O assassinato de Lübcke e o retorno do “problema do nazismo” na Alemanha

28 Junho 2019


Publicado originalmente em 25 de Junho de 2019

Aproximadamente 75 anos depois do colapso do Terceiro Reich de Hitler, o assassinato do político alemão, Walter Lübcke, da União Democrata-Cristã (CDU), em 2 de junho por um terrorista de direita expôs a suja realidade, escondida há muito tempo, de que o problema do nazismo está novamente presente na Alemanha.

Walter Lübcke

Por várias semanas, o assassinato de Lübcke foi minimizado pela mídia e praticamente ignorado pela elite política. Mas a grande revolta da população alemã e, mais ainda, o medo dos políticos de serem alvo de terroristas de direita, levaram os altos membros do governo a admitirem que a atividade neonazista agora é um perigo político na Alemanha.

A capa da Der Spiegel, uma revista de grande circulação na Alemanha, mostra a foto do assassino, Stephan Ernst, e a manchete: “Os camisas-pardas adormecidos: pai, vizinho, assassino? O novo perigo da direita”.

A chanceler alemã, Angela Merkel (CDU), declarou na cidade de Dortmund no sábado que o assassinato de Lübcke era “um chamado urgente ... para se examinar todas as áreas por sinais possíveis de tendências e redes de extrema direita”. Alertando sobre “uma perda total de credibilidade”, Merkel disse que o estado é “chamado a agir em todos os níveis, e o governo alemão leva essa responsabilidade muito a sério”.

O ministro do Interior, Horst Seehofer, da União Social Cristã (CSU), que havia alegado alguns dias antes não haver evidências do envolvimento de grupos terroristas de extrema direita no assassinato de Lübcke, admitiu que o extremismo de direita se tornou “um sério perigo”. Seehofer, portanto, tem a intenção de “dar ao estado constitucional mais força” e “aplicar todos os esforços para aumentar a segurança”.

O ministro de Relações Exteriores, Heiko Maas, reconheceu em um comentário para o jornal de grande circulação, Bild, que “a Alemanha possui um problema de terrorismo. Nós temos mais de 12 mil extremistas de direita comprometidos a cometer atos de violência em nosso país. 450 foram capazes de se esconder, mesmo existindo mandados de prisão contra eles”. Ele concluiu com um chamado para “combater as causas, juntos, todos os dias, e em todos os lugares”.

Todas essas declarações atrasadas de choque e preocupação exalam hipocrisia e mentira. A rede terrorista de direita é uma criatura trazida à vida pelos políticos e agências de inteligência e é protegida e encorajada pelos principais partidos políticos da Alemanha. Junto com a mídia e uma camada influente de acadêmicos de extrema direita, eles criaram um ambiente político e intelectual que sanciona e incentiva o ressurgimento do fascismo.

Eles promoveram o partido racista Alternativa para a Alemanha (AfD), cujo líder principal banalizou recentemente as atrocidades nazistas, chamando-as de “cocôs de pássaro” insignificantes em mil anos de “gloriosa” história alemã. De acordo com reportagens da mídia, o acusado pelo assassinato de Lübcke, Ernst, doou 150 euros para a AfD em 2016. Ele enviou o dinheiro com a mensagem: “Doação de Campanha Eleitoral de 2016: DEUS LHE ABENÇÕE”.

A Grande Coalizão que governa a Alemanha, composta pela CSU, CDU e o Partido Social Democrata (SPD), teve um papel central na elevação da autoridade política da AfD. A decisão desses partidos de continuar seu impopular governo de coalizão depois das últimas eleições nacionais em 2017 tornou a AfD a líder da oposição oficial no parlamento, apesar de ter recebido apenas 12,6% dos votos.

A CDU e o SPD fizeram pactos com a AfD, permitindo que conquistasse cada vez mais influência sobre o aparato de estado, as forças de segurança e sobre os parlamentos estaduais e federal. Ao mesmo tempo, ambos os partidos, em grande medida, adotaram as políticas da AfD.

Seehofer e Maas são exemplos do cultivo de elementos neofascistas pela Grande Coalizão. Logo após os protestos fascistas anti-imigrantes em Chemnitz, em agosto do ano passado, Seehofer declarou que teria se juntado à marcha se não fosse ministro no governo. Ele insistiu que “o problema da imigração é a mãe de todos os problemas neste país”.

Maas, um socialdemocrata que nunca deixa de exigir uma política externa agressiva apoiada pela força militar, direcionou suas queixas contra as simpatias de esquerda e anti-guerra de amplas seções da população alemã, especialmente da juventude estudantil e da classe trabalhadora.

No centro desse podre processo político há uma campanha cuidadosamente orquestrada para relativizar e legitimar os crimes do Terceiro Reich, alegando que as políticas de Hitler eram a compreensível resposta, apesar de talvez exagerada, ao mal maior do bolchevismo. O papel reacionário do governo alemão e da mídia é particularmente evidente no caso do professor Jörg Baberowski, o proeminente defensor de Hitler que dirige o politicamente influente Departamento de Estudos do Leste Europeu na prestigiosa Universidade de Humbolt, em Berlim.

