábricas estão apenas a 5 km uma da outra. Ao contrário, os sindicatos de São Bernardo e São Caetano estão colocando seus trabalhadores contra aqueles em outros estados, dizendo que a Ford está mantendo as outras fábricas brasileiras abertas porque “os trabalhadores do ABC são bem pagos demais”, sendo que muitos deles ganham um pouco mais do que o salário mínimo.

Eles se esforçam para subordinar os trabalhadores a uma ou outra fração da burguesia com o objetivo de “explorar as contradições do governo”, segundo os maiores apologistas da pseudo-esquerda do PT, o Partido da Causa Operária (PCO), ou “potencializando” os conflitos entre Bolsonaro e seu vice-presidente que defende um golpe, general Hamilton Mourão – conforme proposta pelo propagandista do PT Gustavo Conde, que reagiu com raiva às críticas pelos seus leitores de que o PT estava “flertando” politicamente com Mourão.

Enquanto isso, o PT circulou uma “mensagem da prisão” de Lula para os trabalhadores da Ford, dizendo a eles que devem “pressionar o governo a proibir a importação de produtos da empresa fabricados em outro país”, ou seja, colocar os trabalhadores brasileiros contra seus irmãos e irmãs da classe trabalhadora internacional que estão enfrentando as mesmas ameaças que eles. Dois dias depois, o sindicato escolheu se encontrar com o vice-presidente, general Mourão, ao invés de Bolsonaro, para discutir como organizar tal “pressão”, dizendo à imprensa no final do encontro que ele “foi sensível ao tema e se comprometeu a nos ajudar”.

No encontro com trabalhadores depois de seu retorno de Detroit, aparecendo ao lado da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, prometeu que insistiria, por sugestão de Hoffmann, que Bolsonaro levasse a questão a Trump – imitando a promessa feita pelos sindicatos dos EUA e pelo Partido Democrata de que eles iriam “trabalhar com Trump para gerar empregos”.

Uma última palavra precisa ser dita sobre as organizações de classe média alta da pseudo-esquerda ao redor do PT, que fingem estar horrorizadas com o governo de extrema direita do Brasil. Todas culpam a classe trabalhadora pela ascensão de Bolsonaro, retratando os trabalhadores que rejeitaram o PT como gananciosos, preconceituosos e fanáticos evangélicos.

Isso tomou uma forma particularmente maligna em relação ao fechamento da Ford, com a promoção entre essas camadas da história de que o candidato à presidência do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, foi zombado por trabalhadores quando fez campanha na fábrica. A história viralizou nas redes sociais, com pessoas de classe média supostamente de “esquerda” compartilhando comentários de que os trabalhadores na Ford “merecem” ser jogados para as filas de desempregados por sua “estupidez” em votar em Bolsonaro e serem hostis ao direitista e neoliberal Haddad.

Haddad negou que foi zombado pelos trabalhadores da Ford quando fazia campanha em 2018, e a revista Piauí também investigou a história e descobriu que era mentira.

Mesmo assim, tais comentários inundaram páginas de Facebook pró-PT e contas do Twitter, como as da “Mídia Ninja”, “Jornalistas Livres” e do ex- candidato à presidência pelo pequeno-burguês Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Guilherme Boulos.

Expondo o quão compartilhada é essa concepção entre os defensores mais próximos ao PT, um dos propagadores da falsa alegação sobre os trabalhadores da Ford foi o ex-padre Leonardo Boff, conhecido internacionalmente como um dos propositores de “esquerda” da teologia da libertação e um dos autores pró-PT mais lidos no Brasil. Ele também é descrito como “conselheiro religioso” de Lula na prisão.

Boff retuitou a falsa alegação de que os trabalhadores “não deixaram Haddad falar na Ford durante a campanha” e que eles gritaram “mito, mito”. O fato de que isso nunca aconteceu não impediu que o tuite compartilhado por Boff continuasse: “Agora a Ford anuncia que vai fechar. Mais de 20 mil trabalhadores serão afetados. Será que se eles fizerem arminha com mão gritando mito o emprego volta?!”.

Nada poderia expor mais claramente a profunda hostilidade da classe média alta do PT em relação à classe trabalhadora brasileira. A luta em defesa dos empregos e das condições de vida e contra a ameaça da ditadura pode ser levada adiante apenas através de uma ruptura completa com esse reacionário partido burguês e todos os seus satélites da pseudo-esquerda.