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Não ao fascismo nos EUA! Construir um movimento de massas para tirar Trump do poder!

Publicado originalmente em 14 de outubro de 2019

A resposta do presidente Donald Trump ao processo de impeachment aberto pelo Congresso assumiu um caráter abertamente fascista. Em seus discursos na semana passada em Minneapolis, no estado de Minnesota, e Lake Charles, na Louisiana, Trump apelou abertamente à xenofobia, ao racismo e ao antissemitismo. Ele incitou seu público formado por policiais e outras forças de direita contra seus opositores políticos, a quem denunciou como políticos de “extrema esquerda” e “socialistas” que “odeiam os EUA”.

De uma maneira sem precedentes na história estadunidense, Trump está buscando utilizar o poder da presidência para criar um regime ditatorial. Desprezando todas as restrições constitucionais, Trump está deixando claro que está preparado para utilizar métodos criminosos e violentos para se manter no poder. Em seu discurso de Minneapolis, ele gritou que pretende permanecer no cargo por “mais 16 anos”, o que não seria possível sem rasgar a Constituição dos EUA. Ele não escondeu as implicações violentas de suas reivindicações ilegais para construir uma ditadura pessoal, declarando que quaisquer movimentos para tirá-lo do poder levarão a uma “guerra civil”. A afirmação de Trump de que seus opositores políticos são culpados de “traição” evoca o espectro de prisões e proscrições assassinas.

Em um trecho particularmente ameaçador de seu discurso na quinta-feira, Trump defendeu sua decisão de tirar as tropas da Síria, declarando: “Estamos trazendo os soldados para casa. Podemos precisar deles para outra coisa, e eles estarão prontos.” Em meio a suas afirmações para construir poderes ditatoriais, essa “outra coisa” é uma clara referência ameaçadora ao uso dos militares contra a oposição política nos Estados Unidos. A Casa Branca já começou a fazer isso mobilizando tropas para atacar brutalmente imigrantes ao longo da fronteira entre os EUA e o México.

Subestimar, e muito menos negar, o fato de que a presidência de Trump está se transformando rapidamente em um regime autoritário de direita, com características distintamente fascistas, é fechar os olhos para a realidade política. O velho refrão, “Não pode acontecer aqui” – ou seja, que a democracia estadunidense está eternamente imune ao câncer do fascismo –, está irremediavelmente desatualizado. O próprio fato de um bandido como Trump ter chegado à Casa Branca testemunha a crise terminal do sistema político existente.

A administração Trump é o produto das profundas contradições econômicas e sociais do capitalismo estadunidense. A concentração maciça de riqueza entre o 1% mais rico da população e o nível sem precedentes de desigualdade social são incompatíveis com as formas democráticas tradicionais de governo. Nos últimos 40 anos, os Estados Unidos evoluíram em direção a uma sociedade cada vez mais oligárquica. Isolada da grande massa da população, vendo toda exigência por uma melhoria nas condições de vida como uma ameaça a sua riqueza, a oligarquia é cada vez mais hostil à democracia.

Trump, o produto do submundo financeiro de Nova York, articula, com a grosseria e a vulgaridade necessárias, os impulsos autoritários da oligarquia. Suas denúncias histéricas do socialismo e do comunismo exprimem o crescente medo dos ricos que exigências de reforma social levarão inevitavelmente a uma redistribuição maciça da riqueza, culminando na expropriação da propriedade capitalista.

Fundamentalmente, o governo Trump sintetiza a negação da democracia. Sua presidência tem sido, desde o início, ilegítima. Através do mecanismo antidemocrático do Colégio Eleitoral, Trump foi eleito apesar de ter perdido no voto popular por quase três milhões de votos. Longe de reconhecer a aprovação minoritária de seu governo, Trump age como se tivesse chegado à presidência com uma grande vantagem de votos. Mas ele sabe muito bem que suas políticas – apesar de toda a sua demagogia populista cínica – evocam uma oposição popular maciça.

Os discursos de Trump para policiais, militares e agentes de segurança, bem como seus comícios massivos cuidadosamente planejados para atrair elementos politicamente desorientados e atrasados, fazem parte de um esforço calculado para criar um apoio político sobre o qual ele possa construir um regime autoritário, operando fora de todas as fronteiras legais tradicionais da Constituição dos EUA.

A democracia nos EUA chegou a uma encruzilhada histórica. Ao procurar manter o poder, a presidência de Trump assumirá um caráter cada vez mais ilegal, autoritário e violento.

