Peronismo apoia-se na FIT-U para implementar austeridade do FMI na Argentina

Por Andrea Lobo
27 Fevereiro 2020

Publicado originalmente em 19 de fevereiro de 2020

Diante do iminente calote da dívida pública, o presidente argentino Alberto Fernández anunciou nesta semana novos cortes de aposentadorias e outras medidas de austeridade ao renegociar cerca de US$ 100 bilhões em pagamentos da dívida, começando com US$ 44 bilhões devidos ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

No ano passado, a raiva de milhões que passaram a viver abaixo da linha oficial de pobreza, centenas de milhares que perderam seus empregos e muitos outros que viram seu padrão de vida colapsar sob o governo anterior de Mauricio Macri foi desviada pelos sindicatos e partidos peronistas por meio de greves “hollywoodianas” e promessas de que a eleição de Fernández acabaria com as medidas de austeridade e melhoraria as condições sociais.

No entanto, as autoridades peronistas dedicaram seus primeiros dois meses no poder a tranquilizar os investidores de que aplicarão brutalmente a austeridade e utilizarão medidas de estado policial para esmagar a oposição. Não há outra interpretação para a visita de Fernández a Israel, sua intenção de buscar o apoio do fascista presidente brasileiro Jair Bolsonaro e seu convite a tropas estrangeiras para o país.

Em 7 de fevereiro, Jorge Arguello, embaixador da Argentina em Washington, orgulhosamente informou a CNN que, depois de visitar o Departamento de Estado, o Pentágono, o FMI e outras instituições imperialistas, conseguiu garantir uma mensagem de Donald Trump de que Fernández “pode contar com ele” durante as negociações com o FMI. O FMI declarou na última quinta-feira que rejeitaria uma redução “significativa” da dívida argentina.

Com a raiva popular voltando-se contra eles, os partidos e sindicatos peronistas estão agora contando com a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade (FIT-U) para impedir que os trabalhadores tirem as conclusões necessárias, ou seja, que reconheçam o caráter de classe burguês do governo e o perigo mortal contrarrevolucionário que representa.

Em suas publicações, entrevistas nos meios de comunicação corporativos e intervenções no Congresso, o FIT-U está retratando o regime como um árbitro que não pertence a nenhuma classe social e que simplesmente possui as táticas erradas para enfrentar o FMI e defender a Argentina. Em nenhum lugar afirma que o único “interesse nacional” é o da burguesia, que só pode ser garantido diante da intensificação da exploração dos trabalhadores argentinos para competir por capitais e mercados estrangeiros.

A moratória de 2001 e a atual crise não deixam dúvidas de que, diante da ameaça de uma fuga de capitais punitiva, o fim da austeridade exige que a classe trabalhadora exproprie a riqueza ilícita de toda a aristocracia financeira e das principais empresas transnacionais e locais, enquanto apela para os trabalhadores internacionalmente, especialmente nos EUA e na Europa, para que defendam e expandam essas medidas.

Na quarta-feira, depois que o ministro da Economia, Martín Guzmán, apresentou ao Congresso as medidas de austeridade do governo com cores róseas – referindo-se à horrível taxa de inflação de 2,3% em janeiro como uma maravilha – os dois legisladores da FIT-U, Rominá del Plá (Partido Obrero – PO) e Nicolás del Caño (Partido dos Trabalhadores Socialistas – PTS), pediram que a dívida fosse rejeitada, enquanto a descreviam como culpa do governo Macri.

Após a sessão, o canal de TV Crónica expôs o blefe deles sobre a rejeição da dívida, perguntando a del Plá o que aconteceria depois. Os apresentadores perguntaram diretamente se havia “um contexto semelhante” à guerra imperialista e à Revolução Russa. Ela evitou a pergunta e disse: “Olha, estamos em uma situação de submissão integral, de crises cada vez maiores ... Além disso, o próprio ministro Guzmán analisa em trabalhos teóricos a incapacidade de renegociar com esses tipos de fundos para levar os países adiante”.

O canal C5N perguntou diretamente a Del Caño se os peronistas eram responsáveis pela situação dos aposentados, e ele simplesmente insistiu que o pagamento da dívida “contraria os interesses populares”, acrescentando que alguns peronistas apoiaram os cortes do governo anterior e outros se opuseram a eles. No entanto, ele ignorou completamente o papel dos peronistas sob Macri em suprimir a oposição popular.

