Trabalhadores da maior mina na Bolívia e funcionários públicos da saúde entram em greve

Por Andrea Lobo
27 Agosto 2019

Publicado originalmente em 20 de Agosto de 2019

Os 834 trabalhadores da mina de San Cristóbal, a maior da Bolívia e a terceira maior produtora de prata do mundo, entraram em greve por tempo indeterminado no domingo, 18 de agosto, para exigir que a corporação transnacional Sumitomo, com sede no Japão, cumpra a decisão de 9 de agosto da justiça trabalhista que a obrigou a pagar horas extras aos domingos, feriados e nos turnos noturnos, o que não ocorre desde que a corporação comprou a mina em 2006.

Os mineiros denunciam que têm realizado jornadas extenuantes de 12 horas de trabalho por dia nos últimos 12 anos sem receberem seus direitos. Diante da crescente agitação, o Sindicato Misto de Trabalhadores Mineiros de San Cristóbal (SMTMSC) apelou em agosto de 2018 ao Ministério do Trabalho e à justiça trabalhista, que proferiu sua decisão um ano depois. Em março, o sindicato levou 600 mineiros e seus familiares para protestar na capital, La Paz, e apelar ao governo de Evo Morales, que efetivamente controla a Central Operária Boliviana (COB), à qual o sindicato de San Cristóbal faz parte.

Incapaz de conter a raiva dos mineiros depois de mandá-los trabalhar sem receberem seus direitos por mais de um ano, o SMTMSC convocou uma greve depois que a Sumitomo não cumpriu a decisão judicial. No domingo, cerca de 600 mineiros, seus familiares e apoiadores realizaram outro protesto em La Paz. Até agora, a corporação não se manifestou.

A greve dos mineiros coincide com uma greve nacional por tempo indeterminado dos funcionários públicos da saúde, que foi iniciada na segunda-feira, 19 de agosto. Médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde estão exigindo que os recursos da área aumentem de 6,5% para 10% do orçamento do governo, de maneira que os funcionários obtenham benefícios não pagos e as condições nos hospitais públicos do país melhorem.

No ano passado, os funcionários públicos da saúde realizaram uma greve de 47 dias, que foi violentamente reprimida pela polícia e obrigou Morales a cancelar uma lei de negligência médica para fazer dos médicos bodes expiatórios pelo estado decrépito do sistema de saúde estatal. Morales ainda denunciou “a greve política que causou tanto dano a milhares de pessoas doentes”.

Em julho, depois que dois médicos morreram por um vírus contraído no trabalho, os profissionais de saúde realizaram outra greve de dois dias. Naquela época, a liderança da COB ameaçava os grevistas com “mobilizações”, isto é, enviando bandidos e ameaçando atirar nos grevistas, ao mesmo tempo que o governo de Morales os ameaçava com prisões, com um mandado de prisão sendo emitido contra o presidente do Colégio Médico de La Paz.

Enfrentando um crescente descontentamento vindo de baixo, Morales e seu Movimento ao Socialismo (MAS) estão virando bruscamente para a direita, adotando formas autoritárias de governo para defender os lucros das corporações transnacionais e os abutres financeiros. Se a Sumitomo acredita que pode ignorar a decisão da justiça, isso acontece por causa das medidas pró-corporativas do governo do MAS e de seus sindicatos.

Ao mesmo tempo, sentindo o apoio do imperialismo japonês, europeu e estadunidense como o partido preferido de governo burguês na Bolívia, Morales está buscando um quarto mandato nas eleições de 20 de outubro, contrariando o resultado do referendo de 2016, a Constituição e frequentes manifestações.

No sábado, em um massivo comício de campanha, Morales disse que “um grupo de empresários privados se juntou a nós, e disse: ‘Não sou membro do MAS, nem estou em processo de me tornar um, mas estou lucrando mais com ele do que com meu próprio partido’. Eles dizem isso sinceramente.”

Pesquisas de opinião mostram que Morales possui uma grande vantagem em relação ao desprezado ex-presidente e vice-presidente de direita Carlos Mesa Gisbert, que havia comandado a repressão militar que matou dezenas de pessoas durante o levante em massa em 2003 em apoio à nacionalização do gás natural.

Os mineiros em San Cristóbal, os médicos em greve e a classe trabalhadora cada vez mais inquieta na Bolívia precisam tirar conclusões sobre o caráter de classe do governo de Morales, do MAS e dos sindicatos.

A chegada ao poder de Morales – e Hugo Chávez, Néstor Kirchner e Lula da Silva antes dele – representou a resposta da elite dominante capitalista a uma série de levantes em massa com perspectivas revolucionárias durante a virada do século na América Latina. Esse movimento de baixo se desenvolveu em oposição ao rápido crescimento da desigualdade social resultante de privatizações contínuas, austeridade, subsequente estagnação econômica e repressão, depois de terem sido prometidas prosperidade e democracia durante a transição das ditaduras militares que governaram entre as décadas de 1960 e 1980.

