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A “mentira na alma” imperialista

Políticos comemoram o “Dia Mundial da Liberdade de Imprensa” enquanto Julian Assange definha na prisão

Publicado originalmente em 4 de Maio de 2019

O 3 de maio é o “Dia Mundial da Liberdade de Imprensa”, patrocinado anualmente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla em inglês).

A UNESCO afirma que realiza o evento para celebrar “os princípios fundamentais da liberdade de imprensa, para avaliar a liberdade de imprensa em todo o mundo, defender a mídia de ataques à sua independência e homenagear os jornalistas que perderam suas vidas no exercício de sua profissão.”

Essas alegações são vazias e duvidosas, como os fatos demonstram.

O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, permanece trancafiado em uma prisão de segurança máxima em Londres e enfrenta a ameaça de ser extraditado para os EUA. Por quê? Porque ele e sua organização levaram a sério “os princípios fundamentais da liberdade de imprensa” e ativamente lançaram luz sobre a corrupção diária e a criminalidade de governos e corporações ao redor do mundo e sobre as atividades assassinas das forças armadas estadunidenses em particular. Como observou um dos advogados de Assange, Washington está “buscando extraditar um jornalista estrangeiro que enfrentará acusações criminais por divulgar informações verdadeiras.”

Enquanto isso, o Grupo de Trabalho sobre Detenção Arbitrária, da ONU, desaprovou na sexta-feira, 3 de maio, a “sentença desproporcional” de 50 semanas de prisão a Assange por violar a liberdade condicional, que considerou ser “uma violação menor”. Em 2015, o Grupo de Trabalho, que faz parte do sistema de Direitos Humanos da ONU, disse que Assange fora “arbitrariamente detido” pelos governos da Suécia e do Reino Unido e que ele “tinha direito à sua liberdade de movimento e indenização.” Esse posicionamento foi ignorado pelo governo britânico, como será o de sexta-feira.

Ninguém associado à UNESCO ou ao “Dia Mundial da Liberdade de Imprensa” fez menção a Assange durante os eventos desta semana. Na verdade, notavelmente, um dos principais oradores na celebração principal em Adis Abeba, na Etiópia, realizada pela União Africana, foi o secretário de relações exteriores da Grã-Bretanha, Jeremy Hunt.

O “muito honorável” senhor Hunt foi uma das autoridades do governo britânico responsáveis pela brutal apreensão e encarceramento de Assange em 11 de abril. Após a prisão do editor do WikiLeaks, Hunt disse em um comunicado: “O que mostramos hoje é que ninguém está acima da lei. Julian Assange não é um herói. Ele se escondeu da verdade por anos e anos e é certo que seu futuro seja decidido pelo sistema jurídico britânico.”

Em seu discurso em Adis Abeba, Hunt, de acordo com um comunicado de imprensa, “definiu sua visão para melhorar a liberdade de imprensa.” Entretanto, o secretário de relações exteriores, comandando a perseguição vingativa ao jornalista investigativo mais proeminente do mundo, já havia “estabelecido sua visão”, não com declarações previamente preparadas, mas com a bruta violência do Serviço de Polícia Metropolitana.

Durante seu discurso, um rol de falsidades e chavões vazios, Hunt disse ao público na Etiópia que “o progresso da humanidade mostra claramente que a sabedoria surge da competição aberta entre as ideias quando diferentes pontos de vista recebem oxigênio para lutar livre e justamente.” Hunt poderia acrescentar: “Enquanto esses diferentes pontos de vista sustentarem o ponto de vista oficial. Caso contrário, o suprimento de oxigênio será cortado.”

As apresentações em Adis Abeba foram dominadas pelo medo de todos os participantes, políticos imperialistas e burgueses africanos, do crescente descontentamento popular e da necessidade percebida de suprimir as vozes de oposição.

Isso deu aos discursos proferidos por Hunt e outros – e a abordagem geral atual das autoridades em todo o mundo à questão da “liberdade de imprensa” – um caráter contorcido e desonesto de “ambiguidade”. O que os governos realmente querem é se livrar da liberdade de imprensa. As elites dominantes pretendem operar livremente, isto é, sem a interferência de vozes dissidentes e “perturbadoras”.

Essas preocupações estão por trás do esforço sistemático para censurar e neutralizar a internet, justificado por piedosas referências aos perigos do discurso de ódio, xenofobia, assédio online, estatísticas inventadas, reportagens enganosas da mídia, suposta manipulação de eleições e retórica “populista”. Certamente, a desinformação, o engano e o fomento de toda forma de atraso e preconceito têm sido utilizados pela mídia burguesa em todos os lugares desde tempos imemoriais, sobre os quais ninguém em posição de autoridade jamais pensou em criticar. É precisamente o colapso dos mecanismos até então eficazes de desinformação e fraudes que alimenta a ferocidade da perseguição a Assange.

