Importante pablista Gilbert Achcar dá conselhos de contrainsurgência ao exército britânico

Por Thomas Scripps
14 Agosto 2019

Publicado originalmente em 6 de Agosto de 2019

O Ministério da Defesa (MoD, na sigla em inglês) pagou pelo menos 400 mil libras à Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS, na sigla em inglês) da Universidade de Londres desde 2016 com o objetivo de oferecer “consultoria cultural” para as suas operações estrangeiras. Palestras foram dadas por onze membros do quadro de pesquisadores da SOAS, incluindo Gilbert Achcar, um importante representante do Secretariado Unificado pablista.

De acordo com informações obtidas por estudantes da SOAS através da Lei de Liberdade de Informação, a universidade organizou “Semanas de Estudos Regionais” sobre a Europa do Leste e a Ásia Central, o Oriente Médio e a África do Norte, e a África Subsaariana. Membros da Unidade Cultural Especializada de Defesa (DCSU, na sigla em inglês) das forças armadas participaram das palestras organizadas pela SOAS.

A DCSU é uma organização secreta criada em 2010 “no espírito das operações de contrainsurgência” para oferecer apoio às tropas britânicas ao redor do mundo. Uma Carta de Doutrina de 2013 publicada pelo MoD explicou a “necessidade de desenvolver e explorar especialistas ... que tenham um profundo entendimento da linguagem, dos costumes, valores e narrativas daquela cultura” para “planejar e executar operações militares” e “identificar ameaças e oportunidades”.

Até 2016, a DCSU havia enviado 90 “Consultores Culturais” da ativa e da reserva para pelo menos 22 países, incluindo Chade, Nigéria, Somália, Uganda, Quênia, Mali, República Democrática do Congo, Afeganistão, Iraque, Jordânia, Qatar, Arábia Saudita, Tunísia, Líbia, Argélia, Letônia, Estônia, Lituânia, Ucrânia, Chipre, Bósnia-Herzegovina e Chile. Os consultores treinados da unidade são descritos como tendo uma “posição única” com uma “contribuição central” para a influência militar britânica.

O tema de uma das palestras da SOAS em fevereiro foi “a guerra no Sahel”, a região da África ao sul do deserto do Saara. Em 2018, Sir Richard Ottaway, ex-presidente do Comitê para Assuntos Estrangeiros do Parlamento, escreveu que havia alertado em 2014 sobre “um ‘padrão preocupante de distração’ por parte do Reino Unido em relação aos acontecimentos na região do Sahel, e defendeu a expansão urgente de nossa presença e conhecimento sobre toda a região”. Ainda segundo ele, “Mais urgentemente na África, o Reino Unido precisa aumentar sua influência diplomática e de segurança na região”.

Em julho, os militares britânicos enviaram três helicópteros e 120 soldados para o norte do Mali como parte de um “pivô para o Sahel” estratégico na África. Em fevereiro deste ano, mais 250 soldados foram enviados para a região.

O acordo da SOAS com o MoD é mais uma prova da integração entre as forças armadas e a academia que está ocorrendo nas grandes potências imperialistas do mundo. Recursos significativos no ensino superior estão sendo colocados ao serviço do aparato militar e de segurança. Acima de tudo, esse processo depende da cooptação de uma camada de acadêmicos para servir diretamente ao estado. Representantes de diversos grupos da pseudo-esquerda nesse meio pequeno-burguês privilegiado têm um papel crucial.

Achcar respondeu às revelações contra ele e a SOAS sem arrependimento, alegando em uma carta aberta que as palestras da SOAS “são essencialmente sobre história, política, [questões] socioeconômicas da região, dadas por acadêmicos críticos para militares de baixa patente”. Ele também diz que “é importante deixar que vozes críticas sejam ouvidas, mesmo entre os militares... Deveríamos deixar que os militares e funcionários de segurança deste país sejam unicamente expostos à educação de direita?”.

As referências aos “militares de baixa patente” e deixar que “vozes críticas sejam ouvidas” são uma clara fraude. Achcar e seus colegas não estão dando palestras de insurgência para soldados da infantaria. Eles estão oferecendo consultoria para uma unidade altamente especializada que oferece apoio único para operações militares em teatros geoestratégicos decisivos. O treinamento dado pela DSCU inclui um curso para militares de uma e duas estrelas e da brigada de quartéis-generais. A DCSU é idêntica em todas as características essenciais ao Sistema de Terreno Humano do Exército dos EUA (2007-2014), que foi criticado pela Associação Americana de Antropologia por ser uma “aplicação inaceitável do conhecimento de antropologia”.

