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Xi Jinping visita a Europa em meio a crescentes divisões entre os EUA e a UE

Publicado originalmente em 29 de Março de 2019

Na terça-feira, o presidente chinês Xi Jinping terminou sua visita de seis dias à Europa, que o levou a Roma, Sicília, Mônaco e Paris. Essa viagem e a assinatura de múltiplos acordos estratégicos e comerciais entre a China e as potências europeias expuseram os profundos conflitos que existem entre os Estados Unidos e seus supostos aliados europeus.

Antes da viagem de Xi, a imprensa havia vazado notícias de que a Itália planejava participar da “Nova Rota da Seda”, um ambicioso projeto chinês de investimento em transporte, energia e infraestrutura industrial por toda a Eurásia.

Isso provocou amarga oposição de Washington. Depois de lançar o “pivô para a Ásia” com o objetivo de isolar militarmente a China em 2011, os EUA agora deixaram o tratado das Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês) para destacar um grande número de mísseis nucleares que tem como alvo a China e a Rússia. No Twitter, o Conselho de Segurança Nacional dos EUA alertou a Itália de que estava legitimando a “abordagem predatória de investimento [chinês] e que isso não traria benefícios ao povo italiano”.

No entanto, as potências da União Europeia (UE) descartaram as objeções dos EUA. Depois que todas as potências da UE passaram a integrar em 2015 o braço de financiamento da “Nova Rota da Seda”, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, esse fim de semana Roma assinou um Memorando de Entendimento para selar a entrada do país no projeto chinês.

Paris reclamou amargamente que Roma havia deixado de lado seus parceiros da UE em suas negociações com a China. No entanto, quando Xi chegou à França, seu presidente, Emmanuel Macron, assinou seus próprios acordos multimilionários com o presidente chinês. O maior deles, um negócio de 30 bilhões de euros para a franco-alemã Airbus vender aviões para a China, incluiu uma grande nova encomenda enquanto a China abandona o Boeing 737 MAX em detrimento do Airbus A320 após dois terríveis acidentes. Macron encontrou-se com Xi junto com a chanceler alemã, Angela Merkel, que disse que não tinha “nada para criticar” no acordo da Itália com Xi endossando a “Nova Rota da Seda”.

Essas reuniões aconteceram em meio a explosivas tensões com os Estados Unidos sobre a política em relação à China e à Rússia. Este mês, depois que Merkel rejeitou os pedidos dos EUA para boicotar os produtos da empresa de tecnologia chinesa Huawei, o embaixador dos EUA na Alemanha, Richard Grenell, ameaçou suspender a cooperação de inteligência dos EUA com a Alemanha. Ao mesmo tempo, Washington está ameaçando Berlim com sanções se ela não abandonar a construção do gasoduto Nord Stream 2, que poderá dobrar a exportação de gás russo para a Alemanha.

Apesar dos grandes conflitos com Washington, a política das potências imperialistas europeias não é fundamentalmente diferente, ou menos predatória e reacionária, do que a estadunidense. Elas planejam investir centenas de bilhões de euros em suas máquinas de guerra, financiadas pela austeridade contra a classe trabalhadora, para lhes dar o poder militar necessário para melhor enfrentar Washington.

O Financial Times de Londres expôs as implicações militaristas das tentativas de perseguir uma política europeia independente em seu editorial de ontem. “A UE teme estar sendo espremida entre os EUA e a China à medida que a administração Trump adota uma linha cada vez mais dura em relação a Pequim. Os líderes europeus não querem ser forçados a escolher entre os dois”, escreveu o editorial, acrescentando que os países-membros da UE “tomam o investimento direto da China ou dão um prêmio às exportações para a China”.

Na Europa, o FT continuou: “Alguns defendem a construção de um sistema de defesa e uma política externa autônomos. Mas nos próximos anos, porém, a Europa será incapaz de ficar sozinha.” O FT de maneira eufemística chamou as principais potências da UE a “pensar mais estrategicamente” e “assumir a liderança”. Em linguagem simples, isso significa que a Europa deve se apressar para se rearmar.

Os próprios chefes de Estado europeus não sabem se as armas que estão construindo serviriam para se unir a um ataque dos EUA contra a China, uma guerra chinesa contra os EUA ou algum outro conflito. No entanto, dois anos desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, especulou sobre o fim da aliança da OTAN e ameaçou levar adiante uma guerra comercial contra as exportações de carros alemães, os acordos internacionais de longa data que sustentam as questões do capitalismo mundial estão se desintegrando rapidamente.

