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A denúncia contra Glenn Greenwald e a guerra global contra a liberdade de expressão

Publicado originalmente em 23 de janeiro de 2020

As acusações de “conspiração criminosa” apresentadas pelo governo brasileiro contra o editor do Intercept Brasil e renomado jornalista investigativo Glenn Greenwald são as últimas de uma série de ataques do estado em todo o mundo ao duramente conquistado direito histórico à liberdade de expressão. A prisão do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, abriu o caminho para uma guerra global contra o jornalismo crítico e independente e para a imposição de uma ampla censura.

As denúncias contra Greenwald no Brasil são essencialmente idênticas à primeira acusação do Departamento de Justiça dos EUA, de abril de 2019, que pede que Assange seja extraditado do Reino Unido para ser julgado nos Estados Unidos. Ambos foram acusados de “auxiliar” denunciantes a acessar informações que, uma vez publicadas, revelaram a criminalidade e corrupção nos níveis mais altos do aparato de estado.

O jornalista Glenn Greenwald ouve uma pergunta durante uma coletiva de imprensa (Crédito: AP Photo/Ricardo Borges)

No caso de Greenwald, ele foi denunciado por “conspirar” com seis outros indivíduos ao “hackear” conversas no aplicativo Telegram que mostraram que importantes autoridades brasileiras utilizaram uma investigação de corrupção – a Operação Lava Jato – para minar os opositores políticos do demagogo fascista Jair Bolsonaro. Antes da eleição presidencial de 2018, vencida por Bolsonaro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado por corrupção e preso, além de seu Partido dos Trabalhadores (PT) ter sido atolado em escândalos.

Já Julian Assange foi acusado de “conspirar” com a corajosa denunciante estadunidense Chelsea Manning em 2009 e 2010 para acessar vários documentos secretos que revelaram os crimes de guerra dos EUA no Iraque e Afeganistão. Esses documentos também revelaram intrigas sórdidas realizadas em todo o mundo para sustentar regimes pró-EUA e defender interesses estratégicos e corporativos estadunidenses. Outras 17 acusações de espionagem foram adicionadas à lista de denúncias contra Assange, que podem levá-lo a ser condenado a 175 anos de prisão se for extraditado aos EUA.

Greenwald ainda não foi preso, mas é quase certo que as agências de inteligência dos EUA estejam envolvidas nos movimentos legais para processá-lo. Ele estaria na lista de alvos prioritários da imprensa mundial desde que desempenhou um papel fundamental em 2013 ao publicar os vazamentos feitos pelo ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), Edward Snowden. Os vazamentos de Snowden expuseram o impressionante grau de espionagem da NSA sobre as comunicações de praticamente todos os cidadãos dos EUA e de grande parte da população mundial.

Em 2012, Julian Assange procurou se proteger da vingança do estado dos EUA ao obter asilo político na pequena embaixada do Equador em Londres. Em abril do ano passado, ele foi expulso da embaixada e preso. Pouco antes da prisão de Assange, Chelsea Manning foi enviada de volta à prisão por se recusar a comparecer diante de um grande júri e se retratar de seu depoimento durante seu julgamento de que agiu sozinha – sem qualquer assistência de Assange e do WikiLeaks – para obter as informações que vazou.

Depois de as prisões de Manning e Assange, o governo Macron rapidamente iniciou uma movimentação para processar oito jornalistas por revelarem a cumplicidade da França na guerra ilegal da Arábia Saudita no Iêmen. Em junho de 2019, a polícia australiana realizou operações de busca e apreensão sem precedentes em residências de jornalistas e escritórios de imprensa. Três jornalistas estão ameaçados de serem processados pela publicação de vazamentos que revelaram crimes de guerra cometidos por tropas australianas no Afeganistão e planos para legalizar a vigilância em massa.

Glenn Greenwald não visita os EUA desde 2013 devido à sua legítima preocupação de que pode ser preso. Com Bolsonaro agora no poder, as mãos da CIA, NSA e FBI podem verdadeiramente alcançar o Brasil, onde Greenwald possui direito de residência por possuir uma união estável com o deputado federal do PSOL, David Miranda.

O WSWS alertou em 2010 que, se Julian Assange não fosse defendido – após sua detenção no Reino Unido por supostos abusos sexuais cometidos na Suécia –, isso abriria o caminho para um ataque em larga escala que aterrorizaria e silenciaria o genuíno jornalismo. O então vice-presidente do governo democrata de Barack Obama, Joe Biden, classificou Assange como “terrorista de alta tecnologia”. O governo trabalhista na Austrália, onde Assange possui cidadania, denunciou as publicações do WikiLeaks como “atividades ilegais”.