Enquanto atuava como uma ferramenta de propaganda para os peronistas, a FIT-U convocou uma marcha na quarta-feira separada da das principais centrais sindicais para protestar contra a chegada na Argentina de autoridades do FMI. A FIT-U apresentou suas diferenças nos termos mais vagos, como “aqueles de nós que estão dispostos a defender o futuro sem fissuras e aqueles que estão dispostos a negociá-lo”.

A FIT-U não apenas lidera vários sindicatos que permanecem dentro das centrais sindicais peronistas após décadas de constantes traições, mas também continua a convocar os trabalhadores a apelar ao aparato sindical. Nos dias 11 e 13 de fevereiro, o site La Izquierda Diario, publicado pela PTS, chamou as “centrais sindicais” para convocar uma greve no dia internacional da mulher que inclua a demanda de não pagamento da dívida pública.

Um artigo de 27 de janeiro, denunciando o “pacto social” exigido pelos peronistas, acrescenta no mesmo espaço “a exigência das centrais e dos setores sindicais para romper a trégua com os governos e convocar assembleias para desenvolver um plano de luta ...”

O PO e Nahuel Moreno, o antecessor político do PTS, utilizaram exatamente esses apelos para amarrar os trabalhadores aos sindicatos peronistas através dos levantes revolucionários de 1968-1976, mesmo quando a burocracia peronista formou esquadrões para assassinar trabalhadores de esquerda. Essas tendências políticas há muito haviam rejeitado o trotskismo e trabalharam para subordinar os trabalhadores a diferentes formas de nacionalismo pequeno-burguês e burguês.

Longe de tirar as lições desse período, a edição atual da revista Ideas de Izquierda, publicada pelo PTS, inclui quatro ensaios sobre a revolta do Cordobazo de 1969, com apenas um mencionando Moreno, aplaudindo sua recusa em seguir seu aliado Mario Santucho em dissolver o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) em um foco guerrilheiro em 1968. O caminho fatal da guerrilha seguido por Santucho, no entanto, havia sido pavimentado por Moreno, que já havia se declarado “castrita” e alegava que a Revolução Cubana mostrou que “superamos o esquema trotskista de que apenas o proletariado é a vanguarda da revolução”.

Pelo contrário, o PTS está lançando as bases para novas traições, demonstrando que também representa interesses de classe antagônicos aos da classe trabalhadora.

Na mesma edição da Ideas de Izquierda, Juan Dal Maso avança o sofisma de que “os peronismos reciclados das últimas décadas têm bases sociais heterogêneas e sobrepostas”, ocultando assim o caráter completamente burguês dos partidos e sindicatos peronistas. Ele então explica que “talvez essa transição [do peronismo] em direção ao conservadorismo esteja relacionado com certas ‘ausências presentes’ da teoria de [Ernesto] Laclau”. Em outras palavras, o peronismo está guinando à direita porque falta o discurso populista correto para vender a ideia de que ele representa esse coletivo “heterogêneo”, isto é, supraclassista.

É com isso que a FIT-U procura ajudar quando apela ao peronismo, apresentando-o como “progressista” e “reformista” e insistindo que os sindicatos ainda são “organizações de trabalhadores”. A FIT-U coloca, nas palavras de Trotsky, a exigência de que “o diabo se converta totalmente ao cristianismo, e que utilize seus chifres em favor das obras piedosas em vez de fazê-lo contra os operários e camponeses. Ao colocarmos tais condições, no fundo, atuaríamos como se fossemos os advogados do diabo e solicitaríamos dele que nos permitisse ser seus padrinhos.”

Trotsky continua: “A intervenção independente do proletariado na arena revolucionária ameaça privar a burguesia da possibilidade de explorar completamente”. Pode-se acrescentar que também ameaça os privilégios das camadas da classe média alta nos sindicatos e na academia cujos interesses se refletem nas políticas da FIT-U.

Uma luta genuína contra os ditames da austeridade do FMI exige a mobilização da classe trabalhadora sob um programa socialista e internacionalista, em oposição inabalável ao peronismo e seus apologistas da pseudoesquerda. Isso significa criar seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional na Argentina e no mundo.

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