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Pela construção do Partido Socialista pela Igualdade (França)!

Publicado originalmente em 15 de novembro de 2016

O Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) está criando o Partido Socialista pela Igualdade (SEP) como sua seção francesa. O SEP luta para trazer os trabalhadores na França ao programa da revolução socialista mundial promovido pelo CIQI, baseado na continuidade ininterrupta da sua defesa do trotskismo e da herança do marxismo clássico. O SEP está confiante de que, em meio à crise mundial cada vez maior do capitalismo e de seu impacto no establishment político francês, esse programa ganhará apoio crescente.

Há um quarto de século, enquanto a burocracia stalinista liquidava a URSS, defensores do capitalismo diziam que o suposto fim do perigo comunista garantia a paz, prosperidade e democracia. Ao invés disso, o que o capitalismo conseguiu nos últimos 25 anos foi relembrar aos trabalhadores internacionalmente o porquê de seus irmãos e irmãs de classe na Rússia terem sido impelidos a derrubar o sistema há um século atrás na Revolução de Outubro de 1917, liderada pelo Partido Bolchevique.

O colapso econômico global provocado pela quebra de Wall Street de 2008 e a resposta revolucionária inicial do proletariado mundial - os levantes em massa de 2011 no Egito e Tunísia - aceleraram enormemente o impulso das potências imperialistas para redividir o mundo entre si. Uma onda crescente de guerras imperialistas que cerca a Europa, desde o Oriente Médio e África até o Leste Europeu e a Ásia, ameaça resultar na explosão de uma nova guerra mundial.

Domesticamente, o capitalismo europeu repudiou o disfarce pacifista e reformista que adotou durante a Guerra Fria para reagir ao desafio político e ideológico colocado pela existência da URSS. A União Europeia (UE) impõe agressivamente ordens de austeridade em todo o continente, anulando direitos sociais enquanto entrega pacotes de resgate trilionários para os bancos e monta a infraestrutura legal e de vigilância de um estado policial. O objetivo básico dessa infraestrutura de vigilância policial é de reprimir violentamente os protestos dos trabalhadores contra a austeridade.

A situação política na França é caracterizada por uma enorme contradição. As tradições revolucionárias do proletariado francês foram um fator decisivo para o nascimento e desenvolvimento do socialismo marxista há aproximadamente dois séculos. A Revolução de Outubro encontrou grande apoio na classe trabalhadora francesa, e as lutas revolucionárias principais do proletariado na França do século XX foram, elas próprias, experiências estratégicas cruciais da classe trabalhadora internacional. Ainda assim, hoje, enquanto o capitalismo mundial se arrasta sob o peso do ímpeto de guerra cada vez maior e sob a maior crise econômica desde a Grande Depressão, nenhuma tendência política na França fora do CIQI propõe como seu objetivo a derrubada revolucionária do capitalismo pela classe trabalhadora e a construção do socialismo.

Ao invés disso, as forças que dominaram a política de “esquerda” desde 1968 são intensamente hostis ao socialismo e à classe trabalhadora. A revolta popular está explodindo contra a agenda reacionária de guerra, austeridade e ataques contra direitos democráticos, levada adiante pelo Partido Socialista (PS) e seus satélites políticos ao longo de todo um período histórico. Está cada vez mais claro que a fundação do PS em 1969, o colapso ao longo de décadas do Partido Comunista Francês (PCF) stalinista, além da dominação da política de “extrema-esquerda” oficial por figuras do movimento estudantil pós-1968, deixaram os trabalhadores sem qualquer representação política.

Conforme o próprio presidente francês, François Hollande, disse em um encontro de banqueiros de Londres durante a sua campanha eleitoral em 2012, “Não há mais comunistas na França hoje. A esquerda liberalizou a economia e abriu os mercados para o setor financeiro e a privatização. Não há nada a temer”.

Por décadas, o PS e seus aliados buscaram redefinir a política de “esquerda” alinhando-a com as preocupações de estilo de vida de seções privilegiadas da classe média. Eles promoveram não a oposição ao imperialismo, mas o apoio às suas guerras “humanitárias”; não a luta de classes, mas o “diálogo social” entre a burocracia sindical e os grandes negócios; não a solidariedade internacional dos trabalhadores, mas a islamofobia e o nacionalismo. Na medida em que essas forças podem adotar uma postura de representantes do socialismo, elas apenas levam eleitores revoltados e desesperados a apoiar a Frente Nacional (FN) neofascista.

Mas a luta de classes não permite interrupções. Os partidos existentes são ferramentas políticas da classe dominante, então a tarefa crítica é a construção de uma alternativa revolucionária para a classe trabalhadora. O SEP está lutando para se desenvolver como o partido de vanguarda de massas da classe trabalhadora, baseando-se na continuidade da luta do CIQI pelo trotskismo contra a social democracia, o stalinismo e o antimarxismo pequeno-burguês.

A classe dominante foi incapaz de erradicar todas as memórias de Trotsky e do trotskismo na França. Elas estão para sempre associadas com a oposição à traição do stalinismo nas oportunidades revolucionárias da França do século XX: a greve geral de 1936, a libertação da ocupação nazista em 1944, e a greve geral de 1968.

O SEP está ciente, entretanto, que simplesmente se declarar trotskista não vai conquistar as massas de trabalhadores e a juventude, ou esclarecer o conteúdo do programa do partido. Por 45 anos, o trotskismo foi associado falsamente na França com os descendentes daqueles que abandonaram o trotskismo, que operam na periferia ou dentro do PS. O CIQI não tem seção francesa desde 1971, quando a Organização Comunista Internacionalista (OCI - que hoje é o Partido Operário Democrático Independente - POID) de Pierre Lambert rompeu com a Liga Operária Socialista (SLL) no Reino Unido, então a seção líder do CIQI. A OCI se juntou a um agrupamento internacional de grupos pequeno-burgueses - incluindo, na França, a Liga Comunista Revolucionária (LCR - hoje, o Novo Partido Anticapitalista - NPA) e o Luta Operária (LO) - contra os quais o CIQI foi criado em 1953. O fato de que tais partidos não oferecem qualquer alternativa ao PS foi mostrado recentemente pelo papel do seu aliado grego, o Syriza. Depois de formar um governo na Grécia no ano passado, o Syriza implementou obedientemente a ordem de austeridade da UE.

O SEP luta para esclarecer os trabalhadores avançados sobre a oposição irreconciliável entre a luta trotskista do CIQI pelo internacionalismo proletário e esses partidos de pseudoesquerda. A postura do SEP em relação a eles é implacavelmente hostil. O partido não considera qualquer uma dessas organizações trotskista ou que essas organizações possam ser pressionadas a adotar políticas trotskistas. O SEP rejeita com desprezo acusações de que é “sectário”, com as quais eles querem dizer que luta por princípios políticos. O SEP baseia sua oposição a eles nas lições históricas e políticas das décadas de luta revolucionária levada adiante pelo CIQI e seus antecessores.

O PCF e a falência do stalinismo

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial até a greve geral de 1968, o partido líder da classe trabalhadora francesa foi o Partido Comunista da França (PCF). Ele usou seus laços próximos com o Kremlin e sua ascensão à liderança do movimento de resistência armada contra a ocupação nazista durante a Segunda Guerra para se apresentar como o herdeiro francês da Revolução de Outubro. O partido explorou esse prestígio para promover uma visão nacionalista e trair as grandes oportunidades revolucionárias na França do século XX. Ao longo do último meio século, foi descreditado pela sua traição da greve geral de 1968, seu apoio e participação nos governos do PS, e seu apoio à restauração do capitalismo na URSS pelo Kremlin. Seu histórico confirmou a crítica de Trotsky ao stalinismo como uma reação contrarrevolucionária e antimarxista à perspectiva da revolução socialista mundial.

