A pandemia do coronavírus impulsiona a luta de classes

1 Maio 2020

Publicado originalmente em 30 de abril de 2020

A resposta da classe dominante e dos governos capitalistas de todo o mundo à pandemia do coronavírus está produzindo uma onda crescente de greves, paralisações, manifestações e outras formas de agitação social.

Nos Estados Unidos, epicentro global da pandemia, houve pelo menos 140 greves selvagens desde o início de março, segundo o Payday Report, que contabiliza os relatos de notícias locais.

Uma ampla gama de trabalhadores de todas as partes do país tem participado dessas ações, incluindo motoristas de ônibus em Detroit (16 de março); trabalhadores dos correios em Oklahoma (19 de março); coletores de lixo em Cleveland (20 de março); trabalhadores dos correios em Dallas (31 de março); trabalhadores da Nabisco em Portland (9 de abril); trabalhadores da Boeing em Washington (20 de abril); trabalhadores da construção civil em Nova York (28 de abril); trabalhadores de fábrica de reciclagem em Illinois (28 de abril); e trabalhadores do transporte público na Carolina do Norte (29 de abril).

Trabalhadores da Amazon protestam contra condições inseguras de trabalho em Staten Island, Nova York (AP Photo/Bebeto Matthews)

O centro da agitação social está agora entre os trabalhadores de frigoríficos, onde há muitos casos de COVID-19 e pelo menos 20 mortes. Os trabalhadores da fábrica da Smithfield Foods, em Nebraska, realizaram uma greve selvagem na terça-feira, depois que executivos da empresa anunciaram que não implementariam planos previamente anunciados para fechar a fábrica. Na segunda-feira, trabalhadores de uma fábrica de frangos da Cold Spring, em Minnesota, realizaram uma paralisação depois de vários trabalhadores testarem positivo para a COVID-19.

Também houve greves e protestos generalizados de trabalhadores da Amazon, Whole Foods, McDonald’s, Starbucks, Lyft e Instacart por todo o país. Durante o fim de semana, 50 trabalhadores do depósito da Amazon em Shakopee, no estado de Minnesota, realizaram uma paralisação após vários terem testado positivo e depois de um trabalhador ter sido despedido por ficar em casa.

Os desenvolvimentos nos Estados Unidos fazem parte de um crescimento internacional da agitação social. No mês passado, houve greves e paralisações de enfermeiros em Papua Nova Guiné; médicos no Zimbábue; coletores de lixo e trabalhadores da indústria têxtil no Reino Unido; trabalhadores de distribuição e do transporte marítimo na Austrália; trabalhadores da indústria têxtil em Bangladesh; operadores de call center no Brasil; e trabalhadores de fábricas maquiladoras no México, para citar apenas alguns exemplos.

Há muitas questões específicas que motivam esses protestos, mas todas giram em torno da realidade fundamental: Para a classe trabalhadora, a luta contra a pandemia e por suas vidas é, ao mesmo tempo, uma luta contra o capitalismo. A lógica dessas lutas levanta a questão do poder político – quem deve controlar a sociedade, a elite capitalista dominante ou a classe trabalhadora?

Muitas das lutas têm se centrado na falta de medidas de segurança adequadas e de equipamentos de proteção para os trabalhadores. Apesar dos insistentes alertas de cientistas e epidemiologistas, nada foi feito para se preparar para a pandemia.

Décadas de políticas da classe dominante dizimaram a infraestrutura social e de saúde, enquanto a desregulamentação deu às corporações liberdade para forçar os trabalhadores a se submeterem a condições inseguras. A proliferação do trabalho de meio-período na “gig economy” (“economia do bico”) significa que grandes setores da classe trabalhadora possuem salários de miséria, sem benefícios ou proteções de segurança.

Outras lutas tinham como objetivo paralisar a produção em locais de trabalho não essenciais. A resposta inicial da classe dominante à pandemia foi tentar minimizá-la, para manter as empresas operando normalmente. Em meados de março, os trabalhadores da indústria automotiva nos EUA e no Canadá realizaram uma série de greves selvagens que forçaram o fechamento de fábricas em toda a América do Norte. Mesmo com a pandemia sobrecarregando os sistemas de saúde, grandes setores da produção não essencial permaneceram em operação.

