A pandemia, os lucros e a justificativa capitalista para o sofrimento e a morte

27 Abril 2020

Publicado originalmente em 18 de abril de 2020

O anúncio cínico da administração Trump de um conjunto de “diretrizes” fraudulentas, que servirão para legitimar uma rápida reabertura dos negócios e uma volta forçada ao trabalho em condições inseguras, derruba qualquer pretensão pública de um esforço sistemático e coordenado dentro dos Estados Unidos para priorizar a saúde e proteger a vida das pessoas no combate à propagação da pandemia de COVID-19.

A prematura volta ao trabalho que a administração Trump está organizando levará a incontáveis milhares de mortes, que poderiam ser evitadas se um programa rigoroso de distanciamento social, apoiado por um programa massivo de testes e rastreamento de contatos fosse implementado e sustentado durante os decisivos próximos meses.

Não há qualquer evidência, menos ainda análise científica, que possa ser dada para justificar o anúncio de Trump. Epidemiologistas de renome já desafiaram publicamente a validade do modelo estatístico sendo utilizado pela Casa Branca. Referindo-se às projeções do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME, na sigla em inglês) da Universidade de Washington, a epidemiologista Ruth Etzioni, do Centro Fred Hutchinson de Pesquisa de Câncer, disse à revista científica STAT: “O fato de que o modelo IHME continua sendo alterado revela sua falta de confiabilidade como uma ferramenta preditiva. O fato de que está sendo utilizado para decisões de política e seus resultados estão sendo interpretados da forma errada é uma farsa acontecendo diante de nossos olhos”.

O custo humano causado pela pandemia está sendo enorme. Nas 24 horas que antecederam o anúncio de Trump, o coronavírus da COVID-19 causou 4.591 mortes nos EUA. O aumento em relação às 2.569 mortes durante o período de 24 horas anterior é de 75%. Nos últimos três dias, a quantidade de mortes em todo o país subiu de 26 mil para mais de 36 mil.

É amplamente reconhecido que o número total de mortos é muito maior. A descoberta de corpos de pacientes idosos em dois diferentes asilos é apenas o exemplo mais terrível da diferença entre o número de mortos oficial e o real. Neste momento, não há contagem confiável das pessoas que estão morrendo fora dos hospitais, seja por uma infecção de COVID-19 não diagnosticada, ou por causas relacionadas à pandemia.

Essa é uma pandemia global. Até o momento desta publicação, já são 2.216.000 casos e 151 mil mortes. Essas estatísticas não são mais confiáveis do que aquelas fornecidas pelos EUA. Os números previamente divulgados já estão sendo revistos para cima.

A ignorância flagrante e o comportamento criminoso de Trump cobriram o anúncio das diretrizes com uma atmosfera sociopata e em geral apodrecida que envolve todas as suas declarações públicas. Porém, suas políticas não são simplesmente aquelas de um indivíduo. A forma criminosa como as políticas são apresentadas é determinada pelos interesses econômicos e sociais da classe a qual Trump serve.

Para a oligarquia corporativa-financeira, a pandemia tem sido vista, acima de tudo, como uma crise econômica. Sua principal preocupação, desde o início, não foi a potencial perda de vidas, mas a desestabilização dos mercados financeiros, a interrupção do processo de extração de lucro e, é claro, um declínio significativo na riqueza pessoal dos membros da oligarquia.

Em fevereiro e março, enquanto a administração Trump minimizava publicamente a gravidade da crise, autoridades no Departamento do Tesouro e no Federal Reserve trabalhavam em parceria com os grandes bancos para organizar e implementar um resgate multitrilionário muito maior do que aquele que foi realizado após o colapso financeiro de 2008.

Durante as primeiras três semanas de março, as notícias foram dominadas pelo impacto internacional e nacional crescente da pandemia sobre a saúde pública. A atenção pública foi focada no drama dos cruzeiros, nas mortes na Itália e nos primeiros casos de infecções no estado de Washington. A necessidade urgente de implementar quarentenas e fechar as empresas não essenciais foi, apesar de Trump, amplamente reconhecida.

Em 19 de março, a lei CARES foi apresentada no Senado. A rápida aprovação do resgate de toda a indústria financeira foi dada como certa. De fato, os executivos das corporações, mantidos bem informados pelos seus servos políticos no Congresso dos EUA, aproveitaram-se da queda em Wall Street para recomprar bilhões de ações empresariais prevendo o massivo aumento que se seguiria à aprovação final da lei CARES.

Assim que a lei CARES foi apresentada, o foco da mídia começou a mudar para uma campanha agressiva pela volta ao trabalho. Não poderia haver demora. O massivo aumento de capital fictício - mais de US$ 2 trilhões em dívidas criadas digitalmente - seria acrescentado ao balanço do Federal Reserve em menos de um mês. Trilhões de dólares adicionais serão acrescentados nos próximos meses. Isso representa, na análise final, reivindicações sobre o valor real, que devem ser atendidas através da exploração da potência de trabalho da classe trabalhadora. Quanto maior a dívida contraída pela criação de capital fictício aprovada pelo governo, mais urgente será a demanda pelo rápido término das restrições no processo de extração de lucro.