As contradições do capitalismo que os grandes marxistas do século XX identificaram como responsáveis pela eclosão da guerra mundial e pela Revolução de Outubro de 1917 na Rússia – entre a economia mundial e o sistema de Estado-nação, e a produção social e a apropriação privada do lucro – estão tornando-se cada vez maiores.

A “Nova Rota da Seda” é um projeto de trilhões de dólares, estabelecido em 2013, que tem o objetivo de colocar a China no centro de uma vasta rede ferroviária e rodoviária, de portos, dutos de energia e instalações industriais que vai da China até a Europa passando por toda a Eurásia, além de alcançar a África Oriental e a Indonésia. Centenas de bilhões de dólares já foram gastos em iniciativas como o Corredor Econômico China-Paquistão, o serviço regular de trens de carga chineses para o Irã e a Alemanha através da Rússia e os portos do Oceano Índico. As empresas estatais chinesas estão coordenando enormes operações internacionais à medida que a Eurásia se industrializa.

Isso tem colocado Pequim em confronto direto com Washington. Também cria as condições para um potencial conflito com as potências europeias se elas se alinharem com a “Nova Rota da Seda”. Na visita europeia de Xi, o Washington Post citou o analista Jacob Shapiro, que advertiu que o projeto pan-Eurasiático estabelece “a base para precisamente frustrar o tipo de poder que os EUA querem estabelecer há mais de dois séculos. Por mais ambicioso que seja o objetivo estratégico mais amplo da China, é precisamente esse objetivo estratégico que irrita os Estados Unidos. Embora não seja particularmente preocupante se a China constrói um porto na Itália ou uma ferrovia de alta velocidade na Polônia, os EUA preocupam-se com o potencial surgimento de uma potência dominante na Eurásia.”

Após a dissolução da União Soviética em 1991, que abriu espaço para uma série de intervenções imperialistas na Ásia Central, a principal estratégia de Washington foi dominar essa região para controlar a enorme área terrestre eurasiana. Os EUA iniciaram uma série de guerras nos Bálcãs, Afeganistão, Iraque, Síria e em muitos outros lugares. Apesar das crescentes rivalidades comerciais com os Estados Unidos, as potências imperialistas europeias uniram-se aos EUA nessas guerras. Elas custaram milhões de vidas, destruíram sociedades inteiras e levaram os trabalhadores em todo o mundo a não acreditar nas classes dominantes dos países imperialistas.

Mas o fracasso dessas intervenções neocoloniais fez apenas com que elas fossem intensificadas pelos EUA, preparando novas e mais sangrentas guerras e provocações voltadas diretamente contra a Rússia e a China.

As tentativas das potências imperialistas europeias de formular uma política imperialista independente não são uma alternativa pacífica às guerras de Washington. O rearmamento do imperialismo europeu, financiado pela austeridade, anda de mãos dadas com a incessante guinada à extrema direita e em direção ao domínio do Estado policial. Enquanto os professores extremistas de direita legitimam os crimes de Hitler para justificar a remilitarização alemã, o presidente francês Emmanuel Macron saudou o ditador fascista Philippe Pétain e autorizou o exército a atirar nos “coletes amarelos” que se opõem à desigualdade social e à guerra.

Em última análise, o agravamento dos antagonismos globais na ordem geopolítica mundial traz consigo o imenso perigo de uma nova guerra mundial, desta vez travada com armas nucleares. A classe trabalhadora é a única força social capaz de se opor ao impulso da guerra imperialista.

A tarefa política mais urgente é a construção de um movimento internacional anti-guerra na classe trabalhadora em meio ao aumento da luta de classes. A erupção de protestos em massa pela queda do regime militar da Argélia, o movimento dos “coletes amarelos” e greves contra o congelamento de salários na Europa, relatos de crescente protesto social na China e greves de professores americanos e trabalhadores mexicanos tanto contra os sindicatos quanto as empresas apontam para uma enorme radicalização dos trabalhadores. A questão crítica é orientá-los para as grandes tarefas colocadas pela situação objetiva.

A única maneira de organizar racionalmente as forças produtivas internacionais criadas pela sociedade moderna e impedir um novo colapso em guerras horrendas é a expropriação das classes capitalistas pela classe trabalhadora, lutando pelo programa da revolução socialista mundial.

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