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Mídia brasileira, PT e pseudo-esquerda procuram desviar oposição a Bolsonaro

Publicado originalmente em 28 de Maio de 2019

A mídia brasileira e a oposição oficial liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) perceberam corretamente no levante da juventude da classe trabalhadora de 15 de maio uma ameaça não apenas a Bolsonaro, mas a todo o establishment político – inclusive a si próprios. Atuando em sintonia, elas estão acelerando as tentativas de isolar a juventude de camadas mais amplas da classe trabalhadora, o que fez com que as palavras de ordem contra a odiada “reforma da previdência” fossem enterradas nas manifestações de 15 de maio, dando lugar a chamados inofensivos por um “consenso nacional” em defesa da educação com o objetivo de acalmar a oposição da direita burguesa a Bolsonaro.

Com a aprovação do governo Bolsonaro sendo superada pela primeira vez pela desaprovação – ele já possui o menor índice de aprovação de qualquer presidente eleito democraticamente na história brasileira após cinco meses de governo –, a estratégia elaborada pela classe dominante possui duas perspectivas.

Ao mesmo tempo que a imprensa corporativa critica Bolsonaro por “politizar” os cortes na educação, dando “pretextos” para o tom desafiador das manifestações, o PT está tentando isolar a juventude e submetê-la à oposição “racional” contra Bolsonaro, que agora procura incluir uma aliança com o PSDB, o partido que dominou o sistema político brasileiro com o PT nos últimos 30 anos.

O jornal mais lido do Brasil, a Folha de S. Paulo, um defensor explícito dos cortes na educação e da cobrança de mensalidades em universidades públicas, e que recentemente contratou como colunista Fernando Haddad, o candidato à presidência pelo PT em 2018, resumiu o comportamento da classe dominante em um agressivo editorial depois das manifestações com o título “Idiota inútil”.

Reconhecendo o sentimento anticapitalista subjacente às manifestações em defesa do direito social à educação, ele dizia: “O obscurantismo agressivo do governo Jair Bolsonaro (PSL) converteu o crucial debate sobre o financiamento do ensino superior público, já tardio no país, em um confronto de bandeiras ideológicas”.

O editorial reclamava: “Não se duvide das deficiências do aprendizado nacional, tampouco do oportunismo de forças oposicionistas que aproveitaram o momento inclusive para atacar a reforma da Previdência Social”.

Desde o início, essas operações foram auxiliadas pelas ações do PT. Nas manifestações de 15 de maio, o partido e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que é controlada pelo PT, se depararam com a perspectiva de encontrar estudantes em todo o Brasil apoiando os professores na luta contra a reforma da previdência, contra a qual a manifestação tinha sido originalmente convocada. Por isso, eles enterraram as palavras de ordem contra a reforma e passaram a chamar um “dia de greve nacional contra os cortes”, excluindo também a luta contra a reforma da previdência de suas reportagens posteriores sobre as manifestações.

Na manifestação de São Paulo, falando para milhares de professores que haviam estado em greve por 33 dias em fevereiro e março contra a reforma da previdência do prefeito Bruno Covas (PSDB) – e que foram traídos por uma burocracia sindical cheia de apoiadores de Bolsonaro – Haddad ficou em silêncio sobre a reforma, e deu o tom para justificar a unidade com a direita, chamando Bolsonaro de “lunático”, não de fascista.

Com uma greve geral marcada para 14 de junho, a União Nacional dos Estudantes (UNE), controlada pelo aliado mais confiável do PT na política nacional, o maoísta Partido Comunista do Brasil (PCdoB), convocou uma manifestação separada para 30 de maio, com foco exclusivo nos cortes da educação.

Enquanto isso, o PT escolheu o desfecho das manifestações para tornar público que seus membros, incluindo Haddad, têm realizado reuniões desde novembro com representantes da direita brasileira, incluindo o PSDB e outros partidos que o PT chamou, durante anos, de golpistas por votarem a favor do impeachment de Dilma Rousseff em 2016. O objetivo dessas reuniões seria “isolar Bolsonaro e criar um novo espectro político de resistência”.

Essa aliança burguesa planeja lançar um manifesto em agosto com o título “Direitos Já!”, que é abertamente planejado para atrair a “centro-direita”, segundo declarações de participantes da última reunião à imprensa. O anfitrião das reuniões, o professor de direito Pedro Serrano, declarou que os participantes devem “deixar as diferenças de lado e construir uma pauta comum, em torno da defesa da legalidade, educação, direitos humanos, da luta contra o desemprego e do respeito às pautas identitárias” (nossa ênfase).