Em 1935, a Terceira Internacional dominada pelo stalinismo adotou a estratégia de apoiar partidos burgueses em alianças de Frente Popular, abandonando conscientemente a luta pela revolução socialista fora da URSS. Essa estratégia, que implicava o repúdio da revolução internacional e a adoção da teoria do “socialismo em um país” na URSS, violava diretamente um princípio importante do marxismo: a necessidade de estabelecer a independência política da classe trabalhadora em relação à burguesia. Ela produziu derrotas terríveis internacionalmente. Na Espanha, um governo de Frente Popular suprimiu levantes de trabalhadores e levou a República Espanhola à derrota na luta contra a rebelião fascista do Generalíssimo Francisco Franco. O governo de Frente Popular francês resistiu à greve geral de 1936, que os stalinistas traíram em troca de concessões acordadas com federações de negócios francesas, e esmagou a onda de greves que continuou até 1938.

Logo após a greve geral francesa de 1936, Stalin lançou os Processos de Moscou, que difamaram os antigos líderes bolcheviques sobreviventes da Revolução de Outubro como terroristas e fascistas. Os julgamentos abriram o caminho para o Grande Expurgo e o genocídio político de marxistas dentro da Comunista Internacional, que culminou no assassinato de Trotsky. Conforme o Partido Comunista na França isolava as greves que se seguiram à greve geral de 1936 e permitia que o governo as suprimisse, ele atacava agressivamente Trotsky e seus apoiadores. A sua liderança mais alta publicou calúnias contra Trotsky e os antigos bolcheviques no jornal do PCF, L’Humanité, e ajudou a organizar o assassinato de trotskistas pela GPU internacionalmente.

O stalinismo bloqueou a última chance do proletariado europeu prevenir a devastação e carnificina em massa da Segunda Guerra Mundial através da revolução social. Ele construiu o caminho na França para a chegada ao poder do regime fascista Vichy, conforme a burguesia adotava o derrotismo após a invasão nazista em 1940. A Assembleia Nacional votou para entregar todos os poderes para o marechal Philippe Pétain, que coordenou a colaboração com os nazistas. O PCF foi forçado a uma existência secreta, após aprovar o pacto de não-agressão Stalin-Hitler em 1939.

Alinhado com a política contrarrevolucionária do Kremlin de dividir o mundo com o imperialismo estadunidense e britânico em esferas de influência durante a Segunda Guerra, o PCF traiu a oportunidade revolucionária oferecida pela libertação da França da ocupação nazista. Ele usou seu papel dominante na Resistência Francesa para ajudar o general Charles de Gaulle, junto às autoridades estadunidenses e britânicas, a organizar uma Quarta República capitalista e acobertar os crimes do fascismo europeu. Adotando a afirmação enganosa de De Gaulle de que a França “resistiu”, e bloqueando a condenação legal dos colaboracionistas, o PCF dispersou os comitês de fábrica em corpos co-administrados controlados pelos chefes, dissolveu as milícias da Resistência dentro do exército de De Gaulle, e contribuiu com ministros no governo de De Gaulle. O PCF permitiu que guerras coloniais continuassem, sendo as mais notáveis na Indochina e então na Argélia, e provou-se um pilar de estabilidade em todas as crises da Quarta República, traindo as greves de insurreição de massa de 1947 e a greve geral de 1953. Baseado nisso, teve apoio amplo entre intelectuais, que procuravam dar às suas teorias uma coloração “esquerdista” ou mesmo marxista, mas que se opunha à revolução socialista.

A falsa equivalência da Revolução de Outubro com o PCF teve, em última instância, consequências fatais para o movimento de trabalhadores francês que surgia após a libertação da ocupação nazista. Milhões de trabalhadores entraram nos sindicatos e no PCF, em condições nas quais o capitalismo havia sido profundamente descreditado pelos crimes do fascismo. Entretanto, eles estavam entrando em organizações envenenadas por uma visão nacionalista, cujas falsas afirmações de representar a revolução eram baseadas em mentiras históricas: o encobrimento dos crimes do fascismo na França, a defesa inflexível do PCF dos Processos de Moscou, e a negação do papel do trotskismo como a continuação da Revolução de Outubro.

A guerra da Argélia de 1954-1962 logo expôs o papel reacionário do establishment político da Quarta República, do qual o PCF era parte integral. Quando o chefe de estado Guy Mollet, da Seção Francesa da Internacional dos Trabalhadores (SFIO) social democrata pediu por créditos de guerra e poderes especiais, o PCF votou a seu favor. Em seguida, o partido não se opôs a um golpe abortado contra Mollet, que retornou De Gaulle ao poder em 1958 e levou à criação da Quinta República. O uso da França da tortura e o assassinato de centenas de milhares de argelinos expôs o regime pós-guerra. Os métodos dos paraquedistas franceses e das forças de segurança na Argélia relembraram aqueles usados, pouco mais de uma décadas antes, pelas autoridades fascistas na França. Além disso, enquanto os protestos antiguerra eram enfrentados com repressão mortal, o prefeito de Paris e ex-autoridade Vichy, Maurice Papon, coordenou o massacre sangrento do protesto de argelinos de 17 de outubro de 1961, convocado pela Frente de Libertação Nacional (FLN).

A explosão da greve geral de maio a junho de 1968 na França foi um ponto alto em uma onda de lutas da classe trabalhadora internacionalmente que destruiu o equilíbrio capitalista pós-guerra e, na França, minou o PCF e o regime de De Gaulle. Um ataque policial sangrento contra estudantes em protesto na Sorbonne provocou uma resposta massiva no proletariado. Mais de dez milhões de trabalhadores entraram em greve, conforme bandeiras vermelhas eram erguidas sobre fábricas de todo o país, e a economia francesa era parada. Quando De Gaulle fez uma viagem urgente para visitar seus generais em Baden-Baden, ele descobriu que tropas sob seu comando não poderiam ser confiadas a marchar sobre Paris para esmagar os protestos.

A classe trabalhadora internacional demonstrou seu imenso potencial revolucionário. De 1968 até 1975, massivas lutas dos trabalhadores, levantes anticoloniais e protestos da juventude se espalharam em todo o mundo. O colapso das ditaduras na Espanha, Portugal e Grécia, a renúncia do presidente Richard Nixon, e a derrota de Washington na guerra do Vietnam, em meio a greves e protestos massivos nos Estados Unidos, estremeceram o capitalismo global até as suas bases.

O obstáculo principal para a revolução socialista era a crise da liderança revolucionária na classe trabalhadora. Em 1968 na França, o PCF e a CGT bloquearam novamente uma luta por poder pela classe trabalhadora, sustentando o governo de De Gaulle, negociando concessões de salários nos Acordos de Grenelle, e, ao longo de várias semanas, organizando um retorno ao trabalho. Enquanto o PCF conseguia parar uma revolução, ele minava as ilusões de que era um partido revolucionário.

A ascensão do Partido Socialista

O que surgiu do descrédito do PCF pelos eventos de 1968 não foi, entretanto, um partido revolucionário de massas na classe trabalhadora, mas o PS. Criado nos congressos realizados em 1969 e 1971 em Alfortville e Epinay, desde o início não era um partido socialista, mas um partido do capital financeiro. Também não era uma nova versão do SFIO. Lançar um tal partido seria, em si, uma iniciativa reacionária, dado que o SFIO era um fiel servo da burguesia: ele apoiou a Primeira Guerra Mundial e se opôs à Revolução de Outubro; a maior parte dos seus deputados votou por Pétain em 1940; e entrou na guerra da Argélia. Porém, o PS era uma coalizão muito mais ampla.

O PS foi planejado como um veículo eleitoral para François Mitterrand, uma ex-autoridade Vichy e ministro da justiça no governo Mollet, que havia mantido laços próximos com líderes da polícia Vichy, tais como René Bousquet, que colaborou com o Holocausto. Ele incluía uma seção do SFIO; a Convenção das Instituições Republicanas de Mitterrand, que incorporou forças do antigo Partido Radical conectadas a Vichy; forças social-católicas, como os apoiadores da revista Esprit; e intelectuais de “esquerda”, ex-stalinistas e ex-trotskistas do Partido Socialista Unificado (PSU). O PS era um partido burguês recrutado principalmente a partir da máquina estatal, da mídia e da academia. Entretanto, ele foi forçado a se apresentar como “socialista” sob condições de um aumento de protestos entre os trabalhadores e a juventude, nos quais o PCF e o movimento trotskista mantinham influência.

