Governo do Equador dá ao Pentágono base em Galápagos

22 Junho 2019

Publicado originalmente em 18 de Junho de 2019

O governo do Equador do presidente Lenin Moreno fechou um acordo com o Pentágono que permite aos militares estadunidenses usarem a ilha de São Cristóvão, em Galápagos, como base militar.

Anunciado na semana passada, o acordo provocou indignação popular no Equador, onde foi corretamente considerado como uma violação grotesca da soberania nacional e da Constituição do país, assim como uma ameaça para uma das reservas ambientais mais importantes e sensíveis do planeta.

Leão-marinho na Ilha de São Cristóvão, em Galápagos

São Cristóvão, onde as forças armadas dos EUA se instalarão, é a ilha onde, a bordo do navio HMS Beagle, Charles Darwin primeiro desembarcou em 1835. Localizada na confluência de três correntes oceânicas, local de contínua atividade sísmica e vulcânica e extremamente isolada – a quase 1.000 km da costa do Equador –, a ilha produziu formas únicas de vida animal. Podem ser encontradas na ilha a Iguana-terrestre-das-galápagos, a Tartaruga-das-galápagos e muitos tipos de aves da espécie dos fringilídeos, que ofereceram a inspiração para a Teoria da Evolução, pela seleção natural, de Darwin.

Declarada pela UNESCO como Patrimônio Mundial e reserva de biosfera, a ilha agora se tornará uma plataforma de lançamento para as operações predatórias e letais do militarismo dos EUA em toda a América Latina. A base será uma ameaça direta à vida e liberdade do povo da região, assim como para a integridade ambiental de uma das áreas mais importantes em biodiversidade no planeta.

Nada poderia expressar mais abertamente a subserviência ao imperialismo e criminalidade das elites dominantes da América Latina.

Promovendo o acordo com o Pentágono, o ministro da defesa do Equador, o general aposentado Oswaldo Jarrín, declarou: “Galápagos é para o Equador nosso porta-aviões, é nossa pista de pouso natural, porque nos garante permanência, reabastecimento, instalações para interceptação e fica a 1.000 km das nossas costas”.

Desde 2008, a Constituição do Equador proclamou o país “um território de paz” e que “o estabelecimento de bases militares estrangeiras ou instalações estrangeiras para propósitos militares não será permitido”. Um ano depois, o país expulsou os militares estadunidenses da sua base aérea em Manta, na costa do Pacífico, de onde conduziam voos de vigilância sob o pretexto de combater o tráfico de drogas.

O ministro da defesa do Equador exaltou o poder do Pentágono, declarando: “o que a base [de Manta] fez na sua época, pode ser feito agora por apenas um avião, por causa da tecnologia avançada que só se tem com a capacidade de uma potência como os Estados Unidos”.

O avião a que ele se referia é um Boeing 707 com um Sistema de Alerta e Controle Aéreo (AWACS, na sigla em inglês), que possui um alcance de mais de 4.500 milhas náuticas. Voando a 30 mil pés, é capaz de monitorar uma área de 310 mil metros quadrados. A partir de sua base em Galápagos, esse poderoso avião será capaz de auxiliar as preparações para uma invasão da Venezuela, espionar o povo do próprio Equador ou até mesmo acompanhar o fluxo de migrantes da América Central. Ele será acompanhado por um P3 da Lockheed Orion, um avião desenvolvido durante a Guerra Fria para detectar submarinos nucleares soviéticos.

A base dos EUA possui imensa importância geoestratégica. Washington havia tentado instalar bases na região desde 1911, três anos antes do término da construção do Canal do Panamá. Durante a Segunda Guerra Mundial, as forças armadas dos EUA construíram uma base em Baltra, uma pequena ilha no arquipélago de Galápagos, onde estacionaram 2.500 soldados, assim como aviões e equipamentos navais com o objetivo de guardar o acesso do Pacífico ao canal do Japão e da Alemanha.

Hoje, o Pentágono está utilizando aviões militares de espionagem no Oceano Pacífico oriental em meio a uma guerra comercial e escalada militar cada vez maiores com o objetivo de impedir a ascensão da China como competidora econômica e geoestratégica dos EUA.

O Equador é um campo de batalha importante nesse conflito entre “grandes potências”. Washington aponta para o investimento chinês e a dívida de 6 bilhões de dólares do Equador com a China como sintomáticos da interferência intolerável de Pequim no “quintal” do imperialismo estadunidense.

O governo do presidente Moreno tem feito o possível para satisfazer as exigências de Washington. Nesse sentido, os termos dos acordos fechados – assinados, selados e entregues pelo vice-presidente dos EUA, Mike Pence, durante uma visita a Quito há um ano – se tornaram claros.

Primeiro, o governo Moreno abriu as portas de sua embaixada em Londres em abril, convidando um esquadrão policial para retirar Julian Assange à força da instalação diplomática, onde ele havia recebido asilo político em 2012.

