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Opor-se às tentativas dos sindicatos franceses de estrangular a luta contra Macron!

Publicado originalmente em 29 de janeiro de 2020

Na semana passada, em meio a contínuas greves e protestos, os trabalhadores franceses do transporte ferroviário e de massa terminaram uma greve iniciada em 5 de dezembro contra a reforma da previdência do presidente Emmanuel Macron. Esgotados financeiramente, os trabalhadores encerraram a mais longa greve contínua na França desde a greve geral de maio de 1968. À medida que a raiva aumenta contra Macron e outros representantes políticos dos bancos ao redor do mundo, é hora de tirar as lições dessa experiência estratégica da classe trabalhadora internacional.

A greve, que foi apoiada pelos “coletes amarelos”, mostrou o vasto poder da classe trabalhadora. Embora tenha reduzida a atividade econômica e interrompido os transportes, dois terços da população apoiaram a greve contra Macron. Os grevistas sabiam que estavam fazendo parte de um ressurgimento global da luta de classes, que envolveu protestos em massa na Argélia, Iraque e em toda a América Latina, greves de professores e trabalhadores da indústria automotiva dos EUA e dezenas de milhões de trabalhadores indianos em greve contra leis anti-muçulmanas.

Trabalhadores protestam contra a reforma da previdência na França (Crédito: AP Photo/Daniel Cole)

Um clima revolucionário está surgindo. O grito de “revolução” e “greve geral” ecoou em protestos de milhões de pessoas em toda a França, enquanto a exigência de paralisação circulava em portos, refinarias e fábricas de automóveis.

No entanto, o resultado expôs todas os partidos da pseudo-esquerda que pediram para resolver esse conflito por meio de negociações entre os sindicatos e Macron. Os stalinistas Partido Comunista Francês (PCF) e a Confederação Geral do Trabalho (CGT), além do Partido Socialista ligado a grandes empresas, o pablista Novo Partido Anticapitalista e o pós-modernista “populista de esquerda” Jean-Luc Mélenchon assinaram um breve apelo conjunto a Macron para “retirar sua reforma”. Eles imploraram que Macron “conversasse imediatamente com os sindicatos sobre uma reforma da previdência justa e democrática que leve ao progresso de todos, sem aumentar a idade de aposentadoria”.

No entanto, ao invés de mobilizar a classe trabalhadora, a CGT e seus aliados sabotaram a greve, deixando Macron prosseguir. Os sindicatos isolaram a greve do transporte ferroviário e de massa, não convocando greves mais amplas em outras categorias, e ofereceram apenas um punhado miserável de euros aos grevistas através do fundo de greve ao longo de mais de seis semanas. Macron pode então enviar sua reforma da previdência ao Conselho de Ministros na sexta-feira, preparando a negociação dos detalhes finais do orçamento com os sindicatos e sua aprovação na Assembleia Nacional.

A política de Macron é enviar a polícia de choque para esmagar toda oposição. Usando veículos blindados, canhões de água e gás lacrimogêneo contra manifestantes, a polícia prendeu mais de 10.000 pessoas desde que os protestos dos “coletes amarelos” começaram em 2018. Condecorando descaradamente as unidades policiais responsáveis por atrocidades nos protestos – como os assassinatos de duas pessoas que passavam pelas manifestações, Zineb Redouane e Steve Caniço, e o ataque quase fatal ao manifestante idoso Geneviève Legay –, Macron utiliza a polícia como cães de ataque para os bancos.

Macron está à frente de uma violenta ditadura. Sua reforma da previdência foi planejada com empresas financeiras e a BlackRock, a gestora de investimentos global de US$ 6 trilhões, que estão antecipando um ganho inesperado com os cortes nas aposentadorias do estado em 20%, 30% ou mais. A seguradora AXA escreveu em um recente anúncio para ricos investidores que eles deveriam investir em planos de previdência privada para enfrentar “o planejado declínio de longo prazo nos níveis de aposentadoria do estado”. Quanto aos trabalhadores, o estado pretende que eles empobreçam depois de se aposentarem.