Baberowski é desprezado pelos estudantes por suas falas cruéis contra imigrantes e sua banalização cínica dos crimes dos nazistas. “Hitler não era cruel”, ele disse à revista Der Spiegel em 2014. “Ele não gostava de ouvir sobre o extermínio de judeus na sua mesa”. Apesar disso – ou por causa disso –, Baberowski foi exaltado na mídia e protegido pelos seus muitos amigos do aparato de estado. Dias antes do assassinato de Lübcke, o governo alemão apoiou o professor de extrema direita em uma declaração oficial, dizendo que qualquer crítica a Baberowski era um ataque contra “a ordem social democrática livre”.

Recentemente, a amiga de Facebook de Baberowski, Erica Steinbach, foi denunciada publicamente de ser uma das pessoas que incitaram o assassinato de Lübcke. No começo do ano, Steinbach publicou uma série de ataques contra Lübcke por defender a aceitação dos refugiados em outubro de 2015. A amiga de Baberowski se recusou por algum tempo a apagar as ameaças de morte contra Lübcke postadas nos comentários de sua página.

O assassinato de Lübcke confirmou completamente os alertas de um ressurgimento fascista feitos pelo Sozialistische Gleichheitspartei (SGP – Partido Socialista pela Igualdade) e o World Socialist Web Site. Explicamos as implicações políticas da legitimação dos crimes de Hitler por Baberowski e do anúncio do então presidente, Joachim Gauck, do “fim da restrição militar” na Conferência de Segurança de Munique em 2014.

O SGP alertou: “A propaganda da era pós-guerra – de que a Alemanha havia aprendido com os crimes terríveis dos nazistas, ‘chegado ao Ocidente’, adotado uma política externa pacífica e se desenvolvido em uma democracia estável – está exposta pelas suas mentiras. O imperialismo alemão está novamente mostrando sua verdadeira face, da mesma maneira que emergiu historicamente, com toda a sua agressividade dentro e fora do país”.

O perigo apresentado pelo ressurgimento fascista é real. Mas existem diferenças profundas entre a situação política que existia nos anos 1930 e hoje. Enquanto Hitler era capaz de mobilizar milhões de pequenos empresários desorientados e arruinados e camponeses empobrecidos, o fascismo hoje não é um movimento de massas. Ele é desprezado pela esmagadora maioria da população alemã. Apesar de todos os esforços da classe dominante alemã de limpar os crimes históricos do imperialismo alemão, a ampla maioria da população não se esqueceu dos horrores dos anos 1930 e 1940. Uma pesquisa recente mostra que 70% da população alemã se opõe a qualquer participação no governo da AfD e apenas 9% apoiaria um governo de coalizão que incluísse a AfD.

A força da AfD e dos assassinos fascistas que a orbitam é, em grande parte, dependente do seu apoio no aparato do estado, especialmente a polícia e as agências de inteligência. Além disso, ela pode contar com a simpatia, e mesmo com o ativo incentivo da CDU/CSU e do SPD. Gauck, que é apoiado por todos os partidos tradicionais, chamou em uma entrevista recente da Spiegel, publicada depois da morte de Lübcke, por uma “maior tolerância com a direita”.

Um documento de discussão atual da CDU no estado da Saxônia-Anhalt chama abertamente pela formação de um governo de coalizão com a AfD baseado em um programa explicitamente de extrema direita. O artigo defendia que é necessário “novamente unir o social com o nacional. O afastamento do declínio social com o afastamento da criminalidade. O desejo por um lar e uma identidade nacional precisa ser claramente direcionado contra todos os tipos de multiculturalismo em partidos e grupos de esquerda”.

Da mesma maneira que ocorreu na República de Weimar nos anos 1920, depois dos assassinatos do político do Partido do Centro, Matthias Erzberger, e do ministro de Relações Exteriores, Walther Rathenau, por extremistas de direita, o aparato de estado, que foi infiltrado pela extrema direita, será utilizado para intensificar a repressão contra a esquerda.

O último relatório do governo da Grande Coalizão, elaborado pelo Departamento Federal para a Proteção da Constituição da Alemanha [Verfassungsschutz], confirma que, para a burguesia, os “inimigos da democracia” estão, não na direita, mas na esquerda política. A AfD e seus apoiadores extremistas de direita são referidos como “vítimas” do suposto “extremismo de esquerda”. Além disso, a oposição ao capitalismo, nacionalismo, militarismo e ao imperialismo é denunciada como “extremista de esquerda” e “inconstitucional”.

O Sozialistische Gleichheitspartei foi colocado na “lista de vigilância” do governo sob a justificativa de que denuncia a AfD, opõe-se à remilitarização da Alemanha e chama por uma sociedade socialista.

O SGP não está intimidado e não será desencorajado por essa ameaça política, e está tomando ações legais contra o Verfassungsschutz. Está apelando para a única força social que pode derrotar a conspiração política de direita: a classe trabalhadora alemã, europeia e internacional.

Johannes Stern