Seu objetivo, conforme Mitterrand explicou posteriormente para autoridades estadunidenses, era destruir a base eleitoral do PCF, tornar-se o principal partido de “esquerda” e tomar o poder. O PS se apresentou como socialista criticando o PCF e os crimes históricos do stalinismo revelados nos anos 1960 e 1970. Essas críticas não foram feitas do ponto de vista da classe trabalhadora, baseadas na defesa de Trotsky da democracia soviética contra a burocracia stalinista, ou uma crítica trotskista do papel contrarrevolucionário do PCF. Ao invés disso, o PS promoveu o anticomunismo e ilusões na democracia burguesa.

O PS se aproveitou do deslocamento para a direita do PCF, que fora surpreendido com a greve geral de 1968. O PCF reagiu às lutas revolucionárias de 1968-1975 assinando um Programa Comum com o PS e o Movimento Radical de Esquerda burguês em 1972 e renunciando à ditadura do proletariado em 1976, em meio à virada “euro-comunista”. O Programa Comum, apesar de estar envolto na aura das concessões sociais entregues temporariamente pela Frente Popular em 1936, não preparou ganhos sociais, mas uma época inteira de guerra social contra a classe trabalhadora.

O PS dependeu, acima de tudo, da guerra ao marxismo iniciada por amplas seções de intelectuais franceses. Os intelectuais de “esquerda”, que, em grande parte, haviam se deslocado do PCF para o maoísmo depois da guerra da Argélia e do Discurso Secreto de Nikita Khrushchev admitindo os crimes de Stalin, avançaram ainda mais para a direita depois da greve geral de 1968. Temendo o seu encontro com a revolução social, eles abandonaram seu flerte com o marxismo sob a égide do PCF, organizando, ao invés disso, uma campanha midiática e política em apoio ao PS.

Diversas forças, desde os “novos filósofos” liderados por Bernard Henri-Lévy, até o pós-estruturalista Michel Foucault e o historiador da Revolução de 1789, François Furet, atacaram o “totalitarismo” e o apresentaram como o resultado inevitável da revolução social. Ao mesmo tempo em que o conceito de “totalitarismo” criava uma amálgama reacionária entre o comunismo, stalinismo e o fascismo, o alvo dessa campanha não era nem o fascismo nem os crimes de Stalin. Ela não atacou ex-autoridades Vichy na França, como Bousquet ou Mitterrand, ou o genocídio político do Kremlin contra o marxismo. Ao invés disso, essas forças atacaram o comunismo e o marxismo, baseadas em uma crítica de direita das políticas anti-democráticas do Kremlin. Elas promoveram oposicionistas pró-livre mercado alvos da repressão do Kremlin, como Alexander Solzhenitsyn. Em silêncio sobre os crimes do imperialismo e hostis a uma luta da classe trabalhadora soviética para derrubar a burocracia stalinista, tais forças construíram a base teórica para um apoio de “esquerda” ao anticomunismo, à restauração capitalista na URSS e, depois, às guerras “humanitárias” iniciadas pelo imperialismo contra ex-países coloniais, cujos líderes também eram apresentados como “totalitários”.

Elas também atacaram a luta pelo poder dos trabalhadores, defendendo a “autoadministração” em seu lugar. Conectados inicialmente a uma tentativa fracassada dos trabalhadores de tomarem e operarem a fábrica falida de fabricação de relógios, Lip, chamados pela “auto-administração” tomaram um conteúdo amplo, anti-marxista. O líder do PSU, Michel Rocard, constatou que o conceito era ambíguo, mas tinha a vantagem de que “era acompanhado por uma rejeição do tipo de regime que a URSS impõe”. Mais diretamente, a Esprit alertava que a luta social baseada nos “princípios... do socialismo produz um estado totalitário”, e, no seu lugar, elogiava a autoadministração como a “castração do desejo por poder”.

Isso criou o palco para Mitterrand subir ao poder em 1981, com o apoio do PCF. Explorando a insatisfação massiva com o impacto da crise econômica dos anos 1970 e as políitcas de austeridade do presidente conservador Valéry Giscard d’Estaing, Mitterrand prometeu nacionalizar empresas importantes e aumentar o poder de compra. Porém, após subir ao poder, ele logo repudiou seu programa. Defrontado com uma fuga imprevisível de capital da França, ele se recusou a impor controles de capitais, declarando, ao invés disso, uma “virada de austeridade”, cortando gastos sociais e empregos.

As traições de Mitterrand das promessas de eleição do PS produziram choque, raiva e desilusão entre os trabalhadores. Entretanto, em última instância, como nenhum partido na França lutou por uma política revolucionária, politicamente independente contra o PS, essa oposição não encontrou expressão organizada. Nessa situação absurda, enquanto o abismo de classe entre os trabalhadores e as forças privilegiadas no movimento estudantil e na burocracia estatal se tornava cada vez maior, o movimento dos trabalhadores começou a se desintegrar. Os sindicatos entraram em colapso, com a atividade de greve e participação nos sindicatos em queda, e os próprios surgindo como uma força policial das empresas, financiada majoritariamente pelo setor de negócios. A pequena-burguesia radicalizada criou diversas organizações controladas pelo PS e seus aliados políticos, como o SOS-Racismo e os sindicatos estudantis. Elas serviram para monitorar a população e, quando necessário, organizar protestos limitados como uma válvula de segurança para a oposição.

A crise do movimento trotskista na França e o rompimento da OCI com o CIQI

Se o partido que passou a dominar na França depois de 1968 foi o PS, um partido que atacava o PCF pela direita, a causa disso, acima de tudo, foi a crise do movimento trotskista e a traição da OCI, que bloqueou o surgimento de uma alternativa na esquerda. A OCI rompeu com o CIQI e adotou a perspectiva da União da Esquerda, buscando uma aliança política e eleitoral com o PS e o PCF. Ao mesmo tempo em que dizia que essa perspectiva produziria uma frente única de organizações de trabalhadores, ela produziu, na realidade, um reagrupamento antioperário, dominado pelo PS, um partido burguês.

Esse foi um repúdio flagrante da luta pela independência política da classe trabalhadora e da luta contra as influências burguesas dentro do próprio movimento trotskista, que estava no centro do trabalho de Trotsky e do CIQI. Ao adotar a perspectiva da União da Esquerda, a OCI ajudou a criar a forma política dos governos burgueses de “esquerda” na França ao longo do último meio século, reunindo-se com um amplo agrupamento pequeno-burguês alinhado ao PS.

Ele incluiu o grupo Luta dos Trabalhadores (LO), fundado em 1956 como a organização sindical Voix Ouvriére, e renomeado LO em 1968. Incluía ainda membros de um grupo ativo nos anos 1930 e 1940 liderado por David Barta. O grupo de Barta declarava lealdade ao trotskismo, mas recusava juntar-se à Quarta Internacional (QI) com argumentos antimarxistas de que a classe trabalhadora lutaria apenas com base no nacionalismo, e que a QI era portanto uma organização pequeno-burguesa. Apesar do grupo de Barta organizar ações conjuntas com a QI, lutando pela greve da Renault que provocou as greves de massa de 1947, ele mantinha laços próximos com círculos anarco-sindicalistas. O LO tem sido apresentado como trotskista pela mídia e a elite política nas campanhas à presidência da sua candidata, Arlette Laguiller, mas é um satélite confiável do PS. O alinhamento do LO ao nacionalismo e anarco-sindicalismo explica o seu papel em acobertar as traições sindicais das lutas dos trabalhadores, incitando o ódio antimuçulmano ao apoiar o banimento do véu e da burca, e apoiando implicitamente a política externa do imperialismo francês.

