Trump, Bolsonaro e o perigo do fascismo

23 Março 2019

Publicado originalmente em 20 de Março de 2019

A visita de três dias a Washington do presidente do Brasil reuniu duas das figuras mais direitistas do mundo: Jair Bolsonaro, ex-capitão do exército e fervoroso admirador da sanguinária ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985, e Donald Trump, que se tornou o polo de atração de figuras autoritárias e fascistas em todo o mundo, incluindo o atirador que matou 50 muçulmanos em duas mesquitas da Nova Zelândia na semana passada.

Durante a coletiva de imprensa conjunta na Casa Branca na tarde de terça-feira, Trump repetiu seu discurso, ouvido em fevereiro por exilados cubanos e venezuelanos de direita na Flórida, que “A hora do crepúsculo do socialismo chegou ao nosso hemisfério”. Ele enfatizou, como fez em seu discurso do Estado da União, que isso também significa acabar com a ameaça do socialismo no próprio Estados Unidos.

Trump e Bolsonaro fizeram da extirpação do socialismo – o núcleo político dos movimentos fascistas – o objetivo central de seus governos. Na coletiva de imprensa conjunta, eles denunciaram o socialismo poucos dias após o massacre na Nova Zelândia, realizado por Brenton Tarrant. Tarrant publicou um manifesto chamando Trump de um “símbolo da identidade branca renovada” e declarando seu desejo de botar a bota no pescoço de todo “marxista”.

O encontro de Trump e Bolsonaro na Casa Branca simboliza a elevação dos partidos de extrema direita e o cultivo de forças fascistas pelos governos capitalistas e pelos partidos burgueses do establishment político em todo o mundo. Esse encontro reforça o fato de que o crescimento do fascismo na Europa, Ásia, América Latina e EUA é o resultado não de uma onda de apoio em massa da população, mas, sim, do patrocínio e apoio dos chamados governos “democráticos” que são, de fato, controlados totalmente por oligarcas corporativos.

A promoção global da política de extrema direita foi incorporada pela presença do ideólogo direitista Steve Bannon, ex-vice-presidente do Goldman Sachs e oficial da Marinha, como convidado de honra em um jantar com Jair Bolsonaro na noite de segunda-feira. Bannon tem laços estreitos com o filho de Bolsonaro, Eduardo, que é deputado federal e representante latino-americano do consórcio político criado por Bannon, conhecido como o Movimento, cujo objetivo é promover partidos políticos de extrema direita em todo o mundo. “Alguns membros da equipe Bolsonaro à direita se veem como discípulos do movimento de Bannon e representantes de Bannon para o Brasil e a América Latina”, disse um ex-funcionário da administração Trump ao site McClatchy.

Na coletiva de imprensa, Jair Bolsonaro e Trump prometeram apoiar a ladainha fascista “deus, família e nação”, como Trump disse. Bolsonaro declarou: “Brasil e Estados Unidos estão lado a lado em seus esforços para compartilhar liberdades e respeito a estilos de vida tradicionais e familiares, respeito a Deus, nosso criador, contra a ideologia de gênero das atitudes politicamente corretas e fake news.”

Os dois presidentes ameaçaram usar a força militar contra a Venezuela, demonizando o presidente Nicolas Maduro como um ditador socialista. Maduro lidera um regime capitalista, mas cuja política externa se orienta para a China e a Rússia, em vez do imperialismo dos EUA.

Trump reiterou o mantra de que “todas as opções estão sobre a mesa” contra a Venezuela. Perguntaram a Bolsonaro se ele permitiria que soldados dos EUA usassem o solo brasileiro como base para operações militares contra a Venezuela. Em vez de rejeitar essa perspectiva como uma violação da soberania brasileira e venezuelana, ele se recusou a responder, dizendo ser necessário manter o sigilo operacional e o elemento surpresa.

Um dos acordos bilaterais assinados por Trump e Bolsonaro poderá permitir que os Estados Unidos lancem seus satélites da Base de Alcântara, no Maranhão, uma medida que precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional brasileiro. O Brasil também anunciou o fim do visto para visitantes dos EUA. Ambas as ações fornecem caminhos para a integração do Brasil às operações do Pentágono, particularmente a guerra de mísseis por drones e a mobilização de forças de operações especiais.

Antes de visitar a Casa Branca, Bolsonaro fez uma visita inesperada à sede da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), em Langley, no estado da Virgínia, um movimento extraordinário para o presidente de um país que foi submetido a 21 anos de tortura e assassinatos por uma ditadura militar instalada por um golpe apoiado pela CIA.

As terríveis implicações para a classe trabalhadora da ascensão global da extrema direita são indicadas pela glorificação de Bolsonaro da ditadura militar brasileira. Trump saudou os “valores compartilhados” entre seu governo e o do ex-capitão do exército que elogia um regime que prendeu, torturou e assassinou dezenas de milhares de trabalhadores e estudantes. Há vinte anos, Bolsonaro disse em uma entrevista que o Congresso brasileiro deveria ser fechado e que o país só poderia ser mudado por uma guerra civil que completasse “o trabalho que o regime militar não fez, matando 30 mil pessoas”.

As classes dominantes capitalistas estão voltando-se mais uma vez à ditadura e ao fascismo em resposta à intensificação da crise econômica mundial, à desintegração da ordem internacional do pós-guerra, ao crescimento da guerra comercial e dos conflitos geoestratégicos e, acima de tudo, ao ressurgimento da luta de classes em escala mundial. Petrificados pela perspectiva de oposição da classe trabalhadora em massa e pelo crescimento do sentimento anticapitalista e socialista, eles estão revivendo toda a imundície política e ideológica do século XX, incluindo o racismo, o antissemitismo e as políticas de “sangue e solo”. Eles estão ativamente recrutando fascistas e racistas e integrando-os às agências militares e policiais do estado, que poderão se voltar contra uma classe operária insurgente.

Esse processo mostra que as alternativas não são o socialismo ou o reformismo, mas o socialismo ou a barbárie – isto é, a descida ao fascismo e à guerra mundial.

Seria politicamente criminoso subestimar o perigo para a classe trabalhadora representado pelo crescimento dos movimentos de extrema direita e fascistas e a chagada de partidos e políticos de extrema direita aos governos – como já é o caso na Alemanha, Itália, Hungria, Polônia, Áustria, Brasil e outros países. Para derrotar este perigo, é sobretudo necessário aprender as lições da história.

Toda a história do século XX demonstra que o fascismo e a guerra não podem ser evitados apelando à classe dominante ou à política do tipo “frente popular”, que subordina a classe trabalhadora a supostas seções “progressistas” da burguesia. A única maneira de deter o fascismo e impedir a guerra imperialista é mobilizar a classe trabalhadora em escala internacional para a derrubada do capitalismo.

Patrick Martin