O relatório Mueller e a campanha contra a Rússia

25 Abril 2019

Publicado originalmente em 20 de Abril de 2019

A divulgação do relatório do procurador especial Robert Mueller sobre as alegações de interferência russa na eleição dos EUA e do suposto conluio com o governo Trump reacendeu a guerra feroz entre facções da classe dominante estadunidense.

Um editorial publicado na sexta-feira à noite pelo New York Times revela claramente, após dois anos, do que se trata todo esse conflito. Como o World Socialist Web Site tem repetidamente insistido, as facções dominantes do aparato militar e de inteligência, cujas demandas tem sido canalizadas pelo Partido Democrata e pela mídia, não aceitarão qualquer recuo em relação à intensificação do conflito com a Rússia.

A declaração do conselho editorial do jornal recebeu o título “O relatório Mueller e o perigo que enfrenta a democracia americana”, com o subtítulo “Uma vitória reconhecida da interferência russa representa um sério risco aos Estados Unidos”.

Segundo a declaração, “O relatório do procurador especial Robert Mueller deixa espaço considerável para a guerra partidária sobre o papel do presidente Trump e sua campanha política na interferência da Rússia na eleição de 2016. Mas uma conclusão é categórica: ‘O governo russo interferiu na eleição presidencial de 2016 de maneira ampla e sistemática.’”

Essa afirmação reconhece indiretamente que o relatório Mueller não conseguiu fundamentar muitas das alegações promovidas pela mídia, incluindo o Times, de conluio ou coordenação direta entre a campanha de Trump de 2016 e o governo russo. No entanto, o que mais preocupa o Times é a alegação subjacente – e não menos infundada – de que a Rússia atacou a “democracia dos EUA” e que uma resposta agressiva é necessária.

“O Sr. Mueller foi designado para investigar a questão central da interferência da Rússia na campanha”, escreve o Times, “e embora Mueller não tenha acusado a campanha de Trump de cooperar abertamente com os russos – o relatório misericordiosamente rejeita falar de ‘conluio’, um termo que não tem significado na lei dos EUA – ele foi inequívoco sobre a culpa da Rússia: ‘Primeiro, o escritório determinou que as duas principais operações de interferência da Rússia na eleição presidencial de 2016 – a campanha nas redes sociais e as operações de hackear e vazar informações – violaram a lei criminal dos EUA.””

No trecho principal, o Times reclama que Trump não levou a sério essa suposta interferência na política dos EUA. “Culpado ou não”, escrevem os editores, “ele deve entender que uma potência estrangeira que interfere na eleição estadunidense está, de fato, tentando distorcer a política externa dos EUA e a segurança nacional.”

“Distorcer a política externa... .” Isso é uma referência às operações imperialistas apoiadas pela CIA na Síria e à campanha contra a própria Rússia.

Além dos conflitos sobre política externa, a campanha anti-Rússia tem como objetivo criminalizar a oposição doméstica e justificar um ataque sem precedentes à liberdade de expressão, incluindo a censura na internet através do Google, Facebook e outras empresas de rede social, sob o pretexto absurdo de que as operações online da Rússia são responsáveis pelo conflito social dentro dos Estados Unidos.

Regurgitando as afirmações infundadas das agências de inteligência, que o relatório Mueller também aceita, o Times denuncia “uma campanha nas redes sociais [pela Rússia] para gerar discórdias nos Estados Unidos”. Significativamente, essa mesma afirmação foi repetida pelo procurador-geral de Trump, William Barr, segundo o qual o relatório prova que a Rússia se engajou em uma campanha sistemática para “semear a discórdia social entre os eleitores estadunidenses.”

Como se a crescente onda de agitação social nos Estados Unidos, impulsionada por níveis sem precedentes de desigualdade social, fosse o produto da nefasta intervenção de Vladimir Putin! Isso é simplesmente a ressurreição da perseguição histérica macarthista, com a Rússia capitalista assumindo o lugar da União Soviética.

Uma expressão particularmente nociva do ataque aos direitos democráticos é o acordo estabelecido por todas as facções da elite governante dos EUA contra o WikiLeaks. O relatório Mueller foi publicado poucos dias depois da prisão do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, pela polícia britânica, e após o governo dos EUA ter revelado que quer sua extradição para mantê-lo preso indefinidamente ou aplicar penas mais duras.

O editorial do Times repete a alegação – mais uma vez infundada, mas defendida pelo relatório Mueller – de que o governo russo estava envolvido em hackear “a campanha de Clinton e o Comitê Nacional Democrata e em vazar pilhas de materiais prejudiciais através dos grupos DCLeaks e Guccifer 2.0, e depois através do WikiLeaks.”

“O perigo real que o relatório Mueller revela”, repete o Times, “não é de um presidente que consciente ou inconscientemente deixa um poder hostil fazer manobras sujas em seu nome, mas de um presidente que se recusa a ver que foi usado de forma a prejudicar a democracia estadunidense e a segurança nacional.”

O editorial ainda diz: “Uma vitória reconhecida da interferência russa representa um grave perigo para os Estados Unidos. Várias agências estadunidenses já estão trabalhando, em parceria com a indústria de tecnologia, para evitar a interferência em eleições no futuro.” Ou seja, o Google e o Facebook já instituíram medidas de longo alcance para censurar a internet. “Mas o Kremlin não é o único governo hostil que circula no espaço cibernético dos EUA – a China e a Coréia do Norte são outros dois países que aperfeiçoam seus arsenais cibernéticos, e elas também podem ser tentadas a manipular disputas partidárias para seus próprios fins.” Outras medidas são, portanto, necessárias.

Combinam-se aqui os objetivos idênticos e inter-relacionados de todas as facções da classe dominante – intensificar a guerra, não apenas contra a Rússia, mas também contra a China, e suprimir a oposição social.

O Times termina com um pedido de reconciliação a Trump e aos republicanos. “Os dois partidos podem não concordar com a culpabilidade do Sr. Trump”, escrevem os editores, “mas eles já encontraram uma medida de comum acordo com as sanções que impuseram à Rússia pela sua interferência na campanha. Agora eles poderiam justificar o considerável tempo e custo da investigação do procurador especial, ao mesmo tempo que demonstram que a fissura na política estadunidense não é terminal, ao juntos deixarem claro para a Rússia e outras forças hostis que o processo democrático nos Estados Unidos e em países aliados está estritamente fora dos limites da manipulação clandestina estrangeira, e que qualquer um que tentar influenciá-lo pagará um preço alto.”

Assim temos, portanto, os fatos direto da fonte. A oposição dos democratas e de seus meios de comunicação à administração Trump nunca foi sobre as políticas fascistas e de direita do presidente, sua agenda ilegal e inconstitucional, ou seus métodos autoritários de governo, mas sobre as preocupações de que ele prejudicou interesses geoestratégicos do imperialismo dos EUA.

No que diz respeito à classe dominante – e aqui nos referimos tanto aos democratas quanto à administração Trump – o “preço alto” deverá ser pago não apenas pelos rivais da política externa da classe dominante estadunidense no exterior, mas também pela classe trabalhadora dos EUA.

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[13 de Junho de 2017]

Joseph Kishore