O CIQI foi fundado em 1953 lutando diretamente contra a tendência pablista revisionista na Quarta Internacional (QI), da qual a LCR/NPA é descendente. Essa tendência surgiu dentro do Secretariado Internacional em Paris, liderada por Michel Pablo e Ernest Mandel, que expulsaram inicialmente a maioria da seção francesa por esta se opor à sua linha política. O CIQI interveio para defender o trotskismo contra Pablo e Mandel, que insistiam que a QI se liquidasse nos partidos stalinistas e nacionalistas burgueses que haviam surgido na liderança dos movimentos trabalhistas de massa e levantes anticoloniais depois da Segunda Guerra Mundial. Os pablistas previam que a “guerra-revolução”, travada entre os regimes stalinista e imperialista, substituiria a revolução através da mobilização independente da classe trabalhadora, que aconteceu na Rússia em outubro de 1917; “guerra-revoluções” vitoriosas produziriam ditaduras, como os regime stalinistas na China e Leste Europeu, durando séculos, a partir dos quais o socialismo se desenvolveria no futuro distante.

A história logo refutou as previsões de Pablo e Mandel. Menos de quatro décadas depois, os regimes stalinistas na URSS, China e Leste Europeu restauraram o capitalismo, e regimes nacionalistas nos ex-países coloniais se abriram para o capital financeiro imperialista.

Muito antes, os eventos demonstraram o papel contrarrevolucionário do pablismo. O rompimento do CIQI com os pablistas ocorreu apenas meses depois da traição da greve geral de 1953 pelo PCF, ao qual os pablistas haviam se adaptado. A falência do regime burguês argelino, que surgira da guerra em 1962, também tornou clara a perspectiva pablista de se alinhar à burguesia dos países coloniais. Diferente da OCI, que havia tentado sem sucesso desenvolver um movimetno trotskista argelino através de discussões com elementos no Movimento Nacional Argelino de Messali Hadj, os pablistas sequer tentaram desenvolver um movimento na Argélia. Ao invés disso, eles imprimiram dinheiro falso e ajudaram a armar a FLN, para a qual Pablo serviu brevemente como assessor, antes de deixar o país após o golpe de Boumédiène.

O CIQI se opôs ao pablismo, que se adaptou às forças stalinistas e nacionalistas burguesas predominantes, explicando que este constituía um ataque pequeno-burgês contra o marxismo. Ao reduzir a política ao conflito entre os governos imperialistas e stalinistas, o pablismo rebaixava a classe trabalhadora internacional, a força central no marxismo clássico, a uma posição de irrelevância. Além disso, ele adotava muitas visões compartilhadas pela burguesia francesa. A oposição agressiva do pablismo à continuação da existência independente do movimento trotskista obedecia preconceitos pequeno-burgueses amplamente disseminados contra o instrumento político central do marxismo: o partido proletário revolucionário.

Apesar da maioria da seção francesa ter sido oposta ao pablismo, ela adotou uma posição gradualmente cética em relação à história do CIQI e do movimento trotskista. No Terceiro Congresso de 1966 do CIQI, ela trouxe consigo uma delegação do Voix Ouvrière e começou a defender a “reconstrução” da Quarta Internacional. A formulação “reconstruir” significava um realinhamento centrista para longe da intransigência que caracterizava a luta do CIQI contra o pablismo, e um deslocamento na direção da camada mais ampla de satélites pequeno-burgueses da social democracia e do PCF.

Em 1968, a OCI buscou alinhar protestos estudantis aos trabalhadores e chamou uma greve decisiva na fábrica Sud Aviation, em Nantes, que ajudou a provocar a greve geral. A OCI, entretanto, adotou uma linha sindicalista, defendendo apenas a formação de um comitê de greve central, reagrupando todos os sindicatos e partidos de trabalhadores. A SLL britânica criticou corretamente a OCI por não chamar pela tomada do poder pelo PCF e a Confederação Geral do Trabalho (CGT) stalinista, com o objetivo de levantar a questão do poder de estado com os trabalhadores, expor a política contrarrevolucionária do PCF, e se colocar em uma posição para lutar pela liderança política da classe trabalhadora. A posição cada vez mais centrista e cética da OCI teve consequências fatais quando o aumento do radicalismo, depois de 1968, produziu um acentuado fluxo de entrada de novos membros no partido, primariamente provenientes da juventude estudantil.

Em 1971, a SLL e a maioria das seções do CIQI anunciaram um rompimento com a OCI. As críticas da SLL ao oportunismo da OCI eram amplamente justificadas. Isso foi ilustrado na carreira de Lionel Jospin, que, inicialmente membro da OCI e do PS simultaneamente em segredo, passou a ser assessor principal de Mitterrand e, depois, o primeiro-ministro da França. Ainda assim, a SLL não conseguiu realizar o rompimento em conjunto com um esclarecimento necessário das questões políticas. Nem buscou alcançar forças de dentro da OCI ou construir um partido na França. O rompimento prematuro, que impediu uma discussão sobre as questões políticas essenciais, liquidou efetivamente o trotskismo na França ao longo de uma época histórica inteira como uma tendência política organizada, e provou ter consequências políticas sérias para a própria SLL no Reino Unido.

Durante o rompimento de 1971, a OCI defendeu sua linha sindicalista em 1968 e seu alinhamento ao PS. Ela alegava que o chamado da SLL por um governo PCF-CGT teria significado dividir a classe trabalhadora, isolando os sindicatos social democratas em que a OCI tinha apoio, e bloqueando uma frente única de organizações dos trabalhadores. Suas posições não apenas desconsideravam o fato de que a vasta maioria dos trabalhadores militantes procurava no PCF, e não nos sindicatos social democratas, uma política revolucionária em 1968, mas também falsificavam o caráter de classe do PS, que é um partido burguês.

A entrada da OCI em uma aliança política duradoura com o PS era um repúdio fundamental da perspectiva do CIQI. Abandonando a luta pelo trotskismo e pela independência política da classe trabalhadora, a OCI se converteu em um partido burguês. Ela adotou a perspectiva da União da Esquerda, que se provou a forma política dentro da qual o PS exercia seu papel dominante, começando com a presidência de Mitterrand em 1981. A OCI enviou seus membros para dentro do PS, funcionando como uma fração do PS e das burocracias sindicais. Ela teve esse papel não apenas na França, mas também usou sua influência para organizar partidos anti-classe trabalhadora internacionalmente, mais notoriamente na América Latina, onde ajudou a criar o Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil. Dissolvendo-se politicamente nesses partidos burgueses, os lambertistas não estavam tentando trazer forças para o trotskismo, mas se tornar disponíveis para oferecer cobertura para as políticas da burguesia francesa, brasileira e internacional.

O rompimento do CIQI com o WRP

Depois do seu rompimento não esclarecido com a OCI em 1971, a SLL começou a adotar políticas similares no Reino Unido. Renomeando-se Partido Revolucionário dos Trabalhadores (WRP), cresceu com base na oposição popular ao governo conservador de Edward Heath, mas começou a diminuir a importância da luta do CIQI contra o pablismo. Quando o Partido Trabalhista retornou ao poder em 1974 e o WRP lutava para continuar a crescer entre os trabalhadores, este buscou apoio em outros lugares nas costas do resto do CIQI - em laços com nacionalistas do Terceiro Mundo e frações da burocracia sindical e do establishment político.

Em 1982, a oposição dentro do CIQI à degeneração do WRP culminou na formulação de críticas políticas e teóricas da linha política do WRP por David North, o secretário nacional da Liga dos Trabalhadores, o partido estadunidense em solidariedade com o CIQI. Em 1985, depois que a crise entre frações explodiu dentro do WRP, o CIQI suspendeu o WRP como sua seção britânica e readmitiu os membros da seção britânica que aceitaram a autoridade e perspectiva internacional do CIQI. O CIQI publicou uma denúncia completa da WRP, Como o WRP traiu o trotskismo, e A herança que defendemos, de David North, defendendo a história da luta do CIQI pelo trotskismo de um ataque enraivecido do secretário geral do WRP, Michael Banda. Esses documentos demonstraram como o CIQI defendeu o trotskismo da adaptação do WRP ao Partido Trabalhista e às burocracias sindicais e de sua adoção do nacionalismo burguês.