A verdadeira explicação para a relação íntima de Achcar com o estado encontra-se na história de sua tendência política. O Secretariado Unificado foi formado em 1963 após o Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP, na sigla em inglês) dos EUA rejeitar suas tradições trotskistas e se reunificar sem princípios com organizações pablistas. Os pablistas haviam se separado do trotskismo em 1953, alegando que o conflito com o imperialismo estadunidense estava objetivamente forçando a burocracia stalinista a seguir uma trajetória revolucionária.

Um processo parecido de “autorreforma” e orientação revolucionária inconsciente estava acontecendo dentro dos movimentos socialdemocratas e nacionalistas burgueses, o que significava que qualquer luta pela independência política da classe trabalhadora e por sua mobilização revolucionária sob a liderança da Quarta Internacional precisava ser abandonada. Os grupos e líderes pablistas, ao invés disso, iriam se integrar no “real movimento de massas” tal como existia em cada país – como assessores e pressionando-os à esquerda. Ao longo dos anos, a política liquidacionista dos pablistas os levou a se tornarem defensores cada vez mais explícitos do imperialismo e de seus instrumentos políticos.

Um momento importante na degeneração política do SWP foi sua reação à publicação do documento Security and the Fourth International (Segurança e a Quarta Internacional), uma investigação sobre o assassinato de Trotsky lançada pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) em 1975. A investigação revelou as atividades dos agentes da GPU stalinista dentro do SWP nos anos 1930 e 1940, incluindo de um de seus líderes, Joseph Hansen, que iniciou uma relação com o FBI como informante imediatamente após a morte de Trotsky.

Como foi mostrado com detalhes na recente publicação do CIQI, Agents: The FBI and GPU Infiltration of the Trotskyist Movement (Agentes: O FBI e a infiltração da GPU no movimento trotskista), depois da Segunda Guerra, o FBI possuía pelo menos 20 “informantes secretos” em destacadas posições no SWP, que reportavam diretamente e regularmente ao FBI. Sob Hansen, 12 dos 13 membros do SWP que eram estudantes na pequena e conservadora Faculdade Carleton acabaram no comitê nacional do partido. Abaixo dos destacados agentes havia uma rede mais ampla de informantes em braços locais do SWP.

A política antissocialista dos pablistas, aliada à extensa infiltração pelo estado, permitiu sua integração cada vez maior com as estruturas políticas do governo imperialista – incluindo o aparato de estado. Esse processo encontra expressão consumada em Achcar, cujos escritos sobre o Oriente Médio e a África encaixam-se na estratégia do imperialismo britânico e estadunidense, e que agora se sabe que foi pago como consultor pelo estado britânico.

Em 2011, Achcar apoiou a Resolução do Conselho de Segurança de 1973 da ONU que autorizou a guerra de pilhagem imperialista contra a Líbia, escrevendo que “Aqui temos um caso em que a população está verdadeiramente sob perigo, e em que não há alternativa plausível que possa protegê-la [...] Não se pode, em nome de princípios anti-imperialistas, opor-se a uma ação que vai impedir o massacre de civis”.

Ele também criticou as potências imperialistas por não lançar mais bombas sobre a população líbia, descrevendo ataques aéreos que mataram dezenas de milhares como “discretos”. Ele exigiu que mais armas fossem enviadas para a oposição anti-Gaddafi, conforme “consistentemente e insistentemente requisitado” por ela. Essa oposição apoiada pelos EUA, à qual o Secretariado Unificado estendeu “total solidariedade”, era liderada por um grupo reacionário de ex-autoridades governamentais e líderes tribais fundamentalistas islâmicos.

Achcar foi igualmente agressivo em relação ao apoio à intervenção imperialista na Síria, participando de um encontro de 2011 do Conselho Nacional Sírio, um grupo de pessoas ligadas às inteligências estadunidense e francesa. Ele aconselhou a oposição síria à Bashar al-Assad – liderada por um conjunto de milícias fundamentalistas islâmicas ligadas à CIA –a buscar assistência indireta ao invés de uma intervenção direta de Washington.

Em 2013, ele descreveu as análises que relacionavam os interesses e o envolvimento do imperialismo na região como um “tipo de teoria da conspiração daqueles que se declaram anti-imperialistas e tendem a ver a mão do imperialismo por trás de tudo”. Ele mentiu ao dizer que os EUA “se recusam a entregar armas para a insurgência apesar de pedidos insistentes”.

