Enquanto coronavírus se espalha pelo Brasil, Bolsonaro diz aos trabalhadores para trabalhar ou morrer de fome

Por Tomas Castanheira
19 Março 2020

Publicado originalmente em 18 de março de 2020

O Brasil registrou suas duas primeiras mortes por COVID-19 na terça-feira, enquanto as autoridades de saúde de São Paulo disseram que estavam investigando outras quatro mortes que possivelmente foram causadas pelo coronavírus. O número de casos confirmados no Brasil saltou para 314, com cerca de 2.000 casos suspeitos. Já existem casos de transmissão comunitária nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde as duas mortes ocorreram. Dado o baixo número de testes realizados, com a maioria deles tendo sido feito em um único hospital particular em São Paulo, a propagação real do vírus é muito maior.

O presidente fascista Jair Bolsonaro, após ter participado pessoalmente de uma manifestação fascista em defesa de seu governo, deixou claro sua determinação em defender os mercados à custa das vidas dos trabalhadores brasileiros.

Em entrevista à CNN Brasil, Bolsonaro minimizou com desdém as medidas contra a propagação do coronavírus, afirmando que “muitos pegarão isso, independente dos cuidados que tomem” e caracterizando as decisões de cancelar jogos esportivos e eventos como baseadas em “neurose” e “histeria”.

Bolsonaro cumprimenta apoiadores na manifestação fascista em Brasília (Crédito: Facebook)

Em uma das declarações mais criminosas sobre a pandemia de um chefe de estado até o momento, Bolsonaro defendeu que as únicas opções para os trabalhadores são seguir trabalhando e aceitar que serão infectados, ou morrer de fome. “O desemprego leva pessoas que já não se alimentam muito bem a se alimentar pior ainda, aí vão ficar mais sensíveis, uma vez sendo infectadas, você levar até a óbito”, disse.

Assim como em todo o mundo, a crise do coronavírus está exacerbando as contradições da sociedade brasileira, uma das mais desiguais do mundo, com seis indivíduos concentrando a mesma riqueza que a metade mais pobre da população do país. A grande massa da classe trabalhadora brasileira não possui condições básicas de saúde, moradia, saneamento básico e trabalho seguro. Nas grandes metrópoles, o sistema de transporte é precário e expõe a população, amontoada em vagões de trens e ônibus, a graves riscos de contaminação pelo vírus.

Com uma das maiores populações carcerárias do planeta, com mais de 800 mil presos, o clima de pânico gerado nas prisões superlotadas fez estourar, na segunda-feira, a maior onda de rebeliões desde 2006. Após terem o direito de saída temporária suspenso em decorrência da pandemia, cerca de 1.500 presos em regime semiaberto fugiram de quatro penitenciárias no estado de São Paulo.

Nos hospitais públicos do Sistema Único de Saúde (SUS), que atendem 75% da população, o número de leitos disponíveis é menor do que a metade do estimado como necessário para atender a explosão esperada de casos de COVID-19 nas próximas semanas. Ainda pior, 95% dos leitos de UTI do SUS já se encontravam ocupados mesmo antes do surto do coronavírus.

Mas esses números não expõem suficientemente a situação de terror que será enfrentada pela classe trabalhadora brasileira nas próximas semanas. Um estudo preliminar da Universidade de Oxford, na Inglaterra, divulgado pelo Intercept, calculou que o coronavírus pode levar a 478.000 mortes no Brasil. Essa estimativa se baseia numa possível contaminação de 40% da população, o que seria uma avaliação “moderada”; a pesquisa feita por Harvard, na qual os cientistas ingleses se basearam, afirma que essa porcentagem pode variar de 40 a 70%.

A resposta do governo Bolsonaro, e a de toda a elite dominante brasileira, é que os trabalhadores devem pagar integralmente pela crise, incluindo com suas próprias vidas.

Em um ato de cínica propaganda, Bolsonaro alegou na última quinta-feira que alocaria R$ 5 bilhões para combater a pandemia. Essa quantia – que por si só já seria insuficiente para atender às demandas emergenciais de um país com mais de 200 milhões de habitantes – será apenas transferida do orçamento do Fundo Nacional de Saúde, a mesma agência que supostamente está recebendo esse recurso de “emergência”. A medida equivale, portanto, a um aumento de zero nos recursos necessários para atender os trabalhadores durante a crise.