Moreno e seus capangas alegaram que os britânicos haviam oferecido garantias de que o co-fundador do WikiLeaks não seria extraditado para um país onde enfrentaria tortura, pena de morte ou prisão perpétua. Como resultado de sua traição, ele agora está detido na prisão de segurança máxima de Belmarsh, no Reino Unido, em condições que equivalem a tortura. O ministro do interior britânico assinou um pedido de extradição dos EUA, onde o jornalista enfrenta 18 acusações, incluindo sob a Lei de Espionagem – que pode fazer com que ele seja condenado à pena de morte – por expor os crimes de guerra e conspirações criminosas do imperialismo dos EUA.

Ao mesmo tempo, Ola Bini, um programador sueco e amigo de Assange residindo no Equador, está preso há dois meses sem provas. As autoridades do Equador indicaram que vão entregá-lo para ser interrogado nos EUA.

O atropelo do direito de asilo, dos princípios democráticos e da lei internacional no caso Assange foi acompanhado por um realinhamento radical da política externa de Quito com a do imperialismo dos EUA, com Moreno se tornando um dos maiores apoiadores da operação para mudança de regime na Venezuela.

Dentro do país, o governo Moreno executou um agressivo ataque contra os empregos e padrões de vida dos trabalhadores equatorianos, implementando fielmente as medidas de austeridade exigidas sob o acordo que fez com o FMI.

Ambos esses ataques e a traição de Assange têm provocado protestos que têm sido respondidos com repressão policial.

A guinada à direita do governo Moreno no Equador é parte do destino mais amplo da chamada “Maré Rosa” (do inglês “Pink Tide”), isto é, o governo de diversos partidos populistas e nacionalistas burgueses na América Latina. Esse processo assistiu a destituição do Partido dos Trabalhadores (PT) e a chegada ao poder do presidente fascista, Jair Bolsonaro, no Brasil, a substituição da dinastia peronista dos Kirchner pelo multimilionário de direita, Mauricio Macri, na Argentina em 2015, a intensa crise do governo do presidente Nicolás Maduro, na Venezuela, assim como o de Daniel Ortega, na Nicarágua.

Essa virada para a direita na América Latina foi preparada pelos governos que haviam sido identificados com o chamado “giro à esquerda” ao longo das duas décadas anteriores. Ao mesmo tempo que utilizavam uma retórica nacionalista e “socialista” – e eram promovidos incansavelmente pela pseudo-esquerda na América Latina, assim como nos EUA e na Europa – esses governos permaneceram controlados pela burguesia, comprometidos com a defesa da propriedade privada e com os interesses do capital nativo e estrangeiro.

Com o colapso do boom das commodities e dos mercados emergentes que os tinham permitido adotar uma postura mais independente em relação à Washington enquanto introduziam programas modestos de assistência social em seus países, eles responderam com uma intensificação dos ataques contra a classe trabalhadora. O resultado final foi uma hostilidade popular crescente a esses governos, que, na ausência de um movimento socialista de massas independente na classe trabalhadora, pavimentou o caminho para o retorno da direita.

No Equador, esse processo político é personificado pelo atual presidente. Lenin Moreno entrou na política como parte de uma geração de estudantes radicalizados que protestaram contra a dominação do imperialismo estadunidense da América Latina e as ditaduras fascistas-militares que ele cultivou. Moreno começou sua carreira como um membro do Movimento de Esquerda Revolucionária(MIR, na sigla em espanhol), que se baseou na política nacionalista pequeno-burguesa e de guerrilha do castrismo e do guevarismo.

Como muitos que participaram nesses movimentos nacionalistas radicais pequeno-burgueses na sua juventude – incluindo a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff – Moreno há muito tempo abandonou seu radicalismo de juventude, tornando-se um executor político implacável do imperialismo e da oligarquia dominante equatoriana.

Como o ex-vice-presidente, Moreno foi o sucessor escolhido à dedo pelo presidente Rafael Correa, um autoproclamado apoiador da Revolução Bolivariana. Apesar de Moreno ter se voltado agressivamente contra seu antigo parceiro político e ter implementado as políticas que deslocaram o Equador violentamente para a direita, esse processo já havia se iniciado sob Correa.

Deve ser lembrado que foi Correa quem primeiro ordenou o corte da conexão de internet de Julian Assange na embaixada do Equador em 2016 sob pressão de Washington depois que o WikiLeaks publicou e-mails vazados do Comitê Nacional do Partido Democrata (DNC, na sigla em inglês). Dois anos antes, ele havia transferido mais da metade das reservas de ouro do país para o Goldman Sachs com o objetivo de garantir a confiança dos mercados financeiros capitalistas.

A entrega de uma base para os EUA em Galápagos é mais uma confirmação clara de que a defesa dos direitos democráticos, a superação da pobreza e da desigualdade em toda a região e a derrubada da dominação imperialista podem ser alcançadas apenas através da mobilização política da classe trabalhadora, independente de todos os partidos burgueses – incluindo o PT no Brasil, o chavismo na Venezuela, o peronismo na Argentina e movimentos parecidos espalhados pela América Latina – baseada em um programa socialista e na unificação das lutas dos trabalhadores da América Latina com as dos trabalhadores nos EUA, Europa e ao redor do mundo.

Bill Van Auken