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Enquanto cresce raiva contra resposta criminosa à crise da COVID-19, EUA ameaçam Venezuela e Irã com guerra

Publicado originalmente em 2 de abril de 2020

Enquanto os EUA se preparam hoje para atingir os 5.000 mortos por COVID-19, um furor crescente toma conta do país contra o fracasso vergonhoso do governo Trump em fornecer equipamentos médicos essenciais para médicos e enfermeiros que lutam para salvar a vida de seus pacientes, sem falar as suas próprias.

Greves selvagens estouraram entre os trabalhadores da Amazon, Whole Foods e Instacart, que estão sendo obrigados a trabalhar em condições inseguras para fornecer produtos essenciais à população dos EUA. Nesse sistema anárquico regido por interesses privados, os trabalhadores estão sendo deixados à própria sorte. Operários industriais e médicos também têm realizado protestos em diferentes partes do país, à medida que aumenta a revolta popular contra a incompetência e indiferença do governo dos EUA diante de uma crise que ameaça a vida de milhões de pessoas.

O Presidente Donald Trump fala durante uma coletiva de imprensa sobre o coronavírus no Jardim das Rosas da Casa Branca, em Washington, em 13 de março de 2020 (Crédito: AP Photo/Evan Vucci)

Foi nessas condições que o presidente estadunidense abriu, na quarta-feira, sua coletiva de imprensa diária sobre a crise do coronavírus, anunciando o envio de navios de guerra da Marinha dos EUA para águas sul-americanas com o objetivo de combater uma suposta escalada da guerra contra “o flagelo mortal dos narcóticos”. Ele afirmou – sem qualquer prova – que os cartéis de drogas estão tentando explorar a pandemia mortal do coronavírus.

“Estamos enviando mais destroyers da Marinha, navios de combate, aviões e helicópteros de combate, navios-patrulha da Guarda Costeira e aviões de vigilância da Força Aérea, dobrando as nossas capacidades na região”, declarou Trump.

O Secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, e o Chefe do Estado-Maior, General Mark Milley, foram trazidos ao palanque da Casa Branca para deixar claro que a escalada militar é, antes de mais nada, contra a Venezuela e envolve o envio de unidades das forças especiais à região.

“Agentes corruptos, como o regime ilegítimo de Maduro na Venezuela, dependem dos lucros obtidos com a venda de narcóticos para manter o seu domínio opressor sobre o poder”, disse Esper.

Essa afirmação é completamente lunática. A quantidade de narcóticos que circulam pela Venezuela é insignificante em comparação à que chega aos EUA, o maior mercado mundial de cocaína, que vem de aliados estadunidenses como a Colômbia e Honduras.

A investida naval acontece depois de o Departamento de Justiça dos EUA acusar – sem nenhuma prova – Nicolás Maduro e outros altos funcionários venezuelanos de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. O quadro foi completo por um cartaz de “procura-se” no estilo Velho Oeste, com uma recompensa de 15 milhões de dólares pela cabeça do presidente da Venezuela.

O imperialismo dos EUA sustenta um regime de sanções econômicas de “máxima pressão” contra a Venezuela que equivale a um estado de guerra, sufocando a economia do país ao bloquear suas exportações de petróleo e ao impedir a importação de alimentos e medicamentos vitais. Esse regime tem se intensificado desde o início da pandemia da COVID-19, que é considerada por Washington como uma aliada bem-vinda em sua campanha para colocar a população venezuelana de joelhos e instalar um regime fantoche dos EUA no país mais rico em petróleo do planeta.

Poucas horas antes de Trump iniciar a sua coletiva de imprensa de quarta-feira, ele usou sua conta no Twitter para fazer mais uma ameaça de guerra, declarando: “Com base em informações e convicção, o Irã ou os seus representantes planejam um ataque furtivo às tropas e/ou equipamentos militares dos EUA no Iraque. Se isso acontecer, o Irã vai pagar um preço muito alto!”

Assim como na Venezuela, Washington vêm aumentando continuamente as sanções econômicas contra o Irã, no momento em que o país enfrenta uma das mais elevadas taxas de mortalidade da COVID-19 no mundo. O governo Trump afirmou cinicamente que os medicamentos e equipamentos médicos não estão sob sanção, mesmo quando impede Teerã de comprar qualquer coisa no mercado mundial, colocando seu banco central numa lista negra.

O Pentágono, enquanto isso, enviou baterias de mísseis Patriot para o Iraque, passando por cima da objeção feita pelo governo do país, cujo parlamento exigiu a retirada imediata e completa dos milhares de soldados dos EUA que constituem uma força de ocupação no país. Bagdá receia que os mísseis serão utilizados na preparação de uma guerra dos EUA contra o Irã, na qual o Iraque, devastado pela guerra e enfrentando um número cada vez maior de casos de coronavírus, será transformado em um campo de batalha.