O CIQI organizou uma poderosa ofensiva política contra o revisionismo pequeno-burguês conforme o conflito objetivo entre a classe trabalhadora e as burocracias antigas do movimento dos trabalhadores, alinhadas ao nacionalismo, além dos partidos pequeno-burgueses que as orientavam, crescia para níveis sem precedentes. Houve traições sindicais de grandes greves internacionalmente, incluindo a greve da PATCO de 1981 nos Estados Unidos e a greve dos mineiros britânicos de 1984-1985 na Europa e, acima de tudo, o anúncio das reformas de livre-mercado da perestroika pelo regime soviético do chefe de estado Mikhail Gorbachev.

Os anos que precederam a restauração do capitalismo na URSS deixaram clara a divisão de classe separando o CIQI de grupos pequeno-burgueses se movendo para a direita como a LCR e a OCI. Na mesma linha de governos imperialistas importantes, elas elogiaram a perestroika, tratando-a como uma reforma democrática pela burocracia. O CIQI, sozinho, baseou-se no aviso de Trotsky de que a burocracia stalinista agiria em última instância para restaurar o capitalismo na URSS, e alertou que as reformas de Gorbachev levariam à restauração do capitalismo se os trabalhadores soviéticos não derrubassem a burocracia.

A restauração do capitalismo na China e no Leste Europeu, e, finalmente, a dissolução da URSS em 1991, marcaram uma mudança histórica e política. Os alertas de Trotsky sobre o papel contrarrevolucionário do stalinismo, feitos mais de meio-século antes, foram totalmente confirmados. Os partidos stalinistas europeus, que haviam perdido apoio continuamente depois de 1968, entraram em colapso. Ignorando a desintegração industrial e econômica que ocorreu nas repúblicas pós-soviéticas capitalistas e a ascensão de uma oligarquia criminosa, reacionários declararam que esse colapso marcava o fim da história e o triunfo final do capitalismo.

Em oposição a essas forças, o CIQI insistiu que a restauração do capitalismo, enquanto certamente um golpe contra a classe trabalhadora internacional, não significava o fim da época da guerra imperialista e da revolução socialista mundial, que havia começado aproximadamente um século antes. A dissolução da URSS não havia resolvido as contradições fundamentais do capitalismo identificadas pelo marxismo. De fato, os mesmos processos econômicos e conflitos geoestratégicos que haviam minado a URSS, e pressionado o regime stalinista a restaurar o capitalismo, também estavam minando o sistema imperialista mundial.

O CIQI apontou para o desenvolvimento da globalização econômica e corporações transnacionais que organizam as cadeias de suprimentos globais em uma luta agressiva pela maximização do lucro. Esses processos tornavam impossível buscar uma política econômica ou negociar por salários e condições em um nível nacional. As estratégias de “desenvolvimento nacional” das burguesias dos ex-países coloniais, as negociações baseadas nacionalmente das burocracias sindicais, e a orientação autárquica do stalinismo, haviam se tornado obsoletas. Ao invés disso, todas elas funcionavam cada vez mais abertamente como prestadoras de serviço, competindo para cortar os salários e condições dos trabalhadores para oferecer o maior lucro para o capital financeiro internacional.

A crise social intensificada andava de mãos dadas com uma crise crescente da ordem imperialista global. Os processos de globalização, e a resultante redistribuição do poder econômico, minaram não apenas os padrões de vida dos trabalhadores, mas também a base objetiva da hegemonia global dos EUA. Apesar dos sonhos insanos do imperialismo estadunidense de que o desaparecimento da sua superpotência rival permitiria a ele compensar seu relativo declínio econômico recorrendo à força militar, suas tentativas de conquistar ou dominar militarmente o Oriente Médio e a Ásia Central levaram apenas ao desastre. Era impossível retornar às formas de vida econômica antigas, de base nacional. Ainda assim, a globalização do capitalismo trouxe todas as contradições, que em décadas prévias haviam explodido em guerras mundiais e revoluções, a um nível mais alto. Essa era e permanece a base objetiva para a revolução socialista mundial.

Entretanto, a questão decisiva enfrentando a classe trabalhadora internacional era a crise da liderança revolucionária e da perspectiva política e histórica. O CIQI lutou para articular a base para o desenvolvimento da consciência socialista na nova época, e trazer consciência socialista à classe trabalhadora. Ele trabalhou incansavelmente para refutar os representantes acadêmicos da escola pós-soviética de falsificação histórica, que atacaram Trotsky e insistiram que não havia alternativa socialista ao stalinismo e à dissolução da URSS.

Em 1995, as seções nacionais do CIQI, previamente organizadas como ligas, reorganizaram-se como partidos Socialistas pela Igualdade. Sustentando essa iniciativa havia uma mudança na concepção da relação do CIQI com a classe trabalhadora. O CIQI insistia que a virada para políticas abertamente antioperárias pelas organizações antigas, de base nacional, além da desintegração da sua base na classe trabalhadora, tornava impossível a luta para reorientar a classe trabalhadora colocando demandas sobre essas organizações e convencendo os trabalhadores dentro destas. O Partido Socialista pela Igualdade (SEP) dos Estados Unidos explicou: “Em todo o mundo, a classe trabalhadora é confrontada com o fato de que os sindicatos, partidos e mesmo governos que criou em um período anterior foram transformados em instrumentos diretos do imperialismo. Os dias em que as burocracias trabalhistas ‘mediavam’ a luta de classes e tinham o papel de tampão entre as classes acabaram... Não podemos resolver a crise da liderança da classe trabalhadora ‘exigindo’ que outros ofereçam essa liderança. Deve haver um novo partido, então nós precisamos construí-lo”.

Em 1998, o CIQI lançou o World Socialist Web Site como um jornal socialista online. Através do WSWS, as seções do CIQI articulam coletivamente uma linha política comum e oferecem análises, perspectiva e liderança para as lutas da classe trabalhadora mundial. Na trajetória de mais de 18 anos de publicações diárias, o WSWS se firmou como o site socialista mais lido no mundo.

A luta do CIQI contra a pseudoesquerda na França

O intenso trabalho político e teórico do CIQI formou a base para a sua intervenção na França. Houve lutas de classe e protestos sociais significativos nos anos 1990 e 2000: greves contra cortes na aposentadoria, incluindo a greve ferroviária massiva de 1995, e protestos da juventude contra a reforma do Contrato do Primeiro Emprego (CPE). Durante esse período, em resposta ao colapso do PCF, camadas de trabalhadores buscaram se alinhar a uma alternativa trotskista. Entretanto, eles foram bloqueados pelo papel reacionário da LCR, LO e a OCI. Tendo apoiado a restauração capitalista na URSS, esses partidos desenvolveram laços mais próximos com os moribundos partidos stalinistas e social democratas na Europa, e se integraram cada vez mais profundamente na mídia, academia e burocracias sindicais. Enquanto se apresentavam como de “esquerda”, eles apoiaram a guerra imperialista, austeridade social e ataques contra os direitos democráticos.

O período desde a crise da eleição à presidência de 2002 demonstra sua falência. Naquele ano, o candidato do PS, Lionel Jospin, foi eliminado no primeiro turno e protestos irromperam contra um segundo turno entre o conservador, Jacques Chirac, e o candidato da FN, Jean-Marie Le Pen. A LCR, LO e o Partido dos Trabalhadores (PT - a ex-OCI) ganharam coletivamente três milhões de votos. Naquele mesmo ano, protestos antiguerra internacionais irromperam contra a invasão ilegal dos EUA no Iraque, que foi iniciada em última instância em 2003. A LCR, LO e PT se provaram, entretanto, capazes apenas de desperdiçar essa oportunidade.

O CIQI publicou uma carta aberta para os três partidos, propondo uma campanha por um boicote ativo do segundo turno. Sem esconder suas discordâncias políticas com eles, o CIQI explicou que um boicote ativo, mobilizando os trabalhadores em luta, melhor prepararia a classe trabalhadora para se opor às políticas que Chirac procuraria implementar. Entretanto, esses partidos não se preocuparam em responder, e simplesmente se alinharam à campanha do PS por um voto em Chirac, supostamente para impedir a subida do neofascismo ao poder.

