Uma reunião de falidos políticos: Materialismo Histórico e Jacobin organizam conferência “O Socialismo em Nosso Tempo”

20 Abril 2019

Publicado originalmente em 16 de Abril de 2019

Nos dias 13 e 14 de abril, o periódico do Reino Unido Historical Materialism (Materialismo Histórico) e a revista estadunidense Jacobin realizaram sua conferência “Socialism in Our Time” (“O Socialismo em Nosso Tempo”) na cidade de Nova York. O evento reuniu a maioria das organizações da pseudo-esquerda dos Estados Unidos, com a linha política predominante tendo sido oferecida pelos Socialistas Democráticos dos EUA (DSA, na sigla em inglês), ligado à revista Jacobin.

Na verdade, a conferência não teve qualquer relação com o socialismo, seja no nosso tempo, ou em qualquer outro. Um nome melhor para o evento teria sido “A Política do Partido Democrata em Nosso Tempo”. O evento e seus 74 painéis e oficinas foram um exercício de evasão e duplicidade políticas, em que toda questão política significante foi ignorada ou acobertada em longas frases que tentavam justificar o apoio aos sindicatos e, acima de tudo, à campanha do Partido Democrata de Bernie Sanders, que a revista Jacobin e os DSA estão promovendo.

Não houve qualquer discussão sobre a ascensão de movimentos de extrema direita e fascistas ao redor do mundo, o significado do crescimento da luta de classes ou sobre o perigo de uma guerra mundial. Ninguém fez qualquer análise séria da administração Trump ou do papel do Partido Democrata em facilitar suas políticas reacionárias.

Apesar de ter ocorrido dois dias antes do evento, a prisão de Julian Assange em Londres não foi mencionada. Ninguém considerou que a captura do fundador do WikiLeaks e a ameaça de sua extradição para os Estados Unidos teria qualquer relação com a construção de um movimento socialista.

Quanto à história, um tema aparentemente importante na conferência, os participantes evitaram cuidadosamente quaisquer referências ao passado, o que apenas exporia seu próprio histórico de traições e enganações.

Em janeiro, o Partido Socialista pela Igualdade (PSI) submeteu uma proposta para um painel da conferência com o título “A luta contra o fascismo e as lições da história”. O painel contaria com a presença de Christoph Vandreier, vice-secretário nacional do Sozialistische Gleichheitspartei (Partido Socialista pela Igualdade) na Alemanha e autor do livro “Por Que Eles Estão de Volta? Falsificação Histórica, Conspiração Política e o Retorno do Fascismo na Alemanha”.

A proposta do PSI foi rejeitada pelos organizadores da conferência. Qualquer expressão de políticas socialistas genuínas seria excluída. Apenas um painel na conferência tratou da situação política alemã, “A Crise Escondida da Alemanha”, em que nenhuma menção foi feita da ascensão do partido fascista Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão). Ao invés disso, uma desmoralizada discussão se seguiu sobre como transformações na economia alemã supostamente haviam colocado seções da classe trabalhadora umas contras as outras e minado a base para uma política de esquerda.

O painel principal da conferência, “Por Que o Movimento Socialista Precisa de Nosso Próprio Partido”, resumiu a perspectiva política predominante. Ele contou com a presença de Todd Chretien, um líder da Organização Socialista Internacional (ISO, na sigla em inglês) até sua dissolução no mês passado; do editor da revista Jacobin e membro dos DSA, Bhaskar Sunkara; e da escritora da mesma revista e também membro dos DSA, Meagan Day.

Sunkara resumiu a falta de seriedade de todos os participantes. “Eu não tenho as respostas”, disse ele em três ocasiões diferentes de sua declaração inicial, uma frase depois repetida por Chretien.

Essa declaração de irrelevância política é sem dúvida verdadeira em relação à maior parte das questões que foram tratadas por Sunkara. Entretanto, no que diz respeito ao Partido Democrata, sua resposta foi clara. Os DSA, ele declarou, estão buscando “organizar o primeiro partido da classe trabalhadora na casca do velho partido” – isto é, o Partido Democrata. Ele acrescentou que, “com o tempo, pode haver uma luta pela nossa própria linha eleitoral”, mas claramente ele via isso acontecendo em um futuro muito distante.

Sunkara provavelmente ficou orgulhoso de si mesmo por ter achado uma nova maneira de formular a desgastada política do Partido Democrata que os DSA têm apoiado desde o seu início. Os DSA, na verdade, não estão “organizando” nada dentro do Partido Democrata, mas suas próprias ambições por cargos. Os DSA estão apostando tudo na campanha eleitoral para a presidência de Bernie Sanders, de 77 anos de idade, cuja vitória em 2020 está sendo apresentada na revista Jacobin como o começo do fim da pobreza nos EUA.

Sanders é apenas o veículo através do qual eles estão justificando seu apoio ao Partido Democrata. Se ele for o candidato do partido, os DSA defenderão todas as suas inevitáveis traições.

