A greve da GM está em perigo

25 Setembro 2019

Publicado originalmente em 23 de Setembro de 2019

Com o início da segunda semana da greve de mais de 49.000 trabalhadores da General Motors nos EUA, um alerta deve ser feito: a greve corre o risco de ser derrotada pela burocracia corrupta do Sindicato dos Trabalhadores Automotivos (UAW, na sigla em inglês).

A greve da GM atraiu o apoio e a simpatia não apenas de trabalhadores da Ford, Fiat Chrysler e de outras indústrias, mas também de trabalhadores em outros países – México, Canadá, Brasil – onde os trabalhadores estão procurando lutar contra os ataques das corporações que buscam lucrar cada vez mais.

O UAW não possui uma estratégia para os trabalhadores saírem da greve vitoriosos, mas para derrotá-los. A greve pode ser vitoriosa apenas se os trabalhadores retirarem o controle da luta das mãos da burocracia do UAW, que espera isolar e matar de fome os trabalhadores da GM.

Não há tempo a perder. Para evitar que a greve seja derrotada, os trabalhadores devem formar imediatamente comitês de base nas fábricas e assumir o controle da luta. Recursos e apoio adequados devem ser mobilizados! O fundo de greve deve pagar aos trabalhadores US$ 750 por semana, a paralisação deve ser ampliada para incluir trabalhadores na Ford e Fiat Chrysler e um chamado urgente deve ser realizado para que os trabalhadores de outras indústrias e de outros países apoiem os grevistas.

Trabalhadores realizam piquete na fábrica da GM de Detroit-Hamtramck

O UAW está seguindo um roteiro utilizado pela burocracia sindical durante as décadas de 1980 e 1990: isolar os trabalhadores em suas lutas, recusar mobilizar toda a força da classe trabalhadora, esperar até que os trabalhadores passem fome e fazê-los engolir um contrato com menos direitos. Os dirigentes sindicais já fizeram isso inúmeras vezes antes e estão se preparando para fazê-lo novamente.

Durante as “negociações” de contrato na GM, Ford e Fiat Chrysler, o UAW manteve seus membros no escuro, escondendo seus verdadeiros objetivos. O UAW não soltou uma única lista de exigências concretas, porque nunca redigiu nenhuma.

O UAW recebeu ordens de executivos da indústria automotiva há muito tempo: mais trabalhadores temporários, piores condições de trabalho, salários mais baixos e custos mais altos com assistência médica. As supostas “negociações de contrato” tem sido, de fato, encontros estratégicos de bastidores entre os dirigentes do sindicato e da empresa para elaborarem da maneira mais eficiente possível esses novos ataques.

A GM está decidida a reduzir seus custos de mão de obra, e o UAW sabe disso. O que está em jogo é muito mais do que a margem de lucro da GM: o contrato fechado entre o sindicato e a empresa servirá de exemplo para um novo nível de exploração dos trabalhadores não apenas da Ford e Fiat Chrysler, mas de todo o setor automotivo e de outras indústrias, com implicações para todo o sistema econômico capitalista global.

Por trás da GM, os investidores em Wall Street deixaram claro que não realizarão concessões aos trabalhadores.

A conspiração do UAW e das empresas, no entanto, sofreu uma reviravolta com um escândalo de corrupção cada vez maior que revelou que o UAW é uma quadrilha criminosa, comprada e paga pela administração das empresas automotivas.

Há menos de um mês, o FBI cumpriu mandados de busca e apreensão na casa do atual presidente do UAW, Gary Jones, e de seu antecessor, Dennis Williams, além de outros locais do sindicato. Enquanto isso, um número crescente de dirigentes sindicais de alto escalão tem sido preso ou indiciado por utilizar fundos ilícitos para financiar estilos de vida caros. O mais recente deles, Jeffery Pietrzyk, ex-co-diretor do Centro de Recursos Humanos do UAW-GM, foi indiciado na sexta-feira passada.

Jones, presidente do UAW, e Vance Pearson, diretor da 5ª região do UAW, passaram grande parte do tempo nas últimas semanas conversando com seus advogados e o Departamento de Justiça, “negociando” principalmente a duração de suas potenciais sentenças de prisão.

Não tendo outra escolha a não ser convocar uma greve no domingo passado, o UAW está agora fazendo os trabalhadores passarem fome com uma contribuição retirada do fundo de greve de apenas US$ 250 por semana, que, na verdade, só será paga a partir da segunda semana de greve. Essa quantia miserável tem como objetivo criar pressão econômica sobre os trabalhadores para que aceitem os termos da empresa, garantindo ao mesmo tempo que o mínimo possível seja retirado do “fundo de greve” de US$ 750 milhões do UAW, utilizado pelos dirigentes sindicais como fundo secreto.

