Em meio a decapitações em massa, Wall Street luta por lucros sauditas

3 Maio 2019

Publicado originalmente em 27 de Abril de 2019

As terríveis decapitações públicas de 37 cidadãos em um único dia na Arábia Saudita na última terça-feira, 23 de abril, provocaram protestos escassos de governos ocidentais ou da mídia corporativa.

Os mesmos jornais e redes de televisão que demonstraram sua indignação moral a abusos, tanto fabricados como reais, dos governos da Rússia, China, Irã, Síria e Venezuela estão claramente indiferentes a essas execuções criminosas. Eles mantêm o seu silêncio absoluto, mesmo que entre aqueles decapitados com espadas estivessem três jovens que foram presos quando eram menores de idade, depois torturados para assinar confissões e condenados por “terrorismo” por se atreverem a participar de protestos contra a ditadura monárquica do país.

Um dos decapitados foi Abdulkarem al-Hawaj, preso quando tinha apenas 16 anos pelas forças de segurança sauditas por participar de um protesto na Província Oriental da Arábia Saudita, lar de grande parte da minoria xiita do país. A partir de 2011, essa província rica em petróleo testemunhou protestos contra a discriminação sistemática e a opressão contra os xiitas, praticadas por uma monarquia cujo governo é vinculado à doutrina religiosa oficial do wahhabismo, uma seita sunita ultraconservadora.

O verdadeiro “crime” de Abdulkarem foi aparentemente ter utilizado as redes sociais para incentivar a participação de pessoas em uma manifestação. Ele foi preso em uma solitária, espancado, torturado com cabos elétricos e pendurado por correntes presas a seus pulsos até que assinasse uma confissão falsa.

Também foi assassinado na execução bárbara Mujtaba al-Sweikat, que tinha 17 anos ao ser preso em um aeroporto quando estava prestes a embarcar para os Estados Unidos, onde viria a estudar na Universidade Western de Michigan. Seu “crime” também foi se manifestar contra a ditadura real saudita.

Seu pai, que o representou em seu julgamento farsesco, acusou o Estado de criar a “ilusão” de uma “célula terrorista” inexistente. “Ele foi submetido a abusos psicológicos e físicos que acabaram com a sua força”, disse o pai de Sweikat ao tribunal. “O interrogador ditou a confissão a Sweikat e forçou-o a assiná-la para que a tortura parasse. Ele assinou.”

Como em todos os outros casos, o tribunal ignorou as evidências de tortura e confissões forçadas e impôs a sentença de morte por decapitação, já ordenada pela Casa de Saud.

O governo dos EUA pouco disse sobre essas atrocidades. Um porta-voz do Departamento de Estado emitiu uma declaração formal afirmando: “Nós vimos esses relatórios. Pedimos que o governo da Arábia Saudita, e todos os governos, assegurem garantias de julgamento, liberdade frente à detenção arbitrária e extrajudicial, transparência, estado de direito e liberdade de religião e crença.”

Nos dois dias após a decapitação pública saudita, que incluiu a crucificação de uma das vítimas e a exibição de uma cabeça decepada em uma haste para intimidar qualquer um que ousar se opor ao governante do reino, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, o Departamento de Estado dos EUA divulgou declarações condenando a Rússia por “graves violações dos direitos humanos” na Chechênia; a Venezuela por “intimidar e prender” a oposição de direita financiada pelos EUA; e Havana por agir para “suprimir os direitos humanos do povo cubano”.

A indiferença patente de Washington às execuções em massa na Arábia Saudita expõe o cinismo e a hipocrisia de todas as pretensões da defesa dos “direitos humanos” do imperialismo estadunidense e sua indignação fingida sobre supostos crimes praticados por governos que considera rivais estratégicos ou que quer derrubar. Os Estados Unidos há muito tempo consideram a Arábia Saudita um pilar da dominação e reação imperialista no Oriente Médio, e o governo Obama reagiu de maneira parecida à execução em massa de 47 cidadãos em janeiro de 2016.

Mas tão flagrante quanto a cumplicidade do governo dos EUA com os crimes do regime saudita é a simpatia da sangrenta e monárquica ditadura por Wall Street e pelo capital financeiro global.

Em outubro do ano passado, um número significativo de magnatas de Wall Street e diretores de instituições financeiras internacionais cancelaram suas viagens a uma conferência anual de investimentos sauditas conhecida como “Davos no Deserto”. O encontro – que contou com a participação de funcionários menos graduados dessas instituições – ocorreu poucas semanas depois do brutal assassinato e desmembramento do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado da Arábia Saudita em Istambul.