Tirar Trump do poder é uma necessidade política. Mas por quem e por quais métodos esse objetivo será alcançado é uma questão de vida ou morte.

Até agora, a oposição oficial a Trump foi dominada pelo Partido Democrata. O processo de impeachment é o resultado da luta cada vez mais amarga entre frações da classe dominante. Baseando-se em seções descontentes das agências de inteligência, das forças armadas e da elite financeira corporativa, o Partido Democrata está empregando os métodos de um golpe palaciano.

Os opositores de Trump no estado estão profundamente conscientes das implicações do longo declínio da posição global dos Estados Unidos. Eles veem a política externa de Trump como irregular e imprevisível e, particularmente no que diz respeito à Rússia e à Síria, em conflito com o que consideram imperativos geoestratégicos fundamentais do imperialismo estadunidense. É por esse motivo que eles centralizaram a oposição em questões de política externa, primeiro através da campanha anti-Rússia e agora a partir da conversa telefônica entre Trump e o presidente ucraniano.

Os interesses sociais e políticos que motivam a oposição a Trump dentro do estado estadunidense determinam seus métodos. Enquanto Trump está respondendo ao impeachment buscando desenvolver um movimento de direita, os democratas estão determinados a evitar qualquer coisa que mobilize a raiva popular contra Trump. Nesse sentido, Trump mostra uma compreensão muito maior das realidades políticas do que seus opositores, que estão sempre olhando por cima dos ombros, com medo de qualquer coisa que acenda os explosivos conflitos sociais nos Estados Unidos.

É por isso que o processo de impeachment está sendo conduzido inteiramente a portas fechadas e se limita a conflitos sobre a política externa imperialista. Isso também explica o caráter esquizofrênico e hipócrita da atitude dos democratas em relação ao governo Trump, que tem alternado entre denúncias histéricas do presidente por minar a “segurança nacional” e agir como agente do governo Putin, por um lado, e, por outro, na colaboração com Trump em elementos críticos da política interna.

Por mais amargas que sejam suas divergências, todas as frações da classe dominante concordam com a destruição de programas sociais, o assalto a salários e benefícios, o ataque a imigrantes, a destruição de direitos democráticos e a expansão maciça das forças armadas. Em meio a esses conflitos, os democratas votaram a favor do orçamento recorde de Trump para as forças armadas e abriram o caminho para cortes de impostos do presidente para os ricos.

Enquanto o conflito estiver confinado às divisões da classe dominante, não haverá resultado democrático ou progressista. Se a campanha de impeachment dos democratas fracassar, fortalecerá a posição política de Trump. Se for bem-sucedida, fará com que o vassalo de Trump, Mike Pence, chegue à presidência. Além disso, o impeachment realmente fortalecerá a influência política da CIA e do FBI sobre a Casa Branca. Ele legitimará uma política externa baseada em uma histeria anti-Rússia que justificará um perigoso confronto com uma potência nuclear. Qualquer que seja o resultado, ele representa um imenso perigo para a classe trabalhadora.

A obsessão do Partido Democrata e da mídia pelo ex-vice-presidente Joe Biden e pelo telefonema de Trump ao presidente ucraniano é uma distração política. Um movimento de massas para tirar Trump do poder exige que seus crimes reais sejam identificados. Além disso, a defesa dos direitos democráticos deve estar claramente ligada à luta para promover os interesses sociais da classe trabalhadora, que compreende a esmagadora maioria da população.

Trump deve ser tirado do poder pelos seguintes motivos:

• Trump está utilizando o poder da presidência para criar uma ditadura inconstitucional e ilegal.

• Trump está utilizando os militares para realizar suas políticas domésticas, incluindo a construção de um muro ao longo da fronteira.

• Trump está ameaçando permanecer no poder além dos limites de mandatos constitucionais e indicou que não aceitará como legítima uma eleição que leve a sua derrota.

• Trump está instigando a violência contra seus opositores políticos e incentivando politicamente indivíduos fascistas que tem realizado assassinatos em massa contra imigrantes e judeus.

• Trump está perseguindo imigrantes e refugiados, inclusive através da construção de campos de concentração na fronteira entre os EUA e o México.

• Trump está incentivando as ações violentas da polícia, responsáveis pela morte de mais de 1.000 estadunidenses todos os anos.

• Trump está ameaçando “aniquilar” os países que desafiam as ordens dos EUA, violando as leis internacionais e domésticas.