Nos quatorze anos seguintes, eles seguiram Chirac e o PS enquanto a elite dominante se virava na direção do neofascismo e iniciava uma série de guerras neocoloniais. Mesmo enquanto o governo francês abandonava sua oposição inicial à guerra do Iraque, essas organizações supostamente de “extrema esquerda” apoiaram leis antimuçulmanas racistas contra o véu e a burca. Elas foram ainda mais à direita depois da crise financeira de 2008 e da reação inicial do proletariado internacional - levantes revolucionários de 2011 no Egito e na Tunísia. Quando seus co-pensadores gregos no Syriza subiram ao poder no ano passado, a “extrema esquerda” apoiou o primeiro-ministro Alexis Tsipras enquanto este continuava a impor medidas de austeridade da UE contra o povo. Eles apoiaram, tratando como “revoluções democráticas”, não apenas as guerras da OTAN na Líbia e na Síria, mas um golpe liderado por fascistas em Kiev que instalou um regime de extrema direita, pró-OTAN na Ucrânia, que ameaça provocar uma guerra total com a Rússia. Tais políticas colocaram o mundo à beira da guerra nuclear e do colapso econômico.

O CIQI classificou essas forças como a “pseudoesquerda”, uma tendência baseada nas camadas superiores das classes médias e na degeneração do movimento estudantil pós-1968. Elas são antimarxistas, hostis à classe trabalhadora e à luta de classes, e apoiam a guerra imperialista, a austeridade e medidas de estado policial. Produzirão apenas o desastre para a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, a insatisfação explosiva se acumulando na classe trabalhadora contra o PS e seus aliados de pseudoesquerda coloca a base política objetiva para o desenvolvimento do SEP como o partido trotskista de massas.

Setenta e oito anos atrás, a Quarta Internacional publicou seu documento de criação, o Programa de Transição, e advertiu, dois anos antes da Segunda Guerra Mundial, sobre a agonia mortal do capitalismo. Novamente, o capitalismo enfrenta uma crise histórica insolúvel, conforme todas as potências imperialistas - chocadas pela crise econômica e pelas implicações da crise terminal da hegemonia dos EUA - viram-se à guerra e à ditadura. O perigo da guerra, níveis grotescos de desigualdade social, e ataques contra os direitos democráticos predominam mundialmente. Conforme as políticas de austeridade da UE expõem seu caráter reacionário e o neofascismo cresce em toda a Europa, a guerra mundial ameaça irromper a partir das guerras no Oriente Médio, conflitos da OTAN com a Rússia no Leste Europeu, e o “pivô para a Ásia” estadunidense para isolar a China. A virada, hoje, assim como em 1938, é para a classe trabalhadora internacional e a luta pelo socialismo.

Em sua resolução de 2014 intitulada “Socialismo e a luta contra a guerra imperialista”, o CIQI escreveu: “Outro banho de sangue imperialista é não apenas possível; é inevitável, a não ser que a classe trabalhadora internacional intervenha com base em um programa marxista revolucionário... Entretanto, as mesmas contradições levando o imperialismo ao limite oferecem o impulso objetivo para a revolução social”. Ele adicionou, “A construção da Quarta Internacional, sob a liderança do Comitê Internacional, é a questão estratégica central. Ela é o único meio pelo qual a classe trabalhadora pode ser unificada internacionalmente... A tarefa do CIQI agora é de trabalhar pelo desenvolvimento de seções em novos países e áreas do mundo”.

Com base nessa perspectiva e história, o SEP (França) estabelece os seguintes princípios que vão guiar o seu trabalho político.

Princípios do Partido Socialista pela Igualdade (França)

O internacionalismo e a luta pela Revolução Socialista Mundial

Aceitando a autoridade política do CIQI, o SEP busca trazer os trabalhadores na França para o programa da revolução socialista mundial, liderada pelo CIQI. Essa revolução significa a entrada das massas na luta política consciente e sinaliza o fim da organização social da humanidade em classes e, assim, da exploração dos seres humanos por outros seres humanos. Sua tarefa dentro da França é de mobilizar a classe trabalhadora para tomar o poder político e estabelecer um estado de trabalhadores, buscando políticas socialistas, como parte dos Estados Socialistas Unidos da Europa.

O poder dos trabalhadores não pode ser estabelecido elegendo socialistas para as estruturas do estado burguês. Novos órgãos de democracia participativa, criados na trajetória das lutas revolucionárias de massa, com o objetivo de representar genuinamente a maioria de classe trabalhadora da população, precisam ser desenvolvidos como as bases do estado de trabalhadores. Tal estado, conforme introduzirá medidas essenciais para a transformação socialista da vida econômica, promoveria ativamente uma vasta expansão do controle democrático da classe trabalhadora sobre os processos de tomada de decisão. Tais mudanças são possíveis apenas no contexto de uma mobilização massiva da classe trabalhadora, munida de uma consciência socialista. Isso cria as pré-condições objetivas para o desenvolvimento de uma sociedade verdadeiramente democrática, igualitária e socialista.

Esse objetivo final pode ser alcançado apenas através de uma luta internacional para unir os trabalhadores de todos os países e criar uma federação mundial de estados de trabalhadores, coordenando democraticamente o uso e a expansão das forças produtivas, criadas sob o capitalismo globalmente integrado, para satisfazer as necessidades sociais da humanidade. Conforme Trotsky escreveu, explicando sua teoria da revolução permanente, “A revolução socialista começa na arena nacional, desdobra-se na arena internacional, e é completada na arena mundial. Assim, a revolução socialista torna-se uma revolução permanente num sentido mais novo e mais amplo da palavra: ela é completada apenas na vitória final da nova sociedade em todo o nosso planeta”.

O SEP luta para ampliar as perspectivas políticas dos trabalhadores além das fronteiras da França, e para explicar que as lutas dos trabalhadores na França estão inseparavelmente conectadas ao processo emergente da revolução socialista mundial, exigindo uma estratégia e perspectiva internacionalistas. O SEP luta contra todas as tentativas de dividir a classe trabalhadora pela discriminação sob os critérios de raça, etnia, linguagem, religião, gênero ou orientação sexual. O SEP defende o direito de todos os refugiados e imigrantes de viver, trabalhar e estudar no seu país de escolha, com todos os direitos de cidadania. Ele baseia suas políticas na unificação da classe trabalhadora internacional em luta revolucionária.

A abolição da sociedade de classes é a tarefa de uma época histórica. Os princípios do SEP são, portanto, baseados na história de toda essa época: na luta de Trotsky contra a traição da Revolução de Outubro pelos stalinistas, que teve origem na substituição do internacionalismo pelo nacionalismo pela burocracia soviética, e na ininterrupta continuidade internacional da luta do CIQI pelo trotskismo.

A crise do capitalismo

O capitalismo, e o sistema imperialista mundial que se desenvolve sobre as suas bases econômicas, são as causas principais da pobreza, exploração, violência e sofrimento humano. A história sangrenta do século XX - incluindo duas guerras mundiais, inúmeras guerras locais, e ditaduras fascistas em toda a Europa - constitui uma acusação impossível de ser defendida pelo capitalismo.

As vastas forças produtivas e avanços tecnológicos da sociedade moderna são suficientes para garantir um alto padrão de vida para toda a população do mundo. Ainda assim, a sociedade capitalista não consegue resolver qualquer um dos seus problemas econômicos, sociais, ecológicos ou culturais. Ao invés disso, as condições de vida estão em queda para amplas camadas da população, em meio à mais profunda crise econômica desde a Grande Depressão. A desigualdade social está alcançando proporções grotescas; algumas dúzias de multibilionários possuem mais riqueza do que a metade inferior da população mundial, e os 1% mais ricos possuem tanto quanto o resto do mundo.

A cultura humana, privada de perspectiva e esperança de futuro, está ameaçada novamente pelo barbarismo do fascismo e da guerra. A solução para essa crise não está na reforma do capitalismo, porque este não pode ser reformado, mas na sua derrubada. Assim como o feudalismo deu lugar ao capitalismo, o capitalismo precisa dar lugar ao socialismo.