Enquanto governos municipais e estaduais começam a fechar escolas em todo o país, nenhuma alternativa está sendo oferecida aos trabalhadores, que não têm onde deixar seus filhos, ao mesmo tempo que aos alunos não está sendo oferecida a refeição escolar, que para muitos deles é a principal do dia. Não existe qualquer plano para o fechamento de empresas privadas – os trabalhadores que faltarem por motivo de doença, ou forem dispensados, ficarão à própria sorte. Isso já está começando a ocorrer em redes de cinemas como a Cinemark e Kinoplex, onde os trabalhadores foram obrigados a tirar férias coletivas não remuneradas, ou tiveram seus salários reduzidos, tendo sido oferecidos até mesmo programas de demissão voluntárias.

Assumindo que é dever dos próprios trabalhadores arcarem com esses custos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, propôs medidas como o adiantamento do 13º salário a aposentados e a liberação do saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Enquanto isso, está negociando uma série de ações para “socorrer a economia”, isto é, a classe capitalista, como a suspensão do pagamento de impostos empresariais e a liberação de empréstimos para capital de giro a juros mais baixos.

A defesa dos lucros capitalistas é também a política do Partido dos Trabalhadores (PT). O PT publicou na segunda-feira uma nota oficial com o título “propostas para enfrentar o coronavírus e retomar o crescimento econômico”. O principal interesse do PT nesta crise é apelar para seções da burguesia brasileira criticando as políticas de Bolsonaro e Guedes como incompetentes do ponto de vista do desenvolvimento da economia nacional. O partido respondeu com a mesma negligência que o fascista Bolsonaro à pandemia. Lula, o ex-presidente pelo PT, escreveu no Twitter há cerca de duas semanas: “O mundo está assustado com o coronavírus… Quantas crianças morrem de fome todos os dias?” Esse comentário ignorante e desdenhoso da “esquerda” veio dias depois que a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, disse que a pandemia estava sendo usada pelo governo como “uma desculpa” para a fuga em massa de capitais do Brasil.

Na região do ABC paulista, um dos principais centros industriais do Brasil e o berço histórico do PT, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC publicou uma declaração na segunda-feira, escrita por seu presidente, Wagner Santana, uma importante figura política do PT. A declaração deixa clara a intenção do sindicato e do partido em garantir a todo custo o funcionamento regular das fábricas, passando por cima das vidas de milhares de trabalhadores:

“Cada um tem responsabilidade com seu cuidado pessoal. Mas também existem proteções coletivas que cabem às empresas tomarem, como o compartilhamento de uma colher na hora de pegar o arroz no bandejão, o cuidado no corrimão dentro da fábrica, a higienização do transporte coletivo… Cuidem-se. Só assim vamos atravessar esse período tão drástico de pandemia.”

O tom pacífico adotado pelo PT contrasta de maneira nítida com a disposição dos trabalhadores brasileiros. Para impedir protestos de massas de trabalhadores vendo seus familiares morrendo nas filas dos hospitais, a classe dominante terá que recorrer a cada vez maior violência. Na terça-feira passada, os ministros da saúde e justiça anunciaram a reinstituição de uma lei da década de 1940, imposta sob a ditadura do presidente Getúlio Vargas, que autoriza uso da polícia contra quem desobedecer a quarentena e impõe prisão de até um ano.

Essa abordagem draconiana contrasta fortemente com o comportamento do presidente brasileiro. Em um pronunciamento oficial em rede nacional na última quinta-feira, Bolsonaro usou o pretexto do coronavírus para promover as manifestações fascistas do dia 15 de março contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, para o fortalecimento do poder executivo e por uma intervenção militar. Tendo afirmado, por um lado, que diante da pandemia os protestos precisavam ser “repensados”, Bolsonaro, por outro, os promoveu, dizendo que “as motivações da vontade popular continuam vivas e inabaláveis”.

A hipocrisia dos alertas de Bolsonaro para “repensar” os protestos diante da ameaça do coronavírus foi exposta por sua participação na manifestação de Brasília e o compartilhamento através de sua conta no Twitter de fotos e vídeos das manifestações pelo país.

As manifestações, divulgadas como #Bolsonaroday, tiveram um conteúdo abertamente fascista, como a reivindicação do retorno da legislação repressiva da ditadura militar, o AI-5, o fechamento do Congresso e a criminalização do comunismo. Seguindo a linha ideológica de Bolsonaro, caracterizaram a pandemia do coronavírus como “fake news” e o chamaram de “comunavírus” nos carros de som.

Essa subestimação criminosa da ameaça do COVID-19 foi exemplificada quando Bolsonaro se aproximou dos manifestantes em Brasília, cumprimentou-os e tirou fotos com eles, colocando centenas de pessoas em risco. O presidente brasileiro ainda aguarda os resultados de um segundo teste depois de ter estado em contato próximo com pelo menos 12 pessoas com casos confirmados da doença, quatro das quais fizeram parte de sua comitiva quando visitou o resort Mar-a-Lago do presidente dos EUA, Donald Trump, na Flórida.