Tendo sido um informante do regime que serviu como assessor do chefe de inteligência saudita e interlocutor semioficial entre a Casa de Saud e a mídia ocidental antes de romper com o governo saudita, o destino sombrio de Khashoggi nas mãos de um esquadrão de morte militar e de inteligência foi o resultado de uma ordem direta do príncipe herdeiro, bin Salman, segundo a própria CIA e outras agências de inteligência.

Enquanto a morte do proeminente jornalista, que passou a assinar uma coluna no Washington Post depois de se auto-exilar nos EUA, provocou um breve período de atenção e protestos da mídia e de políticos estadunidenses, seis meses se passaram e o crime foi em grande parte esquecido. As autoridades dos EUA falam vagamente sobre a necessidade de “responsabilização” enquanto ignoram cuidadosamente que o autor do terrível assassinato não é outro senão seu aliado mais próximo, bin Salman.

Seis meses foram mais do que tempo suficiente para Wall Street deixar de lado qualquer constrangimento e comparecer entusiasticamente à “Conferência do Setor Financeiro” saudita, que ocorreu no Centro Internacional de Conferências do Rei Abdul Aziz. Embora tenha sido inaugurado logo após as execuções em massa, o centro de conferências fica a quilômetros de distância da Praça Deera, em Riad, onde os carrascos cortaram cabeças com espadas, de modo que os CEOs de Wall Street não precisaram se preocupar em sujar seus sapatos Prada de sangue.

O clima na conferência foi uma reprise da recepção calorosa que bin Salman recebeu durante sua visita aos EUA há apenas um ano, quando foi abraçado como visionário e “reformador” por bilionários como Jeff Bezos, Bill Gates, Mark Zuckerberg e Oprah Winfrey.

John Flint, do HSBC

“Estamos entusiasmados com o papel que podemos ter aqui”, disse o CEO do banco HSBC, John Flint, durante a conferência de Riad desta semana. “Esta é uma economia em que temos muita confiança. Acho que o futuro é brilhante.”

Ele se gabou de que vários ex-banqueiros do HSBC se juntaram ao assassino regime saudita. “Isso tem sido um privilégio nosso, ver tantos dos nossos ex-colegas na plateia e servindo a seu país agora.”

Entre os participantes da conferência estavam o CEO da gestora BlackRock, Larry Fink, o diretor executivo do JPMorgan, Daniel Pinto, o vice-presidente de financiamento do desenvolvimento do Banco Mundial, Akihiko Nishio, além de representantes de vários outros bancos e fundos especulativos.

Larry Fink estava entre os mais efusivos, tendo afastado qualquer dúvida sobre os crimes hediondos do regime saudita, que incluem não apenas as execuções em massa desta semana e o assassinato de Khashoggi, mas a guerra quase genocida apoiada pelos Estados Unidos que matou dezenas de milhares de iemenitas e levou milhões à beira da fome.

“O fato de haver problemas mostrados pela imprensa não me diz que devo fugir de um lugar. Em muitos casos, isso me diz que eu deveria correr e investir, porque o que mais assusta são as coisas sobre as quais não falamos”, Fink afirmou, sem dizer mais uma única palavra das tais “coisas sobre as quais não falamos.”

O ímã que atrai todos os parasitas do capital financeiro é a estatal Aramco, da Arábia Saudita, cuja renda é igual à dos cinco maiores conglomerados de energia do mundo e supera os lucros líquidos somados da Apple e do Google.

Muitos dos bancos e instituições financeiras representados em Riad, incluindo JPMorgan, HSBC, Citigroup e Goldman Sachs, participaram este mês da venda de US$ 12 bilhões em títulos da Aramco.

O ministro da Energia da Arábia Saudita, Khalid Al-Falih, disse na conferência em Riad que a venda de títulos da Aramco foi “apenas o começo”, mantendo a perspectiva de que a gigante do petróleo possa fazer uma oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) já no próximo ano.

“Haverá mais”, acrescentou ele. “Eu não vou te dizer o que e quando, e não serão apenas títulos. A Aramco, antes do que vocês esperam, chegará aos mercados de ações.”

Larry Fink, da BlackRock

Fink, da BlackRock, que descreveu as “reformas” da monarquia saudita como “surpreendentes”, disse que vê “grandes oportunidades” em todo o Oriente Médio, insistindo que a região está “se tornando mais segura”.

Descrever o Oriente Médio, depois de um quarto de século de guerras imperialistas dos EUA que mataram milhões e destruíram sociedades inteiras, como “mais seguro” é delirante.

Sem dúvida para Fink e seus colegas oligarcas financeiros, as decapitações em massa de “terroristas” – sinônimo de agitadores, desordeiros e dissidentes – não são um problema, mas sim um atrativo. Eles acham que a defesa de sua vasta riqueza sob condições de desigualdade social sem precedentes e uma classe trabalhadora cada vez mais combativa exigirá medidas similares em casa e no exterior.

Bill Van Auken