Após encerrar greve na Petrobras, sindicato aprova fechamento da Fafen e demissões

Por Tomas Castanheira
16 Março 2020

Publicado originalmente em 12 de março de 2020

Na última quinta-feira, 6 de março, a Federação Única dos Petroleiros (FUP), que é afiliada à CUT, a central sindical controlada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), aprovou o fechamento da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen) no Paraná e a demissão de todos os seus funcionários. Esse foi o imundo desfecho da traição dos sindicatos à maior greve de petroleiros no Brasil dos últimos 25 anos.

A ameaça de fechamento da Fafen havia desencadeado a greve que se espalhou na Petrobras por todo o país em oposição não apenas à destruição de quase 1000 empregos na fábrica, mas também às propostas de privatização de refinarias e outras unidades da Petrobras pelo governo do presidente fascista Jair Bolsonaro.

Após três semanas de greve, o movimento havia alcançado 21.000 trabalhadores em 121 unidades da Petrobras e estava crescendo a cada dia. A FUP, então, pediu aos trabalhadores que cumprissem as exigências do Tribunal Superior do Trabalho (TST), que havia ordenado o encerramento da greve para o início das negociações.

A capitulação organizada pelos sindicatos foi celebrada pela burocracia como uma “vitória” dos trabalhadores, uma vez que o TST havia “suspendido” as demissões na Fafen até a realização das negociações. Para suprimir o movimento crescente dos trabalhadores, fizeram de tudo para encobrir a traição da greve. “[Tomamos] a decisão de estarmos mantendo o nível de mobilização… Estamos indicando a suspensão provisória deste movimento”, afirmou o presidente da FUP, Deyvid Bacelar, na declaração oficial da federação sindical. Ele concluiu: “Se não tivermos avanços nessa negociação, nós retomaremos essa greve histórica da categoria.”

As promessas da FUP eram mentiras descaradas. Na reunião de negociação, realizada no dia 27 de fevereiro, a direção da Petrobras deixou claro que não pretendia conceder um só milímetro às reivindicações dos trabalhadores contra o fechamento e demissões na Fafen, nem mesmo quanto à realocação dos funcionários diretos – 396 dos quase 1000 trabalhadores da fábrica – a outras unidades da empresa. Após a reunião, Bacelar reivindicou mais uma vez os “frutos da greve histórica dos petroleiros”, desta vez o próprio fato da diretoria da Petrobras ter se “sentado à mesa” com o sindicato!

Ao invés de “retomar a greve histórica”, como haviam prometido, os sindicatos de petroleiros declararam que o Conselho Deliberativo da FUP discutiria as propostas e depois as apresentaria aos trabalhadores. A posição tomada nesse Conselho só veio a público no dia 6 de março, quando defenderam em uma assembleia em frente à Fafen que os trabalhadores aceitassem o fechamento da fábrica e a destruição de seus empregos. Foi dito a eles que poderiam escolher entre dois planos de rescisão que haviam sido “conquistados” junto ao TST.

Tentando encobrir o vergonhoso acontecimento, a FUP não se pronunciou diretamente a respeito. Tratou a decisão como se fosse de interesse meramente local, se limitando a replicar a nota de seu sindicato afiliado no estado, o Sindiquímica-Paraná. A nota lamentou as demissões como sendo “mais um triste capítulo da política de desindustrialização do país e de desmantelamento do Sistema Petrobrás por parte do Governo Bolsonaro.”

Esse foi, na verdade, mais um capítulo sórdido na história de traições dos sindicatos à classe trabalhadora brasileira. Esse capítulo não foi protagonizado apenas pela FUP. A suposta federação sindical de oposição, a Frente Nacional dos Petroleiros (FNP), dirigida pelos morenistas da CSP-Conlutas, segurou suas bases por mais tempo, atrasando o início da greve, e convocou seu encerramento junto com a FUP. As tendências da pseudoesquerda, como o Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), são igualmente cúmplices, promovendo ilusões em uma possível guinada à esquerda dos sindicatos e justificando a necessidade dos trabalhadores se subordinarem a seu aparato reacionário.

Outras organizações da pseudoesquerda também endossaram o programa nacionalista burguês promovido pela FUP. Sua suposta oposição contra as privatizações – que destruirão empregos e as condições de vida dos trabalhadores – possui o objetivo de canalizar a raiva dos trabalhadores por trás dos assim chamados opositores de Bolsonaro nas altas camadas da elite dominante capitalista do Brasil.