No entanto, em questão de meses, a grande maioria da fraternidade política e de mídia de ex-esquerdistas e ex-liberais se alinhou com o estado dos EUA e seus aliados contra Assange. Publicações como o New York Times e o Guardian – que haviam trabalhado com o WikiLeaks para publicar os vazamentos de Manning uma vez que seriam publicados de qualquer maneira – dedicaram-se a difamar Assange considerando-o um “suspeito” estuprador e um narcisista egoísta, indigno de qualquer simpatia e apoio popular. Sindicatos e supostas organizações de esquerda ao redor do mundo se opuseram a qualquer campanha em sua defesa, recusando-se a discutir seu caso e boicotando todas as ações tomadas para exigir sua liberdade.

As razões políticas para essa virada contra o WikiLeaks nunca devem ser esquecidas. Ela ocorreu após grandes revoltas sociais, que foram em parte desencadeadas por informações contidas nos vazamentos de Manning e derrubaram regimes apoiados pelos EUA. Em janeiro de 2011, a revista Foreign Policy perguntou nervosa se na Tunísia havia ocorrido a primeira “Revolução do WikiLeaks”. Apenas algumas semanas depois, a aparentemente poderosa ditadura de Hosni Mubarak foi derrubada por um movimento de massas da classe trabalhadora egípcia.

Os partidos, sindicatos e mídia de “esquerda” do establishment possuem milhares de ligações com a oligarquia financeira e corporativa e se beneficiam da exploração implacável da grande maioria da população mundial. A maneira pela qual a verdade motivou as pessoas comuns a se rebelarem contra as elites entrincheiradas foi vista com horror nesses círculos sociais. Uma revolta em massa exigindo o fim da desigualdade social e da injustiça política nos Estados Unidos, por exemplo, ameaçaria a riqueza e poder da classe capitalista e da classe média alta privilegiada, da qual eles fazem parte e aos quais servem.

A resposta instintiva das organizações e da mídia do establishment foi juntar-se ao aparato estatal na tentativa de impedir ou censurar revelações futuras. Como o editor do New York Times, Bill Keller, escreveu sem rodeios em novembro de 2010 em resposta ao WikiLeaks: “Quando nos encontramos em posse de segredos do governo, pensamos muito antes de divulgá-los… A liberdade de imprensa inclui a liberdade de não publicar, e essa é uma liberdade que exercemos com certa regularidade.” (grifo nosso)

O ódio das publicações ex-liberais por Assange atingiu níveis viscerais em 2016, quando o WikiLeaks publicou e-mails vazados que expuseram ainda mais a agenda militarista, de grandes empresas e autoritária de Hillary Clinton e do Partido Democrata – escolhidos por eles nas eleições presidenciais dos EUA. O Times e o Guardian lideraram a campanha para promover as invenções de que Assange “conspirara” com a inteligência russa para hackear os e-mails dos democratas e para difamá-lo como um “instrumento” de Vladimir Putin e Donald Trump.

Em julho de 2019, um tribunal dos EUA descartou as alegações de que o WikiLeaks havia trabalhado com agências russas, considerando-as “totalmente divorciadas dos fatos”, e defendeu seu direito de publicar os vazamentos como “claramente do tipo mais fortemente protegido pela Primeira Emenda”.

No entanto, o Times e o Guardian nunca retrataram suas falsas acusações e calúnias. Até hoje, o Times e a máquina do Partido Democrata defendem publicamente que Assange seja processado criminalmente pela suposta “interferência” russa na eleição de 2016 ter custado a derrota de Clinton. Em abril de 2019, o Times publicou comentários que descreviam a primeira acusação conspirativa contra Assange como um “crime indiscutível”.

Considerando seu histórico, o New York Times afundou-se profundamente na hipocrisia em seu editorial de 22 de janeiro sobre a denúncia contra Glenn Greenwald. O jornal afirmou que a publicação de vazamentos de Greenwald no Brasil “fez o que uma imprensa livre deveria fazer: eles revelaram uma verdade dolorosa sobre os que estão no poder”. O editorial concluiu: “Atacar os portadores dessa mensagem é um desserviço sério e uma ameaça perigosa ao estado de direito”.

A realidade é que o Times, juntamente com inúmeras organizações e publicações ex-esquerdistas e ex-liberais, provou, por sua cumplicidade na perseguição a Assange e ao WikiLeaks, que suas alianças de classe residem na oligarquia corporativa e no estado capitalista.

Uma defesa genuína de jornalistas e denunciantes perseguidos só será levada adiante pela classe trabalhadora, cujo direito de conhecer a verdade eles serviram corajosamente.

Julian Assange está preso no Reino Unido e seu julgamento de extradição começa em 24 de fevereiro em Londres. Chelsea Manning está em uma cela nos Estados Unidos, Edward Snowden está no exílio forçado na Rússia e agora Glenn Greenwald está ameaçado no Brasil. Todos aqueles que defendem os direitos democráticos fundamentais em jogo em seus casos têm a responsabilidade de lutar pela maior mobilização independente possível de trabalhadores e jovens para exigir a liberdade imediata e incondicional deles.

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