Nas últimas semanas, Trump tem repetidamente descrito a si mesmo como um “presidente em tempos de guerra” pela suposta guerra contra o coronavírus. Se fosse uma guerra e Trump um general, ele já teria sido julgado em um tribunal marcial e condenado como traidor. Embora seja capaz de enviar navios de guerra contra a Venezuela e mísseis contra o Irã, ele não consegue arregimentar máscaras, aventais e luvas para proteger os trabalhadores na linha de frente da saúde, sem falar nos respiradores artificiais para impedir a morte das pessoas atingidas pela COVID-19.

Existe um ar palpável de desespero e histeria na tentativa do governo dos EUA de mudar o foco das atenções com a escalada das ameaças militares contra a Venezuela e o Irã. Longe de um grande plano para arrebanhar a população dos EUA em torno de um fervor patriótico de guerra, essas ações inconsequentes são sintomáticas de um regime assolado por crises e instabilidade extremas.

O que uma guerra dos EUA contra o Irã ou a Venezuela poderia realizar nas condições atuais? Só serviria para desacreditar ainda mais o capitalismo estadunidense, cada vez mais visto como um fracasso absoluto enquanto a população mundial assiste horrorizada às cenas de pacientes com COVID-19 fazendo fila na porta de hospitais e de cadáveres sendo colocados por empilhadeiras dentro de caminhões refrigerados. A investida de violência militar contra qualquer um dos países só serviria para gerar um enorme sofrimento humano, novos fluxos de refugiados de guerra e uma maior propagação da pandemia.

Mesmo no seio das forças armadas dos EUA existem, sem dúvida, divergências substanciais em torno das ameaças de guerra. Enquanto navios de guerra estão sendo enviados para a América do Sul, o USS Theodore Roosevelt, um porta-aviões nuclear, supostamente o maior símbolo do poderio militar dos EUA, foi castigado pelo coronavírus, com 100 marinheiros infectados e sua tripulação, de mais de 4.000 pessoas, ameaçada pela doença. Seu capitão apelou para que fossem desembarcados, declarando: “Não estamos em guerra. Os marinheiros não precisam morrer”. O governo Trump é tão indiferente à vida de seus próprios marinheiros quanto à dos venezuelanos e iranianos alvos de sua agressão.

As declarações selvagens proferidas na Casa Branca na quarta-feira foram seguidas pela publicação de um relatório das Nações Unidas, que afirmava que a crise da COVID-19 constituía o maior desafio da humanidade desde a Segunda Guerra Mundial, que custou as vidas de mais de 70 milhões de pessoas. O relatório advertia contra “o pesadelo da doença se propagar como um incêndio no Sul do planeta, com milhões de mortos e a perspectiva de um ressurgimento da doença onde foi anteriormente suprimida”.

Entre os apelos à “solidariedade” global e à colaboração internacional – em meio à escalada do protecionismo, da guerra comercial e da xenofobia pelos governos capitalistas em todo o mundo –, o relatório clamava pelo fim das sanções e por um “cessar-fogo” global e para que “todos os países abaixem suas armas em apoio à batalha maior contra a COVID-19, a inimiga comum que ameaça agora toda a humanidade”.

A coletiva de imprensa de quarta-feira na Casa Branca deixou bem claro que isso se trata de um sonho irrealizável sob a ordem capitalista atual. O “inimigo comum” é visto apenas como mais uma arma na busca por guerras para alcançar interesses geoestratégicos e o controle de mercados e recursos.

O relatório da ONU afirma: “A pandemia da COVID-19 é um momento definidor para a sociedade moderna e a história irá julgar a eficácia da nossa resposta, não pelas ações de qualquer um dos grupos de agentes governamentais tomadas isoladamente, mas pelo grau em que a resposta for coordenada globalmente por todos os setores em benefício da nossa família humana”.

De fato, trata-se de um momento definidor, mas seu julgamento não será deixado para a história. Os trabalhadores e oprimidos de todo o planeta são testemunhas da criminalidade da ordem capitalista mundial diante da pandemia global, que resulta no sacrifício em massa de vidas humanas. A consciência de centenas de milhões de pessoas está sofrendo uma profunda transformação. O capitalismo foi exposto como um sistema falido do ponto de vista econômico, social e moral. Os atos de resistência das massas estão se espalhando por todo o planeta, desde trabalhadores de call center no Brasil até motoristas de ambulância na Índia.

Somente a classe trabalhadora, através de uma luta unificada internacionalmente pelo socialismo mundial, é capaz de oferecer uma alternativa à ameaça de destruição da humanidade.

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