A hostilidade consciente do estado policial em relação aos trabalhadores é sintetizada pela breve observação do chefe da polícia de Paris, Didier Lallement, a uma cidadã parisiense que criticou a brutalidade policial em um protesto dos “coletes amarelos”: “Não somos do mesmo campo, senhora”.

Importantes lições políticas e estratégicas para os trabalhadores ao redor do mundo devem ser tiradas dessa greve. Como alertou o Parti de l’égalité socialiste (PES), não há nada para os trabalhadores negociarem com Macron e, por trás dele, com os mercados internacionais e a aristocracia financeira capitalista. Deter os planos do estado policial de empobrecer a população exige que Macron seja derrubado. No entanto, levar adiante tal luta requer criar comitês de ação, organizações de base da classe trabalhadora independentes dos sindicatos, para mobilizar camadas muito mais amplas de trabalhadores contra o presidente francês.

O governo Macron, isolado e desprezado, mal consegue se proteger da crescente indignação da população. Depois que revistas noticiaram no outono passado que a família de Macron vive aterrorizada por uma insurreição, ele finalmente se atreveu a fazer uma aparição pública na semana passada, no teatro Bouffes du nord, em Paris. No entanto, ele e sua esposa Brigitte logo tiveram que deixar o local depois que sua presença provocou protestos.

O que falta aos trabalhadores não é força em número, coragem ou determinação, mas organização, perspectiva política e liderança. Os sindicatos aprovaram a greve dos trabalhadores do transporte francês no ano passado para tentar desesperadamente manter o controle dos trabalhadores, depois de repetidas greves selvagens na rede ferroviária nacional. Porém, apesar dessa mudança tática, eles continuaram desempenhando um papel central na negociação da austeridade e na estabilização do regime capitalista.

A burocracia sindical não organizou uma luta determinada contra Macron, mas negociou com ele os cortes nas aposentadorias, isolou greves e se opôs a uma luta mais ampla. Isso reflete os interesses materiais dos sindicatos: o orçamento anual de 4 bilhões de euros dos sindicatos franceses é em grande parte financiado pelo estado e por grupos empresariais. Seu papel de classe foi exposto pelo histórico do aliado grego da CGT e do PCF, o governo Syriza (“Coalizão da Esquerda Radical”), que chegou ao poder em 2015 após uma erupção de protestos de trabalhadores e jovens gregos, apenas para impor os cortes draconianos da UE.

O papel reacionário do que a classe dominante há muito falsamente promove como a “esquerda”" é um alerta: para derrubar Macron, os trabalhadores não podem transferir o poder para outro setor do establishment político falido da França ou para outra fração da máquina do estado policial. O poder deve ir aos trabalhadores que produzem a riqueza da sociedade e que, na França e ao redor do mundo, estão demonstrando sua disposição para combater o capitalismo. Pouco mais de um século após a revolução de outubro de 1917, a questão da transferência do poder do Estado para a classe trabalhadora ressurgiu.

A construção de uma nova vanguarda revolucionária agora é decisiva. Já foi formada uma vasta rede de assembleias de “coletes amarelos”, comitês de greve e grupos de protesto nas redes sociais. Após o revés sofrido pela greve inicial contra Macron, o trabalho agora é esclarecer as tarefas políticas colocadas sobre os trabalhadores e jovens que já foram levados a lutar, além de mobilizar setores mais amplos para a luta, tanto na França quanto internacionalmente.

A seção francesa do Comitê Internacional da Quarta Internacional, o Parti de l’égalité socialiste, é o partido de vanguarda marxista na França, fundado em oposição irreconciliável aos crimes e às traições da classe trabalhadora pelo stalinismo e pela pseudo-esquerda. Seu papel, como Lenin escreveu sobre o partido de vanguarda em sua clássica obra Que fazer?, é “saturar o proletariado com a consciência de sua situação e a consciência de sua missão”. Lenin ainda enfatizou: “Não seria necessário fazê-lo se essa consciência emanasse naturalmente da luta de classes”.

A onda global de greves e lutas da classe trabalhadora, da qual o movimento contra a austeridade na França é apenas uma expressão, está apenas começando. O PES buscará orientar trabalhadores e jovens na França para esse surto global da classe trabalhadora na luta para acabar com o ultrapassado sistema capitalista e substituí-lo pelo socialismo.

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