Na indicação mais clara e condenatória de que planeja sabotar a luta, o UAW rejeitou a exigência dos trabalhadores de uma greve total da indústria automotiva, mantendo seus mais de 100.000 membros na Ford e Fiat Chrysler trabalhando.

Muitos trabalhadores da indústria automotiva sabem que o UAW está tramando uma traição. Para eles evitarem isso e saírem da greve vitoriosos, é essencial que:

1. A condução da greve deve ser retirada das mãos do UAW através da formação de comitês de base nas fábricas. Os trabalhadores devem realizar reuniões fora da vista do UAW e da administração, eleger representantes dos trabalhadores mais militantes e confiáveis e se reunir para formular suas próprias exigências, incluindo:

* O fim da diferença salarial entre os trabalhadores;

* Um aumento salarial imediato de 40% e restauração do salário para cobrir o custo de vida;

* A conversão de todos os trabalhadores temporários e de meio período em período integral;

* A reabertura da fábrica de Lordstown e de outras fábricas fechadas e a recontratação imediata de todos os trabalhadores demitidos;

* Assistência médica e pensões totalmente pagas pela empresa.

2. A greve deve ser imediatamente ampliada para incluir os trabalhadores da Ford e Fiat Chrysler. Como um trabalhador da Ford da fábrica de Chicago disse ao Boletim dos Trabalhadores Automotivos: “Todos aqui estão perguntando: ‘Por que não estamos todos juntos?!’”

É necessário chamar toda a classe trabalhadora a apoiar a greve: nas fábricas de autopeças e fornecedores, nas indústrias de transporte, logística e aço, e em todos outros setores industriais.

3. A luta deve estar ligada e coordenada internacionalmente. Os trabalhadores não podem lutar e derrotar uma das maiores empresas transnacionais do planeta nacionalmente. Os trabalhadores da GM devem chamar seus verdadeiros aliados: os milhões e bilhões de trabalhadores em todo o mundo que estão lutando, ou virão a lutar, contra a pobreza e a exploração.

A greve da GM faz parte de um levante global da luta da classe trabalhadora. Este ano se iniciou com uma onda de greves selvagens de 70.000 trabalhadores nas indústrias maquiladoras da cidade de Matamoros, no México, que marcharam até a fronteira e chamaram seus irmãos e irmãs de classe nos EUA a se juntarem a eles.

Agora, os trabalhadores da indústria automotiva no México estão apoiando a greve dos trabalhadores da GM, com trabalhadores da GM em Silao se organizando corajosamente para se oporem às tentativas da empresa para acelerar a produção, arriscando seus empregos e até suas vidas. As reuniões on-line realizadas pelo Boletim de Trabalhadores Automotivos do WSWS nas últimas duas semanas tiveram a participação de centenas de trabalhadores de vários países – EUA, Canadá, México e Brasil –, que pediram por solidariedade e colaboração.

4. Os trabalhadores devem adotar uma estratégia que oponha seus interesses aos da classe capitalista. Os trabalhadores da indústria automotiva estão realizando não apenas uma greve contra a GM, mas uma luta política. O estado capitalista e os dois partidos da burguesia nos EUA, os republicanos e os democratas, estão representados pela indústria automotiva e Wall Street.

O governo Trump está em estreito contato com a GM para encontrar uma maneira de encerrar a greve e realizar uma nova reestruturação da indústria automotiva. Ela acontecerá após o resgate de 2009 da GM supervisionado pelo governo Obama, que estabeleceu as abomináveis condições enfrentadas agora pelos trabalhadores.

Em comícios nesse último final de semana, Joseph Biden, Elizabeth Warren e Bernie Sanders procuraram atrair a atenção e declararam falsamente seu apoio aos trabalhadores em greve, o que continuarão fazendo nos próximos dias. Porém, tanto os democratas quanto os republicanos estão preparados para mobilizar a polícia contra os trabalhadores – como já aconteceu na fábrica da GM de Springhill, no Tennessee – ou chamar a Guarda Nacional ou outras forças armadas contra os trabalhadores em greve.

Para se opor a isso, um movimento político de massa e um partido da classe trabalhadora devem ser construídos, independentemente dos partidos capitalistas.

Para garantir a subsistência e os interesses dos trabalhadores, a indústria automotiva deve ser reorganizada como uma indústria de utilidade pública e colocada sob controle democrático dos trabalhadores como parte da luta pelo socialismo, isto é, o funcionamento da sociedade para atender às necessidades humanas, não aos interesses insaciáveis de lucro da aristocracia corporativa e financeira.

Marcus Day