Cada vez mais, as lutas dos trabalhadores estão centradas nos esforços das elites governantes para forçar a volta ao trabalho, mesmo com a pandemia ainda se espalhando. Na terça-feira, Trump invocou a Lei de Produção de Defesa para forçar os trabalhadores do frigorifico a voltarem ao trabalho. Longe de proteger os trabalhadores contra a propagação do vírus, a ordem de Trump protege as empresas de frigoríficos da responsabilização legal dos trabalhadores que informarem que estão sendo forçados a trabalhar em condições inseguras.

Em outras palavras, Trump está dizendo às corporações estadunidenses: Matem os seus funcionários, e não sofrerão consequências. O que está sendo realizado contra os trabalhadores de frigoríficos acontecerá também de diversas formas com toda a classe trabalhadora.

O conflito de classes vai se intensificar enormemente nas próximas semanas e meses. A oligarquia financeira tem utilizado a pandemia para transferir trilhões de dólares para Wall Street, com o apoio de todo o establishment político, democrata e republicano. Tudo isso será compensado através de cortes nos programas sociais, educação e saúde, juntamente com uma intensificação maciça da exploração da classe trabalhadora.

Já a Boeing – que enviou trabalhadores de volta ao trabalho no início da semana passada – anunciou que está cortando 10% de sua força de trabalho. Outras empresas vão seguir esse exemplo. A elite dominante tentará usar o desespero econômico de milhões de trabalhadores não apenas para forçá-los a voltar ao trabalho, mas também para fazê-los concordar com cortes nos salários e benefícios.

Essa política encontrará oposição em massa. As ações da classe dominante não têm passado despercebidas. A onda de paralisações e protestos, geralmente isolados em diferentes cidades, locais de trabalho e países, é apenas a expressão inicial da raiva reprimida.

Como essa oposição pode se desenvolver?

Primeiro, ela deve ser organizada e unificada. Isso requer a criação de comitês de fábrica, de local de trabalho e de bairro. Todas as oportunidades oferecidas pela tecnologia moderna, incluindo as redes sociais, devem ser usadas para conectar as lutas separadas dos trabalhadores em uma contraofensiva comum de toda a classe trabalhadora. Esses comitês devem ser absolutamente independentes dos sindicatos pró-capitalistas, que nada fizeram para organizar a oposição e estão trabalhando em conjunto com as corporações e com o estado capitalista para levar os trabalhadores de volta ao trabalho.

Em segundo lugar, a luta dos trabalhadores deve ser unificada entre todas as raças, gêneros e nacionalidades. A pandemia é um problema global, que requer uma solução global. A resposta dos governos capitalistas em todo o mundo é a mesma, e os interesses dos trabalhadores em todos os países são idênticos. É preciso rejeitar todos os esforços para desviar a raiva social em qualquer direção nacionalista, inclusive através da campanha contra a China que está sendo lançada pela administração Trump e pelos democratas.

Terceiro, a ação dos trabalhadores deve estar ligada a uma nova perspectiva política, que começa com o entendimento de que o problema fundamental é o capitalismo – um sistema social e econômico que subordina tudo aos interesses do lucro e da acumulação de riqueza pela elite empresarial e financeira.

A resposta dos governos à pandemia tem procurado, em todas as etapas, preservar e fazer avançar os interesses dos oligarcas capitalistas. A prioridade não tem sido salvar vidas, mas salvar lucros. É isso que tem impedido qualquer resposta científica, racional e coordenada globalmente à pandemia.

A alternativa ao capitalismo é o socialismo – a reestruturação da vida social e econômica, em escala mundial, para atender às necessidades sociais e não ao lucro privado.

No início de 2020, em sua declaração “Começa a década da revolução socialista”, o World Socialist Web Site escreveu: “As condições objetivas para a revolução socialista emergem da crise global. A aproximação da revolução social já foi antecipada nas massivas manifestações e greves que varreram o globo em 2019”.

Em apenas alguns meses do ano, essa análise foi confirmada. A luta da classe trabalhadora contra a pandemia deve se transformar na luta revolucionária pelo socialismo.

No dia 2 de maio, o Comitê Internacional da Quarta Internacional e o World Socialist Web Site realizarão um comício online para marcar o Dia Internacional do Trabalhador, o dia histórico da solidariedade internacional da classe trabalhadora. Pedimos a todos os nossos leitores que participem do evento e inscrevam-se ainda hoje.

Joseph Kishore – Candidato do SEP à presidência dos EUA