Além do caráter sem princípios de subordinar suas próprias atividades a esse partido de direita e das grandes empresas, toda a estratégia política dos DSA gira em torno de um homem, que é cinco anos mais velho do que o atual presidente. O que aconteceria se Sanders não puder continuar? A resposta seria a mesma caso ele não conseguir ser o candidato do Partido Democrata: os DSA apoiarão qualquer candidato de direita que os democratas escolherem.

Chretien foi um dos vários refugiados políticos participando na conferência após o naufrágio da ISO. Sobre a dissolução do seu ex-partido, que havia existido por mais de quatro décadas e foi extinto em questão de semanas, Chretien não teve quase nada a dizer. Enquanto a ISO havia sido “uma organização significante na esquerda que lutou contra as restrições da época”, ele disse que “nós fomos construídos para um período de derrotas”. Quando confrontadas com um novo período, “nossas próprias limitações causaram um curto-circuito, e isso aconteceu de uma maneira suave”.

Conforme o WSWS analisou, por trás da crise na ISO, impulsionada por um escândalo sobre alegações de estupro, estava uma intensa guinada à direita das forças de classe média que ela cultivou e recrutou com base nas políticas de identidade. A organização havia desenvolvido extensas relações financeiras com fundações alinhadas ao Partido Democrata, que haviam financiado com milhões de dólares a sua organização guarda-chuva sem fins lucrativos, o Centro para a Pesquisa Econômica e a Transformação Social (CERSC, na sigla em inglês).

Depois do “curto-circuito”, Chretien disse, ex-membros estão atualmente “tomando ar” enquanto pensam sobre como “participar da construção de uma nova esquerda”. O respiro de Chretien e outros ex-membros da ISO, entretanto, não é profundo. Eles já começaram a procurar lugares para ocupar dentro do Partido Democrata.

Durante suas considerações iniciais, Chretien sugeriu timidamente que “nós precisamos de nosso próprio partido”, citando como possíveis modelos o Podemos na Espanha, o Congresso Nacional Africano na África do Sul, o presidente AMLO no México e, particularmente, o Syriza na Grécia. Todos são partidos burgueses que desempenham um papel significativo em manter o governo capitalista. O Syriza, a “coalização radical da esquerda”, está no poder na Grécia há mais de quatro anos, durante os quais impôs as medidas de austeridade exigidas pelos bancos europeus e serviu como linha de frente para a política da União Europeia contra os refugiados.

A declaração de Chretien sobre precisar “de nosso próprio partido” levou Sunkara a dizer que “Todd estava em desvantagem” no painel de membros dos DSA, antes de se corrigir: “Somos todos uma família unida”. Chretien concordou prontamente, dizendo que, enquanto acredita que a campanha de Bernie Sanders “possui algumas fraquezas”, é “um ponto de partida sobre a qual podemos começar a construir” e que oferece “uma abertura eleitoral real”.

Os DSA são uma facção do Partido Democrata, enquanto a ISO havia servido como uma agência auxiliar, apoiando os democratas de fora. A sua dissolução é uma expressão do fato de que, em meio ao crescimento da luta de classes, a ISO percebeu que seria impossível continuar fingindo ter qualquer independência da política burguesa.

Essa determinação em apoiar o Partido Democrata ocorre ao mesmo tempo que os próprios democratas se movem para a direita. Nos últimos dois anos e meio, os democratas têm centrado sua oposição a Trump em sua campanha anti-russa, que tem sido utilizada para justificar a censura na internet e atacar o WikiLeaks e Julian Assange, além de exigir guerras mais agressivas no Oriente Médio e contra a Rússia.

A ISO cumpriu um papel particularmente importante no apoio à agenda imperialista das agências de inteligência dos EUA, que o Partido Democrata representa. Isso foi expresso na conferência em vários painéis que tiveram a participação do ex-líder da ISO, Ashley Smith, que criticou aqueles que se opõem ao impulso de guerra dos EUA na Síria. Em um desses painéis, “Reconstruindo o anti-imperialismo de princípios”, Shireen Akram-Boshar, que havia escrito regularmente para o site Socialist Worker da ISO, atacou aqueles que colocam um “hiperfoco” sobre o imperialismo americano e criticou o governo dos EUA por não dar mais armas para a oposição apoiada pela CIA na Síria.

Foi Meagan Day, dos DSA, que ofereceu a exposição mais clara da perspectiva do evento como um todo. Apontando para o papel dos partidos socialdemocratas na Europa, ela disse: “Nós ainda não temos instituições que podem nos esfaquear pelas costas. Minha posição é a de que temos de construir essas instituições”.

Essa frase é um resumo adequado do papel dos DSA, da ex-ISO e das outras organizações da pseudo-esquerda presentes na conferência “O Socialismo em Nosso Tempo” – com a condição de que não são eles próprios quem serão esfaqueados nas costas, mas a classe trabalhadora. Em relação às camadas de classe-média alta que essas organizações representam, elas têm esperança de participar dessa operação. A classe trabalhadora, entretanto, terá sua própria posição sobre a questão.

Joseph Kishore