• Trump está igualando a oposição ao capitalismo à traição, violando a liberdade de expressão constitucionalmente garantida.

A luta contra o governo Trump e a defesa dos direitos democráticos mais fundamentais é uma luta contra o capitalismo e o imperialismo estadunidense, que deve ser conduzida de maneira completamente independente e em oposição ao Partido Democrata.

Os Estados Unidos estão no epicentro de uma crise global. Em todos os lugares, formas democráticas de governo estão desmoronando. Na Alemanha, 75 anos após a queda do Terceiro Reich, o fascismo é novamente uma força política perigosa. Na França, o governo de Emanuel Macron decidiu governar por decreto contra a crescente agitação social. O Reino Unido é governado pelo fascista Boris Johnson. No Brasil e na Índia, governos de extrema direita e ultranacionalistas estão no poder.

Os direitos democráticos não são compatíveis com um sistema social baseado em extrema desigualdade social e guerra sem fim. A lição da década de 1930 é que a luta contra o fascismo e o autoritarismo pode basear-se apenas em um programa anticapitalista e explicitamente socialista.

Os métodos exigidos nessa luta são os métodos da luta de classes, e seu objetivo é estabelecer um governo dos trabalhadores para redistribuir radicalmente a riqueza, colocar as grandes empresas e bancos sob o controle democrático dos trabalhadores e implementar uma economia planejada baseada na necessidade social, não no lucro privado.

Há mais de dois anos, em sua declaração “Golpe Palaciano ou Luta de Classes: A crise política em Washington e a estratégia da classe trabalhadora”, o WSWS escreveu:

Lutas em massa estão na agenda nos Estados Unidos. Comícios, manifestações e greves tenderão a adquirir um caráter mais amplo em todo o país. A conclusão política que decorre dessa análise é que a luta da classe trabalhadora contra Trump e tudo o que ele representa aumentará cada vez mais urgentemente a necessidade de um movimento político de massas, independente e em oposição aos republicanos e democratas, contra o sistema capitalista e seu estado.

Lutas em massas não estão mais “na agenda”. Elas já começaram e estão se intensificando. Nos últimos dois anos, houve muitas manifestações da raiva popular e da oposição da classe trabalhadora, tanto nos EUA quanto ao redor do mundo.

Nos EUA, a onda de greves de professores nos últimos dois anos foi seguida neste ano pela greve de um mês de 48.000 trabalhadores da GM, a maior greve de trabalhadores da indústria automotiva em décadas. Enquanto o sindicato têm tentado liquidar a greve da GM, 3.500 trabalhadores da Mack Truck na Pensilvânia, Maryland e Flórida entraram em greve, assim como 2.000 mineiros no Arizona e no Texas. Mais de 20.000 professores em Chicago podem entrar em greve esta semana.

É nesse movimento que reside o poder social que pode derrubar Trump e expor sua demagogia reacionária. Manifestações e protestos em massa devem ser organizados por trabalhadores e pela juventude estudante contra o governo Trump. A lógica desse movimento é em direção a uma greve geral política, que colocará a questão do poder político. A organização de tal movimento exige a formação de uma rede interconectada de comitês populares nos locais de trabalho e nos bairros para unir todas as seções da classe trabalhadora, que devem se opor aos esforços dos sindicatos para isolar e suprimir as lutas dos trabalhadores.

A luta contra o governo Trump deve estar ligada à luta contra a desigualdade social, a destruição de programas e da infraestrutura sociais, o ataque a empregos e salários, as terríveis condições enfrentadas por uma geração inteira de jovens, a perseguição cruel de trabalhadores imigrantes, a degradação do meio ambiente e as consequências de uma guerra sem fim e cada vez maior, que ameaça toda a humanidade. A oposição de trabalhadores e da juventude nos Estados Unidos deve estar ligada à erupção das lutas sociais dos trabalhadores de todo o mundo, que compartilham os mesmos interesses e enfrentam os mesmos problemas.

Esse movimento objetivo deve ser guiado por um programa e perspectiva socialista consciente. O Partido Socialista pela Igualdade (PSI) e sua organização juvenil, a Juventude e Estudantes Internacionais pela Igualdade Social, estão liderando essa luta. Chamamos todos os que concordam com essa perspectiva a tomar a decisão de se juntar e construir o PSI e seus partidos irmãos do Comitê Internacional da Quarta Internacional em todo o mundo.

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