Em março de 2018, com a operação de mudança de regime fracassando, ele se juntou aos chamados por uma intervenção militar total dos EUA e outras potências imperialistas através de uma carta aberta publicada na New York Review of Books, “Porque o mundo deve agir já na Síria”.

Sobre os corpos de centenas de milhares de mortos e duas sociedades destruídas, Achcar continua sua incansável defesa das guerras imperialistas. Em julho 2018, ele organizou o evento “Anti-imperialismo inconsistente e solidariedade seletiva” na SOAS para o lançamento do livro Indefensible: Democracy, Counterrevolution, and the Rhetoric of Anti-Imperialism (Indefensável: Democracia, contrarrevolução e a retórica do anti-imperialismo), de Rohini Hensman. O livro de Hensman apoia praticamente todas as guerras e operações estrangeiras lançadas pelo Partido Democrata desde a dissolução stalinista da União Soviética em 1991. Ele é um ataque ácido contra todos os oponentes sérios do imperialismo, denunciando os jornalistas John Pilger e Seymour Hersh, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, e o World Socialist Web Site.

Os conselhos de Achcar ao Sudão revelam o quão alinhado são seus escritos à estratégia do imperialismo mundial, defendendo uma política para os trabalhadores e a juventude que estão lutando contra o governo que é orientada para as forças armadas.

Segundo Achcar, “A força principal dos revolucionários sudaneses é sua grande influência sobre os soldados e oficiais, alguns dos quais até mesmo usaram suas armas para defender os manifestantes [...] Esse fator determinará o destino da revolução sudanesa”.

Em um artigo para a revista Jacobin, ele diz que os militares foram “dissuadidos” de “tentar afogar a revolução em sangue”. Além disso, “A simpatia das tropas pelo movimento popular foi determinante para os generais se livrarem de Bashir. O mais importante agora é que o movimento consolide seu apoio entre os soldados e oficiais de baixa patente das forças armadas”.

Essa é uma posição profundamente antimarxista que busca substituir a organização da classe trabalhadora em um partido revolucionário independente por apelos morais para os guardas armados do estado capitalista. Dada a experiência dos trabalhadores no Egito em 2013, esse é um conselho criminoso. A mesma posição foi defendida pelos Socialistas Revolucionários (RS, na sigla em inglês) no Egito, cuja conferência “Dias socialistas” em 2011 contou com a participação de Achcar. Os RS ajudaram a entregar o poder para o açougueiro da revolução egípcia, o general Abdel Fattah el-Sisi, mesmo quando ele massacrava manifestantes nas ruas. Apoiado pelas potências imperialistas mundiais, o general el-Sisi consolidou uma ditadura sanguinária que frequentemente executa opositores políticos.

O “pivô para o Sahel” do Reino Unido sem dúvida será acompanhado por discussões para a supressão militar igualmente sangrenta no Sudão. O maior obstáculo contra as ambições predatórias do Reino Unido e o resto das potências imperialistas mundiais é a classe trabalhadora cada vez mais militante da África. Mas, como foi demonstrado no Egito, essa imensa força social só poderá triunfar se adquirir e agir segundo uma perspectiva socialista internacional. Achcar trabalha publicamente contra essa perspectiva para desarmar a classe trabalhadora, enquanto discute com as forças da repressão militar em reuniões a porta fechadas organizadas pela SOAS.

Qualquer genuína organização socialista ou mesmo progressista teria expulsado Achcar imediatamente depois de ficar sabendo de suas relações com o MoD. Mas o Secretariado Unificado não fará nada por ele ter dado conselhos pagos para as forças armadas, o que apenas formaliza uma relação política de longa data. A Jacobin, ligada aos Socialistas Democráticos dos EUA (DSA, na sigla em inglês), e o canal Democracy Now!, também não levantarão a menor queixa contra Achcar. Eles ofereceram uma plataforma a Achcar durante anos para discutir estratégias em nome do governo estadunidense.

A SOAS foi fundada em 1916 para promover os interesses de longo prazo do imperialismo britânico na África e na Ásia, treinando um quadro de administradores coloniais. Entre os ex-alunos estão vários chefes de estado, diplomatas e funcionários públicos em ex-países coloniais. Hoje, o mesmo treinamento é oferecido por líderes das tendências da pseudo-esquerda que são inimigos mortais da classe trabalhadora internacional.