Com o PT consciente de que ele, tanto quanto Bolsonaro, é um alvo da oposição social crescente, essas políticas são uma operação preparada para encobrir o acordo essencial de todos os partidos em torno de uma agenda de austeridade e do aumento dos poderes do estado, como atestado pelos inúmeros editoriais da imprensa corporativa. Em um furioso editorial após as manifestações de 15 de maio, o poderoso O Globo aconselhou o governo a moderar seu “comportamento autodestrutivo muito eficaz para criar mais problemas ao seu governo do que a própria oposição”.

Tais palavras deixam claro que, apesar das acusações pela imprensa corporativa de que o PT está impulsionando as manifestações, a classe dominante entende que essas manifestações representam uma oposição popular que está além do controle e é hostil à autodeclarada oposição política.

Toda essa conspiração, no entanto, não seria possível sem as políticas enganosas das pseudo-esquerdas, especificamente com sua influência nas universidades. Elas estão plenamente cientes de que a caracterização de Bolsonaro e seu grupo de ministros fascistas como “lunáticos” e aberrações políticas, em contraposição ao seu vice-presidente “racional”, o general golpista Mourão, serve apenas para acobertar o real consenso dentro da burguesia brasileira sobre questões essenciais. Desde as privatizações até a reforma da previdência e o assalto contra as condições de vida e os direitos sociais dos trabalhadores, todas as frações políticas da burguesia estão de acordo.

Do alto de todo o desprezo que a pseudo-esquerda possui pela classe trabalhadora – profissionalmente caluniada por ela –, suas as manobras são abertamente discutidas em seus veículos de comunicação. O exemplo mais marcante é um artigo de 11 de abril no Esquerda Online, o porta-voz da Resistência, tendência morenista no PSOL, o partido da pseudo-esquerda com a maior bancada na Câmara dos Deputados, com 10 representantes, e cujo candidato à presidência de 2018, Guilherme Boulos, também têm participado das reuniões para a formação de uma frente ampla com o PSDB contra Bolsonaro.

Intitulado “A indicação de Abraham Weintraub demonstra a fraqueza da oposição liberal a Bolsonaro”, o artigo admite que, durante quatro meses, antes do antecessor de Weintraub, Ricardo Vélez, ser demitido por causa da oposição popular às suas posições de extrema direita, o partido esteve empenhado em canalizar a oposição social por trás da oposição de direita ao governo, que descrevia Vélez como “incompetente”. O artigo continua afirmando que a tática do PSOL precisaria mudar porque a mesma “incompetência” não poderia ser esperada de Weintraub. Segundo o autor, “O amplo campo da oposição a Jair Bolsonaro chega, assim, a um impasse. Ao contrário do caos que foi o MEC de Vélez, Weintraub provavelmente conseguirá dar ao Ministério uma noção básica de ordem e fazê-lo funcionar”, concluindo que “é provável que [a oposição] não tenha de quê reclamar sob o novo ministro”.

Em nenhum momento o autor busca retomar a posição do PSOL sobre a questão. A descrição do “amplo campo da oposição” é suficiente, já que o PSOL trabalhou como o principal defensor de traiçoeiramente se concentrar na “loucura” e “incompetência” de Vélez comum a esse “amplo campo”.

Agora, com Weintraub sofrendo pesadas críticas da mídia burguesa por “politizar” os cortes na educação, o PSOL está pronto para desempenhar o mesmo papel novamente. Na sua avaliação da manifestação de 15 de maio, o ideólogo do partido, Valério Arcary, deixou claro que defende o “’Fora Weintraub” como palavra de ordem das manifestações” – um sentimento com o qual qualquer editorialista da mídia corporativa concorda.

À medida que os trabalhadores e jovens entram em luta contra Bolsonaro e o sistema capitalista que o produziu, essas manobras devem ser implacavelmente denunciadas. Nada aterroriza mais a classe dominante – e seus defensores pequeno-burgueses na pseudo-esquerda – do que a ação independente dos trabalhadores. As pseudo-esquerdas – incluindo o morenista PSTU e os lambertistas entrincheirados nos sindicatos do PCO – enxergam-se corretamente, tanto quanto a classe dominante, como alvos do movimento independente da classe trabalhadora. Elas se juntam, portanto, à operação do PT, ou fornecem a ela uma cobertura de esquerda, fazendo de tudo ao seu alcance para desorientar e desviar a crescente ofensiva dos trabalhadores e da juventude.

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