Assim, em 22 de março, mesmo quando a lei CARES estava para ser aprovada, Thomas Friedman, o colunista líder do New York Times, iniciou a campanha pela volta ao trabalho: “Que diabos estamos fazendo a nós mesmos? Com a nossa economia? Com a nossa próxima geração?”, exclamou. “Seria essa cura - mesmo por um curto tempo - pior do que a doença?”.

A última frase forneceu o slogan para uma campanha que se tornou cada vez mais insistente nas semanas seguintes. Os argumentos contra a excessiva preocupação com a proteção da vida humana se tornaram cada vez mais explícitos. Evitando um exame dos interesses socioeconômicos que haviam impedido uma resposta efetiva à pandemia, o Times começou a enaltecer os benefícios do sofrimento humano. “Por mais que desejemos, nenhum de nós pode evitar o sofrimento”, opinou a colunista Emily Esfahani Smith em 7 de abril. “É por isso que também é importante aprender a sofrer.”

No dia 11 de abril, o Times publicou novas reflexões sobre os benefícios do sofrimento e da morte. Ross Douthat, em uma coluna intitulada “A pandemia e a vontade de Deus”, convidou os leitores a considerarem “como o sofrimento se encaixa em um plano providencial”. Outro artigo, de Simon Critchley, da universidade “The New School” na cidade de Nova York, declarou que “Filosofar é aprender a morrer. Invocando pretensiosamente a autoridade de Descartes, Boécio, More, Gramsci, Heidegger, Pascal, T. S. Eliot, Montaigne, Cícero, Dafoe, Camus, Kierkegaard e mesmo Boccaccio - todos dentro dos limites de uma coluna de jornal -, esse acadêmico atrevido resumiu a sabedoria dos séculos aconselhando seus leitores: “Enfrentar a morte pode ser uma chave para a nossa libertação e sobrevivência”.

A agenda prática brutal sustentando essas discussões bastante etéreas sobre o sofrimento e a morte encontraram expressão direta no texto de uma mesa redonda transmitida por videoconferência organizada pelo Times. Os participantes incluíam Zeke Emanuel, que é conhecido por defender que os médicos não devem procurar prolongar a vida além dos 75 anos de idade, e Peter Singer, um professor de bioética na Universidade de Princeton, cuja defesa da eutanásia para bebês debilitados levou a protestos após ser nomeado para o cargo na universidade há 20 anos. O Times está perfeitamente familiarizado com as visões de Singer, dado que escreveu extensamente há duas décadas sobre a controvérsia gerada por sua chegada à Princeton.

O texto da discussão da videoconferência foi postado na edição online da New York Times Magazine em 10 de abril, sob o título “Reiniciar os EUA significa que pessoas morrerão. Então quando faremos isso? Cinco pensadores pesam escolhas morais em uma crise”.

Em sua introdução do texto, o Times afirmou que se tornará necessário aceitar que existe uma “escolha entre salvar vidas e salvar a economia”. Embora os dois objetivos possam estar alinhados no curto prazo, “no prazo mais longo, entretanto, é importante reconhecer que uma escolha vai surgir - e se tornará mais urgente nos próximos meses, conforme a economia escorrega mais profundamente em uma recessão”.

Em sua análise da “escolha”, o Times parte da premissa incontestável de que os interesses econômicos só podem ser aqueles da classe capitalista. O sistema de lucro, a propriedade privada das forças produtivas e a vasta riqueza pessoal são imutáveis e eternos. Portanto, a “escolha” requer, inevitavelmente, o sacrifício da vida humana, especificamente, as vidas dos trabalhadores.

Singer declarou que é impossível oferecer um “pacote de assistência para todas essas pessoas” por um ano ou 18 meses. “É aí que começaremos a dizer: Sim, pessoas morrerão se abrirmos [a economia], mas as consequências de não abrirmos são tão severas que talvez nós tenhamos que fazer isso mesmo assim”.

Naturalmente, nenhum dos integrantes do painel do Times chamou atenção para o fato de que o Congresso havia acabado de injetar vários trilhões de dólares nos cofres dos bancos e corporações para salvar os executivos e acionistas. Nem foi apontado que existem aproximadamente 250 bilionários nos Estados Unidos, que possuem uma riqueza coletiva de aproximadamente US$ 9 trilhões. Se essa riqueza fosse expropriada e distribuída igualmente entre as 100 milhões de famílias mais pobres nos EUA, seria fornecida a cada família uma renda mensal de US$ 5 mil por 18 meses!

É claro que a expropriação dessa quantia enorme de riqueza privada - que é inteiramente legítima e necessária no contexto de uma massiva crise social - não é uma opção que o Times e seus convidados do painel estão preparados para sequer considerar como uma possibilidade teórica. Porém, elas estão dispostas a aceitar as mortes de incontáveis milhares como uma questão de necessidade prática, ou seja, capitalista.

