O golpe na Bolívia apoiado pelos EUA

14 Novembro 2019

Publicado originalmente em 13 de novembro de 2019

A Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, está à beira de uma guerra civil após um golpe apoiado pelos EUA ter levado à renúncia no domingo do presidente Evo Morales, do vice-presidente Álvaro García Linera e de vários ministros, governadores de estado e autoridades do governo.

Enquanto Morales, García Linera e outros fugiram do país em busca de asilo no México, os trabalhadores, camponeses e maioria indígena da Bolívia que eles supostamente representavam foram deixados para trás para enfrentar tropas fortemente armadas e gangues fascistas nas ruas.

A amarga lição de que a classe trabalhadora latino-americana não consegue levar adiante seus interesses através de regimes nacionalistas burgueses de “esquerda”, mas apenas por meio de sua própria luta revolucionária independente, está novamente sendo escrita em sangue.

A polícia impede os apoiadores do ex-presidente Evo Morales de se aproximarem da Assembleia Legislativa da Bolívia, em 12 de novembro de 2019 (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Milhares de trabalhadores e jovens responderam com corajosa resistência ao golpe, tomando as ruas de La Paz e o bairro da classe trabalhadora de El Alto, onde queimaram delegacias e enfrentaram as forças de segurança. Em outros lugares, mineiros e camponeses bloquearam estradas e manifestantes contra o golpe enfrentaram tropas fortemente armadas que disparavam munição real e granadas de gás lacrimogêneo. Em Cochabamba, os militares dispararam contra multidão de um helicóptero. O número de mortos e feridos tem aumentado constantemente.

A violência policial-militar foi acompanhada por uma onda de terror realizada pelos opositores fascistas de Morales, que queimaram casas de pessoas ligadas ao governo, sequestraram familiares de autoridades e realizaram violentas agressões contra aqueles ligados ao partido Movimento ao Socialismo (MAS) do ex-presidente boliviano. Povos indígenas, especialmente as mulheres, também foram atacados, assim como sedes de movimentos sociais e estações de rádio foram invadidas e retiradas do ar.

Após três semanas de protestos por causa da disputada eleição presidencial de 20 de outubro, o golpe foi consumado no domingo em um discurso televisionado do general Williams Kaliman, chefe das forças armadas, cercado por todo o comando militar, no qual “sugeriram” que “o presidente renuncie ao seu mandato presidencial, permitindo que a paz seja restaurada e a estabilidade mantida para o bem de nossa Bolívia”.

Morales e García Linera aceitaram a “sugestão”, dizendo que estavam fazendo isso para “evitar um derramamento de sangue” e “garantir a paz”. Se esse era o objetivo deles, a capitulação das forças armadas e da direita boliviana fracassou completamente.

O presidente dos EUA, Donald Trump, comemorou a derrubada de Morales como um “momento significativo para a democracia no Hemisfério Ocidental”, alertando que a Venezuela e a Nicarágua são as próximas.

Mas não foi apenas Trump. Tanto o New York Times quanto o Washington Post publicaram editoriais na terça-feira apoiando o golpe e sugerindo que foi um movimento pela “democracia” e que o papel dos militares na expulsão de Morales foi meramente incidental.

Esse movimento expressa a continuidade fundamental da política imperialista de Washington na América Latina tanto sob democratas quanto republicanos, desde o abortado golpe de 2002 contra Hugo Chávez na Venezuela sob George W. Bush (comemorado prematuramente pelo Times), passando pela derrubada do presidente hondurenho Manuel Zelaya em 2009, que foi apoiado pelos EUA sob Barack Obama, até a renúncia de Morales sob Trump.

Por trás desse movimento está o impulso do imperialismo estadunidense para reverter o declínio de sua hegemonia econômica global através da força militar e da violência, particularmente na região que há tanto tempo tem sido considerada seu “próprio quintal”. Esse impulso, por sua vez, tem sua origem no desejo das transnacionais dos EUA de se apropriarem sem restrições dos recursos e mercados da América Latina – principalmente as vastas reservas energéticas e minerais da Bolívia, incluindo 70% do lítio do mundo – e no confronto estratégico entre o imperialismo dos EUA e a China, cujo comércio com a região subiu para US$ 306 bilhões no ano passado.