A luta contra a guerra imperialista

A crise do capitalismo encontra sua expressão mais violenta na ampliação das guerras imperialistas de pilhagem e das rivalidades inter-imperialistas, que ameaçam novamente a humanidade com uma guerra mundial. Esses conflitos surgem das contradições fundamentais do capitalismo, analisadas por Lenin e Trotsky há um século: entre a economia global e o sistema de estado-nação, e entre o caráter social dos processos produtivos e a propriedade privada dos meios de produção. Ao mesmo tempo em que os meios de produção operam globalmente, controlados por corporações transnacionais, o capitalismo permanece baseado em um sistema de estados-nação que serve como uma plataforma de operações a partir da qual a classe capitalista de cada país busca seus interesses globais. O ímpeto incontrolável das potências imperialistas para tomar mercados, recursos vitais, acesso ao trabalho barato, esferas de influência e vantagens estratégicas leva inevitavelmente à guerra.

A França é uma potência imperialista, buscando seus interesses econômicos e militares predatórios através da guerra e intervenções internacionalmente. No século XIX, ela estabeleceu um império de dezenas de milhões de escravos coloniais em toda a África, Oriente Médio e Ásia. Hoje, conforme busca reconquistar esferas de influência, está se juntando em uma série de guerras iniciadas pelas potências imperialistas no Oriente Médio, África até a Rússia e a China, que ameaça iniciar uma nova guerra mundial.

O SEP condena as guerras feitas pela França e todas as outras potências imperialistas, e rejeita pretextos fraudulentos, avançados pelo imperialistas e seus defensores de pseudoesquerda, de que essas intervenções são lutas pelos direitos humanos ou contra o terrorismo. Ele reconhece o direito básico do povo de defender a si próprio e seus países contra invasores neocoloniais. Essa posição de princípios não diminui a oposição do SEP a atos violentos contra civis inocentes em países ocupados ou ao redor do mundo. Tais atos reacionários, que podem ser definidos legitimamente como terroristas, revoltam e desorientam a população, aprofundam as tensões étnicas e sectárias, e minam a luta pela união internacional do proletariado em luta revolucionária - a única base a partir da qual os países podem ser libertados da dominação imperialista. Ataques terroristas são usados pelas elites dominantes imperialistas para legitimar o uso da guerra.

O SEP encoraja e apoia os mais amplos protestos contra a guerra imperialista. Entretanto, ele reafirma que, como as causas da guerra estão dentro da estrutura da sociedade capitalista e sua divisão política em estados-nação, a luta contra a guerra imperialista pode ser bem sucedida apenas dentro da extensão em que mobilizar a classe trabalhadora com base em uma estratégia revolucionária internacional. Conforme o CIQI escreveu em sua declaração, “O socialismo e a luta contra a guerra”:

* A luta contra a guerra precisa ser baseada na classe trabalhadora, a grande força revolucionária na sociedade, unindo atrás dela todos os elementos progressistas da população.

* O novo movimento antiguerra precisa ser anticapitalista e socialista, como não pode haver luta séria contra a guerra exceto na luta pelo fim da ditadura do capital financeiro e do sistema econômico que é a causa fundamental do militarismo e da guerra.

* O novo movimento antiguerra precisa, portanto, por necessidade, ser completamente e decididamente independente e hostil a todos os partidos e organizações políticas da classe capitalista.

* O novo movimento antiguerra precisa, acima de tudo, ser internacional, mobilizando o vasto poder da classe trabalhadora em uma luta global unificada contra o imperialismo. A guerra permanente da burguesia precisa ser respondida com a perspectiva da revolução permanente pela classe trabalhadora, cujo objetivo estratégico é a abolição do sistema de estado-nação e o estabelecimento de uma federação socialista mundial. Isso tornará possível o desenvolvimento racional, planejado dos recursos globais e, com base nisso, a erradicação da pobreza e a elevação da cultura humana para novos níveis.

A defesa dos direitos democráticos

O SEP promove e defende todos os direitos democráticos conquistados ao longo de mais de dois séculos de luta revolucionária contra as aristocracias feudais e então capitalistas da França. Entretanto, esses direitos foram drasticamente erodidos, particularmente desde a dissolução da URSS, a crise econômica de 2008 e a decisão da França de se juntar completamente à chamada “guerra ao terror”.

A reabilitação das forças de extrema direita na Europa, a preparação para o uso do exército francês contra a oposição doméstica, e a espionagem eletrônica massiva sobre o povo francês pelas agências de inteligência francesas e internacionais, são testemunho do estado avançado de decaimento da democracia burguesa. O PS e a pseudoesquerda, que atacam o marxismo e a revolução, tratando-os como ameaças para a democracia, provaram-se defensores das medidas de estado policial. O perigo para a democracia surge de políticas da burguesia e da crise do capitalismo, um sistema social historicamente condenado.

A defesa dos direitos democráticos está ligada inseparavelmente à luta pelo socialismo: assim como não pode haver socialismo sem democracia, não haverá democracia sem socialismo. O decaimento da democracia, na França e em todos os países com tradições democráticas burguesas, pode ser combatido apenas em oposição a todo o establishment político através da mobilização política independente da classe trabalhadora com base em um programa socialista.

A luta pela independência política da classe trabalhadora

A luta pelo poder requer incondicional independência política da classe trabalhadora dos partidos, e dos representantes, teóricos e agentes políticos da classe capitalista. A série de traições das oportunidades revolucionárias na França pelo stalinismo e pela pseudoesquerda oferecem exemplos clássicos das consequências trágicas de uma situação em que o proletariado é preso pelas alianças debilitantes com partidos representantes de outras forças de classe. Na França, isso significa, em primeiro lugar, oposição sem concessões ao Partido Socialista e seus vários satélites stalinistas e de pseudoesquerda, e uma rejeição da mentira de que essas forças representam um menor mal comparadas a outros partidos burgueses.

A oposição do SEP a esse establishment político falido não implica, entretanto, em qualquer obrigação de oferecer apoio a quaisquer partidos e organizações que surjam em oposição a ele. O SEP avalia tais tendências não com base em suas posições ocasionais sobre questões individuais, mas na sua história, programa, perspectiva, base social e orientação de classe.

O SEP sustenta os interesses fundamentais da classe trabalhadora com base em um entendimento científico e marxista da natureza regida por leis do capitalismo e da dinâmica política da sociedade de classes. Isso coloca o SEP em oposição irreconciliável à política oportunista, que sacrifica os interesses de longo prazo da classe trabalhadora na busca por ganhos táticos de curto prazo. Entretanto, o oportunismo não é simplesmente o produto de erros intelectuais e teóricos. Ele é baseado em forças materiais na sociedade capitalista, e se desenvolve dentro do movimento dos trabalhadores como uma expressão de forças de classe hostis ao proletariado. Manifestações de oportunismo, como aquela de Stalin, que se desenvolveu no partido Bolchevique nos anos 1920, aquela de Pablo e Mandel, que se desenvolveu dentro da Quarta Internacional nos anos 1950, e a adaptação da OCI ao PS nos anos 1970, podem ter sua origem traçada à influência de forças burguesas e pequeno-burguesas sobre a classe trabalhadora. A luta contra tais influências não é um desvio da construção do partido, mas, ao contrário, o ponto mais alto no qual a luta pelo marxismo na classe trabalhadora é travada.

O SEP defende a concepção marxista clássica, desenvolvida por Lenin na construção do Partido Bolchevique e levada adiante pela luta de Trotsky para construir a Quarta Internacional, de que a consciência socialista revolucionária não se desenvolve espontaneamente na classe trabalhadora. Essa consciência requer entendimento científico das leis do desenvolvimento histórico e do capitalismo. Esse entendimento precisa ser introduzido dentro da classe trabalhadora, e essa é a tarefa principal do movimento marxista. A difamação da luta pela consciência revolucionária é compartilhada pelos acadêmicos reacionários e oportunistas políticos.

A traição dos sindicatos

O SEP defende que os trabalhadores rompam com os sindicatos. Ele insiste que as lutas dos trabalhadores podem ser vitoriosas apenas se elas forem organizadas independentemente dos sindicatos e baseadas em uma perspectiva socialista revolucionária por uma mobilização ampla da classe trabalhadora em luta política contra o capitalismo. Ele encoraja, em cada passo, a formação de organizações novas, independentes, como comitês de fábrica e de ambiente de trabalho, que representem verdadeiramente os interesses dos trabalhadores e que sejam sujeitas ao seu controle democrático.

