Timor Leste registra primeiro caso de coronavírus em meio a enchentes

Por Patrick O’Connor
30 Março 2020

Publicado originalmente em 27 de março de 2020

O Timor Leste registrou seu primeiro caso de COVID-19 no sábado. O estado no sudeste asiático está entre os mais pobres do mundo, possuindo instalações médicas mínimas. Se a pandemia global varrer o país, poderá haver vítimas em massa da doença.

O Timor Leste estava anteriormente entre um pequeno grupo de países sem casos confirmados do novo coronavírus. A ministra interina da Saúde, Elia dos Reis Amaral, divulgou um comunicado no sábado explicando que o paciente era um estrangeiro que havia chegado recentemente do exterior. A pessoa foi isolada e, segundo relatos, apresenta apenas sintomas leves.

O número de pessoas infectadas é ainda desconhecido. A Organização Mundial da Saúde (OMS) forneceu ao Timor Leste 10 kits de teste, que permite que apenas 1.000 pessoas sejam testadas em um país de 1,3 milhão de pessoas. Os testes também precisam ser enviados à Austrália para serem “confirmados”, atrasando os resultados.

Mesmo antes do caso confirmado, as tensões sociais em Timor Leste eram grandes. Em 8 de março, a polícia lançou bobas de gás lacrimogêneo para dispersar uma multidão de pessoas em Tibar, a oeste da capital Díli, que protestavam contra um local criado na aldeia para receber pacientes suspeitos com o coronavírus. Um dos pacientes em quarentena com sintomas de COVID-19 retornou recentemente de férias da Itália, um dos epicentros da doença.

Tibar abriga um grande depósito de lixo. Residentes pobres vasculham o lixo diariamente, esperando encontrar materiais de metal, latas, roupas ou outros itens úteis. O lixo é queimado, produzindo uma forte fumaça tóxica que tem criado inúmeros problemas de saúde na vila. Uma mulher que protestava contra o local de quarentena declarou em um vídeo amplamente compartilhado nas redes sociais que Tibar “havia se tornado um lugar para colocar lixo, colocar [pessoas com] HIV, tuberculose e coronavírus”.

Pessoas lavando as mãos do lado de fora da loja de departamento Lita

O governo timorense respondeu ao primeiro caso confirmado de COVID-19 anunciando uma quarentena de um mês e preparando um decreto de estado de emergência. A única fronteira terrestre do país, com a província indonésia de Timor Ocidental, está fechada para bens e pessoas. As escolas foram fechadas, com os alunos instruídos a tirar umas “férias extraordinárias” que durarão pelo menos uma semana. As universidades estão fechadas até pelo menos 4 de abril. A Igreja Católica também anunciou que as missas foram suspensas.

O primeiro-ministro Taur Matan Ruak disse que seu governo daria uma resposta “rápida” e “emergencial” ao caso confirmado. O governo, no entanto, está atolado em crise depois que Ruak perdeu a maioria parlamentar e não conseguiu aprovar seu orçamento proposto em janeiro. Uma coalizão de oposição de seis grupos parlamentares, liderada pelo ex-presidente e ex- primeiro-ministro Xanana Gusmão, pediu o apoio do presidente da Frente Revolucionária de Timor Leste Independente (Fretilin), Francisco Guterres, para formar um novo governo, mas o impasse continua [leia mais em: “East Timor’s coalition government collapses” (“Governo de coalizão entra em colapso em Timor Leste”)].

A cada mês, o parlamento de Timor Leste deve aprovar a alocação de um doze avos do orçamento de 2019, o que não foi realizado pelo fato de Ruak ter perdido a maioria parlamentar. A menos que esse problema seja de alguma forma contornado, isso significa que o governo não poderá fazer investimentos em larga escala em saúde e outras áreas de infraestrutura de emergência no caso de um surto em larga escala do novo coronavírus.

O Timor Leste está entre os países com pouca capacidade de responder à crise do coronavírus. Depois da independência de Portugal em 1975, o país foi invadido pela Indonésia e brutalmente ocupado até 1999, quando o imperialismo australiano realizou uma intervenção militar sob o pretexto de “ajuda humanitária”, que foi posteriormente exposta pela recusa de sucessivos governos australianos em disponibilizar ao povo timorense cuidados de saúde básicos e outros serviços sociais.

Em 2002, o estado conquistou a soberania formal. Nos 18 anos seguintes, a elite governante timorense foi incapaz de realizar a promessa de que poderia promover os interesses sociais e econômicos da classe trabalhadora e dos trabalhadores rurais pobres através da formação de um novo estado capitalista na metade de uma pequena ilha.

A situação da saúde no país é terrível. Segundo as estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), os gastos anuais do Timor Leste em saúde são de 1,5% do PIB, equivalente a apenas US$ 102 por pessoa. Hospitais e clínicas de saúde estão totalmente despreparados para uma pandemia do coronavírus. Nos distritos rurais, as clínicas de saúde geralmente sofrem falhas de energia elétrica e, de acordo com a UNICEF, até 70% das clínicas das aldeias não têm acesso à água corrente.

No domingo passado, os responsáveis pela Clínica Bairo Pite, uma organização não governamental que oferece assistência médica gratuita, fizeram um pedido “urgente” por máscaras a um grupo de e-mail de Timor Leste, explicando que haviam acabado.

A incapacidade do governo de responder a uma crise dessa proporção foi revelada em 13 de março, quando chuvas de monções provocaram enchentes em várias partes de Díli. Os bueiros entupidos e as inundações destruíram pelo menos 190 casas e afetaram outras 1.500 famílias. Um jovem de 16 anos morreu depois de impedir que uma mulher e seu bebê se afogassem. Em meio às enchentes, os moradores tiveram que contar com a solidariedade de vizinhos e amigos para impedir uma tragédia ainda maior.

Máquinas pesadas removem entulho acumulado no rio Maufelo (20 de março)

Um trabalhador de Díli, cuja casa da família estava submersa pelas águas da enchente, disse ao World Socialist Web Site: “O governo não estava apenas despreparado para a enchente, mas não fez praticamente nada para responder à situação de emergência. Durante e após a enchente, ao longo de todo o final de semana, não vimos nenhum funcionário do governo nos ajudando. Embora estivéssemos desesperados por um lugar seco e seguro para ficar e dormir, água potável, comida, roupas, um banheiro e assistência médica, nada foi fornecido. Tivemos que ir à casa de um amigo para lavar a roupa. A maioria dos meus vizinhos teve que lavar suas roupas com água suja, usando o mesmo rio que causou as enchentes.”

Ainda segundo ele, “O primeiro caso de coronavírus em Díli colocou as pessoas em situação de pânico e preocupação. Com as precárias condições dos hospitais públicos em todo o país, eu temo que a propagação do vírus seja difícil de conter – poderia ser como um incêndio descontrolado. O governo não possui instalações adequadas para colocar em quarentena pacientes positivos para o coronavírus.”