O governo de Morales fez parte da chamada “Maré Rosa” de governos nacionalistas burgueses supostamente de esquerda que chegaram ao poder na América Latina, começando com o de Hugo Chávez em 1998.

Como Chávez, Morales se declarou adepto da “Revolução Bolivariana” e do socialismo. Ele e o MAS chegaram ao poder na onda de levantes revolucionários que abalaram a Bolívia e derrubaram governos sucessivos durante as chamadas “guerras” da água e do gás – contra a privatização da água e para a nacionalização do gás – entre 2000 e 2005.

Líder do sindicato dos plantadores de coca e o primeiro presidente boliviano da população indígena há muito tempo oprimida do país, Morales ganhou amplo apoio popular a um governo que serviu para conter as lutas revolucionárias das massas bolivianas.

Esse governo, no entanto, logo permitiu que seu objetivo não fosse realmente o socialismo, mas sim o “capitalismo andino-amazônico”, que consistiu em “nacionalizações” que impuseram novos impostos às empresas transnacionais que conseguiram um acesso ainda maior à exploração do gás e de outros recursos naturais da Bolívia.

Além de sua aliança com o capital transnacional, o governo de Morales firmou um pacto com a oligarquia agrícola. Ambos receberam direitos para explorar terras que haviam sido declaradas parques nacionais anteriormente para proteger suas populações indígenas.

O governo também confiou no que descreveu como “aliança militar-camponesa”, através da qual procurou solidificar o apoio no comando militar ao oferecer-lhe controle sobre setores da economia, recursos para criar seus próprios negócios e benefícios generosos. Ele criou uma “Escola Militar Anti-imperialista” e fez com que os soldados saudassem seus oficiais com o lema guevarista de “Hasta la victoria siempre”. No final, o exército burguês, que Morales nunca dissolveu, se mostrou leal às suas raízes nas ditaduras militares fascistas dos Generais Hugo Banzer e Luis García Meza e a doutrina do estado de segurança nacional da Escola das Américas do Pentágono.

As políticas de direita do governo de Morales levaram a contínuos confrontos com a classe trabalhadora e os camponeses e corroeram constantemente seu apoio. Seus opositores de direita na oligarquia dominante da Bolívia foram capazes de explorar a tentativa de Morales de garantir outro mandato presidencial – violando a constituição e o resultado de um referendo de 2016 – para ganhar uma base popular para seus objetivos contrarrevolucionários.

Morales e a liderança do MAS são responsáveis pelo golpe que agora condenam. As principais vítimas do golpe não serão Morales e seus companheiros políticos, mas as massas de trabalhadores, camponeses e oprimidos bolivianos.

Vários grupos de pseudo-esquerda que promoveram as pretensões revolucionárias bolivarianas do governo de Morales e exigiram que a classe trabalhadora se subordinasse à liderança dos nacionalistas burgueses também compartilham a responsabilidade pelos enormes perigos agora diante das massas de trabalhadores e oprimidos na Bolívia. Entre esses grupos estão várias tendências revisionistas que romperam com o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) para se adaptarem ao stalinismo e a várias formas de nacionalismo burguês, particularmente o castrismo. Com isso, eles rejeitaram a luta pela unidade internacional e independência política da classe trabalhadora com base em um programa socialista revolucionário

O período em que esses partidos foram capazes de ajudar a reprimir a luta de classes está chegando ao fim, não apenas na América Latina, mas internacionalmente. Os eventos na Bolívia, juntamente com as revoltas em massa de trabalhadores e jovens no Chile e em outros lugares da América Latina, estão demonstrando que a classe dominante não é mais capaz de governar como antes, assim como tornou-se impossível para a classe trabalhadora viver como antes, o que cria as condições para um novo período de levantes revolucionários.

A tarefa política mais urgente é a formação de uma nova liderança revolucionária na classe trabalhadora baseada na assimilação da longa luta do trotskismo contra o revisionismo. Isso significa construir seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional em toda a América Latina.

Bill Van Auken