Por isso, a publicação da UNESCO “Jornalismo, Notícias Falsas & Desinformação: Manual para Educação e Treinamento em Jornalismo” (2018) argumenta que as “fontes de autoridade” e o “jornalismo confiável” foram prejudicados pelo que se denomina de atual “desordem da informação”.

Os autores argumentam que as redes sociais estão “minando a democracia” ao “criar câmaras de eco, polarização e hiperpartidarismo”, “convertendo popularidade em legitimidade” e “permitindo a manipulação por líderes populistas, governos e atores marginais”.

O Manual aponta temerosamente para o fenômeno de “editores de notícias lutando para manter a audiência à medida que barreiras à publicação são removidas, capacitando qualquer pessoa ou entidade a produzir conteúdo, contornar canais tradicionais e competir por atenção.” E, além disso, alerta que nas “informações de alta velocidade e gratuitas para todos em plataformas de mídia social e na internet, todos podem ser editores. Como resultado, os cidadãos sofrem para discernir o que é verdadeiro e o que é falso. O cinismo e a desconfiança reinam. Visões extremas, teorias da conspiração e o populismo florescem e as verdades e instituições estabelecidas passam a ser questionadas.”

A veemência de seus pontos de vista conservadores, antidemocráticos e pró-establishment e o profundo desejo de proteger “verdades e instituições estabelecidas” ajudam a explicar por que os muito respeitáveis organizadores do “Dia Mundial da Liberdade de Imprensa” esperam que Assange e todos como ele apodreçam na cadeia para sempre.

Se a UNESCO e o resto deste grupo levassem a sério a “desinformação”, intencional ou não, eles apresentariam como “Anexo nº 1” a campanha mentirosa e calamitosa da mídia americana sobre “armas de destruição em massa” no Iraque, a maior das “fake news” dos tempos modernos, que levou à morte de mais de um milhão de pessoas e a devastação de toda uma região.

Leon Trotsky observou certa vez que “toda época histórica tem não apenas sua própria técnica e sua própria forma política, mas também uma hipocrisia peculiar a si mesma”.

Como é possível para Hunt, por um lado, anunciar que ele e outras autoridades estão lançando “uma campanha global para proteger jornalistas exercendo seu trabalho e promover os benefícios de uma mídia livre”, e, por outro lado, fazer o máximo para amordaçar e, se possível, silenciar Assange para sempre?

Na verdade, isso vai além da mera hipocrisia. O economista inglês e cientista social John A. Hobson, em seu valioso “Imperialismo: um estudo” (1902), argumentou que tal “compartimentalização” oficial, esse “gênio da inconsistência, de manter ideias ou sentimentos conflitantes simultaneamente”, não era “caso de hipocrisia, ou de deliberada simulação consciente de falsos motivos.” Ele sustentou que essa era “a condição que Platão chama de ‘a mentira na alma’ – uma mentira que não se reconhece como mentira”. Isso, Hobson dizia, era “a ética e a sociologia” do estágio imperialista de desenvolvimento, com sua “tecelagem elaborada de defesas intelectuais e morais”.

“O agente controlador e dirigente de todo o processo”, escreveu ele, “é a pressão de motivos financeiros e industriais, operados pelos interesses materiais diretos, de curto alcance, de grupos pequenos, capazes e bem organizados de uma nação.”

Assange é um prisioneiro da guerra de classes, estando detido em nome dos ricos e poderosos, aquele “grupo pequeno, capaz e bem organizado”, porque expôs alguns de seus crimes contra os oprimidos.

Jeremy Hunt, no entanto, estava certo sobre algo em Adis Abeba. “Se os problemas e as tensões estão engarrafados, então é muito mais provável que eles transbordem”, advertiu ele. "Evitar que jornalistas relatem um problema não o faz ir embora... A verdade é que, quando os governos começam a fechar jornais e a suprimir a mídia, é mais provável que arranjem problemas no futuro do que preservem a harmonia”.

Ele simplesmente não faz ideia.

Em todo o mundo, trabalhadores estão envolvidos em um movimento de greve crescente em defesa de seus empregos, salários e direitos sociais. É essa força social, não os representantes corruptos da oligarquia capitalista, que forma a verdadeira base social para a defesa dos direitos democráticos.

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