O SEP luta por um entendimento científico do papel dos sindicatos. Já nos primeiros dias do movimento sindical no Reino Unido, Marx criticou os sindicatos, que negociam as condições da exploração da classe trabalhadora sob o capitalismo dentro de um determinado país, ao invés de buscar a derrubada do capitalismo internacionalmente. “Ao invés da frase conservadora ‘um salário justo por um dia de trabalho justo’, eles devem colocar em sua bandeira a palavra de ordem revolucionária: ‘Abolição do sistema de salários!’”, escreveu Marx.

As experiências do século XX confirmaram o papel de modo geral contrarrevolucionário da burocracia sindical, incluindo na França, em que o sindicato Confederação Geral do Trabalho (CGT) teve um papel decisivo, com o PCF, em suprimir oportunidades revolucionárias em 1936, 1945, 1953 e 1968. Ainda assim, na medida em que amplas massas de trabalhadores militantes buscaram lutar através dos sindicatos, o movimento trotskista buscou corretamente intervir dentro deles. Isso distinguia o CIQI dos inúmeros grupos pequeno-burgueses de “esquerda” que criticavam a política dos sindicatos como um pretexto para se abster da luta para atingir os trabalhadores.

O advento da globalização no período desde 1968, e o colapso da participação da classe trabalhadora nos sindicatos, transformou essas organizações. A partir de organizações que defendiam os interesses de curto prazo dos trabalhadores através da negociação, orientada nacionalmente, de salários e condições, elas se tornaram burocracias privilegiadas que defendem a competitividade global das corporações planejando cortes de salários e empregos. Na França, enquanto supervisionaram protestos simbólicos ajustados às necessidades políticas da elite dominante, elas coordenaram uma drástica redução na atividade de greves. Mesmo assim, apesar do colapso da sua base de contribuintes, cortes sociais, demissões em massa e fechamentos de fábricas, as receitas dos sindicatos continuaram a crescer, graças a bilhões de euros em financiamento legal ou semilegal das corporações e do governo. Elas não são mais organizações de trabalhadores, mas cascas vazias financiadas pela classe dominante, nas quais os trabalhadores são presos e controlados por funcionários pequeno-burgueses conectados à polícia e às agências de inteligência. Hoje, sindicatos funcionam como uma força policial industrial direcionada contra a classe trabalhadora.

Por um partido de vanguarda leninista na classe trabalhadora

A história inteira do século XX mostra que a revolução não pode triunfar a não ser que a classe trabalhadora seja liderada por um partido revolucionário. Isso está por trás da feroz hostilidade, dentro do meio pequeno-burguês reacionário da pseudoesquerda, à construção de um partido de vanguarda marxista na classe trabalhadora. O SEP encoraja uma ampla luta da classe trabalhadora e saúda todas as verdadeiras vitórias. Entretanto, ele se opõe fundamentalmente às concepções sindicalistas de que a organização de lutas militantes pode substituir uma estratégia revolucionária elaborada para a classe trabalhadora, liderada por um partido marxista.

O SEP sustenta o princípio socialista revolucionário essencial: dizer a verdade aos trabalhadores. Ele baseia seu programa e seu trabalho político em uma análise científica e objetiva da realidade política e luta para desenvolver a consciência socialista nas massas trazendo sua perspectiva marxista para as camadas mais avançadas de trabalhadores e da juventude. Ele rejeita a alegação traiçoeira de que os marxistas precisam assumir - ou, ainda, o que filisteus pequeno-burgueses acreditam que seja - o nível predominante da consciência de massas como seu ponto de partida. A primeira responsabilidade do partido, Trotsky explicou, é de dar “uma imagem clara, honesta da situação objetiva, das tarefas históricas que implicam dessa situação, independentemente de os trabalhadores estarem prontos ou não para isso. Nossas tarefas não dependem da mentalidade dos trabalhadores. A tarefa é de desenvolver a mentalidade dos trabalhadores. É isso que o programa deve formular e apresentar diante dos trabalhadores avançados”.

A luta revolucionária da classe trabalhadora requer organização, e organização é impossível sem disciplina. A disciplina necessária para a luta revolucionária não pode ser imposta de cima, entretanto; ela precisa se desenvolver com base em um acordo, alcançado livremente, sobre princípios e programa. Essa concepção encontra expressão na estrutura organizativa do SEP, que é baseado nos princípios do centralismo democrático. Na formulação da política e táticas, a mais completa democracia precisa prevalecer dentro do partido. Nenhuma restrição, além daquelas indicadas na constituição do partido, é colocada sobre a discussão interna das políticas e atividades do SEP. Os líderes são eleitos democraticamente pelos membros, e são sujeitos à crítica e controle. Porém, se a formulação da política requer a mais ampla discussão e crítica aberta e honesta, sua implementação requer a mais estrita disciplina. Decisões alcançadas democraticamente dentro do partido são obrigatórias para todos os membros. Aqueles que são contra esse elemento essencial do centralismo, ou que veem na demanda por disciplina uma violação da sua liberdade pessoal, não são socialistas revolucionários, mas indivíduos anarquistas que não entendem as implicações ou exigências da luta de classes.

A defesa do marxismo

Uma tarefa central do SEP é a defesa da tradição histórica e teórica do marxismo. Aproximadamente um século atrás, no 50º aniversário da Comuna de Paris, Trotsky escreveu: “O proletariado francês se sacrificou pela revolução como nenhum outro o fez. Mas também foi enganado mais que outros. A burguesia o deslumbrou muitas vezes com todas as cores do republicanismo, do radicalismo, do socialismo, para melhor aprisioná-lo nas correntes do capitalismo. Por meio de seus agentes, de seus advogados e de seus jornalistas, a burguesia promoveu uma grande quantidade de fórmulas democráticas, parlamentares e autonomistas, que não são mais do que armadilhas com as quais prende os pés do proletariado, impedindo-o de avançar”. É preciso adicionar que, ao longo do século passado, esse trabalho de mistificação política e teórica continuou em uma escala ainda mais massiva.

O SEP baseia sua atividade em uma análise das leis objetivas da história e sociedade. Sustentado no materialismo, o marxismo insiste na primazia da matéria sobre a consciência. “O ideal nada mais é do que o mundo material”, Marx escreveu, “refletido pela mente humana, e traduzido nas formas de pensamento”. O materialismo do marxismo é dialético, em que trata o mundo material e suas reflexões no pensamento não como uma coletânea de objetos e conceitos fixos, internamente indiferenciados, mas como um complexo de processos em constante movimento e interação, com tendências antagônicas e divergentes. Essa concepção ofereceu a base teórica para o desenvolvimento do socialismo científico por Karl Marx e Friedrich Engels, baseado em um entendimento objetivo do conflito e exploração de classes na sociedade capitalista e do papel revolucionário da classe trabalhadora.

Apesar dos sentimentos socialistas que motivaram as massas de trabalhadores na França durante o século XX, essas concepções não prevaleciam em seções dos intelectuais de classe média que declaravam lealdade ao marxismo. O colapso dos partidos de pseudoesquerda na época atual da crise capitalista, guerra imperialista e lutas revolucionárias da classe trabalhadora provou a falência de todas essas teorias antimarxistas e dos partidos que se inspiravam nelas. O SEP luta por um renascimento do marxismo clássico para oferecer a base teórica para o desenvolvimento de um movimento trotskista na classe trabalhadora.

O SEP defende o legado histórico de Leon Trotsky e do movimento trotskista dos ataques e falsificações promovidos por seus oponentes burgueses e pequeno-burgueses. Todos esses ataques - sejam por descendentes dos ideólogos anticomunistas ou stalinistas da Guerra Fria, ou forças de pseudoesquerda que buscam acobertar suas políticas anti-trotskistas com declarações fraudulentas de que existem “muitos trotskismos” - têm como objetivo bloquear o desenvolvimento da consciência socialista na classe trabalhadora. Elas negam que a luta de Trotsky, levada adiante pelo CIQI, é a continuação da luta do movimento marxista como a alternativa revolucionária ao capitalismo.

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