A subordinação da vida ao sistema de lucro não é limitada aos Estados Unidos. Ela está sendo proclamada como um princípio universal pelas elites dominantes na Europa. O Neue Zurcher Zeitung, a voz principal da classe dominante suíça, publicou um artigo ontem que pergunta:

Você quer viver para sempre? Essa foi a pergunta que Frederico, o Grande fez aos seus soldados na Batalha de Kolin em 1757, quando eles foram derrotados pelo inimigo. A mesma pergunta está novamente sendo feita tendo em vista a relação controversa entre os contaminados e mortos pelo coronavírus, por um lado, e a população como um todo e aqueles que sofrem de doenças comuns, pelo outro.

Algumas dessas coisas parecem ser - literalmente - loucura. Porém, o dano colateral da doença com sua aceitação excessiva da destruição da economia também provoca toda a questão. Qualquer um que queira colocar a questão de maneira drástica poderia dizer: Nós escolhemos o suicídio econômico para impedir que pessoas idosas morram alguns anos antes do que seria esperado em circunstâncias normais.

A defesa de uma política que aceita, e até mesmo defende a morte dos idosos e dos mais fracos encontra a sua expressão mais abertamente fascista em um longo artigo publicado em 13 de abril na revista alemã Der Spiegel. Intitulado “Nós precisamos falar sobre morrer”, o artigo foi escrito por Bernard Gill, um sociólogo que tem sido associado ao Partido Verde.

Em um amplo ataque ao desenvolvimento da ciência, Gill denuncia a “narrativa heróica” que celebrou os grandes cientistas do século XIX Louis Pasteur e Robert Koch “como heróis que tornaram os micróbios visíveis, manuseáveis e, portanto, controláveis”. Gill protesta:

Nessa história de criação, os micróbios são alienígenas, que nos ameaçam e, portanto, nos prendem com o seu poder e são melhores exterminados. As “nossas” vidas contra as vidas “deles” - o conhecimento científico e a luta defensiva bem organizada até a vitória final da higiene, que promete a vida eterna em um ambiente livre de germes.

Porém, isso é uma violação da natureza. “A nossa vida”, Gill declara, “não é concebível sem a morte”. Porém, aqueles que buscam conter a infecção de todas as maneiras, também lutam contra a morte de todas as maneiras.”

Gill defende uma aceitação da propagação natural da pandemia - baseada no programa de “imunidade de rebanho” - que vê “a morte como um processo natural que é individualmente doloroso para aqueles envolvidos, mas, no todo, abre espaço para nova vida”. Com essa abordagem, Gill defende que “nós aceitamos os micróbios sabendo que a nossa vida sem a morte é impensável. Nós nos consolamos com a possibilidade de nova vida”.

O líder nazista, Adolf Hitler, que cometeu suicídio há 75 anos em seu “bunker” em Berlim, teria concordado imediatamente com esses argumentos.

Ideias profundamente reacionárias e desumanas estão circulando na Alemanha. Porém, lá, não menos do que nos EUA, elas não surgem da psicologia doentia dos indivíduos, mas das necessidades do sistema capitalista.

A mesma publicação, Der Spiegel, que fornece um fórum para Gill, alerta que a indústria automotiva alemã não consegue resistir a um fechamento prolongado.

Quanto mais tempo durar a crise do coronavírus, mais alto a indústria pedirá que os políticos definam uma data para o relaxamento dos fechamentos para dar às empresas alguma previsibilidade...

A indústria automotiva em particular está enfrentando um teste de força para o qual não há precedentes históricos. A fim de evitar um colapso, as empresas precisam abrir suas fábricas novamente nesta primavera [no hemisfério norte].

Também estão envolvidas questões críticas de competitividade global. A Der Spiegel acrescenta:

Também existem interesses geoestratégicos. Os executivos das empresas na Europa querem fortalecer o mercado europeu para estabelecê-lo como um contrapeso aos Estados Unidos e à China como potências econômicas...

Isso é ainda mais verdadeiro porque a China, onde o coronavírus teve origem, parece estar saindo da crise mais rápido do que o resto do mundo.

A COVID-19 confronta a humanidade não apenas com um problema médico-científico, mas também com um desafio político e social. A resposta das classes dominantes à pandemia do coronavírus revela que os seus interesses são incompatíveis com o progresso humano e com a própria sobrevivência da humanidade.

Em seu fracasso ao se preparar para a pandemia, sua resposta caótica e desorganizada ao coronavírus após o início do surto, sua subordinação de todas as necessidades sociais aos seus próprios interesses econômicos, sua sabotagem enraizada nacionalmente de todas as possibilidades de uma resposta global unificada à doença e em sua justificativa aberta do programa reacionário e neofascista de eutanásia social, a classe dominante está demonstrando a necessidade do socialismo.

Para que a humanidade sobreviva, é preciso pôr fim à subordinação da sociedade às elites capitalistas obcecadas por dinheiro.

David North