A exigência dessa oposição que se implemente uma política de preços de combustíveis subsidiada e que o agronegócio brasileiro compre fertilizantes produzidos pela Petrobras ao invés de importá-los promove as falsas esperanças de que o nacionalismo econômico e o protecionismo possam recuperar a economia brasileira da cada vez maior crise do capitalismo internacional. Seu objetivo político primordial é impedir que os trabalhadores se afastem das forças nacionalistas burguesas representadas pelo PT.

O caráter reacionário e antioperário dos sindicatos brasileiros não é um acidente. Assim como os demais sindicatos do mundo, são incapazes de responder de uma forma progressista às transformações econômicas e sociais que acompanharam a globalização da produção capitalista. Diante de uma economia mundial cada vez mais unificada por cadeias de produção altamente interligadas, os sindicatos, que se baseiam em uma estrutura nacional e são subordinados ao estado nacional, não buscam defender empregos, salários e condições de trabalho de seus membros, mas aumentar a competitividade e lucratividade da indústria de seu “próprio” país à custa das condições de vida da classe trabalhadora.

A campanha do PT e seus sindicatos contra a “desindustrialização do país” é um apelo direto a setores da burguesia industrial brasileira que estão divididos em relação às políticas econômicas levadas adiante por Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes.

Em meio à greve dos petroleiros, as centrais sindicais defenderam esse programa burguês em manifestação em frente à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), exigindo um “projeto de desenvolvimento” para o país. Essa posição foi resumida politicamente por Fernando Haddad, que foi o candidato do PT na última eleição presidencial contra Bolsonaro. Em um artigo escrito para a Folha de São Paulo no início de janeiro, intitulado “Existe uma burguesia industrial brasileira?”, Haddad lamenta a participação decrescente da indústria no PIB do país e critica a burguesia nacional por sua falta de “projeto de nação”, ou seja, por ter abandonado o PT como sua opção política preferencial.

O PT sistematicamente ignora a predominância do capitalismo mundial, atribuindo a crise da economia brasileira a erros de Bolsonaro e Paulo Guedes. O crescimento de 1,1% do PIB brasileiro em 2019, bem abaixo do esperado, foi interpretado por Gleisi Hoffmann, a atual presidente do PT, como um resultado das “confusões da família Bolsonaro que afastam investidores e o ímpeto neoliberal de Guedes”. O mesmo foi dito por Lula, o ex-presidente do partido, sobre a elevação do preço do dólar: “dispara porque ninguém confia nesse governo”.

De fato, a política levada adiante por Bolsonaro e Guedes é incapaz de solucionar as contradições que mantém a economia brasileira próxima ao patamar mais baixo de sua crise ao longo dos últimos cinco ou seis anos. As políticas adotadas pelo atual governo para incentivar o investimento privado não têm surtido efeito, e as projeções para este ano são ainda piores.

Contudo, a perspectiva nacionalista apresentada pelo PT e endossada pela pseudoesquerda é absolutamente falida. O crescimento da economia brasileira ao longo dos primeiros governos do PT esteve baseado em grande medida no investimento de capital chinês e no alto preço das commodities no mercado mundial. Essas condições não existem mais.

A queda brusca da Bolsa de Valores brasileira no início desta semana, acompanhando as bolsas ao redor do planeta, esteve ligada diretamente à queda do preço do barril de petróleo, puxada por uma retração da economia chinesa. Isso resultou em uma queda de cerca de 30% das ações da Petrobras.

Não existe uma solução para a crise enfrentada pelos trabalhadores brasileiros em nível nacional. A economia brasileira é altamente entrelaçada com a economia mundial, e a luta da classe trabalhadora brasileira só pode ser travada com sucesso apenas se unificada com a dos trabalhadores de todo o mundo, que enfrentam as mesmas condições de exploração ditadas pela elite capitalista global.

Para isso acontecer, os trabalhadores devem romper com o programa nacionalista e pró-corporativo do PT e dos sindicatos e estabelecer comitês de trabalhadores controlados diretamente pelas bases. Sobretudo, uma nova liderança revolucionária deve ser construída, uma seção brasileira do Comitê Internacional da Quarta Internacional.