Entre a “guerra da água de Cochabamba” em 2000 contra a privatização da água, passando pela “guerra do gás natural” em 2003 até as eleições de 2005, a Bolívia viu cinco presidentes caírem. O MAS, com o apoio de dezenas de organizações da pseudo-esquerda em toda a região, conseguiu canalizar esse levante por trás da eleição presidencial de Morales em 2005.

As nacionalizações limitadas e os aumentos nos gastos sociais sob a chamada “maré rosa latino-americana” só foram aceitos pelo capital financeiro globalizado para proteger a maior parte de suas propriedades e lucros, que aumentaram massivamente com o boom nos preços das commodities alimentado pelo crescimento chinês.

A exemplo dos governos nacionalistas burgueses na região, a prioridade de Morales foi o pagamento da dívida externa, que caiu de 52% para 24% do PIB, enquanto abriu o país para uma expansão massiva da extração mineral e de petróleo e gás natural, mais do que triplicando o PIB do país.

O fim do boom das commodities em 2014 e a atual desaceleração da economia global impulsionada pela guerra econômica dos EUA contra a China minaram a capacidade de Morales equilibrar os gastos sociais e os laços com os poderes rivais. As corporações transnacionais estão exigindo que a Bolívia ofereça o acesso mais barato e mais exclusivo possível aos minerais vitais do país. Ao mesmo tempo, a competição por investimentos levou a um maior atrito com o vizinho Chile, que rejeitou no ano passado o direito soberano da Bolívia de acessar os portos do Pacífico.

Três quartos das exportações da Bolívia vem do petróleo e de produtos da mineração. Praticamente toda a prata, zinco e chumbo, que são os minerais produzidos em San Cristóbal e respondem por um quinto das exportações bolivianas, são transportados pelo Chile e pelo Peru para a Ásia e a Europa.

Os mineiros de San Cristóbal já viram a subserviência do governo de Morales e da COB a uma corporação transnacional como a Sumitomo, que controla 931 empresas em 66 países com 65.662 funcionários e cujos ativos chegam a US$ 69,1 bilhões, que se compara ao PIB da Bolívia, de US$ 40,3 bilhões.

Em 2010, um grupo de indígenas locais e organizações de ativistas em San Cristóbal formou a “Mesa 18” para exigir a nacionalização sem compensação da mina. Eles apontaram que a Sumitomo estava pagando uma pequena quantia em impostos que não estava beneficiando a região. Morales denunciou o grupo como “uma ferramenta da direita” e encontrou-se com o presidente da Sumitomo na época para elogia-la, dizendo que a corporação era “muito importante para o desenvolvimento do país”. Um ano antes, a Sumitomo tinha adquirido 100% das ações da mina depois de Morales ter vetado a nacionalização das concessões de mineração existentes.

Em resposta, 600 manifestantes indígenas paralisaram a mina, bloqueando a ferrovia entre San Cristóbal e o porto de Antofagasta, no Chile, exigindo a eletrificação total da região. Os manifestantes ocuparam e incendiaram os escritórios locais da Sumitomo alguns dias depois, com os principais sindicatos e o MAS apoiando a corporação.

Um ano depois, um mineiro foi morto em um acidente de trânsito em uma ambulância, desencadeando uma greve de duas semanas, que fez os trabalhadores exigirem transporte aéreo para hospitais em La Paz para si, suas famílias e vizinhos. A Sumitomo se recusou, levando os trabalhadores e apoiadores locais a exigirem cada vez mais a nacionalização da mina, mas a COB vendeu a luta.

Agora, a transformação de indústrias inteiras em direção ao uso cada vez maior de energia solar, a produção de veículos elétricos, eletrônicos portáteis e outras novas tecnologias está aumentando rapidamente a demanda por prata, zinco e, particularmente, lítio, que está sendo chamado de “ouro branco” e cujas maiores reservas globais estão no sul da Bolívia e ao longo de suas fronteiras com o Chile e a Argentina.

Em uma recente viagem a Pequim, Morales disse cinicamente ter “recuperado os recursos naturais da pátria” ao negociar uma concessão de US$ 2,3 bilhões para as corporações chinesas Xinjian Tbea Group e Boachent explorarem as vastas salinas de Coipasa e Pastos Grandes para a produção de lítio. No mês passado, Morales assinou outro acordo importante com a alemã ACI Systems para explorar as salinas de Uyuni junto com a estatal Yacimientos de Litio Bolivianos (YLB). O ministro da economia do estado alemão da Turíngia, Wolfgang Tiefensee, aplaudiu o acordo, dizendo: “Esta parceria garante suprimentos de lítio para nós e quebra o monopólio chinês”.

O imperialismo dos EUA, sem dúvida, vê esses desenvolvimentos com grande preocupação. O think tank Stratfor, com sede em Washington, publicou uma análise no ano passado pedindo que os EUA desafiem “o controle [chinês] da maior parte do mercado de baterias de lítio, dando ao país uma vantagem significativa em um setor de crescente importância geopolítica”.